A cópia de uma carta endereçada pelo presidente da Junta ao
Diretor dos Correios e Telégrafos de Leiria no ano de 1927 e por nós consultada
no arquivo da Junta, recorda-nos como o correio chegava a Alfeizerão nessa
época. A correspondência chegava de comboio a S. Martinho e na estação postal
dessa localidade era levantada a mala postal para Alfeizerão que era trazida a
pé por um estafeta para este lugar para aqui ser distribuído, fazendo-se o
percurso inverso duas horas depois, 40 minutos era o tempo regular indicado na
carta para esse percurso entre as duas localidades.
Reproduzimos o teor curioso dessa
carta, na transcrição, atualizamos a grafia e desenvolvemos as abreviaturas, perfeitamente naturais por se tratar da cópia manuscrita de uma carta expedida pela autarquia:
Ao Exmo. Sr. Diretor dos C. T. do Distrito de Leiria
A Comissão Administrativa da Junta de Freguesia de
Alfeizerão, na qualidade de representante e defensora dos interesses dos seus
habitantes, confiada no alto critério e espírito justiceiro de V. Exa., sabendo
ainda mais quanto se interessa pela comodidade dos povos do nosso Distrito,
proporcionando-lhes sempre todas as facilidades dentro das boas normas de
justiça, vem esta Junta solicitar a V. Exa. o alto serviço para que sejam
trocadas as malas postais desta freguesia, com a ambulância em vez de ser com a
estação postal de S. Martinho do Porto, o que lhes traz bastante prejuízo. Não
ignora V. Exa. da importância comercial, agrícola e vinícola de Alfeizerão,
tendo já hoje uma troca razoável de correspondência, como o prova a estatística
de venda de franquias.
De ordinário, a mala postal chega a Alfeizerão das 14.45 às
15 horas; a saída para S. Martinho é às 17 horas, como V. Exa. tem ocasião de
apreciar, há apenas 2 horas de intervalo, ficando por esse motivo prejudicada
alguma correspondência de resposta imediata, sucedendo por vezes mandar-se um
portador á estação levar correspondência que pela sua urgência tem necessidade
de seguir nesse dia. O comboio 201 (correio de Lisboa) chega a S. Martinho ás
12.20: o 206 (correio do Norte) chega ás 20.34; o condutor da mala, andando
normalmente, gasta 40 minutos a percorrer a distância entre Alfeizerão e S.
Martinho. Portanto, dignando-se V. Exa. atendera esta justa pretensão, podiam
os habitantes de Alfeizerão receber a correspondência às 13 horas e enviá-la
para o correio ás 19, sendo o intervalo de 6 horas, o que é importante para a
facilidade de responder a correspondência urgente. Independentemente das inconveniências
apontadas, temos outra não menos importante, que é: a detenção da
correspondência em S. Martinho, tanto a vinda como a ida para o Norte. A
correspondência para o Norte, que sai na mala às 17 horas, só no dia seguinte
segue no 201. A vinda do Norte, que vem no 206, só no dia seguinte vem para
Alfeizerão. Disso tem resultado alguns prejuízos e mui especialmente com a
correspondência com a sede do concelho. Casos há em que são chamados
interessados a Alcobaça, crentes os signatários de que a correspondência é
recebida no mesmo dia. Com esta falta tem resultado alguns prejuízos. Uma vez a
mala trocada com a ambulância, a correspondência vinda do Norte é distribuída
aqui às 21 horas, a exemplo do que já houve, e o destinatário poderá responder
no dia seguinte ou ir, em caso de chamamento. A correspondência trocada entre
estas duas povoações (Alfeizerão e S. Martinho) poderá ser feita [com] a
permuta das malas entre os estafetas respectivos.
Julgamos não haver nisto aumento de despesa na condução das
malas, visto que o número de viagens são as mesmas, mas sim, apenas, mudança de
horário e, para o empregado postal, apenas um pouco de trabalho em fazer duas
malas em vez de uma.
Por esta pequenina exposição poderá V. Exa. apreciar as
vantagens para esta freguesia, se esta Comissão Administrativa merecer o apoio
de V. Exa. nesta tão justa aspiração.
Esperando que esta nossa pretensão tenha a honra de ser
atendida, somos a desejar-lhe.
[Saúde e Fraternidade]
A. F. [João Augusto Ferreira]
Alfeizerão, 1-8-1927