O jornal "A Região" (Ano 1, n.º 5, p. 3, Leiria, 19 de março de 1922), regista uma visita efetuada à prisão de Alcobaça, com os nomes dos presos e os seus crimes e penas; casos bem reais que, por vezes, parecem evocar algumas situações mordazes das páginas d'As Farpas.
Copiamos o texto desse artigo.
Na primeira frase, quando se menciona a "obra piedosa de visitar os encarcerados", a referência em epígrafe são as 14 Obras da Misericórdia, 7 corporais e 7 espirituais; sendo a 6.ª Obra Corporal, precisamente, "Visitar os presos". Por curiosidade, no Compromisso da Misericórdia de Lisboa (1516, fl. 2v), esta Obra Corporal figurava como sendo a primeira: «A primeira he. Remijr catiuos e visitar os presos».
Na introdução, também se diz que se encontravam detidas 19 pessoas, entre homens e mulheres, mas no artigo apenas se entrevista 13 delas, todas do género masculino.
Visita a presos
Porque
afazeres da nossa vida nos levassem a Alcobaça, quizemos realizar esta obra piedosa
de visitar os encarcerados. É uma
visita pouco agradavel, o meio não é convidativo e quem a realisa já sabe
previamente que se vai pôr em contacto ou com criaturas inocentes que, sem
culpas, estão sendo vítimas duma injustiça, o que é doloroso, ou com criaturas
que ali estão pagando as culpas de seus crimes, criaturas cuja convivência nos
não traz qualquer espécie de prazer. Realisamos porém essa visita, entramos na
cadeia que é, no género, uma casa como as outras, com corredores,
compartimentos, chaves e grades de ferro. Inquirimos do número de presos — eram
19, entre homens e mulheres.
Com
alguns nos avistámos, averiguamos dos motivos da sua atual situação e ouvimos o
que eles nos disseram, uns aparentemente satisfeitos da sua vida, outros esprimindo
no vincado das faces as dores morais provenientes dum remorso ou duma
injustiça.
O
primeiro que ouvimos foi Francisco
Rodrigues Franco, de 23 anos, do lugar da Castanheira, freguesia de Cós,
que aguarda julgamento porque sobre ele pesa a acusação de têr disparado uma
espingarda sobre um automóvel que passava. Tem como advogado o sr. Dr. Alberto
Henriques Vila Nova e nega que tal tivesse feito.
A
seguir, José Feliciano Ferreira, de
20 anos, da freguesia de Pataias, que está cumprindo a pena de 4 ou 6 anos por
ter ajudado a matar um indivíduo á paulada. Está preso há 11 meses e aguarda
com rezignação o tempo que lhe falta cumprir.
Joaquim da Cruz
Mota, 22 anos,
também de Pataias, condenado em 6 ou 10 anos pelo mesmo motivo.
Frederico dos
Santos Remédios,
24 anos, da Nazaré, que foi condenado em 2 ou 3 anos porque com uma facada
matou um indivíduo. Não reputa justa a sua condenação porque, segundo diz, foi
uma briga em que ele levou 10 facadas e deu apenas uma. Por isso apelou para o
Tribunal de Coimbra e aguarda o fim da questão.
António Alberto, 27 anos, dos Casaes de Santa
Teresa, condenado em 20 ou 25 anos também por ter morto com uma facada um
indivíduo que nele deu outra. Reputa a sua condenação injusta e sofre-a com
resignação.
Miguel Dias, 23 anos, de Alcobaça, diz-nos
que está preso há 5 meses e que não sabe se é por motivo duma queixa que foi
feita por um seu patrão de Lisboa ou por um atropelamento que fez quando guiava
um automóvel.
João Castanheira
Cruz, 18 anos, de
Alpedriz, que chorando, receia a sua punição. É acusado de ter dado uma paulada
em José dos Santos, aquele cabreiro que, segundo noticiámos, morreu por virtude
das agressões que lhe foram feitas por este e por – Francisco Rodrigues Gil, de 32 anos, também de Alpedriz. Dizem eles
que a vítima foi quem primeiro tentou agredir o João Castanheira com uma fouce
que lhe tiraram, tendo-se defendido a pau onde ficaram assinaladas algumas
fouçadas. Aguardam julgamento e o seu aspeto é de tristeza.
António do Couto
Júnior, 21 anos,
de Famalicão, condenado em 6 meses de prisão correcional por ter dado uma
tesourada num padre que estivera 263 dias de cama. Alegou em sua defesa motivos
políticos, foi seu advogado o Dr. Ernesto Botelho Moniz, e conta-nos a história
sorridente e mangador.
Manuel Rebelo, 38 anos, do Pinheiro, freguesia
da Benedita, foi condenado em 3 anos ou 4 ½ por numa desordem ter morto um
homem á paulada.
José Ferreira de
Almeida, 66
anos, do Casal da Cruz, freguesia de Maiorga. Foi condenado em 4 ou 6 anos por
ter morto um homem com uma enxadada. Não achou justa a condenação porque, diz
ele, foi em sua defeza, pelo que apelou, tendo-lhe resultado da apelação ser
alterada a pena para 6 ou 9 anos.
Francisco Serra
Rendeiro, 30
anos, da Nazaré, condenado em 1 ano de prisão por ter roubado umas galinhas ao
padre de Alfeizerão. Está preso há 10 meses e ainda está coxo por virtude dum
salto que deu quando fugia.
Ri-se,
contando-nos a história.
João de Jesus
Ganhão, 34 anos,
da Amoreira, comarca de Moura, condenado em 6 anos ou 9 e 6 meses de multa a
1$00 diário. A acusação era ter roubado uma caldeira de cobre em
Montemor-o-Novo, o que confessa, e uns estabelecimentos em Alcobaça que diz não
ter roubado.
E
assim terminou esta via sacra que se percorreu numa hora vaga de afazeres.










