quinta-feira, 6 de novembro de 2014

O FORAL DE 1332 - TRANSCRIÇÃO E NOTAS, por Carlos Casimiro de Almeida

E
n nome de deus amen.[1]
Sabham quantos e∫ta carta virem que nós, ffrey Johane, abbade, e o Cõvento do Monesteiro d alcobaça. Damos a vós, probadores, e a todos vo∫∫os ∫∫oçe∫∫ores, as no∫∫as herdades de∫∫e logo do alfeyzeram, da mota e da torre de fremõdo, como ∫∫on devi∫ados e demarcados per as devi∫ões que ∫∫e ∫∫eguem:
primeyramente como parte pela almoynha velha que ffoy da mouraria cõ barrãtes[2] e dali pelo valado carro e dy aa cruz de Johã d outeyro, pela carreyra, daí a augua dos mo∫queyros,[3] pela vena da angra; e di ∫∫ay∫∫e pelo arneiro de gõçalo e di pel encuberta ao marco que ∫∫ée no cume[4] ao marco de barva torta; e dy ao valado do pumar que ∫∫é no cume, como vay por e∫∫e valado aa eyra do barreyro que ffez gil rroiz[5] — e di como ∫∫e vay ao vi∫o ao marco que ∫∫ée na cabeça de ∫ob´la ca∫a de Leonardo; e dy ao marco que ∫∫ee na cabeça de çima d ouival [sic] de rrecobal, pelo caminho velho, e di a huum marco que ∫∫ee aperto en humma cabeça antre o caminho velho de charnaaes e o caminho d obidos que vay pera a çella; e di derivanmte como trave∫∫a o caminho da Cella e vai∫∫e aá rribeyra de ∫∫o a Grãja do ∫outo, hu ∫∫ee marco po∫to, e dy ao porto do pinheyro e di como parte adiãte cõ o termho da Cella e vay∫∫e aa varzea redõda. De∫i como parte cõ o termho da Cavalariça, que fica pera nós, e cõ a vinha da torre, a qual ffica por do termho do alfeyzerã.
Os quaaes pobradores devedes ∫eer Cento e nõ meos. Damos a vós as ditas terras ∫o taaes preitos e cõdicoes: que vós lavredes e ffruiteviguedes as ditas herdades bem e fielmente; e rrõpades e chãtedes vinhas e olivaaes; e ffaçades ∫alinhas de ∫al; e que dedes a nós e ao dito no∫∫o Monesteiro, en cada huum ano pera todo ∫empre, a quarta parte de todolos bens fruitos e renovu com que des hi der; e outro∫∫i do ∫al en paz e en ∫alvo ∫alvãdo; que das vinhas olivaaes e pomares que ffezerdes de novo devedes dar a quarta parte em paz e en ∫alno [sic]. o vinho no lagar e a tinta e as olivas colheitas na eyra. E devedes dar de cada ca∫aria ∫enhos alqueires de trigo na eira que ∫eja recebedoyro por fogaça, e ∫enhas galinhas por dia de O Sã Miguel; e todolos outros moradores que nõ ouverem herdade dem senhas galinhas polas moradas. E vós devedes vingar e∫∫as herdades de pos tres anos compridos, e ante nõ, Morãdoas cõtinoadamente per vós ou per outrem e lavrãdo e rõpendo cõtinoadameente; e o que a∫∫i nõ fezer que ∫∫eja dos ∫obreditos abbade e Cõvento de lha tolher nos dereitos tres anos. E vós nõ devedes vender e∫∫as herdades nem parte delas e ∫∫e as que∫erdes vender fazerdelo ∫aber ao que por nós morar no dito logo do alfeyzeram. e ∫∫e hy por nós nõ morar; nenguum nõ sejades teudo de vyrdes ∫obre∫to anos mays de∫ ali adeãte; vendedeo aa tal pe∫oa que faça anos o no∫∫o fforo e pague os ditos no∫∫os dereitos. E ∫∫seo a∫∫i nõ ffezer a venda nõ valha.
E por que nós nõ podemos e∫aifar palha pera nós quãdo hy formos, e pera e∫∫es que morarem no ca∫telo pera nõ reçeberdes deles nojo, cada huum lavrador deve dar huuma carrega de palha na eyra. e ∫∫e lha nõ demãdarem na eira nõ lhe ∫∫ejã de poys teudos. E todos os que viverem per almocravaria devem nos ffazer ∫∫enhas careiras cada ano cada huum cõ ∫∫a be∫ta.
E rreteemos pera nós o ca∫telo do alfeyzerã, cõ ∫as moradas e entradas e ∫aidas, a∫∫i como ãtre nós e vós; e a vinha que chãmã de pero neto, e a orta, a∫∫i como ∫ta ∫∫arrada . E rretemos pera nós todalas ∫∫ainhas ffeytas cõ ∫∫as entradas ∫∫aidas e perteenças. E rreteemos pera nós moynhos e azenhas, ffeytas e por ffazer, pi∫ões, Lagares de vinho e d azeite, fornos, rrelegos, açougues, portageens, moordomado, alcaidaria; e todolos outros ∫∫enhorios e dereitos[6] rreaaes, per qual gui∫a, quaisquer que sejã; tã bem do mar e do rrio como da terra. E o rrelego ∫eja pelo co∫tume de Santaren.
E vós devedes dar, bem e fielmentte, cõpridam~te, as dezimas e as premicias aa Egreja; todos vós devedes a aleger vo∫o alvazil por dia de Sã Miguel e pre∫entardelo a nós e nós juramentalo e cõfirmalo; e o alcayde ∫∫eja vezinho; e damos vos medidas e foro de Sãtarem en todalas outras cou∫as.
E vós devedes logo abrir a varzea da mota, tã bem aberta de meios come as ∫ergentes[7] de cõtra os mõtes e mãteelas pera ∫empre a vo∫∫a cu∫ta. E devedes meter guardadores jurados que guardem os paães, as vinhas e as abertas, e põerdes pena sobrelos danadores. Danos que ∫∫e fezerem ãtre nós e vós corregem∫∫e de vezino a vezinho, ∫egundo co∫tume de Sãtaren.
E vós devedes trabalhar logo per tal gui∫a que façades ca∫as e moradas, de gui∫a que ata Natal primeiro que vem, ou ãte ∫e ãte poderdes, cada huum ∫eja hi rre∫idente pera rrõper lavrar e ffrutivigar, de gui∫a que pare∫ca nõ mengua [pã] per cada huu. E ∫∫e alguum de vós ou de vossos ∫∫oçe∫∫ores, per negregença nõ qui∫er [?] proveitar na ∫∫a ca∫aria, ou a nõ fruytvigar, ou a de∫emparar, ou nõ rrõper, ou nõ chãtar vinhas e olivaaes, ou nõ fezer as ditas ∫aynhas, ou nõ pagar a nós os no∫∫os dereytos e foros ∫obreditos, ou nõ guardar e cõprir todalas cõdições de∫ta carta e cada huuma delas — nós vos po∫∫amos con∫trenger por todo a∫∫y como for dereyto.
E vós devedes dar dos lagares, ata Sã cibraão, tres ∫∫oldos do dia e da noyte, e dali adeãte cinquo ∫∫oldos; outro∫∫y do dia e da noyte, ainda ainda [sic] que sejades mays ajuntados en huum. E nós vos devemos fazer lagares ∫egundo cõpreze ao logar; e ∫∫e os nã fezermos devedes nolo defrõtar que os façamos, ata tres vezes, e de cada vez aver huum mes de∫paço; e dali a deãte ∫∫e os nõ fezermos faça∫∫e o que for dereyto.
E vós devedes ∫∫eer boos va∫∫alos e leaaes aa ordim. E vós devedes ameter acolher o pã [d, riscado] todolos de vo∫∫a ca∫a; e ∫∫e me∫ter for alguuns obreyros, meterdelos e pagam∫∫e do mõte ãte que ∫∫e parta. E outorgamo∫ com que po∫∫ades ∫emear ∫enhas teeigas de çevada, pera vo∫∫as be∫tas e pera vo∫∫os boys, e ∫∫e dela venderdes ou colherdes darddes a nós o vo∫∫o [?] quarto. Outro∫∫i das favas e ervilhas, çebolas, alhos e fruyta, po∫∫ades comer en verde ∫em maa maliçia; e das que colherdes, ou en rre∫tar, des ou vendardes, dardes en de a nós o quarto; e os no∫∫os gaados e os vo∫∫os devem paçer as hervas e bever as aguas de∫∫uum, de gui∫a que nõ façã dano. E nós devemos tapar o no∫∫o pomar de gui∫a que pare∫ca que he bem tapado e ∫∫e o a∫∫i nõ taparmos os gaados que hy entrarem nõ ∫∫ejã teudos a corregimento.
E nós, ∫∫obreditos cento pobradores e lavradores, por nós e por todos no∫∫os ∫∫oçe∫∫ores e∫ta carta e todalas condições dela e cada huuma delas louvamos e outorgamos. En te∫temunhos das quaes cou∫as, nós, ∫obreditos abbade e Cõvento, mãdamos en de fazer duas cartas: huuma que ffica rregi∫trada no livro da no∫∫a notaria e e∫ta que damos a vós, ∫∫elada do ∫∫elo de nós, ∫obredito abbade. E nós, Cõvento, por que de co∫tume de no∫∫a ordim, ∫∫elo nõ avemos opponimento[8] do ∫∫elo do dito no∫∫o abbade, en esta carta louvamos e outorgamos.
Dada en alcobaça. Vyte e huum dia d outubro. Era de mil ccc e ∫etenta anos» — e portanto 1332.


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[1] Esclarece o historiador e meu amigo Valentino Viegas, da Torre do Tombo, que deve tratar-se do registo aqui existente, como era costume, visto o documento não apresentar assinaturas. Estas constariam, sim, das cartas originais: a que foi dada aos moradores e a que ficou no Mosteiro.
Para uma mais fácil leitura e melhor compreensão, procedi a algumas alterações ligeiras.
[2] Deve corresponder ao ponto onde está o marco divisório das freguesias de Alfeizerão e Salir de Matos, junto à ponte sobre o rio de Tornada.
Os campos em frente, excluindo a Mota, seriam salinas, razão por que não se referem os limites a poente.
[3] «Augua dos Mosqueiros» e «angra» devem ser a mesma coisa: tratar-se-á do salgueiral que as águas de Inverno deixavam alagado até à Primavera — a que a meio do século XX chamávamos a Mata do Padre.
[4] Espanta que a denominação Barba Torta venha de tão longe! Mas não é fácil interpretar a alusão que se lhe faz no âmbito das demarcações.
[5] Será uma abreviatura: num documento de 1440 que transcreve o foral de 1422, parece ler-se Domingues. Mais natural porém seria Rodrigues.
[6] Segue-se palavra que não consegui entender.
[7] A palavra tem relação com o verbo latino servir: poderá significar vala de escoamento, sarjeta,  mas também serventia —  termo muito usual na área, no sentido de caminho de acesso a certos campos.
[8]Dificuldades de leitura devidas ao estado de conservação da carta (particularmente a humidade, que, embebendo o pergaminho, misturou caracteres do rosto e do verso da folha) suscitaram-me e obrigaram a pequenos cortes. Sem prejuízo para a compreensão.

Carlos Casimiro de Almeida


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Nota: a transcrição deste foral foi publicada - e era inédita - por Casimiro de Almeida na sua monografia Alfeizerão - Apontamentos para a sua História, do ano de 1995, com edição da Junta de Freguesia de Alfeizerão. Propus ao autor reproduzi-la aqui, para estar disponível em formato eletrónico para leitura ou estudo por parte dos interessados.
José Lopes





sábado, 25 de outubro de 2014

Grafias do Olhar 1: RAMALHO ORTIGÃO

                A estrada a S. Martinho e a Alcobaça, é simplesmente maravilhosa de paisagem; e nada vi jamais para lhe antepor como tranquila, risonha e pacífica expressão da natureza rústica e da vida rural. Na grande planície, em torno dos pingues campos de Alfeizerão, a pequena baía de S. Martinho do Porto parece embeber-se e penetrar na poética doçura do solo, com a voluptuosidade dum beijo aquático dado à campina pelo oceano. Para o lado oposto do caminho até á cordilheira que vem de Sintra, e cujo perfil violáceo se esbate ao longe nas transparências do céu, é o largo e majestoso vale salpicado de casais alvejantes, entre as vastas searas ondulosas e os densos bosques de pinheiros sobre consecutivos e suaves cômoros virentes de vegetação brava, cobertos de fetos, de giestas e de urze, desabrochando á beira da estrada em flores que se não vêem ao longe, bebidas pela grande massa verde-negra, e são as estrelas doiradas do tojo, os turbantes azuis das alcachofras, e as pontas prateadas das moitas do travisco, sobre que caem em regaçadas do valado, os cachos das madressilvas.


(Ramalho Ortigão, citado por Raul Proença no volume II do “Guia de Portugal”, página 603, edição original de 1927, reedição da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1991).

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

O TOPÓNIMO "ALFEIZERÃO" - por Carlos Casimiro de Almeida

A ideia de que a palavra Alfeizerão «significa caniço ou canavial miudo» foi expressa nos finais do séc. XVIII por Fr. João de Sousa, no seu livro Vestigios da Lingua Arabica em Portugal ou Lexicon Etymologico das palavras e nomes portuguezes que tem origem arabica. Cristão novo nascido em Damasco, veio para Lisboa com 16 ou 20 anos. «Interprete de S. Magestade para a Lingua Arabica», membro da Academia das Ciências, professor de árabe, tradutor dos Documentos Arábicos» […] da Torre do Tombo, parece pois muito bem qualificado para a expressar.
No decurso do séc. XX outros autores reforçaram esta ideia, dizendo «cana, junco, bambu», mas indicando um étimo algo diferente: «al-khaizuran», e não o  anterior «Alcheizaran».
Parecia assim reforçada a certeza da etimologia árabe e do sentido vegetal do topónimo. Mas eis que em finais do século, em rompimento com a teoria dominante, Oliveira Marques (especialista do Islamismo em Portugal) indica, categoricamente, novo étimo para a palavra Alfeizerão: «al-hazeray». Sem no entanto referir quer o valor  semântico quer a fonte, e sem aludir à versão antiga.
Também a realização escrita do nome tem conhecido formas variadas, algumas fazendo supor multiplicidade sonora: «alfeysarã» (1287 - em letra de imprensa, o primeiro documento conhecido em que o topónimo aparece) ; «alfeizeram» (foral de 1332, documento manuscrito ; «Alfeizarão (alfeizarom) » (1422); «Alfeizeram» (1514); «Alfejzaraõ»  (1515 - talvez o primeiro documento que o refere como vila) ; «Allfeyzyram» (1516 - Trovas a uma Mula, no Cancioneiro Geral, porém o manuscrito era do século anterior) ; «Alfeizirão» (1537, 1685, 1698) ; «Alfaceiraõ» (1758 - registado pela mão do próprio pároco) ; mas «Alfeizerão» (1863 – documento local). Sem esquecer «Alfeizarão» (alheio aos naturais), no azulejo da parede exterior da igreja, lado sul, e numa casa particular que haverá uns 100 anos assinalava a entrada leste da vila. Desde ponto até aos outeiros era oficialmente o Casal (ou Casais) do Vale da Cela (com exceção do Casal  de Fonte Figueira ou «Moinho»).
Por fim «Alfazeirão», tendência de forasteiros hoje muito ouvida.
Em Alfeizerão - Apontamentos para a sua História (págs.31 e 36), manifestei certa dificuldade em aceitar o campo semântico vegetal: para os povos aqui chegados por mar, haveria características mais sugestivas para o nome do local. Batizar os sítios de acordo ou com a geografia ou com a posse é uma tendência natural dos povos: Monte Gordo, Carrascas, Junqueira, Casal do Aguiar… E parecendo-me que à chegada do Islão a característica mais relevante seriam as duas aberturas pelas quais a lagoa de então comunicava com o mar, interrogo-me quanto ao significado do topónimo e deixo antever a hipótese de não ter origem árabe. Não me parecia que pudesse estar coberta de vegetação pantanosa essa  insulated eminence notada pelo viajante inglês (Beckford), que muito mais se destacava das águas à chegada dos islamitas… Ou de gente mais antiga, antiquíssima:

Há três milénios a área era propícia à fixação humana, mais ainda que a generalidade da Estremadura, rica em achados «de proveniência estranha à região». A existência de um bom porto de abrigo era condição excecionalmente favorável, pela existência da lagoa marinha, decerto rica em alimento fácil: bivalves, peixe, moluscos…  
Num recente estudo desta zona, Moisés Espírito Santo aponta novas possibilidades para o topónimo Alfeizerão (talvez na senda de Herculano, que na Introdução à História de Portugal diz que «o erudito Bochart foi o primeiro que indicou as muitas origens fenícias que se encontram nas designações corográficas da Península». As designações latinas Hispania, Lusitania, Tagus, Olisippo teriam origem fenícia.) :
«Tendo em conta [escreve Espírito Santo] as estruturas antigas do local e partindo do princípio de que estas é que deram o nome à povoação» (e há boas razões para partir desse princípio) – propõe o quadro seguinte:

 hzr aw [gazerao > fazerao] - «castelo, reduto ou mansão .  do mar»
 hsr aw [gaserao]                   - «área cercada, pátio .  do mar».
«Ou precedidos de alu (mansão, quinta, vila, palácio, castelo). Podemos também substituir  o aw (mar) por an (forte, poderoso): “reduto ou castelo do poderoso, cerca do poderoso”. Podia ter todas estas significações em simultâneo porque são expressões homófonas e sinónimas.»
Assegura que «a povoação é anterior à ocupação mourisca» e reprova a tese dos «letrados [que] dizem que é de “origem árabe” (por causa do Al-) ». Refere nomeadamente «J. P. Machado [que] diz que a palavra vem de al-khaizeran [...] sem dizer em que dicionário tal termo se encontra, tanto mais que havia vários dialectos entre os mouros que conheceram a Península».

A tese de Espírito Santo para Alfeizerão encaixa bem no que se conhece das práticas fenícia (estabelecendo feitorias comerciais em locais favoráveis da costa) e cartaginesa (alianças com os lusitanos contra Roma), e apresenta notória semelhança gráfica (os sistemas orientais de escrita não usavam vogais) com a de Oliveira Marques. Mas parece desconhecer que J. P. Machado repete autores anteriores:  o já referido Fr. João de Sousa e Fr. Jozé de Santo António Moura, que em 1830 reedita o livro daquele, «augmentado e annotado», sem nada corrigir no que concerne a Alfeizerão.

E conclui Espírito Santo que «as estruturas antigas do local» seriam assim anteriores à presença muçulmana (e mesmo à romana), sendo lusitano o seu nome (ele não tem dúvidas de que os lusitanos falavam «dialectos fenícios-púnicos», o que não surpreende).
Para esta nova teoria do significado da palavra, Espírito Santo teve em conta a transcrição que «uma autora» (sic) faz de um «documento antigo, mas posterior ao desaparecimento do porto» – em que essa autora lê que Alfeizerão «pelo lado do mar está cercada de paus».

Que documento? De que autor? Não diz. Aparentemente será a Corografia Portuguesa (1706-1712) do Pe. Carvalho da Costa. Mas nessa passagem (que eu mesmo transcrevo no meu livro antes citado) o que se deve ler é pauis,[1] de acordo com o contexto geográfico e temporal e com informações que outros autores nos deixaram: com efeito, a partir do séc. XVII o que restava da lagoa eram pântanos, cuja secagem parece ter tido início no tempo de D. Pedro II:

a)   - Em 1685 o Abade de Alcobaça e Silvério da Silva da Fonseca (com «outros moradores do Logar do Chão da Parada») requerem ao rei autorização para abrirem o rio da «Matta [decerto lapso: lógico seria  Mota], o qual, pela falta de abertura, havia annos lhe[s] fazia muita perda nas quintas e mais fazendas que possuiam no termo da Villa de Alfeizirão».
Parece tratar-se do rio de Tornada;

b)   - Em 1698 Pedro da Silva da Fonseca [notar a continuidade dos apelidos, a que depois se juntará Frois] solicita ao rei que seja servido «conceder Provisão aos moradores da Villa de Alfeizirão, para que vós […], Provedor da Commarca de Leiria, fizesseis abrir, no Campo da dita Villa, um Rio, a que chamavam o Valeto, e outras mais Vallas, pertencentes a elle». E «o reparo de outro Rio, que ia pelo mesmo campo».
Trata-se certamente do rio a que no reinado seguinte (de D. João V) os moradores «chamam rio grande», segundo o Pe. Luís Cardoso.

Aquela leitura errónea fragiliza a tese de Espírito Santo:
«O “cerco de paus” [diz ele] era a continuidade da antiga defesa contra o mar, que deu o nome à povoação: reduto do mar» –  diz. E,  referindo-se aos vestígios do castelo, acrescenta que «podem ver-se as ruínas dum forte ou palácio [que] pode ser medieval, mas também ter sido construído sobre outro precedente» – concluindo que esta «estrutura encontrava-se rodeada de paliçadas de madeira batidas pela maré-cheia».
Ora parece pouco provável que houvesse motivo, na Antiguidade como na Idade Média, para tal defesa contra o mar, um marete interior mais ou menos dócil. Embora comunicando com o oceano pela barra de S. Martinho e pela atual foz do Alcoa, a ondulação seria decerto suave – e águas tranquilas não fazem supor a necessidade de uma paliçada defensiva. Por outro lado, a ter existido, espantaria que século e meio depois do recuo das águas ainda houvesse sinais dela!  Com efeito, no início do séc. XVIII as águas tinham recuado aproxima-damente até ao ponto atual, restando desse suposto mar bravio uns insignificantes pauis insalubres.
Mas o erro original que em parte apoia a tese da nova etimologia não nos deve levar à rejeição imediata da proposta. O sentido dos étimos nela sugeridos parece bem adequado ao contexto histórico e geográfico: defesa, reduto, área cercada, pátio do mar – a lagoa seria isto mesmo! Muito menos será de rejeitar a hipótese de no morro terem os fenícios erguido alguma construção: castelo, forte, entreposto comercial. (E porque não mais tarde os romanos?)…
A concha de S. Martinho «constitui o último vestígio de um remoto golfo, com as suas ínsuas e canais, que se estendiam pelas terras baixas até Alfeizerão e provavelmente comunicavam também com a bacia de Óbidos. Ainda no séc. XI e XII a sua extensão era considerável»:[2] segundo Tito Larcher «fazia um lago que chegava à Torre de D. Framconde [sic]  e Valado» dos Frades.
À chegada dos fundadores (ou reconstrutores) do castelo, toda a zona  envolvente do morro (com exceção do nascente-nordeste) constituía uma extensão aquática (salgada) navegável e assim continuou por séculos, o que é comprovado pelo resto de um barco viking  encontrado (cerca de 1970) na ribeira da Amieira. Submetida ao método de datação pelo rádiocarbono, a peça encontrada (que parece ter sido destruída) revelou ser «datada dos séculos X/XI» (auge do domínio árabo-mouro).
A pantanização do local é pois vários séculos posterior à ocupação árabe: à chegada, a extensão de juncos, bunhos e caniços não seria tão impressionante que obrigasse os recém-chegados a darem ao local designação de flora pantanosa. Teoricamente, os sentidos semânticos apontados por Espírito Santo parecem mais adequados, valendo como boa hipótese que o futuro não pode enjeitar.
      Escreve Vieira Natividade (Alcobaça d´Outros Tempos, p47), reportando-se aos finais do séc. XVI, que «os vastos campos do Valado, Maiorga, Cós e Alfeizerão eram pauis onde apenas se levantavam bunhos e juncais», estando fora de dúvidas que «Alfeizerão foi porto de mar até meados do séc. XVI  – altura em que foi invadido pelas areias». Sendo a lagoa de águas salgadas, ainda assim é possível que nas suas margens crescesse esse tipo de caniços dos campos que chegou até nós. Mas isso é banal, não seria o seu traço distintivo, a sua imagem de marca. Que base teriam então os recém-chegados, uns bons oito séculos antes, para darem ao local um nome significando canavial miúdo, caniço, junco, bambu? Parece mais razoável que, tendo eles mesmos edificado/reedificado sobre o morro uma identificação do local, lhe tenham também dado nome: algo como castelo do mar…

Em jeito de conclusão:

Não obstante os créditos do frade arabista (em quem se baseiam os arabistas posteriores), admito ad absurdum que as circunstâncias do local no seu tempo o tivessem condicionado na explicação que nos deixou para o topónimo. Considerando o progresso das Ciências (Linguística incluída) quanto ao método, aos meios e ao rigor; e não pondo em causa (evidentemente) a autoridade de Oliveira Marques nem a de Espírito Santo (apesar dos reparos que a este faço) – parece ser de considerar a sua tese sobre as possíveis etimologias do topónimo. A escavação científica do morro do castelo poderá fazer luz sobre a origem de Alfeizerão – e talvez do seu nome.

Carlos Casimiro de Almeida
Alfeizerão, Julho/2011.



[1]  No original (1706) está escrito paùs, assim, com acento (grave) na última sílaba.
[2] Guia de Portugal II, p606. Tanto este como Tito Larcher escrevem 1815: é lapso.






Nota: o presente artigo é um de três que integravam o desdobrável "Alfeizerão - 3 mergulhos na História", elaborado por Carlos Casimiro de Almeida para a efeméride do Vigésimo Aniversário da reelevação de Alfeizerão a vila.
Reproduzido do original com a anuência do autor.
José Eduardo Lopes
20/10/2014

ALFEIZERÃO ROMANO - por Carlos Casimiro de Almeida

Erguido de raiz ou sobre construção anterior (fenícia ou não), Alfeizerão herdou dos árabes (provenientes do Iémen, segundo Oliveira Marques  ) «hum castello alto, grande e antigo que está a maior parte delle por terra, e ao meu parecer foi obra dos Romañoz pellas inscriçoiz que vi nelle em pedraz que se dedecavaõ a Senadores Romañoz» (Memórias Paroquiais, 1758).
Alguma razão tinha o prior para o considerar romano: tais pedras foram decerto trazidas do sítio dos Cabecinhos, onde, desde  Bernardo de Brito, se acreditou ter sido Eburobrittium. Hoje, resolvida a questão da localização desta cidade cabeça de município, ainda assim fica a certeza de Alfeizerão ser herdeira de alguma manifestação de presença latina no local!
Vasco Gil Mantas, à luz das coordenadas indicadas por Ptolomeu na sua Geografia, defende que ali se situaria Araducta: um miliário de Adriano encontrado perto nada prova quanto a isto; mas, fosse o que fosse, a equipa de Leite Vasconcelos já concluíra (no início do séc. XX) que deve «ter ocupado uma área de cerca de 300 metros por 200 de largo». E uma recente tese de doutoramento em Arqueologia (em que Mantas é co-orientador) refere, a propósito de Colippo, «a decadência da via que a servia, apesar da proximidade do vicus portuário de Araducta/Alfeizerão». Esta relação é pois tida como comprovada.[1]
O foral de 1332 refere «as nossas herdades desse logo [lugar] do Alfeizerão, da Mota e da Torre de Fremondo» e ainda as granjas do Souto e da Cavalariça. Da leitura da passagem transcrita, não resulta claro o número de herdades doadas. Quatro ou cinco? Uma é visivelmente a Quinta da Mota; outra situava-se indubitavelmente em Famalicão; a do Souto ficaria na zona dos Raposos; a da Cavala-riça a norte de Famalicão. É provável que pelo menos algumas  viessem de tempos romanos, tanto mais que vestígios anteriores têm sido encontrados entre a Macarca e o Rebolo, atestando a existência de populações desde tempos ainda mais recuados.
Prosseguindo para norte, na encosta do Bárrio virada ao Valado dos Frades está Parreitas, estação arqueológica de um castro de notável dimensão. Ora uma região onde se implanta um grande castro do Bronze e do Ferro, com várias granjas romanas e sabe se lá que atividades ligadas ao mar... é indispensável que fosse servida por uma estrada. Isto mesmo é comprovado pelo miliário (diz J. Beleza Moreira que é o único achado no território de Eburobrittium) encontrado nos campos das Ramalheiras, próximo dos  vestigios que Vasco Gil Mantas percebeu serem de Araducta e durante séculos se pensou serem de Eburobrittium. De Bernardo de Brito a Vieira Natividade, passando por João Bautista de Castro e Pinho Leal, não faltaram atestados de verdade a esta asserção. A chuva e a deslocação de terras durante a construção da auto- estrada A8 (nos finais do séc. XX) vieram desmentir esta como outras verdades publicadas sobre a enigmática Eburobrittium.

Para o traçado daquela via romana é possível equacionar mais do que uma hipótese (Vasco Mantas, confundindo «Ramalheira» com Ramalhiça, fez uma proposta inaceitável): certo é que, vinda de Eburobrittium, passava inevitavelmente por Araducta, continuando pelas Ramalheiras – talvez acompanhando o sopé dos outeiros... Ou um pouco mais para poente: o caminho a que chamamos estrada das Ramalheiras pode ser o que dela restou em território de Alfeizerão…
Para apoio desta hipótese muito contribui o achado (na década de 1950) de uma moeda com a efígie de Trajano, sensivelmente onde, entrando nesse caminho, os campos mudam o nome de Cabecinhos para Ramalheiras: a uns 200 metros da EN242, onde existe uma velha oliveira entre um muro em derrocada. Essa moeda, que eu próprio examinei (20 e tantos anos depois) por gentileza da sua possuidora (Srª D. Ida Leite Santos), terá sido encontrada quando os jornaleiros faziam a sesta à sombra dessa árvore. Sendo o miliário de Adriano, provavelmente do ano 121, quatro anos após este ter sucedido a Trajano, bem poderá reconhecer-se pertinência à hipótese de tal moeda ter sido perdida quando da construção da via romana: esta passaria pois por ali…



O miliário foi acidentalmente encontrado por António Paulino de Almeida (meu avô paterno) quando lavrava uma propriedade nas Ramalheiras. À entrada do II milénio dC, a única pessoa (então viva, meu tio) que poderia dar informações lembrava-se de algumas circunstâncias, mas não em qual das propriedades o achado ocorrera, e, muito menos, do  ponto exato.
Teria então uns 10 ou 12 anos, o que permite colocar o achado algures entre 1921 e 1925.
Por dezenas de anos, ficou o miliário a servir como suporte de coelheiras, com as consequências que se adivinham… até que o Sr. Virgílio Pereira dos Santos, o re-descobriu, e, intuindo o seu  valor histórico, alertou a Universidade de Coimbra  – que o estudou. Interpretadas as abreviaturas em Latim por José d´Encarnação, foi publicado (em 1986) por Vasco Gil Mantas  in «Um Miliário de Adriano em Alfeizerão», Separata de Conímbriga,25.

Encontra-se à guarda da Srª D. Madalena Pereira Matias


Conclusão:

Nos Cabecinhos existiu até ao séc. IV uma povoação portuária, destruída pelas invasões germânicas do séc. V. Das suas ruínas se serviram os construtores (ou reconstrutores) do castelo.



 
 




[1] Adriaan De Man, «Defesas Urbanas Tardias da Lusitânia», Tese de Doutoramento em Arqueologia, apresentada à Universidade do Porto – 2008. Destacado meu. 


Carlos Casimiro de Almeida
Alfeizerão, Julho/2011.






Nota: o presente artigo é um de três que integravam o desdobrável "Alfeizerão - 3 mergulhos na História", elaborado por Carlos Casimiro de Almeida para a efeméride do Vigésimo Aniversário da reelevação de Alfeizerão a vila.

Reproduzido do original com a anuência do autor. 
José Eduardo Lopes 
20/10/2014


ALFEIZERÃO CISTERCIENSE - por Carlos Casimiro de Almeida

Escreve Fr. Figueiredo que «A Igreja é filial desmembrada da de S.Martinho, para a qual «foi o distrito [território da paróquia] de Alfeizerão demarcado nos seus limites, em 9 de Novembro de 1296, pelo Bispo de Lisboa D. João Martins de Soalhães».[1] Deu-lhe carta de foral o abade de D. João Martins, na «Era de mil 7 ccc 7  sete~eta anos» (1332). Aí designado por «logo» (lugar), os «pobradores devedes ∫eer Cento e nõ  meos» (menos), mas dois séculos depois (censo de 1527) o número de moradores não chegava a 60, o que demonstra a dificuldade de povoamento da área lacustre, com a terrível malária a dizimar a população (lembra Vieira Natividade). Outras circunstâncias (nacionais: a peste negra de 1348 e os Descobrimentos) terão dificultado o povoamento.
O foral novo de D. Manuel (1514) designa  Alfeizerão como lugar, porém logo no ano seguinte num «Instromento q/mandou tirar D. Jorge de Mello D. Abbade» é designado por vila:




A igreja matriz deve ser desta época de desenvolvimento [2] e prosperidade, apesar da fraca densidade populacional.  Assim  como  o pelourinho (manuelino) é certamente fruto desta mudança de categoria, que até ao séc. XIX se verifica em documentos reais e da Abadia – não obstante o frade arabista do séc. XVIII lhe chamar lugar.
Em 1863 a administração local refere a terra como freguesia (em resposta a uma carta da câmara de Alcobaça), como se a perda da categoria de concelho acarretasse paralelamente a de vila. A freguesia foi primeiro engrossar o (efémero) concelho de S. Martinho, brevemente o de Caldas, para logo regressar ao de Alcobaça.

Principal porto de mar da Abadia no séc. XV, escreve Iria Gonçalves que por ele se exportavam sal, madeiras, cereais, e que no tempo de D. João I todo o ferro gasto pelo Mosteiro aqui se concentrava. Nessa altura Alfeizerão terá conhecido apreciável surto de desenvolvimento, como depois no tempo do rei Venturoso. Um poeta da transição do séc. XV para o XVI fala de «Allfeyzyram onde ha ynfyndo sal»  – que  a Abadia exportava, sendo as salinas sua propriedade.

No tempo de D. João V os lugares mencionados são os seguintes: «Macarca, Rebollo, Famalicaõ debaixo, Mata da torre, Val da Maceira, Valado, Mosqueiros, e Casalino». [3] Na passagem do séc. XVII para o XVIII, a população total perfazia, «com os moradores do termo, 160 vizinhos»; mas em 1758 «Tem a villa sincoenta e douz vezinhoz e toda a freguezia duzentos e oitenta e seiz, [e] PeSsoas nove sentas e trinta e trez.»
Quer dizer: na primeira metade do séc. XVIII a população terá aumentado na ordem dos 78%! O que teria acontecido? A secagem dos tais «paùs» que o rodeavam. Fora preciso regularizar as águas, abrindo valas, reabrindo rios: ao que parece, os valadores vinham dos outros coutos de Alcobaça, mas também dos arredores de Leiria e do noroeste deste distrito, até à Figueira da Foz: Arrabalde, Mazeide,  Amor, Mata  Mourisca, Paião…

Em 1761 parece terem-se realizado três casamentos: um na ermida de Stº Amaro, em que o noivo, viúvo, era natural de Barosa, e dois na do Espírito Santo; em 1763, cinco, num dos quais ela é do Casal da Marinha (Stª Catarina) e ele do Monte Gordo. Em 1764 voltam a realizar-se «nesta Igreja de S. João Baptista», reparada, e não apenas dos danos do terramoto, pois que em 1758 o pároco informara que «está fora da villa distante seSsenta paSsoz, posta por Terra, e quasi demolida á maiz de sincoenta annoz e serve=lhe de Matriz a lemitada Igreja do Espirito Santo, sita no meyo da villa, que amiaça total ruína.» Também Fr. Figueiredo escreve (uns 20 anos depois) :
 «A primeira Igreja se arruinou no princípio deste século [XVIII]; a câmara, que consumiu os seus materiais, alcançou provisão para fintas [taxas, impostos], que não empregou na reedificação. E o padroeiro donatário, para se decidir a obrigação da fábrica [reconstrução] deste templo demandou o povo, que, por sentença do Juízo da Coroa, foi desobrigado de todo o encargo. E logo o mandou [re]edificar o Geral Fr. Caetano de Sampaio, em 1762, ao poente da vila, em sítio plano, entre a povoação e o castelo, com a porta principal para nascente».

Voltando à capela do Espírito Santo, três questões se impõem:
No meio da vila será o mesmo que no centro?
Onde seria este? Quais os limites da urbe?
Responde o pároco:
[Alfaceirão(sic)] «Está situada em Areal quasi planicie com alguma declinação para o Sul. […] Junto a esta villa para a parte do Sul en distancia de sento e sincoenta paSsoz tem huma ponte de madeira no caminho que vai para a villa das Caldas».

Ora, em areal com ligeiro declive para sul; a igreja situada a 60 passos; a capela de Stº Amaro fora da vila («taõ antiga como a  mesma»); com  uma ponte a sul e a 150 passos [não parecendo a actual, sobre o rio] este Alfeizerão quase medieval corresponde grosso modo ao espaço entre a rua do Relego (ao sul) e a  estrada 242 (ao norte); e entre o largo Vitorino Frois (ao poente) e a rua D. Afonso Henriques (ao nascente). O largo Vasco da Gama é o centro aproximado desta área.

A capela do Espírito Santo ficava aí, «com a porta principal para o sul. O desembargador […] a mandou derrubar e fez sociedade com alguns moradores devotos para levantarem um templo mais magnífico. Porém, não igualando os seus teres a sua devoção, ficou a ideia nos alicerces e inteira a capela-mor [?], que nos remates atados da abóbada tem semelhança com o claustro de Belém e antefachada do Mosteiro de Alcobaça. Mostra o erro na voluntária  demolição de um templo perfeito sem terem os autores do projecto meios para fabricarem outras de maior grandeza e de mais perfeita arquitectura.»    (Fr. Manuel de Figueiredo)



Mais conclusões:
1-Acredito ter ficado demonstrado onde nasceu Alfeizerão e onde se localizava a sua igreja primitiva;
2-O edifício atual é a renovação de outro e ficou pronto em 1764.
3-Na sua dupla qualidade de bispo de Lisboa (primeiro) e abade de Alcobaça (depois), D. João Martins é o pai oficial de Alfeizerão.


Carlos Casimiro de Almeida
Alfeizerão, Julho/2011.




[1]  Este bispo de Lisboa parece a mesma pessoa que depois será Abade do Mosteiro de Alcobaça e dará a Alfeizerão carta de povoação e foral.

[2] Numa capela interior encontra-se gravada a data de 1663, mas deve tratar-se de um acrescento. Na transição desse séc. XVII para o seguinte, o edifício estava por terra, informam não só as «Memórias Paroquiais», mas também o Diccionário […] do Pe. Luís Cardoso, publicado antes do terramoto. Tal não aconteceria a um edifício com menos de 40 anos de idade, por muita falta de conservação de que padecesse.

[3] Pe. Luís Cardoso, Diccionario geografico […], Tomo I, 1747.
O facto de não serem mencionados o Casal Velho e o Casal Pardo, que nesta altura sem dúvida já existiam, faz pensar que Cardoso se baseia em dados mais antigos e ultrapassados. Mesmo atendendo a que a recolha de dados seria muito lenta, entre esta e a publicação não poderia mediar meio século! 






Nota: o presente artigo é um de três que integravam o desdobrável "Alfeizerão - 3 mergulhos na História", elaborado por Carlos Casimiro de Almeida para a efeméride do Vigésimo Aniversário da reelevação de Alfeizerão a vila.

Reproduzido do original com a anuência do autor.
José Eduardo Lopes
20/10/2014

HISTÓRIA SUCINTA DO PÃO-DE-LÓ DE ALFEIZERÃO - por Carlos Casimiro de Almeida

Vivemos um tempo sem pudor, concorda?
Ponha então de lado tudo o que nos últimos 10 ou 15 anos leu ou ouviu na imprensa sobre o pão-de-ló de Alfeizerão.
Diz o povo que a verdade é como o azeite, vem sempre à superfície. Pois é, mas está muitas vezes sujeita a interesses de conjuntura e a deturpações que confundem os que a desconhecem.
Existe uma verdade como o azeite e que se comprova documentalmente.

Como acontece geralmente com a doçaria tradicional portuguesa, o pão-de-ló terá origem conventual. Aparentemente não em Portugal, mas no país vizinho, visto que, levado pelos jesuítas para o Japão, ali lhe chamaram «bolo de Castela, kasutera ou kastera», sendo estes nomes corruptelas devidas à dificuldade do falante nipónico ao articular o topónimo. (in O Ocidente No Oriente Através dos Descobrimentos Portugueses, Estudos Orientais, vol. VIII, Univer.  Nova de Lisboa, 1992, pp.138,184 s.).

Na sequência da vitória do Liberalismo no séc. XIX, as ordens religiosas foram extintas em Portugal e os conventos encerrados (1834) . Foi o que aconteceu ao Mosteiro de Alcobaça. O mesmo não se passou com o vizinho Mosteiro de Cós, feminino e igualmente cisterciense, que pôde continuar até ao dia em que falecesse a última freira ou as últimas ocupantes o deixassem espontaneamente – como veio a acontecer sensivelmente a meio daquele século.

É tradição familiar que foram acolhidas em Alfeizerão por uma família de apelido Grilo. E é assim que na transição para o séc. XX, Amália Grilo(1858/1928) , parece que com uma amiga (cujo nome omito por não estar documentado nem ter tido relevância para a continuidade) , começa a fabricar por encomenda ocasional este tipo de pão-de-ló - cedo referenciado por M. Vieira Natividade (Alcobaça d´Outros Tempos, publicado em 1906) como uma das «indústrias tradicionais e caseiras» da região, ao mesmo tempo que assinala a sua presença na Exposição Industrial realizada nesse ano em Alcobaça.
Na Exposição Comercial e Industrial das Caldas da Rainha de 1922, de novo o Pão-de-Ló de Alfeizerão marca presença, tendo Maria Grilo (sobrinha de Amália Grilo) merecido uma menção honrosa pelo seu fabrico para a Pastelaria Primorosa, daquela cidade. Mas a verdadeira e definitiva industrialização do produto inicia-se em 1925, quando Américo da Silva Ferreira forma uma sociedade (com o padre João de Matos Vieira, com uma irmã deste ou com ambos parece irrelevante) denominada A. S. Ferreira & C.ia, com uma casa comercial a que o vulgo chamava Casa dos Pretos (por exibir à entrada duas estatuetas, recortadas em tábua, representando um casal africano: ele, com uma das mãos ao alto, como que mandando parar quem passava, enquanto a outra apontava a entrada; ela com uma bandeja nas mãos).

                                                                            * * *

Amália Grilo, que pela sua idade rejeitara participar dessa sociedade (informa sua neta, Maria Rosa de Almeida Ferreira) , sugeriu uma sua nora para o lugar. Esta, Maria Ferreira, entrou assim no conhecimento e posse da receita e das técnicas de fabrico, ficando responsável pela produção na Casa dos Pretos. Presume-se que sob orientação da sogra (pouco depois falecida) , atendendo a que, em 1932, escrevendo sobre Alfeizerão no jornal «Ecos do Alcoa», o professor Elias Cravo (figura muito concieituada na Alcobaça da época) refere «a indústria do afamado Pão-de-Ló da tia Amália» [sic] – e o recomenda aos leitores. Da tia Amália! Não do Senhor Avelino Ferreira, apesar de muito conceituado na terra e sócio principal da firma, nem do Senhor Prior. Para este, havia pouco chegado à Paróquia, nem mesmo se vislumbra motivo. E claro se torna que tanto a indicação do ano de 1906 como a designação «da Tia Amália» se constituem como verdadeira certidão de nascimento do Pão-de-Ló de Alfeizerão.
A firma A. S. Ferreira & Cia e a sua Casa dos Pretos manteve-se até 1947, quando a sua fabricante descobriu que afinal o apelido Ferreira, constante da firma, não se referia à sua pessoa. E que, pior ainda, não fazia parte da sociedade! Aquilo que julgava serem lucros, esporadicamente recebidos, era afinal um salário que nunca negociara. Considerando-se ludibriada e lesada, deixou aquela casa e adquiriu um velho estabelecimento a uns 50 metros de distância. E, remodelando-o, inaugurou o seu Café Ferreira ainda no ano de 1947.
Em breve a Casa dos Pretos encerrou e a firma A. S. Ferreira & C.ia se extinguiu. E só no ano seguinte (1948) , Adília de Matos Vieira (a irmã do padre) , constituiu uma firma em nome próprio e inaugurou a sua Casa do Pão-de-Ló, correntemente e impropriamente chamada Café do Padre. Em edifício de raiz sem nada a ver com o da Casa dos Pretos, que lhe ficava em frente.

                                                                         * * *

A rigor, nenhuma das duas casas pode reivindicar a condição de herdeira da primitiva. E, muito menos, ser a primitiva.  Aspirar a isto é ignorar quer a cronologia quer as circunstâncias.  



                                                                    Carlos Casimiro de Almeida
                                      (natural de Alfeizerão e contemporâneo da Casa dos Pretos)




Nota:
Artigo publicado inicialmente por Carlos Casimiro de Almeida na sua página ALFEIZERÃO HISTÓRICO, e reproduzido com a anuência do autor.

José Eduardo Lopes

20/10/2014