domingo, 11 de outubro de 2026

Em 1922, a visita à prisão de Alcobaça e um crime atroz cometido em Alfeizerão

   O jornal "A Região" (Ano 1, n.º 5, p. 3, Leiria, 19 de março de 1922), regista uma visita efetuada à prisão de Alcobaça, com os nomes dos presos e os seus crimes e penas; casos bem reais que, por vezes, parecem evocar algumas situações mordazes das páginas d'As Farpas.

   Copiamos o texto desse artigo. 

   Na primeira frase, quando se menciona a "obra piedosa de visitar os encarcerados", a referência em epígrafe são as 14 Obras da Misericórdia, 7 corporais e 7 espirituais; sendo a 6.ª Obra Corporal, precisamente, "Visitar os presos". Por curiosidade, no Compromisso da Misericórdia de Lisboa (1516, fl. 2v), esta Obra Corporal figurava como sendo a primeira: «A primeira he. Remijr catiuos e visitar os presos».

   Na introdução, também se diz que se encontravam detidas 19 pessoas, entre homens e mulheres, mas no artigo apenas se entrevista 13 delas, todas do género masculino.

 


  Visita a presos

   Porque afazeres da nossa vida nos levassem a Alcobaça, quizemos realizar esta obra piedosa de visitar os encarcerados. É uma visita pouco agradavel, o meio não é convidativo e quem a realisa já sabe previamente que se vai pôr em contacto ou com criaturas inocentes que, sem culpas, estão sendo vítimas duma injustiça, o que é doloroso, ou com criaturas que ali estão pagando as culpas de seus crimes, criaturas cuja convivência nos não traz qualquer espécie de prazer. Realisamos porém essa visita, entramos na cadeia que é, no género, uma casa como as outras, com corredores, compartimentos, chaves e grades de ferro. Inquirimos do número de presos — eram 19, entre homens e mulheres.

   Com alguns nos avistámos, averiguamos dos motivos da sua atual situação e ouvimos o que eles nos disseram, uns aparentemente satisfeitos da sua vida, outros esprimindo no vincado das faces as dores morais provenientes dum remorso ou duma injustiça.

   O primeiro que ouvimos foi Francisco Rodrigues Franco, de 23 anos, do lugar da Castanheira, freguesia de Cós, que aguarda julgamento porque sobre ele pesa a acusação de têr disparado uma espingarda sobre um automóvel que passava. Tem como advogado o sr. Dr. Alberto Henriques Vila Nova e nega que tal tivesse feito.

   A seguir, José Feliciano Ferreira, de 20 anos, da freguesia de Pataias, que está cumprindo a pena de 4 ou 6 anos por ter ajudado a matar um indivíduo á paulada. Está preso há 11 meses e aguarda com rezignação o tempo que lhe falta cumprir.

   Joaquim da Cruz Mota, 22 anos, também de Pataias, condenado em 6 ou 10 anos pelo mesmo motivo.

   Frederico dos Santos Remédios, 24 anos, da Nazaré, que foi condenado em 2 ou 3 anos porque com uma facada matou um indivíduo. Não reputa justa a sua condenação porque, segundo diz, foi uma briga em que ele levou 10 facadas e deu apenas uma. Por isso apelou para o Tribunal de Coimbra e aguarda o fim da questão.

   António Alberto, 27 anos, dos Casaes de Santa Teresa, condenado em 20 ou 25 anos também por ter morto com uma facada um indivíduo que nele deu outra. Reputa a sua condenação injusta e sofre-a com resignação.

   Miguel Dias, 23 anos, de Alcobaça, diz-nos que está preso há 5 meses e que não sabe se é por motivo duma queixa que foi feita por um seu patrão de Lisboa ou por um atropelamento que fez quando guiava um automóvel.

   João Castanheira Cruz, 18 anos, de Alpedriz, que chorando, receia a sua punição. É acusado de ter dado uma paulada em José dos Santos, aquele cabreiro que, segundo noticiámos, morreu por virtude das agressões que lhe foram feitas por este e por – Francisco Rodrigues Gil, de 32 anos, também de Alpedriz. Dizem eles que a vítima foi quem primeiro tentou agredir o João Castanheira com uma fouce que lhe tiraram, tendo-se defendido a pau onde ficaram assinaladas algumas fouçadas. Aguardam julgamento e o seu aspeto é de tristeza.

   António do Couto Júnior, 21 anos, de Famalicão, condenado em 6 meses de prisão correcional por ter dado uma tesourada num padre que estivera 263 dias de cama. Alegou em sua defesa motivos políticos, foi seu advogado o Dr. Ernesto Botelho Moniz, e conta-nos a história sorridente e mangador.

   Manuel Rebelo, 38 anos, do Pinheiro, freguesia da Benedita, foi condenado em 3 anos ou 4 ½ por numa desordem ter morto um homem á paulada.

   José Ferreira de Almeida, 66 anos, do Casal da Cruz, freguesia de Maiorga. Foi condenado em 4 ou 6 anos por ter morto um homem com uma enxadada. Não achou justa a condenação porque, diz ele, foi em sua defeza, pelo que apelou, tendo-lhe resultado da apelação ser alterada a pena para 6 ou 9 anos.

   Francisco Serra Rendeiro, 30 anos, da Nazaré, condenado em 1 ano de prisão por ter roubado umas galinhas ao padre de Alfeizerão. Está preso há 10 meses e ainda está coxo por virtude dum salto que deu quando fugia.

   Ri-se, contando-nos a história.

   João de Jesus Ganhão, 34 anos, da Amoreira, comarca de Moura, condenado em 6 anos ou 9 e 6 meses de multa a 1$00 diário. A acusação era ter roubado uma caldeira de cobre em Montemor-o-Novo, o que confessa, e uns estabelecimentos em Alcobaça que diz não ter roubado.

   E assim terminou esta via sacra que se percorreu numa hora vaga de afazeres.


segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Ano de 1921 - Comemorações do 5 de Outubro em Leiria, Alcobaça e São Martinho do Porto

"O REGIONALISTA - Semanário Republicano: Defensor dos Interesses do Círculo Eleitoral de Alcobaça", 
Ano 2, Número 61, p. 1, Caldas da Rainha, 5 de Outubro de 1921 

   Faz hoje onze anos que um punhado de bravos, cheios de indómita coragem, sacudiu o jugo da monarquia, proclamando o regimen republicano.
   Foi uma radiosa alvorada, de Amor e Liberdade, abrindo o caminho da ressureição de um povo que tendo sido grande no seu passado, grande se quis manter com os seus feitos assinalados, no presente.
  Onze anos são decorridos... E ainda nos anima hoje a fé sacrossanta no Ideal pois temos fé e crença inabalável nos destinos do Paiz, na redenção da Patria pela Republica (...)».


"O REGIONALISTA - Semanário Republicano: Defensor dos Interesses do Círculo Eleitoral de Alcobaça", 
Ano 2, Número 61, p. 2, Caldas da Rainha, 5 de Outubro de 1921 

Cinco de Outubro
   Por todo o paiz os republicanos se propõem solenisar o dia que hoje passa, com festas brilhantíssimas e entusiasticas, de maneira a fazer acreditar à reacção que o coração do povo português ainda vibra de entusiasmo e amor pela Republica.
   Nas Caldas, até á hora de escrever esta notícia, não conhecemos o programa das festas.
   - Em Leiria, republicanos de todos os partidos reunidos em comissões e subcomissões, conseguiram organizar um programa bastante extenso, no qual figuram entre outras festas de confraternisação, cortejo cívico, sessão solene, bodo aos pobres, etc., etc.
   De estranhar é, porém, que para o cortejo, em que deveriam unicamente incorporar-se aqueles que sentissem bem o ideal republicano, fôssem convidadas autoridades que a Republica só tem desprestigiado, dando-se-lhe assim fôros de rèpublicanismo. 
   - Onde as festas de comemoração do advento do novo regimen republicano decorrem, porêm, com entusiasmo, é na linda praia de S. Martinho do Porto.
   Desde ontem que os republicanos de S. Martinho se encontram em festa.
   É digna dos maiores encómios a comissão organisadora dessas festas, que se não tem poupado a esforços, no que os seus componentes mais uma vez demonstraram o muito amor que à Republica dedicam.
   O programa é o seguinte:
Dia 4
   Alvorada de 21 morteiros, percorrendo em seguida as ruas da vila a excelente Filarmonica da Maiorga, que abrilhantará as festas.
   Às 10 horas - Cumprimentos ás autoridades pela Banda.
   Às 14 horas - Corridas desportivas na praia.
   Às 16 horas - Regatas á vela e a remos e corridas de natação na baía.
   À noite - Abertura da kermesse, iluminações á moda do Minho, concerto pela banda, bailes e descantes populares.
Dia 5
   Alvorada pela filarmônica e salva de 21 morteiros.
   Às 9 horas - Abertura da kermesse e concerto pela filarmónica.
   Às 14 horas - Sessão solene no Centro Republicano.
   Às 16 horas - Desafio de foot-ball.
  Às 21 horas - Fogo aquático e do ar, fornecido pelo afamado pirotécnico de Viana do Castelo, José de Castro, iluminações, kermesse, etc.
   Espera-se que a Companhia dos Caminhos de Ferro organize um comboio especial que saia de S. Martinho (sic) pelas 2 horas da noite de 5 para 6, para esta vila, a fim de nele poderem regressar as pessoas que das Caldas possam ir assistir ao fogo aquático, que promete ser deslumbrante.
                                     

"O REGIONALISTA - Semanário Republicano: Defensor dos Interesses do Círculo Eleitoral de Alcobaça", 
Ano 2, Número 62, p. 1, Caldas da Rainha, 55 de Outubro de 1921 


5 DE OUTUBRO
___
Em Alcobaça e em São Martinho
   A data gloriosa de 5 de Outubro fôi éste ano festejada por ésse Portugal fóra com um ardor que ha anos se não observava. Ainda bem! Quem sabe mesmo se êsse ardor não fôi senão o protesto instintivo dos verdadeiros republicanos contra o facto de estarmos sendo governados e administrados por homens que, na sua grande maioria, nenhuma confiança lhes pódem merecer, quer pelo seu passado, quer pelos seus actos presentes?
   Para só nos referirmos a duas localidades próximas, pelas quais de resto O Regionalista tem a maior estima e consideração, diremos que em Alcobaça e em São Martinho do Pôrto o 5 de Outubro fói celebrado condignamente, tendo-se para tal efeito conjugado, quer numa quer noutra dessas localidades, os esforços de republicanos pertencentes ás várias nuances partidárias.
   Em Alcobaça foi o nosso ilustre correligionário dr. Júlio Dantas, senador pelo distrito, a quem préviamente havia sido dirigido o respectivo convite, recebido com as maiores provas de carinho, tendo-se realizado uma sessão solene em que fizera uso da palavra, além de sua ex.ª, o nosso presado amigo Joaquim Ferreira da Silva e o sr. Lopes Pelaio. Todos os oradores, que exaltaram a ideia republicana e defenderam a união de todos os seus adeptos para maior segurança da obra a realizar, fôram muito aplaudidos pela assistência, que era numerosíssima.
   Em São Martinho do Pôrto, igualmente se realizou, á noite, uma concorridíssima sessão solene, em que fizeram uso da palavra os srs. dr. Júlio Dantas, que presidiu a ela, e Lopes Pelaio, além do nosso colega Augusto Severino da Silva. Aplausos calorosos coroaram igualmente os discursos dos oradores, que nas suas considerações tiveram invariavelmente em vista a manutenção do prestígio da República.
   O Regionalista, impossibilitado, por falta de espaço, de dar uma maior largueza ao relato do que se passou nas duas ridentes vilas visinhas, envia aos republicanos que tais festejos promoveram e aos que neles tomaram parte as suas saudações mais sinceras.  

 


domingo, 27 de setembro de 2026

As ansiosas "negociações" com um Santo (um apontamento de arquivo)

A imagem de Santo António
na Igreja de Nossa Sra. da Vitória, em Famalicão
(Conteúdos IA)

    Durante uma recente e involuntária pausa sabática de dois meses, tive o tempo e a oportunidade para organizar papéis e ideias. Este apontamento que aqui aqui se reproduz foi publicado no jornal "O Alcoa", periódico que completa agora 80 anos. A minha episódica colaboração com o jornal estendeu-se por uns 20 números (meses), proeza comezinha quando, e relevo isso com muito orgulho, o meu pai, António Coutinho, foi colaborador desse mesmo jornal (e correspondente de Alfeizerão), durante anos e anos a fio. Ainda que corra o risco de me dispersar aqui, lembro que a expressão "correspondente", que soa algo pretensiosa, não o é de facto, os jornais locais possuíam esse recurso valioso que era manter uma rede de fiéis colaboradores em todas as freguesias que se procurava abranger, esses correspondentess (como embaixadores de povoações liliputianas de uma importância gargantuesca para os seus moradores) faziam ascender ao conhecimento público as realizações, eventos, dramas e problemas das terras que representavam, davam a conhecê-las àquele que escrutinava no imediato o jornal impresso e, a seu tempo, aos assinantes do jornal espalhados pelo mundo que, com uma atenção redobrada, procuravam novas sobre a sua freguesia, aldeia ou lugar.

    No meu caso, o ser correspondente nunca poderia ser a minha função, porque eu escrevia sobre ninharias e pardais, pormenores do passado das terras e textos a oscilar entre a crónica e a fancaria filosófica. Cheguei a escrever sobre a capela de Santo Amaro de Alfeizerão e tradições populares da região, mas também sobre episódios do quotidiano e a Guerra das Malvinas :). Este apontamento em particular foi, como os outros que escrevi, datilografado com empenho numa máquina de escrever Olivetti que possuía (um orgulho, e uma jóia que se perdeu), mas o rascunho que lhe deu origem era anterior, tinha-o redigido numa das últimas páginas de um caderno de escola com meia dúzia de anos (que tédio incrível para mim, era a escola por esse tempo!).

    Mas vamos ao Santo, que se faz tarde:


Jornal "O Alcoa"


domingo, 20 de setembro de 2026

Um segundo apontamento sobre o castelo de Alfeizerão

Seis anos depois do primeiro apontamento sobre a eventual planta arquitetónica do castelo (ou dos seus vestígios quando foi desenhado nos séculos XVIII e XIX), elaboramos um acréscimo a esse trabalho com algumas atualizações e mudanças (já era tempo).


É um trabalho mais de histórias do que de História, e requer uns 30 a 45 minutos de leitura.
Ainda assim, procuramos ser objetivos e deixar elementos para outros refutarem ou prosseguirem. Não é muito mas, passo a pieguice, foi escrito com amor á terra.











quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Uma imagem (muito pálida) de como seria o castelo de Alfeizerão

Têm surgido em tempos recentes algumas imagens muito heterógeneas de como seria o castelo de Alfeizerão, não iremos tecer qualquer crítica a essas imagens (quem somos nós para o fazer?), pretendemos apenas trazer a público mais uma reconstituição visual dessa fortaleza que, esperamos nós, apresente, mesmo que remotamente, algum grau de autenticidade perante aquilo que possa ter sido o seu modelo histórico.

O castelo de Alfeizerão encontra-se hoje reduzido a um pobre conjunto de ruínas submerso num ninho de vegetação bravia e feroz, e esse precioso monumento histórico continua no completo olvido dos organismos políticos e culturais, que possuem os meios e o poder decisional para encontrar soluções para o resgatar da paulatina degradação. Perante essa situação, adivinhar qual seria o aspeto histórico do castelo não poderia partir de uma reconstituição direta feita a partir das suas ruínas ou de algum estudo científico elaborado sobre elas. Tivemos então de seguir um processo mais periférico e distanciado que, por isso mesmo, poderá ter dado aso a mais erros de análise e interpretação e, em consequência disso, erodido a já relativa fiabilidade da imagem final que aqui apresentaremos.


O FIO DO PROCESSO


- As fontes:

Existem quatro "retratos" ou imagens do castelo de Alfeizerão (1), a primeira delas, desenhada a traço aguarelado num canto de uma planta dos campos de Alfeizerão, sem menção de autor e datando de cerca do ano de 1700, e as restantes tendo como autores o sargento-mor José Monteiro de Carvalho (c. 1750), o poeta William Beckford (1794) e o capitão Charles Van Zeller (1834). Estes documentos, associados à descrição do castelo pelo cronista Frei Manuel de Figueiredo (cf. o nosso artigo indicado na primeira nota de rodapé) apresentam-nos um castelo com uma praça de armas escudada por seis cubelos com as muralhas que os ligavam e que conhecia uma extensão para nascente onde se construiu em tempos mais próximos de nós a entrada em arco entre dois torreões mais baixos, do mais setentrional destes dois torreões partia uma muralha barbacã que protegia toda a fachada norte e fechava no cubelo mais a noroeste, esta barbacã, coerentemente, é desenhada à direita na vista a nascente do castelo (a primeira) e à esquerda nos desenhos de Monteiro de Carvalho e Van Zeller que são realizados a ocidente da fortaleza. No recinto do castelo existiria uma torre de menagem de planta quadrada sugerida por alguns indícios iconográficos, edifício a que Frei Manuel de Figueiredo, sem a descrever como torre, parece aludir quando fala do "palácio" do castelo onde se alojavam os reis, poderia ser ambas as coisas se atendermos aos variados exemplos da arquitetura militar do nosso país - numa regra velha como o mundo, os maiores protegem-se e o lugar onde se encontram é sempre o mais difícil de ser conquistado.


Figura 1: Os "quatro castelos"

Apenas o primeiro desenho nos revela a perspetiva do castelo tirada de nascente com os tais dois torreões a ladear a entrada do castelo, os outros três foram tomados de pontos muito próximos entre si diante da fachada oposta, na estrada a poente do castelo que une a vila a São Martinho do Porto, as partes omissas da fortaleza são-nos indicadas pela planta das ruínas, e pela fachada a norte, a única que conserva torres e muralha que se veja (já reconstruída? Assim o afirmava enfáticamente o engenheiro Adriano Monteiro). 


- A interpretação das fontes - de duas para três dimensões (Conteúdos IA)

A ligação intrínseca entre estas fontes ocorreu de uma forma quase fortuita. Depois de inquirir numa página das redes sociais se alguém possuía, ou conhecia alguém que possuísse, um drone com câmera termofráfica para tentar descobrir por esse processo as estruturas enterradas do castelo, tive uma resposta inesperada de um leitor: não possuía semelhante artigo - drone ou câmera de infravermelhos - mas poderia, se eu quisesse e o ajudasse, construir uma maquete do castelo de Alfeizerão. Essa resposta veio de um professor que mora em São Martinho do Porto, de seu nome João Taurino, que já estava habituado a criar maquetes - dioramas criados por ele com fortalezas na margem de rios, maquetes a representar determinado imóvel por encomenda direta de firmas de venda de imobiliário e, não diretamente associado mas ajuda sempre ter um sentido ou sensibilidade artística no ato de criar, a mesma pessoa tinha um traço excelente, os desenhos que partilhava na Web comprovavam-no.

A maquete foi criada e encontra-se salvaguardada com inteira justiça por quem a criou. As fontes documentais que mencionamos aqui contribuíram para a sua elaboração mas, e é um mas com underline, ver a maquete construída ou ensaiada permitiu-me corrigir algumas opiniões prévias que sustentava, questionou-me sem palavras e sugeriu soluções e hipóteses. O nosso artigo de síntese sobre as quatro gravuras do castelo, com grande probabilidade, não teria nascido se eu não tivesse visto o castelo em maquete. A maquete e o texto contribuíram um para o outro, por assim dizer, e naturalmente que me sinto grato ao senhor João Taurino por essa oportunidade.

Figura 3: A maquete do castelo. 
Autor: João Taurino
Imagens de uma publicação de 2024 da sua página pessoal

E uma vez mais, voltamos agora a essa maquete. A maquete do castelo esteve patente na Casa do Povo de Alfeizerão, a coincidir com a Exposição de Presépios que aí se realizou em dezembro de 2022 e nessa ocasião fotografei a maquete com mais critério. Com o desenvolvimento de novas ferramentas de edição ou "invenção" da imagem (leia-se IA), tentei aproveitar uma das imagens da maquete que possuía para procurar convertê-la numa ilustração minimamente credível da fortaleza airosa que pouca ou nenhuma guerra fez e que fez o favor de se esconder no meio do mato para não incomodar quem incomodado parece viver com tal espécie de discretos monumentos sem espavento ou fecundidade política.

Usei O CHATGPT para transformar a maquete numa ilustração e lapidei esse resultado até onde me foi possível. Sabem os utilizadores experientes desta ferramenta que os resultados imediatos da edição com IA só podem produzir itens medíocres, basta olhar em volta e constatar a súbita monotonia que reina nos produtos de marketing e publicidade que invadiram as nossas vidas, dos prospetos de festas de aldeia aos eventos cosmopolitas para lançamento de um novo produto comercial. Por outro lado, a ferramenta possui, por ora, limites que é difícil transpor. É seguro que esta imagem que vos apresento de imediato conheceu dezenas de edições desde o estado de maquete, avanços e recuos sucessivos, nos quais, muitas vezes, um novo erro surgia a cada tentativa de corrigir um erro anterior, sem que o impasse se desfizesse por completo. Mas é o que existe, a imagem traduz o equilíbrio possível nessa edição.



- Minimizando alguma sugestão de anacronismo ou questões estéticas, importa indicar nesta ilustração:

  • Como trabalho prévio, tentei supor como seria o vale e a lagoa de Alfeizerão vistos de nascente para poente, possuindo como guia um mapa topográfico do vale e a reconstituição elaborada pela geógrafa Virgínia Henriques a partir de estudos e sondagens. O resultado final ficou muito longe dessa abstração que tentei implantar de início, por alterações que iam ocorrendo a cada tentativa de melhorar alguma coisa. 
  • Outros detalhes mais ou menos significativos: 
  • Os cubelos redondos do castelo são mais largos do que deveriam ser.
  • Os dois torreões que ladeiam a entrada do castelo não possuem o mesmo diâmetro.
  • A planta da muralha mais a ocidente ficou apenas ligeiramente curva para dentro, em vez do recuo recortado que se vê nas gravuras e que possui como explicação a configuração do próprio terreno, como ainda hoje se pode constatar no lugar - o desenho da muralha acompanhava a reentrância angular do terreno onde o castelo se implantou.
  • A torre de planta quadrada é na verdade apenas quadrangular e as suas dimensões eram muito maiores nos ensaios iniciais de reconstituição do castelo. Foi pelas suas dimensões que, por exemplo, William Beckford a conseguiu avistar na berma do caminho a poente do castelo, desenhando-a no lusco-fusco de uma viagem para a cidade das termas.
  • A muralha barbacã teria de ser mais avançada para norte, porque é nítido que assim era nas gravuras.
  • Por fim mas igualmente importante, o lado funcional da mobilidade junto às ameias revela-se um caos, quase nunca conseguimos que as muralhas possuíssem o seu adarve ou caminho de ronda e o mesmo para as entradas para as torres ou as escadas internas de acesso ao adarve que, por exemplo, a maquete do castelo conservava na muralha mais a poente.

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Notas:

(1)  Sobre as quatro imagens distintas do castelo de Alfeizerão, elas podem ser acedidas a partir de uma publicação nossa que se encontra online: "Um castelo alto, grande e antigo: alguns elementos para um risco conjetural do castelo de Alfeizerão". Por acréscimo e sobre a fortaleza, existe no website da Junta de Freguesia de Alfeizerão uma síntese e cronologia da História do castelo. Se o leitor preferir ver de perto esses quatro vistas do castelo pode, caso passe pela vila de Alfeizerão, encontrar reproduções dessas gravuras expostas nas paredes do Café Pastelaria "O Castelo", aí colocadas por uma feliz iniciativa dos seus proprietários.


quinta-feira, 20 de agosto de 2026

No dia de S. Bernardo (20-08-26), uma evocação da história lendária da implantação dos primeiros monges cistercienses



«Mais coisas encontrareis nos bosques do que nos livros; as árvores e as pedras podem fazer-vos ver o que os mestres nunca saberão ensinar-nos. Pensais por acaso que não podereis sugar mel das pedras e azeite da rocha mais dura? Será que as montanhas não destilam doçura?»
(Bernardo de Claraval, Epístola 106)


Conta Frei Bernardo de Brito que, depois de conquistada Santarém e Lisboa e todas as terras para norte que até então tinham estado nas mãos dos sarracenos, D. Afonso Henriques acompanhou os monges cistercienses que São Bernardo enviara para dar princípio ao Mosteiro.

«Partiu El-Rei D. Afonso e seu irmão D. Pedro pelo caminho de Leiria e daí para Alcobaça onde então não havia sinal nenhum de povoação nem memória de moradores, senão matas bravíssimas e quase impenetráveis pela grande abundância de arvoredo silvestre e discorrendo os religiosos por uma parte e por outra com desejo de acharem o lugar que Nosso Padre São Bernardo lhes indicara e o sítio cercado de dois rios, depois de muito trabalho vieram ter a um vale que agora chamam de Chaqueda e vendo ali algumas confrontações que buscavam, assentaram que ali se desse princípio ao Mosteiro. Desocupou-se um pedaço de terra capaz e limpo de matas e se estenderam nele as cordas e medidas que os monges traziam. No dia seguinte, quando quiseram abrir os fundamentos [fundações] nos lugares das medidas, não se as acharam e todos se entristeceram, mas considerando que seria outro o lugar onde o Senhor fosse servido que se fundasse o Mosteiro, mandaram muitas pessoas por aqueles vales para procurar as medidas e as cordas. El-Rei com os monges se foram ao longo do rio contra a parte do Ocidente e sendo achado quase a meia légua, onde aquele rio se juntava a outro, em uma relva chã coberta de mato raso, acharam as medidas armadas com tão boa ordem e concerto como se as pusera algum oficial primeiro. Tocou El-Rei uma corneta de monte que sempre trazia consigo, para que acudissem todos aqueles que mandara revolver aqueles vales, e quando vieram, acharam o novo modo de maravilha, julgada pela traça e bem acomodada composição qual poderia ser o Mosteiro nascido daquela obra.

«Naquele lugar, depois se limpar o sítio de todo o género de mato, abriu-se os fundamentos de uma igreja no segundo dia de Fevereiro de 1153, a que todos chamaram depois Santa Maria a Velha [hoje a Igreja de Nossa Senhora da Conceição» (Brito, 1720, 325-326)..

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BRITO, Bernardo de - Chronica de Cister : onde se contam as cousas principaes desta ordem, & muytas antiguidades do reyno de Portugal : primeyra parte, 1720, Lisboa Ocidental. Oficina de Pascoal da Silva.

domingo, 9 de agosto de 2026

Piratas turcos nas Berlengas (1674)



Detalhe do mapa "Portugalie et Algarve", de Mercator/Cloppenburg, 1630


1 - Dois assentos de óbito da paróquia de São Martinho do Porto

«Em os vinte e quatro dias do mês de Junho de mil e seis centos e setenta e sinco annos chegou nova certa que era falecido Gaspar Farto, mareante e morador que foi em esta villa, o qual embarcando na Pederneira em hum nauio [navio] que sua Alteza naquela Ribeira mandou fazer, e indo acompanhado de huma fragata de guerra que o comboiava, sendo defronte da Berlenga os Turcos queimarão [queimaram] a fragata e capturarão o nauio que levarão a Argel com trinta e sinco pessoas desta villa e da Pederneira, entre os quais hia o dito Gaspar Farto que faleceo no Hospital que os Reis de Castela sustentão naquela infame terra, para nelle se curarem os pobres e aflictos captivos. Este, diziam, faleceo com todos os sacramentos e esta sepultado no Cemeterio do mesmo Hospital. Deos lhe de sua Gloria e a todos nós sua graça Divina, feci dicto die ut supra. Antonio Deniz Coresma».

 

«Em os trinta dias do mês de Setembro de mil e seis centos e setenta e seis annos fis os officios pella alma de Manoel Rodrigues, morador que foi em esta villa e mestre de hum nauio de Sua Alteza que os mouros capturarão quando se queimou a fragata chamada Piedade que o comboiava da Pederneira carregado de madeira para o mesmo ____ [destino?]; esta desgraça susedeo no anno de seis centos e setenta e quatro, no mes de setembro; de prezente ueio noua [que]o dito Manoel Rodrigues captivo falecera, e se dis fes testamento que athe agora não ueio, Deos o tenha em sua Glora e a todos nos conserue em sua Graça, feci dicto die ut supra. Antonio Deniz Coresma».

(ADLRA, IV/26/A/33, Registos de óbito da freguesia de São Martinho do Porto: 1666-1733, fólios 12r, 13v)


2 - Anotação

Na tentativa de complementar o teor destes dois assentos, cotejamos sem sucesso os assentos com estas datas nos livros paroquiais de diversas paróquias do litoral e próximas a ele, entre Peniche e a Pederneira. No caso de Salir do Porto, os assentos de óbitos que chegaram até nós começam em data ulterior, no da Pederneira, a fonte mais "provável", há um hiato nos assentos paroquiais de óbito para as datas entre 1664 e 1685.

Sobre a fragata "Piedade" mencionada no assento de óbito de Manuel Rodrigues, e socorrendo-nos do levantamento feito por Pedro Cruz (v. fonte), uma hipótese plausível é a fragata de guerra "Nossa Senhora da Piedade", para a qual se indica as datas entre 1667 e 1672 (?), acrescentando-se que aparece em Lisboa no ano de 1667. Poderia ser esta a fragata incendiada pelos piratas? 

Por curiosidade, nesta relação surge um outro navio, a fragata ou fragatinha de 28 peças com o nome próximo de "Nossa Senhora da Piedade e Santo António", que foi construída em 1697 nos estaleiros de São Martinho do Porto e cuja história militar se irá desenrolar nos mares da Índia. Também construídas em São Martinho e no mesmo ano de 1697, assinala-se a fragata Nossa Senhora das Brotas, de 52 peças, que terá Timor e a Índia como destino, e a fragata ou fragatinha Bom Jesus de Mazagão, de 36 peças, que largou para a Índia em 1698.


Fonte: 

CRUZ, Pedro, "Navios da Real Marinha de Guerra Portuguesa - XVII, II, de 29 de março de 2015, weblog "Marinha de Guerra Portuguesa". 

Url: https ://marinhadeguerraportuguesa.blogspot.com/2015/03/navios-da-armada-portuguesa-xvii-xviii_29.html