sexta-feira, 22 de maio de 2026

Um baldio no rossio de Alfeizerão, ano de 1635 (proposta de transcrição)


1635 Dezembro, 21 - Petição do Licenciado João Baptista, Vigário de Alfeizerão, por que pede ao Mosteiro um pedaço de terra no Rossio para fazer uma Eira, a qual se lhe deu por apegação [ant. termo jurídico] de pagar dela o foro da terra.

ANTT, Ordem de Cister, Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, liv. 28, f. 9r-9v *


Diz o Licenciado João Baptista**, Vigário da paroquial igreja de Alfeizerão que ele, suplicante, tem necessidade de um pedaço de terra no rossio recio»] que está junto à dita vila para fazer uma eira e porque o lugar aonde a quer fazer está baldio e não faz prejuízo a pessoa alguma.

Para o Vigário e mais vizinhos lhe façam mandar demarcar, porquanto a câmara da dita vila se intrometa a dar as ditas sisas e sesmarias no dito rossio, ele, suplicante, havendo alguma dúvida nesta parte, o quer defender à sua custa e no nome deste convento a quem sempre pertence a data [o que se dá] dos ditos baldios.

Há por bem o Padre Geral e mais Convento de dar ao suplicante de sesmaria a terra que pede, a qual já me andasse [sic] pagava delas pelo foro da terra, somente constando por vedoria, não faz prejuízo a alguma pessoa ou adireus [herdeiros] que nela tenha, e querendo a Câmara encontrar esta data, o suplicante a defenderá às suas custas, para isso se lhe dará procuração bastante e em tempo algum //  se aja esta terra por da igreja da dita vila de Alfeizerão nem a ela a poderá deixar o dito suplicante. E os padres ou padre a que for cometido esta vedoria, demarcarão esta terra, de que farão termo assinado, eles e pelo suplicante para se por no Cartório deste Convento com o traslado deste despacho dado em capítulo, hoje, 21 de dezembro de seiscentos e trinta e cinco anos, Frei Arsenio da Paixão o fez por mandado do Nosso Reverendíssimo Padre Geral.

[Assinaturas: Frei Arsenio da Paixão e Abade Geral]

O Pe. Frei José de Santa Maria faça esta vedoria e tudo o mais na forma do despacho acima. Alcobaça, 21 de dezembro de [1]635

O Abade Geral

Por cumprimento do mandado acima do Nosso Reverendíssimo Abade Geral, fui fazer a medição da entrega da sesmaria acima para o que dei o juramento a António Cerveira, digo, a Francisco Carreira e Diego Fernandes, ambos moradores na vila de Alfeizerão, os quais disseram pelo juramento que tomavam, que não fazia prejuízo a alguma pessoa a dita sesmaria, a qual sesmaria mandei medir e tem do nascente ao poente vinte e cinco varas de cinco*** palmos e do norte ao sul outras tantas. A qual sesmaria aceitou o Reverendo Padre Vigário com as obrigações todas do despacho acima e por ser de todo contente assinou ele comigo em vinte e quatro de dezembro de seiscentos e trinta e cinco. Testemunhas que a todo o presente estavam: Francisco de Abreu, Eusébio de Sousa Carreira, Diego Fernandes, Francisco Carreira.

[Assinaturas]

Notas:

* Na transcrição e de uma forma geral, atualizamos a grafia e a pontuação.

** Do licenciado João Baptista, pároco de Alfeizerão, escreveu Frei Manuel de Figueiredo por volta de 1780, que a sua lápide funerária se encontrava no último degrau da igreja matriz com o seguinte letreiro: «Sepultura do licenciado João // Baptista, vigário //que foi desta vila: faleceo em 1679». No último degrau da igreja, para quem sobe e à mão direita, ainda se percebe numa laje algumas letras muito gastas que não se consegue ler com segurança, de forma a saber se correspondem à lápide do vigário (cf. LEROUX, Gérard, «Frei Manuel de Figueiredo - Memórias de várias vilas e terras dos Coutos de Alcobaça (1780-1781)», Alcobaça, Jornal «O Alcoa», 2020).

*** Palavra esborratada - se antes cinco é grafado como "cinquo", aqui parece, sem certezas, uma abreviatura da mesma palavra (sinq.) porque, de facto, cada vara (correspondente no nosso sistema métrico a 1,1 m) possuía cinco palmos ou palmos de craveira (1 palmo correspondia a 0,22 m).

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Dia de Santo Amaro de 2026 - 319 anos depois do início da sua feira/festa anual

 


FEIRA E FESTA DE SANTO AMARO

 

Padre Luís Cardoso (c. 1747):

«Está no arrabalde da Vila a Ermida de Santo Amaro, com a Imagem do mesmo Santo, que tem feito muitos milagres, e no seu dia tem bastante concurso de devotos; estão no mesmo Altar as Imagens de S. Brás, e Santa Catarina.

«(…) Tem feira em dia de Santo Amaro, para o que se alcançou Provisão no ano de mil setecentos e sete, com a mercê de ser o terrado para aumento, e obras da Casa do Santo, de cuja Provisão pediu vista o Donatário, e cobra-se o terrado para o Mosteiro; dura três dias e não é franca».

CARDOSO, Pe. Luís - Diccionario geografico, ou noticia historica de todas as cidades, villas, lugares, e aldeas, rios, r... / que escreve, e offerece ao muito alto... Rey D. João V nosso senhor o P. Luiz Cardoso, da Congregaçaõ do Oratorio de Lisboa... - Lisboa : na Regia Officina Sylviana, e da Academia Real, 1747 – Tomo I, p. 278

 

O pároco, vigário Doutor Manuel Romão, em 1758:

«Tem a Ermida de Santo Amaro, que está próxima á Vila tão antiga como a mesma (…) Em o dia do Santo quinze de Janeiro é visitada de muita gente das terras vizinhas e também das remotas, que públicos milagres, e prodígios que Deus lhe tem feito por intercessão do Santo, com agradecimento lhe trazem braços, mãos, pés, dedos de cera que penduram nas paredes da casa do Santo, e suposto muitos milagres moralmente sejam certos, não me consta seja algum autêntico, nos mais dias do ano poucas vezes vem á dita Igreja gente de Romaria».

(Memórias paroquiais, vol. 2, nº 53, p. 470)

Anotação: O padre Manuel Romão era  prior de Alfeizerão desde 7 de junho de 1734, data em que tomou posse da paróquia, e responderá em 1758 ao inquérito alargado a todas as paróquias do reino realizado na sequência do sismo de 1755. O seu juízo sobre os milagres do Santo, de serem moralmente certos, mas não – indubitavelmente - autênticos, traduz a sua formação académica. Cursou na Faculdade de Teologia da Universidade de Coimbra de 1716 a 1727, alcançando o grau de Doutor a 12 de Outubro de 1727 (Código referência PT/AUC/ELU/UC-AUC/B/001-001/R/004604). A sua assinatura nos assentos paroquiais indica-nos isso e, em alguns casos, a origem albicastrense da sua família: Prior e Vigário Doutor Manuel Romão <de Castelo Branco>. 

 

A CASA DO SANTO

«Arquitetura religiosa, quinhentista. Capela de nave única e que possui galilé, opção muito utilizada nas ermidas dos séculos 16 e 17. Planta retangular, de volumes articulados em justaposição e por adossamento, dispostos com horizontalidade. Apresenta coberturas diferenciadas em telhados de duas e três águas, com beiral. A fachada principal orientada a O. ostenta galilé com quatro colunas, empena triangular, sobrepujada por cruz latina e sineira; apresenta portal recto, de ombreiras e lintel pétreo, e porta no anexo lateral direito».

(Sónia Vazão, 2004, verbete “Capela de Santo Amaro” no SIPA – Sistema de Informação para o Património Arquitetónico, IPA.00023310)

 

A imagem do santo, de pedra policromada e de pequenas dimensões, poderia datar do século XVI, segundo a apreciação de Gustavo de Matos Sequeira.

Inventário Artístico de Portugal, Distrito de Leiria», volume V, Lisboa, Academia Nacional de Belas-Artes, 1955).



[1] Provisão: acto de prover, carta pela qual se confere alguma mercê (SILVA, António de Morais, Dicionário da Língua Portuguesa, Tomo 2, p. 522, Lisboa, Tipografia Lacerdina, 1813)