Ill.mo Ex.mo Snr.
A surtida marítima que mandei
efectuar no dia 20 do passado, segundo já informei a V. Ex.a, foi
dirigida ao porto de São Martinho, e dali marchar para Alcobaça, onde achou o
Convento abandonado pelos frades. Recolheu depois a esta Praça, tendo-se-lhe
apresentado no caminho muitos Milicianos e Paisanos, e trazendo alguns cavallos
e muares para a artilharia.
No dia [espaço em branco] recebi uma
carta do comendador Rocha Pinto, dando-me parte de que na praia do Salgado, ao
norte de São Martinho, naufragara o barco a vapor City of Waterford,
salvando-se todas as pessoas, mas perdendo-se a valiosa carga que o mesmo barco
trazia; pedindo prompto socorro contra as guerrilhas que a cada instante
esperava.
Fiz sair imediatamente uma canhoneira
e mais barcos de que pude dispor, prometendo prémios elevados aos primeiros que
ali chegassem apesar do vento contrario. Por terra fiz partir uma força de
duzentos homens, comandada pelo Major Mesquita, com ordem de se dirigir com a
maior rapidez para São Martinho. Este oficial executou perfeitamente as suas
instrucçoens, fazendo uma marcha trabalhosa de mais de oito legoas por um
terreno pantanoso em parte, durante toda a noute, e soffrendo um vivo tiroteio
no sítio do Arelho, tendo consigo o Major Urbanski quando dispersou o inimigo e
chegando a São Martinho de madrugada; aonde achou a expedição marítima, que já
tinha salvado os passageiros do poder das guerrilhas, que apenas tiverão tempo
para levar a tripulação do barco a vapor.
Em 27, chegou a este porto de Peniche
o Almirante Visconde do Cabo de São Vicente [Charles John Napier], com o qual me dirigi a São
Martinho; ficando eu ali para reconduzir as tropas a esta Praça e partindo o
Almirante para Lisboa com os passageiros naufragados.
Nos quatro dias que as nossas forças
se conservarão em São Martinho, apresentarão-se-lhes 40 a 50 Paisanos e
Milicianos, que pedirão armas.
Em 28 entrou em São Martinho um barco
a vapor com 500 homens, comandados pelo T.e C.el Shaw:
mandei logo marchar sobre as Caldas a força que ali tinha e no dia 29 dirigi-me
com a força reunida para a dicta Villa; e dali para Obidos. A meio caminho
encontrei os rebeldes com os quais engajamos um vivo fogo, que durou por mais
de uma hora; porque me demorei à espera de forças que tinha à rectaguarda: logo
que estas se me reunirão carreguei o inimigo, o qual se retirou immediatamente
para Obidos, de donde nos fizerão um vivíssimo fogo de artilharia e fusilaria;
fis alto, coberto pela Igreja do Snr. da Pedra e mais edifícios, esperando os
nossos que tinha mandado vir das Caldas; e as forças que de Peniche me devião
coadjuvar nesta operação, consistindo em 150 homens, uma peça de seis e um
obus. Pelo espaço de tres horas que se manteve alto, o inimigo não usou o seu
fogo, apesar de não darmos um só tiro.
Recebidos os mantimentos, pus-me em
marcha, seguindo as alturas visinhas com o fim de tomar a estrada de Obidos a
Lisboa, da qual me seria fácil comunicar com a columna que de Peniche se
dirigia tambem a Obidos, aonde cheguei, achando a Villa completamente
abandonada pelos rebeldes, e occupada pelas nossas forças saídas de Peniche, ás
ordens do T.e C.el Lucotte, de parte de Cassadores 12, comandada
pelo Cor.el Queiroz, e de alguns cavallos da 10, que o C.el
Nepomuceno de Macedo fes á pressa desembarcar e pessoalmente dirigiu: prestando
um muito obrigado a este ultimo pela rapidez com que me prestou todos estes auxílios,
que poderiam ser de mais decidida utilidade se os rebeldes soubessem dispor das
forças que tinhão, as quaes segundo as nossas que os encontrarão, constavão de
600 homens de tropa, e uns 300 a 400 guerrilhas.
Tambem sou muito devedor a todos os comandantes
dos diversos corpos que comigo operarão, principalmente ao T.e C.el
Shaw, e ao Cap.am Pereira de Cassadores 3. O T.e C.el
Lucotte recebeu muito bem as ordens de que foi encarregado.
O nome do sargento-ajudante que foi
gravemente ferido e que se comportou muito bem é Dupouilles.
O numero dos apresentados é
considerável, mas não o posso designar por causa da rapidez com que me separei
dos corpos a que ficarão pertencendo. Fizemos também alguns prisioneiros.
Ao Ill.mo e Ex.mo
Sr. Conde de Saldanha
D.o G.al Mil. [Depósito Geral Militar], Peniche, 1 de Outubro de 1833
Barão de Sá da Bandeira
C.el A. C. de S. M. I. [Coronel Ajudante de Campo
de Sua Majestade Imperial] - Gov.or de Peniche
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Arquivo Histórico Militar, PT/AHM/DIV/1/19/209/01 – “Correspondência de várias entidades para Agostinho José Freire, ministro da Guerra, sobre movimentos dos partidários do Exército do Usurpador na Extremadura…”, pp. 150-153.
