Têm surgido em tempos recentes algumas imagens muito heterógeneas de como seria o castelo de Alfeizerão, não iremos tecer qualquer crítica a essas imagens (quem somos nós para o fazer?), pretendemos apenas trazer a público mais uma reconstituição visual dessa fortaleza que, esperamos nós, apresente, mesmo que remotamente, algum grau de autenticidade perante aquilo que possa ter sido o seu modelo histórico.
O castelo de Alfeizerão encontra-se hoje reduzido a um pobre conjunto de ruínas submerso num ninho de vegetação bravia e feroz, e esse precioso monumento histórico continua no completo olvido dos organismos políticos e culturais, que possuem os meios e o poder decisional para encontrar soluções para o resgatar da paulatina degradação. Perante essa situação, adivinhar qual seria o aspeto histórico do castelo não poderia partir de uma reconstituição direta feita a partir das suas ruínas ou de algum estudo científico elaborado sobre elas. Tivemos então de seguir um processo mais periférico e distanciado que, por isso mesmo, poderá ter dado aso a mais erros de análise e interpretação e, em consequência disso, erodido a já relativa fiabilidade da imagem final que aqui apresentaremos.
O FIO DO PROCESSO
- As fontes:
Existem quatro "retratos" ou imagens do castelo de Alfeizerão (1), a primeira delas, desenhada a traço aguarelado num canto de uma planta dos campos de Alfeizerão, sem menção de autor e datando de cerca do ano de 1700, e as restantes tendo como autores o sargento-mor José Monteiro de Carvalho (c. 1750), o poeta William Beckford (1794) e o capitão Charles Van Zeller (1834). Estes documentos, associados à descrição do castelo pelo cronista Frei Manuel de Figueiredo (cf. o nosso artigo indicado na primeira nota de rodapé) apresentam-nos um castelo com uma praça de armas escudada por seis cubelos com as muralhas que os ligavam e que conhecia uma extensão para nascente onde se construiu em tempos mais próximos de nós a entrada em arco entre dois torreões mais baixos, do mais setentrional destes dois torreões partia uma muralha barbacã que protegia toda a fachada norte e fechava no cubelo mais a noroeste, esta barbacã, coerentemente, é desenhada à direita na vista a nascente do castelo (a primeira) e à esquerda nos desenhos de Monteiro de Carvalho e Van Zeller que são realizados a ocidente da fortaleza. No recinto do castelo existiria uma torre de menagem de planta quadrada sugerida por alguns indícios iconográficos, edifício a que Frei Manuel de Figueiredo, sem a descrever como torre, parece aludir quando fala do "palácio" do castelo onde se alojavam os reis, poderia ser ambas as coisas se atendermos aos variados exemplos da arquitetura militar do nosso país - numa regra velha como o mundo, os maiores protegem-se e o lugar onde se encontram é sempre o mais difícil de ser conquistado.
| Figura 1: Os "quatro castelos" |
Apenas o primeiro desenho nos revela a perspetiva do castelo tirada de nascente com os tais dois torreões a ladear a entrada do castelo, os outros três foram tomados de pontos muito próximos entre si diante da fachada oposta, na estrada a poente do castelo que une a vila a São Martinho do Porto, as partes omissas da fortaleza são-nos indicadas pela planta das ruínas, e pela fachada a norte, a única que conserva torres e muralha que se veja (já reconstruída? Assim o afirmava enfáticamente o engenheiro Adriano Monteiro). A cartografia, em mapas da segunda metade do século XIX, representa de forma esquemática o castelo, mas esses apontamentos em pequena escala dentro de mapas mais extensos, merecem ser tidos em conta. O primeiro exemplo da Figura 2 surge numa "Planta da Baía de S. Martinho" (2), onde o castelo é desenhado do lado poente com a torre de menagem a assomar entre os dois cubelos de planta circular, tal como admiramos no desenho de William Beckford. O segundo exemplo, apesar de não ser muito nítido, é uma planta miniatural do castelo inserido num mapa realizado por Guilherme Elsden - o "Desenho de estudo para os campos de Alfeizerão e de São Martinho" (3) - e esta planta convoca à reflexão: distinguimos a planta da praça de armas do castelo com as suas seis torres e uma estrutura central que poderá ser a nossa torre/palácio, a nascente (em cima) o traço do que será o segundo recinto amuralhado onde se localizaria a entrada do castelo e que se prolonga para norte com a muralha barbacã. O que é inédito nesta representação é a sugestão de uma estrutura arquitetónica a sul (direita no desenho) que configura um T aberto; sendo o único exemplo que conhecemos, a sua finalidade tem de ser matéria de conjetura - ah, a arqueologia! - (suspiro!). Poderia porventura ser um reforço defensivo do castelo, tal como a barbacã no lado norte, ou indicar o acesso a algum tipo de cais ou desembarcadouro obsoleto - os terrenos baixos imediatamente a sul do castelo, pela sua cota, poderão ter estado cobertos de água em tempos não muito próximos e mesmo o desenho de William Beckford (1794), embora de forma ténue, parece representar aí as hastes esguias de um canavial ou paúl.
| Figura 2: O castelo de perfil e uma planta |
- A interpretação das fontes - de duas para três dimensões (Conteúdos IA)
A ligação intrínseca entre estas fontes ocorreu de uma forma quase fortuita. Depois de inquirir numa página das redes sociais se alguém possuía, ou conhecia alguém que possuísse, um drone com câmera termofráfica para tentar descobrir por esse processo as estruturas enterradas do castelo, tive uma resposta inesperada de um leitor: não possuía semelhante artigo - drone ou câmera de infravermelhos - mas poderia, se eu quisesse e o ajudasse, construir uma maquete do castelo de Alfeizerão. Essa resposta veio de um professor que mora em São Martinho do Porto, de seu nome João Taurino, que já estava habituado a criar maquetes - dioramas criados por ele com fortalezas na margem de rios, maquetes a representar determinado imóvel por encomenda direta de firmas de venda de imobiliário e, não diretamente associado mas ajuda sempre ter um sentido ou sensibilidade artística no ato de criar, a mesma pessoa tinha um traço excelente, os desenhos que partilhava na Web comprovavam-no.
A maquete foi criada e encontra-se salvaguardada com inteira justiça por quem a criou. As fontes documentais que mencionamos aqui contribuíram para a sua elaboração mas, e é um mas com underline, ver a maquete construída ou ensaiada permitiu-me corrigir algumas opiniões prévias que sustentava, questionou-me sem palavras e sugeriu soluções e hipóteses. O nosso artigo de síntese sobre as quatro gravuras do castelo, com grande probabilidade, não teria nascido se eu não tivesse visto o castelo em maquete. A maquete e o texto contribuíram um para o outro, por assim dizer, e naturalmente que me sinto grato ao senhor João Taurino por essa oportunidade.
| Figura 3: A maquete do castelo. Autor: João Taurino Imagens de uma publicação de 2024 da sua página pessoal |
E uma vez mais, voltamos agora a essa maquete. A maquete do castelo esteve patente na Casa do Povo de Alfeizerão, a coincidir com a Exposição de Presépios que aí se realizou em dezembro de 2022 e nessa ocasião fotografei a maquete com mais critério. Com o desenvolvimento de novas ferramentas de edição ou "invenção" da imagem (leia-se IA), tentei aproveitar uma das imagens da maquete que possuía para procurar convertê-la numa ilustração minimamente credível da fortaleza airosa que pouca ou nenhuma guerra fez e que fez o favor de se esconder no meio do mato para não incomodar quem incomodado parece viver com tal espécie de discretos monumentos sem espavento ou fecundidade política.
Usei O CHATGPT para transformar a maquete numa ilustração e lapidei esse resultado até onde me foi possível. Sabem os utilizadores experientes desta ferramenta que os resultados imediatos da edição com IA só podem produzir itens medíocres, basta olhar em volta e constatar a súbita monotonia que reina nos produtos de marketing e publicidade que invadiram as nossas vidas, dos prospetos de festas de aldeia aos eventos cosmopolitas para lançamento de um novo produto comercial. Por outro lado, a ferramenta possui, por ora, limites que é difícil transpor. É seguro que esta imagem que vos apresento de imediato conheceu dezenas de edições desde o estado de maquete, avanços e recuos sucessivos, nos quais, muitas vezes, um novo erro surgia a cada tentativa de corrigir um erro anterior, sem que o impasse se desfizesse por completo. Mas é o que existe, a imagem traduz o equilíbrio possível nessa edição.
- Minimizando alguma sugestão de anacronismo ou questões estéticas, importa indicar nesta ilustração:
- Como trabalho prévio, tentei supor como seria o vale e a lagoa de Alfeizerão vistos de nascente para poente, possuindo como guia um mapa topográfico do vale e a reconstituição elaborada pela geógrafa Virgínia Henriques a partir de estudos e sondagens. O resultado final ficou muito longe dessa abstração que tentei implantar de início, por alterações que iam ocorrendo a cada tentativa de melhorar alguma coisa.
- Outros detalhes mais ou menos significativos:
- Os cubelos redondos do castelo são mais largos do que deveriam ser.
- Os dois torreões que ladeiam a entrada do castelo não possuem o mesmo diâmetro.
- A planta da muralha mais a ocidente ficou apenas ligeiramente curva para dentro, em vez do recuo recortado que se vê nas gravuras e que possui como explicação a configuração do próprio terreno, como ainda hoje se pode constatar no lugar - o desenho da muralha acompanhava a reentrância angular do terreno onde o castelo se implantou.
- A torre de planta quadrada é na verdade apenas quadrangular e as suas dimensões eram muito maiores nos ensaios iniciais de reconstituição do castelo. Foi pelas suas dimensões que, por exemplo, William Beckford a conseguiu avistar na berma do caminho a poente do castelo, desenhando-a no lusco-fusco de uma viagem para a cidade das termas.
- A muralha barbacã teria de ser mais avançada para norte, porque é nítido que assim era nas gravuras.
- Por fim mas igualmente importante, o lado funcional da mobilidade junto às ameias revela-se um caos, quase nunca conseguimos que as muralhas possuíssem o seu adarve ou caminho de ronda e o mesmo para as entradas para as torres ou as escadas internas de acesso ao adarve que, por exemplo, a maquete do castelo conservava na muralha mais a poente.
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Notas:
(1) Sobre as quatro imagens distintas do castelo de Alfeizerão, elas podem ser acedidas a partir de uma publicação nossa que se encontra online: "Um castelo alto, grande e antigo: alguns elementos para um risco conjetural do castelo de Alfeizerão". Por acréscimo e sobre a fortaleza, existe no website da Junta de Freguesia de Alfeizerão uma síntese e cronologia da História do castelo. Se o leitor preferir ver de perto esses quatro vistas do castelo pode, caso passe pela vila de Alfeizerão, encontrar reproduções dessas gravuras expostas nas paredes do Café Pastelaria "O Castelo", aí colocadas por louvável iniciativa dos seus proprietários.
(2) Cota A.H.M.O.P. D-41-B, Folha XVIII. O espólio do antigo A.H.M.O.P - Arquivo Histórico do Ministério das Obras Públicas encontra-se à guarda da Biblioteca e Arquivo do Ministério da Economia.
(3) Arquivo BPMP, C-M&A, Pasta 24(36)





