domingo, 9 de agosto de 2026

Piratas turcos nas Berlengas (1674)



Detalhe do mapa "Portugalie et Algarve", de Mercator/Cloppenburg, 1630


1 - Dois assentos de óbito da paróquia de São Martinho do Porto

«Em os vinte e quatro dias do mês de Junho de mil e seis centos e setenta e sinco annos chegou nova certa que era falecido Gaspar Farto, mareante e morador que foi em esta villa, o qual embarcando na Pederneira em hum nauio [navio] que sua Alteza naquela Ribeira mandou fazer, e indo acompanhado de huma fragata de guerra que o comboiava, sendo defronte da Berlenga os Turcos queimarão [queimaram] a fragata e capturarão o nauio que levarão a Argel com trinta e sinco pessoas desta villa e da Pederneira, entre os quais hia o dito Gaspar Farto que faleceo no Hospital que os Reis de Castela sustentão naquela infame terra, para nelle se curarem os pobres e aflictos captivos. Este, diziam, faleceo com todos os sacramentos e esta sepultado no Cemeterio do mesmo Hospital. Deos lhe de sua Gloria e a todos nós sua graça Divina, feci dicto die ut supra. Antonio Deniz Coresma».

 

«Em os trinta dias do mês de Setembro de mil e seis centos e setenta e seis annos fis os officios pella alma de Manoel Rodrigues, morador que foi em esta villa e mestre de hum nauio de Sua Alteza que os mouros capturarão quando se queimou a fragata chamada Piedade que o comboiava da Pederneira carregado de madeira para o mesmo ____ [destino?]; esta desgraça susedeo no anno de seis centos e setenta e quatro, no mes de setembro; de prezente ueio noua [que]o dito Manoel Rodrigues captivo falecera, e se dis fes testamento que athe agora não ueio, Deos o tenha em sua Glora e a todos nos conserue em sua Graça, feci dicto die ut supra. Antonio Deniz Coresma».

(ADLRA, IV/26/A/33, Registos de óbito da freguesia de São Martinho do Porto: 1666-1733, fólios 12r, 13v)


2 - Anotação

Na tentativa de complementar o teor destes dois assentos, cotejamos sem sucesso os assentos com estas datas nos livros paroquiais de diversas paróquias do litoral e próximas a ele, entre Peniche e a Pederneira. No caso de Salir do Porto, os assentos de óbitos que chegaram até nós começam em data ulterior, no da Pederneira, a fonte mais "provável", há um hiato nos assentos paroquiais de óbito para as datas entre 1664 e 1685.

Sobre a fragata "Piedade" mencionada no assento de óbito de Manuel Rodrigues, e socorrendo-nos do levantamento feito por Pedro Cruz (v. fonte), uma hipótese plausível é a fragata de guerra "Nossa Senhora da Piedade", para a qual se indica as datas entre 1667 e 1672 (?), acrescentando-se que aparece em Lisboa no ano de 1667. Poderia ser esta a fragata incendiada pelos piratas? 

Por curiosidade, nesta relação surge um outro navio, a fragata ou fragatinha de 28 peças com o nome próximo de "Nossa Senhora da Piedade e Santo António", que foi construída em 1697 nos estaleiros de São Martinho do Porto e cuja história militar se irá desenrolar nos mares da Índia. Também construídas em São Martinho e no mesmo ano de 1697, assinala-se a fragata Nossa Senhora das Brotas, de 52 peças, que terá Timor e a Índia como destino, e a fragata ou fragatinha Bom Jesus de Mazagão, de 36 peças, que largou para a Índia em 1698.


Fonte: 

CRUZ, Pedro, "Navios da Real Marinha de Guerra Portuguesa - XVII, II, de 29 de março de 2015, weblog "Marinha de Guerra Portuguesa". 

Url: https ://marinhadeguerraportuguesa.blogspot.com/2015/03/navios-da-armada-portuguesa-xvii-xviii_29.html


sábado, 25 de julho de 2026

A Guerra Civil Portuguesa e os lugares que conhecemos: uma carta ilustrativa do Barão de Sá da Bandeira para o Conde de Saldanha (1833)


(imagem editada com IA)


 Ill.mo Ex.mo Snr.

A surtida marítima que mandei efectuar no dia 20 do passado mês [setembro], segundo já informei a V. Ex.a, foi dirigida ao porto de São Martinho, para dali marchar para Alcobaça, onde achou o Convento abandonado pelos frades 1. Recolheu depois a esta Praça, tendo-se-lhe apresentado no caminho muitos Milicianos e Paisanos, e trazendo alguns cavallos e muares para a artilharia.

No dia [espaço em branco] recebi uma carta do comendador Rocha Pinto, dando-me parte de que na praia do Salgado, ao norte de São Martinho, naufragara o barco a vapor City of Waterford, salvando-se todas as pessoas, mas perdendo-se a valiosa carga que o mesmo barco trazia; pedindo prompto socorro contra as guerrilhas que a cada instante esperava.

Fiz sair imediatamente uma canhoneira e mais barcos de que pude dispor, prometendo prémios elevados aos primeiros que ali chegassem apesar do vento contrario. Por terra fiz partir uma força de duzentos homens, comandada pelo Major Mesquita, com ordem de se dirigir com a maior rapidez para São Martinho. Este oficial executou perfeitamente as suas instrucçoens, fazendo uma marcha trabalhosa de mais de oito legoas por um terreno pantanoso em parte, durante toda a noute, e soffrendo um vivo tiroteio no sítio do Arelho, tendo consigo o Major Urbanski quando dispersou o inimigo e chegando a São Martinho de madrugada; aonde achou a expedição marítima, que já tinha salvado os passageiros do poder das guerrilhas, que apenas tiverão tempo para levar a tripulação do barco a vapor.

Em 27, chegou a este porto de Peniche o Almirante Visconde do Cabo de São Vicente [Charles John Napier], com o qual me dirigi a São Martinho; ficando eu ali para reconduzir as tropas a esta Praça e partindo o Almirante para Lisboa com os passageiros naufragados.

Nos quatro dias que as nossas forças se conservarão em São Martinho, apresentarão-se-lhes 40 a 50 Paisanos e Milicianos, que pedirão armas.

Em 28 entrou em São Martinho um barco a vapor com 500 homens, comandados pelo T.e C.el Shaw: mandei logo marchar sobre as Caldas a força que ali tinha e no dia 29 dirigi-me com a força reunida para a dicta Villa; e dali para Obidos. A meio caminho encontrei os rebeldes com os quais engajamos um vivo fogo, que durou por mais de uma hora; porque me demorei à espera de forças que tinha à rectaguarda: logo que estas se me reunirão carreguei o inimigo, o qual se retirou immediatamente para Obidos, de donde nos fizerão um vivíssimo fogo de artilharia e fusilaria; fis alto, coberto pela Igreja do Snr. da Pedra e mais edifícios, esperando os nossos que tinha mandado vir das Caldas; e as forças que de Peniche me devião coadjuvar nesta operação, consistindo em 150 homens, uma peça de seis e um obus. Pelo espaço de tres horas que se manteve alto, o inimigo não usou o seu fogo, apesar de não darmos um só tiro.

Recebidos os mantimentos, pus-me em marcha, seguindo as alturas visinhas com o fim de tomar a estrada de Obidos a Lisboa, da qual me seria fácil comunicar com a columna que de Peniche se dirigia tambem a Obidos, aonde cheguei, achando a Villa completamente abandonada pelos rebeldes, e occupada pelas nossas forças saídas de Peniche, ás ordens do T.e C.el Lucotte, de parte de Cassadores 12, comandada pelo Cor.el Queiroz, e de alguns cavallos da 10, que o C.el Nepomuceno de Macedo fes á pressa desembarcar e pessoalmente dirigiu: prestando um muito obrigado a este ultimo pela rapidez com que me prestou todos estes auxílios, que poderiam ser de mais decidida utilidade se os rebeldes soubessem dispor das forças que tinhão, as quaes segundo as nossas que os encontrarão, constavão de 600 homens de tropa, e uns 300 a 400 guerrilhas.

Tambem sou muito devedor a todos os comandantes dos diversos corpos que comigo operarão, principalmente ao T.e C.el Shaw, e ao Cap.am Pereira de Cassadores 3. O T.e C.el Lucotte recebeu muito bem as ordens de que foi encarregado.

O nome do sargento-ajudante que foi gravemente ferido e que se comportou muito bem é Dupouilles.

O numero dos apresentados é considerável, mas não o posso designar por causa da rapidez com que me separei dos corpos a que ficarão pertencendo. Fizemos também alguns prisioneiros.

 

Ao Ill.mo e Ex.mo Sr. Conde de Saldanha

 

D.o G.al Mil. [Depósito Geral Militar], Peniche, 1 de Outubro de 1833

Barão de Sá da Bandeira

C.el A. C. de S. M. I. [Coronel Ajudante de Campo 

de Sua Majestade Imperial] - Gov.or de Peniche

 

|___|___|

1  O mês de outubro de 1833 é a data convencionada para a saída dos monges do mosteiro de Alcobaça. Esta carta do Barão de Sá da Bandeira, de 1 de outubro desse ano, faz recuar ligeiramente essa data, uma vez que a 20 de setembro os militares já encontram o Mosteiro abandonado.


Arquivo Histórico Militar, PT/AHM/DIV/1/19/209/01 – “Correspondência de várias entidades para Agostinho José Freire, ministro da Guerra, sobre movimentos dos partidários do Exército do Usurpador na Extremadura…”, pp. 150-153.


sexta-feira, 22 de maio de 2026

Um baldio no rossio de Alfeizerão, ano de 1635 (proposta de transcrição)


1635 Dezembro, 21 - Petição do Licenciado João Baptista, Vigário de Alfeizerão, por que pede ao Mosteiro um pedaço de terra no Rossio para fazer uma Eira, a qual se lhe deu por apegação [ant. termo jurídico] de pagar dela o foro da terra.

ANTT, Ordem de Cister, Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, liv. 28, f. 9r-9v *


Diz o Licenciado João Baptista**, Vigário da paroquial igreja de Alfeizerão que ele, suplicante, tem necessidade de um pedaço de terra no rossio recio»] que está junto à dita vila para fazer uma eira e porque o lugar aonde a quer fazer está baldio e não faz prejuízo a pessoa alguma.

Para o Vigário e mais vizinhos lhe façam mandar demarcar, porquanto a câmara da dita vila se intrometa a dar as ditas sisas e sesmarias no dito rossio, ele, suplicante, havendo alguma dúvida nesta parte, o quer defender à sua custa e no nome deste convento a quem sempre pertence a data [o que se dá] dos ditos baldios.

Há por bem o Padre Geral e mais Convento de dar ao suplicante de sesmaria a terra que pede, a qual já me andasse [sic] pagava delas pelo foro da terra, somente constando por vedoria, não faz prejuízo a alguma pessoa ou adireus [herdeiros] que nela tenha, e querendo a Câmara encontrar esta data, o suplicante a defenderá às suas custas, para isso se lhe dará procuração bastante e em tempo algum //  se aja esta terra por da igreja da dita vila de Alfeizerão nem a ela a poderá deixar o dito suplicante. E os padres ou padre a que for cometido esta vedoria, demarcarão esta terra, de que farão termo assinado, eles e pelo suplicante para se por no Cartório deste Convento com o traslado deste despacho dado em capítulo, hoje, 21 de dezembro de seiscentos e trinta e cinco anos, Frei Arsenio da Paixão o fez por mandado do Nosso Reverendíssimo Padre Geral.

[Assinaturas: Frei Arsenio da Paixão e Abade Geral]

O Pe. Frei José de Santa Maria faça esta vedoria e tudo o mais na forma do despacho acima. Alcobaça, 21 de dezembro de [1]635

O Abade Geral

Por cumprimento do mandado acima do Nosso Reverendíssimo Abade Geral, fui fazer a medição da entrega da sesmaria acima para o que dei o juramento a António Cerveira, digo, a Francisco Carreira e Diego Fernandes, ambos moradores na vila de Alfeizerão, os quais disseram pelo juramento que tomavam, que não fazia prejuízo a alguma pessoa a dita sesmaria, a qual sesmaria mandei medir e tem do nascente ao poente vinte e cinco varas de cinco*** palmos e do norte ao sul outras tantas. A qual sesmaria aceitou o Reverendo Padre Vigário com as obrigações todas do despacho acima e por ser de todo contente assinou ele comigo em vinte e quatro de dezembro de seiscentos e trinta e cinco. Testemunhas que a todo o presente estavam: Francisco de Abreu, Eusébio de Sousa Carreira, Diego Fernandes, Francisco Carreira.

[Assinaturas]

Notas:

* Na transcrição e de uma forma geral, atualizamos a grafia e a pontuação.

** Do licenciado João Baptista, pároco de Alfeizerão, escreveu Frei Manuel de Figueiredo por volta de 1780, que a sua lápide funerária se encontrava no último degrau da igreja matriz com o seguinte letreiro: «Sepultura do licenciado João // Baptista, vigário //que foi desta vila: faleceo em 1679». No último degrau da igreja, para quem sobe e à mão direita, ainda se percebe numa laje algumas letras muito gastas que não se consegue ler com segurança, de forma a saber se correspondem à lápide do vigário (cf. LEROUX, Gérard, «Frei Manuel de Figueiredo - Memórias de várias vilas e terras dos Coutos de Alcobaça (1780-1781)», Alcobaça, Jornal «O Alcoa», 2020).

*** Palavra esborratada - se antes cinco é grafado como "cinquo", aqui parece, sem certezas, uma abreviatura da mesma palavra (sinq.) porque, de facto, cada vara (correspondente no nosso sistema métrico a 1,1 m) possuía cinco palmos ou palmos de craveira (1 palmo correspondia a 0,22 m).

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Dia de Santo Amaro de 2026 - 319 anos depois do início da sua feira/festa anual

 


FEIRA E FESTA DE SANTO AMARO

 

Padre Luís Cardoso (c. 1747):

«Está no arrabalde da Vila a Ermida de Santo Amaro, com a Imagem do mesmo Santo, que tem feito muitos milagres, e no seu dia tem bastante concurso de devotos; estão no mesmo Altar as Imagens de S. Brás, e Santa Catarina.

«(…) Tem feira em dia de Santo Amaro, para o que se alcançou Provisão no ano de mil setecentos e sete, com a mercê de ser o terrado para aumento, e obras da Casa do Santo, de cuja Provisão pediu vista o Donatário, e cobra-se o terrado para o Mosteiro; dura três dias e não é franca».

CARDOSO, Pe. Luís - Diccionario geografico, ou noticia historica de todas as cidades, villas, lugares, e aldeas, rios, r... / que escreve, e offerece ao muito alto... Rey D. João V nosso senhor o P. Luiz Cardoso, da Congregaçaõ do Oratorio de Lisboa... - Lisboa : na Regia Officina Sylviana, e da Academia Real, 1747 – Tomo I, p. 278

 

O pároco, vigário Doutor Manuel Romão, em 1758:

«Tem a Ermida de Santo Amaro, que está próxima á Vila tão antiga como a mesma (…) Em o dia do Santo quinze de Janeiro é visitada de muita gente das terras vizinhas e também das remotas, que públicos milagres, e prodígios que Deus lhe tem feito por intercessão do Santo, com agradecimento lhe trazem braços, mãos, pés, dedos de cera que penduram nas paredes da casa do Santo, e suposto muitos milagres moralmente sejam certos, não me consta seja algum autêntico, nos mais dias do ano poucas vezes vem á dita Igreja gente de Romaria».

(Memórias paroquiais, vol. 2, nº 53, p. 470)

Anotação: O padre Manuel Romão era  prior de Alfeizerão desde 7 de junho de 1734, data em que tomou posse da paróquia, e responderá em 1758 ao inquérito alargado a todas as paróquias do reino realizado na sequência do sismo de 1755. O seu juízo sobre os milagres do Santo, de serem moralmente certos, mas não – indubitavelmente - autênticos, traduz a sua formação académica. Cursou na Faculdade de Teologia da Universidade de Coimbra de 1716 a 1727, alcançando o grau de Doutor a 12 de Outubro de 1727 (Código referência PT/AUC/ELU/UC-AUC/B/001-001/R/004604). A sua assinatura nos assentos paroquiais indica-nos isso e, em alguns casos, a origem albicastrense da sua família: Prior e Vigário Doutor Manuel Romão <de Castelo Branco>. 

 

A CASA DO SANTO

«Arquitetura religiosa, quinhentista. Capela de nave única e que possui galilé, opção muito utilizada nas ermidas dos séculos 16 e 17. Planta retangular, de volumes articulados em justaposição e por adossamento, dispostos com horizontalidade. Apresenta coberturas diferenciadas em telhados de duas e três águas, com beiral. A fachada principal orientada a O. ostenta galilé com quatro colunas, empena triangular, sobrepujada por cruz latina e sineira; apresenta portal recto, de ombreiras e lintel pétreo, e porta no anexo lateral direito».

(Sónia Vazão, 2004, verbete “Capela de Santo Amaro” no SIPA – Sistema de Informação para o Património Arquitetónico, IPA.00023310)

 

A imagem do santo, de pedra policromada e de pequenas dimensões, poderia datar do século XVI, segundo a apreciação de Gustavo de Matos Sequeira.

Inventário Artístico de Portugal, Distrito de Leiria», volume V, Lisboa, Academia Nacional de Belas-Artes, 1955).



[1] Provisão: acto de prover, carta pela qual se confere alguma mercê (SILVA, António de Morais, Dicionário da Língua Portuguesa, Tomo 2, p. 522, Lisboa, Tipografia Lacerdina, 1813)