quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Uma imagem (muito pálida) de como seria o castelo de Alfeizerão

Têm surgido em tempos recentes algumas imagens muito heterógeneas de como seria o castelo de Alfeizerão, não iremos tecer qualquer crítica a essas imagens (quem somos nós para o fazer?), pretendemos apenas trazer a público mais uma reconstituição visual dessa fortaleza que, esperamos nós, apresente, mesmo que remotamente, algum grau de autenticidade perante aquilo que possa ter sido o seu modelo histórico.

O castelo de Alfeizerão encontra-se hoje reduzido a um pobre conjunto de ruínas submerso num ninho de vegetação bravia e feroz, e esse precioso monumento histórico continua no completo olvido dos organismos políticos e culturais, que possuem os meios e o poder decisional para encontrar soluções para o resgatar da paulatina degradação. Perante essa situação, adivinhar qual seria o aspeto histórico do castelo não poderia partir de uma reconstituição direta feita a partir das suas ruínas ou de algum estudo científico elaborado sobre elas. Tivemos então de seguir um processo mais periférico e distanciado que, por isso mesmo, poderá ter dado aso a mais erros de análise e interpretação e, em consequência disso, erodido a já relativa fiabilidade da imagem final que aqui apresentaremos.


O FIO DO PROCESSO


- As fontes:

Existem quatro "retratos" ou imagens do castelo de Alfeizerão (1), a primeira delas, desenhada a traço aguarelado num canto de uma planta dos campos de Alfeizerão, sem menção de autor e datando de cerca do ano de 1700, e as restantes tendo como autores o sargento-mor José Monteiro de Carvalho (c. 1750), o poeta William Beckford (1794) e o capitão Charles Van Zeller (1834). Estes documentos, associados à descrição do castelo pelo cronista Frei Manuel de Figueiredo (cf. o nosso artigo indicado na primeira nota de rodapé) apresentam-nos um castelo com uma praça de armas escudada por seis cubelos com as muralhas que os ligavam e que conhecia uma extensão para nascente onde se construiu em tempos mais próximos de nós a entrada em arco entre dois torreões mais baixos, do mais setentrional destes dois torreões partia uma muralha barbacã que protegia toda a fachada norte e fechava no cubelo mais a noroeste, esta barbacã, coerentemente, é desenhada à direita na vista a nascente do castelo (a primeira) e à esquerda nos desenhos de Monteiro de Carvalho e Van Zeller que são realizados a ocidente da fortaleza. No recinto do castelo existiria uma torre de menagem de planta quadrada sugerida por alguns indícios iconográficos, edifício a que Frei Manuel de Figueiredo, sem a descrever como torre, parece aludir quando fala do "palácio" do castelo onde se alojavam os reis, poderia ser ambas as coisas se atendermos aos variados exemplos da arquitetura militar do nosso país - numa regra velha como o mundo, os maiores protegem-se e o lugar onde se encontram é sempre o mais difícil de ser conquistado.


Figura 1: Os "quatro castelos"

Apenas o primeiro desenho nos revela a perspetiva do castelo tirada de nascente com os tais dois torreões a ladear a entrada do castelo, os outros três foram tomados de pontos muito próximos entre si diante da fachada oposta, na estrada a poente do castelo que une a vila a São Martinho do Porto, as partes omissas da fortaleza são-nos indicadas pela planta das ruínas, e pela fachada a norte, a única que conserva torres e muralha que se veja (já reconstruída? Assim o afirmava enfáticamente o engenheiro Adriano Monteiro). A cartografia, em mapas da segunda metade do século XIX, representa de forma esquemática o castelo, mas esses apontamentos em pequena escala dentro de mapas mais extensos, merecem ser tidos em conta. O primeiro exemplo da Figura 2 surge numa "Planta da Baía de S. Martinho" (2), onde o castelo é desenhado do lado poente com a torre de menagem a assomar entre os dois cubelos de planta circular, tal como admiramos no desenho de William Beckford. O segundo exemplo, apesar de não ser muito nítido, é uma planta miniatural do castelo inserido num mapa realizado por Guilherme Elsden - o "Desenho de estudo para os campos de Alfeizerão e de São Martinho" (3) - e esta planta convoca à reflexão: distinguimos a planta da praça de armas do castelo com as suas seis torres e uma estrutura central que poderá ser a nossa torre/palácio, a nascente (em cima) o traço do que será o segundo recinto amuralhado onde se localizaria a entrada do castelo e que se prolonga para norte com a muralha barbacã. O que é inédito nesta representação é a sugestão de uma estrutura arquitetónica a sul (direita no desenho) que configura um T aberto; sendo o único exemplo que conhecemos, a sua finalidade tem de ser matéria de conjetura - ah, a arqueologia! - (suspiro!). Poderia porventura ser um reforço defensivo do castelo, tal como a barbacã no lado norte, ou indicar o acesso a algum tipo de cais ou desembarcadouro obsoleto - os terrenos baixos imediatamente a sul do castelo, pela sua cota, poderão ter estado cobertos de água em tempos não muito próximos e mesmo o desenho de William Beckford (1794), embora de forma ténue, parece representar aí as hastes esguias de um canavial ou paúl.

Figura 2: O castelo de perfil e uma planta 

- A interpretação das fontes - de duas para três dimensões (Conteúdos IA)

A ligação intrínseca entre estas fontes ocorreu de uma forma quase fortuita. Depois de inquirir numa página das redes sociais se alguém possuía, ou conhecia alguém que possuísse, um drone com câmera termofráfica para tentar descobrir por esse processo as estruturas enterradas do castelo, tive uma resposta inesperada de um leitor: não possuía semelhante artigo - drone ou câmera de infravermelhos - mas poderia, se eu quisesse e o ajudasse, construir uma maquete do castelo de Alfeizerão. Essa resposta veio de um professor que mora em São Martinho do Porto, de seu nome João Taurino, que já estava habituado a criar maquetes - dioramas criados por ele com fortalezas na margem de rios, maquetes a representar determinado imóvel por encomenda direta de firmas de venda de imobiliário e, não diretamente associado mas ajuda sempre ter um sentido ou sensibilidade artística no ato de criar, a mesma pessoa tinha um traço excelente, os desenhos que partilhava na Web comprovavam-no.

A maquete foi criada e encontra-se salvaguardada com inteira justiça por quem a criou. As fontes documentais que mencionamos aqui contribuíram para a sua elaboração mas, e é um mas com underline, ver a maquete construída ou ensaiada permitiu-me corrigir algumas opiniões prévias que sustentava, questionou-me sem palavras e sugeriu soluções e hipóteses. O nosso artigo de síntese sobre as quatro gravuras do castelo, com grande probabilidade, não teria nascido se eu não tivesse visto o castelo em maquete. A maquete e o texto contribuíram um para o outro, por assim dizer, e naturalmente que me sinto grato ao senhor João Taurino por essa oportunidade.

Figura 3: A maquete do castelo. 
Autor: João Taurino
Imagens de uma publicação de 2024 da sua página pessoal

E uma vez mais, voltamos agora a essa maquete. A maquete do castelo esteve patente na Casa do Povo de Alfeizerão, a coincidir com a Exposição de Presépios que aí se realizou em dezembro de 2022 e nessa ocasião fotografei a maquete com mais critério. Com o desenvolvimento de novas ferramentas de edição ou "invenção" da imagem (leia-se IA), tentei aproveitar uma das imagens da maquete que possuía para procurar convertê-la numa ilustração minimamente credível da fortaleza airosa que pouca ou nenhuma guerra fez e que fez o favor de se esconder no meio do mato para não incomodar quem incomodado parece viver com tal espécie de discretos monumentos sem espavento ou fecundidade política.

Usei O CHATGPT para transformar a maquete numa ilustração e lapidei esse resultado até onde me foi possível. Sabem os utilizadores experientes desta ferramenta que os resultados imediatos da edição com IA só podem produzir itens medíocres, basta olhar em volta e constatar a súbita monotonia que reina nos produtos de marketing e publicidade que invadiram as nossas vidas, dos prospetos de festas de aldeia aos eventos cosmopolitas para lançamento de um novo produto comercial. Por outro lado, a ferramenta possui, por ora, limites que é difícil transpor. É seguro que esta imagem que vos apresento de imediato conheceu dezenas de edições desde o estado de maquete, avanços e recuos sucessivos, nos quais, muitas vezes, um novo erro surgia a cada tentativa de corrigir um erro anterior, sem que o impasse se desfizesse por completo. Mas é o que existe, a imagem traduz o equilíbrio possível nessa edição.



- Minimizando alguma sugestão de anacronismo ou questões estéticas, importa indicar nesta ilustração:

  • Como trabalho prévio, tentei supor como seria o vale e a lagoa de Alfeizerão vistos de nascente para poente, possuindo como guia um mapa topográfico do vale e a reconstituição elaborada pela geógrafa Virgínia Henriques a partir de estudos e sondagens. O resultado final ficou muito longe dessa abstração que tentei implantar de início, por alterações que iam ocorrendo a cada tentativa de melhorar alguma coisa. 
  • Outros detalhes mais ou menos significativos: 
  • Os cubelos redondos do castelo são mais largos do que deveriam ser.
  • Os dois torreões que ladeiam a entrada do castelo não possuem o mesmo diâmetro.
  • A planta da muralha mais a ocidente ficou apenas ligeiramente curva para dentro, em vez do recuo recortado que se vê nas gravuras e que possui como explicação a configuração do próprio terreno, como ainda hoje se pode constatar no lugar - o desenho da muralha acompanhava a reentrância angular do terreno onde o castelo se implantou.
  • A torre de planta quadrada é na verdade apenas quadrangular e as suas dimensões eram muito maiores nos ensaios iniciais de reconstituição do castelo. Foi pelas suas dimensões que, por exemplo, William Beckford a conseguiu avistar na berma do caminho a poente do castelo, desenhando-a no lusco-fusco de uma viagem para a cidade das termas.
  • A muralha barbacã teria de ser mais avançada para norte, porque é nítido que assim era nas gravuras.
  • Por fim mas igualmente importante, o lado funcional da mobilidade junto às ameias revela-se um caos, quase nunca conseguimos que as muralhas possuíssem o seu adarve ou caminho de ronda e o mesmo para as entradas para as torres ou as escadas internas de acesso ao adarve que, por exemplo, a maquete do castelo conservava na muralha mais a poente.

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Notas:

(1)  Sobre as quatro imagens distintas do castelo de Alfeizerão, elas podem ser acedidas a partir de uma publicação nossa que se encontra online: "Um castelo alto, grande e antigo: alguns elementos para um risco conjetural do castelo de Alfeizerão". Por acréscimo e sobre a fortaleza, existe no website da Junta de Freguesia de Alfeizerão uma síntese e cronologia da História do castelo. Se o leitor preferir ver de perto esses quatro vistas do castelo pode, caso passe pela vila de Alfeizerão, encontrar reproduções dessas gravuras expostas nas paredes do Café Pastelaria "O Castelo", aí colocadas por louvável iniciativa dos seus proprietários.

(2) Cota A.H.M.O.P.  D-41-B, Folha XVIII. O espólio do antigo A.H.M.O.P - Arquivo Histórico do Ministério das Obras Públicas encontra-se à guarda da Biblioteca e Arquivo do Ministério da Economia.

(3) Arquivo BPMP, C-M&A, Pasta 24(36)

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

No dia de S. Bernardo (20-08-26), uma evocação da história lendária da implantação dos primeiros monges cistercienses



«Mais coisas encontrareis nos bosques do que nos livros; as árvores e as pedras podem fazer-vos ver o que os mestres nunca saberão ensinar-nos. Pensais por acaso que não podereis sugar mel das pedras e azeite da rocha mais dura? Será que as montanhas não destilam doçura?»
(Bernardo de Claraval, Epístola 106)


Conta Frei Bernardo de Brito que, depois de conquistada Santarém e Lisboa e todas as terras para norte que até então tinham estado nas mãos dos sarracenos, D. Afonso Henriques acompanhou os monges cistercienses que São Bernardo enviara para dar princípio ao Mosteiro.

«Partiu El-Rei D. Afonso e seu irmão D. Pedro pelo caminho de Leiria e daí para Alcobaça onde então não havia sinal nenhum de povoação nem memória de moradores, senão matas bravíssimas e quase impenetráveis pela grande abundância de arvoredo silvestre e discorrendo os religiosos por uma parte e por outra com desejo de acharem o lugar que Nosso Padre São Bernardo lhes indicara e o sítio cercado de dois rios, depois de muito trabalho vieram ter a um vale que agora chamam de Chaqueda e vendo ali algumas confrontações que buscavam, assentaram que ali se desse princípio ao Mosteiro. Desocupou-se um pedaço de terra capaz e limpo de matas e se estenderam nele as cordas e medidas que os monges traziam. No dia seguinte, quando quiseram abrir os fundamentos [fundações] nos lugares das medidas, não se as acharam e todos se entristeceram, mas considerando que seria outro o lugar onde o Senhor fosse servido que se fundasse o Mosteiro, mandaram muitas pessoas por aqueles vales para procurar as medidas e as cordas. El-Rei com os monges se foram ao longo do rio contra a parte do Ocidente e sendo achado quase a meia légua, onde aquele rio se juntava a outro, em uma relva chã coberta de mato raso, acharam as medidas armadas com tão boa ordem e concerto como se as pusera algum oficial primeiro. Tocou El-Rei uma corneta de monte que sempre trazia consigo, para que acudissem todos aqueles que mandara revolver aqueles vales, e quando vieram, acharam o novo modo de maravilha, julgada pela traça e bem acomodada composição qual poderia ser o Mosteiro nascido daquela obra.

«Naquele lugar, depois se limpar o sítio de todo o género de mato, abriu-se os fundamentos de uma igreja no segundo dia de Fevereiro de 1153, a que todos chamaram depois Santa Maria a Velha [hoje a Igreja de Nossa Senhora da Conceição» (Brito, 1720, 325-326)..

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BRITO, Bernardo de - Chronica de Cister : onde se contam as cousas principaes desta ordem, & muytas antiguidades do reyno de Portugal : primeyra parte, 1720, Lisboa Ocidental. Oficina de Pascoal da Silva.

domingo, 9 de agosto de 2026

Piratas turcos nas Berlengas (1674)



Detalhe do mapa "Portugalie et Algarve", de Mercator/Cloppenburg, 1630


1 - Dois assentos de óbito da paróquia de São Martinho do Porto

«Em os vinte e quatro dias do mês de Junho de mil e seis centos e setenta e sinco annos chegou nova certa que era falecido Gaspar Farto, mareante e morador que foi em esta villa, o qual embarcando na Pederneira em hum nauio [navio] que sua Alteza naquela Ribeira mandou fazer, e indo acompanhado de huma fragata de guerra que o comboiava, sendo defronte da Berlenga os Turcos queimarão [queimaram] a fragata e capturarão o nauio que levarão a Argel com trinta e sinco pessoas desta villa e da Pederneira, entre os quais hia o dito Gaspar Farto que faleceo no Hospital que os Reis de Castela sustentão naquela infame terra, para nelle se curarem os pobres e aflictos captivos. Este, diziam, faleceo com todos os sacramentos e esta sepultado no Cemeterio do mesmo Hospital. Deos lhe de sua Gloria e a todos nós sua graça Divina, feci dicto die ut supra. Antonio Deniz Coresma».

 

«Em os trinta dias do mês de Setembro de mil e seis centos e setenta e seis annos fis os officios pella alma de Manoel Rodrigues, morador que foi em esta villa e mestre de hum nauio de Sua Alteza que os mouros capturarão quando se queimou a fragata chamada Piedade que o comboiava da Pederneira carregado de madeira para o mesmo ____ [destino?]; esta desgraça susedeo no anno de seis centos e setenta e quatro, no mes de setembro; de prezente ueio noua [que]o dito Manoel Rodrigues captivo falecera, e se dis fes testamento que athe agora não ueio, Deos o tenha em sua Glora e a todos nos conserue em sua Graça, feci dicto die ut supra. Antonio Deniz Coresma».

(ADLRA, IV/26/A/33, Registos de óbito da freguesia de São Martinho do Porto: 1666-1733, fólios 12r, 13v)


2 - Anotação

Na tentativa de complementar o teor destes dois assentos, cotejamos sem sucesso os assentos com estas datas nos livros paroquiais de diversas paróquias do litoral e próximas a ele, entre Peniche e a Pederneira. No caso de Salir do Porto, os assentos de óbitos que chegaram até nós começam em data ulterior, no da Pederneira, a fonte mais "provável", há um hiato nos assentos paroquiais de óbito para as datas entre 1664 e 1685.

Sobre a fragata "Piedade" mencionada no assento de óbito de Manuel Rodrigues, e socorrendo-nos do levantamento feito por Pedro Cruz (v. fonte), uma hipótese plausível é a fragata de guerra "Nossa Senhora da Piedade", para a qual se indica as datas entre 1667 e 1672 (?), acrescentando-se que aparece em Lisboa no ano de 1667. Poderia ser esta a fragata incendiada pelos piratas? 

Por curiosidade, nesta relação surge um outro navio, a fragata ou fragatinha de 28 peças com o nome próximo de "Nossa Senhora da Piedade e Santo António", que foi construída em 1697 nos estaleiros de São Martinho do Porto e cuja história militar se irá desenrolar nos mares da Índia. Também construídas em São Martinho e no mesmo ano de 1697, assinala-se a fragata Nossa Senhora das Brotas, de 52 peças, que terá Timor e a Índia como destino, e a fragata ou fragatinha Bom Jesus de Mazagão, de 36 peças, que largou para a Índia em 1698.


Fonte: 

CRUZ, Pedro, "Navios da Real Marinha de Guerra Portuguesa - XVII, II, de 29 de março de 2015, weblog "Marinha de Guerra Portuguesa". 

Url: https ://marinhadeguerraportuguesa.blogspot.com/2015/03/navios-da-armada-portuguesa-xvii-xviii_29.html


sábado, 25 de julho de 2026

A Guerra Civil Portuguesa e os lugares que conhecemos: uma carta ilustrativa do Barão de Sá da Bandeira para o Conde de Saldanha (1833)


(imagem editada com IA)


 Ill.mo Ex.mo Snr.

A surtida marítima que mandei efectuar no dia 20 do passado mês [setembro], segundo já informei a V. Ex.a, foi dirigida ao porto de São Martinho, para dali marchar para Alcobaça, onde achou o Convento abandonado pelos frades 1. Recolheu depois a esta Praça, tendo-se-lhe apresentado no caminho muitos Milicianos e Paisanos, e trazendo alguns cavallos e muares para a artilharia.

No dia [espaço em branco] recebi uma carta do comendador Rocha Pinto, dando-me parte de que na praia do Salgado, ao norte de São Martinho, naufragara o barco a vapor City of Waterford, salvando-se todas as pessoas, mas perdendo-se a valiosa carga que o mesmo barco trazia; pedindo prompto socorro contra as guerrilhas que a cada instante esperava.

Fiz sair imediatamente uma canhoneira e mais barcos de que pude dispor, prometendo prémios elevados aos primeiros que ali chegassem apesar do vento contrario. Por terra fiz partir uma força de duzentos homens, comandada pelo Major Mesquita, com ordem de se dirigir com a maior rapidez para São Martinho. Este oficial executou perfeitamente as suas instrucçoens, fazendo uma marcha trabalhosa de mais de oito legoas por um terreno pantanoso em parte, durante toda a noute, e soffrendo um vivo tiroteio no sítio do Arelho, tendo consigo o Major Urbanski quando dispersou o inimigo e chegando a São Martinho de madrugada; aonde achou a expedição marítima, que já tinha salvado os passageiros do poder das guerrilhas, que apenas tiverão tempo para levar a tripulação do barco a vapor.

Em 27, chegou a este porto de Peniche o Almirante Visconde do Cabo de São Vicente [Charles John Napier], com o qual me dirigi a São Martinho; ficando eu ali para reconduzir as tropas a esta Praça e partindo o Almirante para Lisboa com os passageiros naufragados.

Nos quatro dias que as nossas forças se conservarão em São Martinho, apresentarão-se-lhes 40 a 50 Paisanos e Milicianos, que pedirão armas.

Em 28 entrou em São Martinho um barco a vapor com 500 homens, comandados pelo T.e C.el Shaw: mandei logo marchar sobre as Caldas a força que ali tinha e no dia 29 dirigi-me com a força reunida para a dicta Villa; e dali para Obidos. A meio caminho encontrei os rebeldes com os quais engajamos um vivo fogo, que durou por mais de uma hora; porque me demorei à espera de forças que tinha à rectaguarda: logo que estas se me reunirão carreguei o inimigo, o qual se retirou immediatamente para Obidos, de donde nos fizerão um vivíssimo fogo de artilharia e fusilaria; fis alto, coberto pela Igreja do Snr. da Pedra e mais edifícios, esperando os nossos que tinha mandado vir das Caldas; e as forças que de Peniche me devião coadjuvar nesta operação, consistindo em 150 homens, uma peça de seis e um obus. Pelo espaço de tres horas que se manteve alto, o inimigo não usou o seu fogo, apesar de não darmos um só tiro.

Recebidos os mantimentos, pus-me em marcha, seguindo as alturas visinhas com o fim de tomar a estrada de Obidos a Lisboa, da qual me seria fácil comunicar com a columna que de Peniche se dirigia tambem a Obidos, aonde cheguei, achando a Villa completamente abandonada pelos rebeldes, e occupada pelas nossas forças saídas de Peniche, ás ordens do T.e C.el Lucotte, de parte de Cassadores 12, comandada pelo Cor.el Queiroz, e de alguns cavallos da 10, que o C.el Nepomuceno de Macedo fes á pressa desembarcar e pessoalmente dirigiu: prestando um muito obrigado a este ultimo pela rapidez com que me prestou todos estes auxílios, que poderiam ser de mais decidida utilidade se os rebeldes soubessem dispor das forças que tinhão, as quaes segundo as nossas que os encontrarão, constavão de 600 homens de tropa, e uns 300 a 400 guerrilhas.

Tambem sou muito devedor a todos os comandantes dos diversos corpos que comigo operarão, principalmente ao T.e C.el Shaw, e ao Cap.am Pereira de Cassadores 3. O T.e C.el Lucotte recebeu muito bem as ordens de que foi encarregado.

O nome do sargento-ajudante que foi gravemente ferido e que se comportou muito bem é Dupouilles.

O numero dos apresentados é considerável, mas não o posso designar por causa da rapidez com que me separei dos corpos a que ficarão pertencendo. Fizemos também alguns prisioneiros.

 

Ao Ill.mo e Ex.mo Sr. Conde de Saldanha

 

D.o G.al Mil. [Depósito Geral Militar], Peniche, 1 de Outubro de 1833

Barão de Sá da Bandeira

C.el A. C. de S. M. I. [Coronel Ajudante de Campo 

de Sua Majestade Imperial] - Gov.or de Peniche

 

|___|___|

1  O mês de outubro de 1833 é a data convencionada para a saída dos monges do mosteiro de Alcobaça. Esta carta do Barão de Sá da Bandeira, de 1 de outubro desse ano, faz recuar ligeiramente essa data, uma vez que a 20 de setembro os militares já encontram o Mosteiro abandonado.


Arquivo Histórico Militar, PT/AHM/DIV/1/19/209/01 – “Correspondência de várias entidades para Agostinho José Freire, ministro da Guerra, sobre movimentos dos partidários do Exército do Usurpador na Extremadura…”, pp. 150-153.


sexta-feira, 22 de maio de 2026

Um baldio no rossio de Alfeizerão, ano de 1635 (proposta de transcrição)


1635 Dezembro, 21 - Petição do Licenciado João Baptista, Vigário de Alfeizerão, por que pede ao Mosteiro um pedaço de terra no Rossio para fazer uma Eira, a qual se lhe deu por apegação [ant. termo jurídico] de pagar dela o foro da terra.

ANTT, Ordem de Cister, Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, liv. 28, f. 9r-9v *


Diz o Licenciado João Baptista**, Vigário da paroquial igreja de Alfeizerão que ele, suplicante, tem necessidade de um pedaço de terra no rossio recio»] que está junto à dita vila para fazer uma eira e porque o lugar aonde a quer fazer está baldio e não faz prejuízo a pessoa alguma.

Para o Vigário e mais vizinhos lhe façam mandar demarcar, porquanto a câmara da dita vila se intrometa a dar as ditas sisas e sesmarias no dito rossio, ele, suplicante, havendo alguma dúvida nesta parte, o quer defender à sua custa e no nome deste convento a quem sempre pertence a data [o que se dá] dos ditos baldios.

Há por bem o Padre Geral e mais Convento de dar ao suplicante de sesmaria a terra que pede, a qual já me andasse [sic] pagava delas pelo foro da terra, somente constando por vedoria, não faz prejuízo a alguma pessoa ou adireus [herdeiros] que nela tenha, e querendo a Câmara encontrar esta data, o suplicante a defenderá às suas custas, para isso se lhe dará procuração bastante e em tempo algum //  se aja esta terra por da igreja da dita vila de Alfeizerão nem a ela a poderá deixar o dito suplicante. E os padres ou padre a que for cometido esta vedoria, demarcarão esta terra, de que farão termo assinado, eles e pelo suplicante para se por no Cartório deste Convento com o traslado deste despacho dado em capítulo, hoje, 21 de dezembro de seiscentos e trinta e cinco anos, Frei Arsenio da Paixão o fez por mandado do Nosso Reverendíssimo Padre Geral.

[Assinaturas: Frei Arsenio da Paixão e Abade Geral]

O Pe. Frei José de Santa Maria faça esta vedoria e tudo o mais na forma do despacho acima. Alcobaça, 21 de dezembro de [1]635

O Abade Geral

Por cumprimento do mandado acima do Nosso Reverendíssimo Abade Geral, fui fazer a medição da entrega da sesmaria acima para o que dei o juramento a António Cerveira, digo, a Francisco Carreira e Diego Fernandes, ambos moradores na vila de Alfeizerão, os quais disseram pelo juramento que tomavam, que não fazia prejuízo a alguma pessoa a dita sesmaria, a qual sesmaria mandei medir e tem do nascente ao poente vinte e cinco varas de cinco*** palmos e do norte ao sul outras tantas. A qual sesmaria aceitou o Reverendo Padre Vigário com as obrigações todas do despacho acima e por ser de todo contente assinou ele comigo em vinte e quatro de dezembro de seiscentos e trinta e cinco. Testemunhas que a todo o presente estavam: Francisco de Abreu, Eusébio de Sousa Carreira, Diego Fernandes, Francisco Carreira.

[Assinaturas]

Notas:

* Na transcrição e de uma forma geral, atualizamos a grafia e a pontuação.

** Do licenciado João Baptista, pároco de Alfeizerão, escreveu Frei Manuel de Figueiredo por volta de 1780, que a sua lápide funerária se encontrava no último degrau da igreja matriz com o seguinte letreiro: «Sepultura do licenciado João // Baptista, vigário //que foi desta vila: faleceo em 1679». No último degrau da igreja, para quem sobe e à mão direita, ainda se percebe numa laje algumas letras muito gastas que não se consegue ler com segurança, de forma a saber se correspondem à lápide do vigário (cf. LEROUX, Gérard, «Frei Manuel de Figueiredo - Memórias de várias vilas e terras dos Coutos de Alcobaça (1780-1781)», Alcobaça, Jornal «O Alcoa», 2020).

*** Palavra esborratada - se antes cinco é grafado como "cinquo", aqui parece, sem certezas, uma abreviatura da mesma palavra (sinq.) porque, de facto, cada vara (correspondente no nosso sistema métrico a 1,1 m) possuía cinco palmos ou palmos de craveira (1 palmo correspondia a 0,22 m).

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Dia de Santo Amaro de 2026 - 319 anos depois do início da sua feira/festa anual

 


FEIRA E FESTA DE SANTO AMARO

 

Padre Luís Cardoso (c. 1747):

«Está no arrabalde da Vila a Ermida de Santo Amaro, com a Imagem do mesmo Santo, que tem feito muitos milagres, e no seu dia tem bastante concurso de devotos; estão no mesmo Altar as Imagens de S. Brás, e Santa Catarina.

«(…) Tem feira em dia de Santo Amaro, para o que se alcançou Provisão no ano de mil setecentos e sete, com a mercê de ser o terrado para aumento, e obras da Casa do Santo, de cuja Provisão pediu vista o Donatário, e cobra-se o terrado para o Mosteiro; dura três dias e não é franca».

CARDOSO, Pe. Luís - Diccionario geografico, ou noticia historica de todas as cidades, villas, lugares, e aldeas, rios, r... / que escreve, e offerece ao muito alto... Rey D. João V nosso senhor o P. Luiz Cardoso, da Congregaçaõ do Oratorio de Lisboa... - Lisboa : na Regia Officina Sylviana, e da Academia Real, 1747 – Tomo I, p. 278

 

O pároco, vigário Doutor Manuel Romão, em 1758:

«Tem a Ermida de Santo Amaro, que está próxima á Vila tão antiga como a mesma (…) Em o dia do Santo quinze de Janeiro é visitada de muita gente das terras vizinhas e também das remotas, que públicos milagres, e prodígios que Deus lhe tem feito por intercessão do Santo, com agradecimento lhe trazem braços, mãos, pés, dedos de cera que penduram nas paredes da casa do Santo, e suposto muitos milagres moralmente sejam certos, não me consta seja algum autêntico, nos mais dias do ano poucas vezes vem á dita Igreja gente de Romaria».

(Memórias paroquiais, vol. 2, nº 53, p. 470)

Anotação: O padre Manuel Romão era  prior de Alfeizerão desde 7 de junho de 1734, data em que tomou posse da paróquia, e responderá em 1758 ao inquérito alargado a todas as paróquias do reino realizado na sequência do sismo de 1755. O seu juízo sobre os milagres do Santo, de serem moralmente certos, mas não – indubitavelmente - autênticos, traduz a sua formação académica. Cursou na Faculdade de Teologia da Universidade de Coimbra de 1716 a 1727, alcançando o grau de Doutor a 12 de Outubro de 1727 (Código referência PT/AUC/ELU/UC-AUC/B/001-001/R/004604). A sua assinatura nos assentos paroquiais indica-nos isso e, em alguns casos, a origem albicastrense da sua família: Prior e Vigário Doutor Manuel Romão <de Castelo Branco>. 

 

A CASA DO SANTO

«Arquitetura religiosa, quinhentista. Capela de nave única e que possui galilé, opção muito utilizada nas ermidas dos séculos 16 e 17. Planta retangular, de volumes articulados em justaposição e por adossamento, dispostos com horizontalidade. Apresenta coberturas diferenciadas em telhados de duas e três águas, com beiral. A fachada principal orientada a O. ostenta galilé com quatro colunas, empena triangular, sobrepujada por cruz latina e sineira; apresenta portal recto, de ombreiras e lintel pétreo, e porta no anexo lateral direito».

(Sónia Vazão, 2004, verbete “Capela de Santo Amaro” no SIPA – Sistema de Informação para o Património Arquitetónico, IPA.00023310)

 

A imagem do santo, de pedra policromada e de pequenas dimensões, poderia datar do século XVI, segundo a apreciação de Gustavo de Matos Sequeira.

Inventário Artístico de Portugal, Distrito de Leiria», volume V, Lisboa, Academia Nacional de Belas-Artes, 1955).



[1] Provisão: acto de prover, carta pela qual se confere alguma mercê (SILVA, António de Morais, Dicionário da Língua Portuguesa, Tomo 2, p. 522, Lisboa, Tipografia Lacerdina, 1813)

domingo, 5 de janeiro de 2025

Carta de Vitorino Froes ao presidente do governo sobre a festa de Santo Amaro (1917)


Em 1917, num período histórico marcado pela questão religiosa e pela atmosfera de positivismo e anticlericalismo que se respirava na Primeira República, Vitorino Froes dirige um telegrama e uma carta a António José de Almeida, que preside ao governo do 13.º governo republicano, a fim de conseguir autorização para que se pudesse realizar a procissão do Santo Amaro. António José de Almeida seria eleito Presidente da República dois anos mais tarde.

Transcrição da: “Carta de Vitorino Froes para o Presidente do Ministério e Ministro das Colónias, António José de Almeida, solicitando autorização para a organização de festa popular” (Museu da Presidência da República, APAJA/Cx192/056)

 

 

[Resp. em 15-1-17]

 

Ex.mo Il.mo Snr.

e Meu amigo –

 

Tomei hontem a liberdade de telegrafar e V. E.Cia a pedir o especial favor de solicitar do Exmo Ministro do Interior a autorização para sahir a procissão que todos os annos se costuma fazer na minha terra, no dia 15 do corrente, dia da tradicional festa que todos os filhos d’esta freguesia d’Alfeizerão festejam com alegria.

O regedor ultimamente nomeado é um dramático pedreiro, que parece [?] impossível que huma terra que tem quatro mil habitantes esteja debaixo dos caprichos d’um figurão d’esta natureza, o unico que se julga ofendido com este acto religioso que há seculos se faz com toda a pompa e que a ninguém prejudica.

 

                                            De V. E.cia com toda a consideração e muita estima

                                            Alfeizirão, 13-1-17

 

                                            Victorino Froes