1635 Dezembro, 21 - Petição do Licenciado João Baptista, Vigário de Alfeizerão, por que pede ao Mosteiro um pedaço de terra no Rossio para fazer uma Eira, a qual se lhe deu por apegação [ant. termo jurídico] de pagar dela o foro da terra.
ANTT, Ordem de Cister, Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, liv. 28, f. 9r-9v *
Diz o Licenciado João Baptista**, Vigário da paroquial igreja
de Alfeizerão que ele, suplicante, tem necessidade de um pedaço de terra no
rossio [«recio»] que está junto à dita vila para fazer uma eira e porque o
lugar aonde a quer fazer está baldio e não faz prejuízo a pessoa alguma.
Para o Vigário e mais vizinhos lhe façam mandar demarcar, porquanto a câmara da dita vila se intrometa a dar as ditas sisas e sesmarias no dito rossio, ele, suplicante, havendo alguma dúvida nesta parte, o quer defender à sua custa e no nome deste convento a quem sempre pertence a data [o que se dá] dos ditos baldios.
Há por bem o Padre Geral e mais Convento de dar ao suplicante
de sesmaria a terra que pede, a qual já me andasse [sic] pagava delas pelo foro
da terra, somente constando por vedoria, não faz prejuízo a alguma pessoa ou
adireus [herdeiros] que nela tenha, e querendo a Câmara encontrar esta
data, o suplicante a defenderá às suas custas, para isso se lhe dará procuração
bastante e em tempo algum // se aja esta
terra por da igreja da dita vila de Alfeizerão nem a ela a poderá deixar o dito
suplicante. E os padres ou padre a que for cometido esta vedoria, demarcarão
esta terra, de que farão termo assinado, eles e pelo suplicante para se por no
Cartório deste Convento com o traslado deste despacho dado em capítulo, hoje,
21 de dezembro de seiscentos e trinta e cinco anos, Frei Arsenio da Paixão o
fez por mandado do Nosso Reverendíssimo Padre Geral.
[Assinaturas: Frei Arsenio da Paixão e Abade Geral]
O Pe. Frei José de Santa Maria faça esta vedoria e tudo o mais na forma do despacho acima. Alcobaça, 21 de dezembro de [1]635
O Abade Geral
Por cumprimento do mandado acima do Nosso Reverendíssimo
Abade Geral, fui fazer a medição da entrega da sesmaria acima para o que dei o
juramento a António Cerveira, digo, a Francisco Carreira e Diego Fernandes,
ambos moradores na vila de Alfeizerão, os quais disseram pelo juramento que
tomavam, que não fazia prejuízo a alguma pessoa a dita sesmaria, a qual
sesmaria mandei medir e tem do nascente ao poente vinte e cinco varas de cinco*** palmos e do norte ao sul outras tantas. A qual sesmaria aceitou o Reverendo
Padre Vigário com as obrigações todas do despacho acima e por ser de todo
contente assinou ele comigo em vinte e quatro de dezembro de seiscentos e
trinta e cinco. Testemunhas que a todo o presente estavam: Francisco de Abreu,
Eusébio de Sousa Carreira, Diego Fernandes, Francisco Carreira.
[Assinaturas]
Notas:
* Na transcrição e de uma forma geral, atualizamos a grafia e a pontuação.
** Do licenciado João Baptista, pároco de Alfeizerão, escreveu Frei Manuel de Figueiredo por volta de 1780, que a sua lápide funerária se encontrava no último degrau da igreja matriz com o seguinte letreiro: «Sepultura do licenciado João // Baptista, vigário //que foi desta vila: faleceo em 1679». No último degrau da igreja, para quem sobe e à mão direita, ainda se percebe numa laje algumas letras muito gastas que não se consegue ler com segurança, de forma a saber se correspondem à lápide do vigário (cf. LEROUX, Gérard, «Frei Manuel de Figueiredo - Memórias de várias vilas e terras dos Coutos de Alcobaça (1780-1781)», Alcobaça, Jornal «O Alcoa», 2020).
*** Palavra esborratada - se antes cinco é grafado como "cinquo", aqui parece, sem certezas, uma abreviatura da mesma palavra (sinq.) porque, de facto, cada vara (correspondente no nosso sistema métrico a 1,1 m) possuía cinco palmos ou palmos de craveira (1 palmo correspondia a 0,22 m).


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