quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Contexto e estudo do «Livro das Contas da Livraria do Real Mosteiro de Alcobaça» - parte 2.ª


O fim da livraria e algumas notas sobre as suas obras

                Nos alvores do século XIX, a Livraria ou biblioteca do Mosteiro de Alcobaça está implantada no seu novo espaço, no edifício sobranceiro ao claustro do Rachadouro. A obra em epígrafe a estas linhas, o Livro das Contas da Livraria do Real Mosteiro de Alcobaça, transmite-nos, como teremos oportunidade de expor, a ideia de uma Biblioteca com uma grande vitalidade, adquirem-se periodicamente novas obras em livrarias e espólios (livros, panfletos, mapas), assinam-se periódicos (uma das grandes inovações dos novos tempos) que são depois encadernados para se guardar nas estantes, e desenvolve-se algum trabalho de impressão. Para fazer face a esse trabalho e às despesas originadas por ele, a biblioteca tinha de ter rendimentos próprios consignados pelo Mosteiro, disposição que encontramos já para a Biblioteca do princípio de 1700, segundo nos conta na sua Corografia o padre António Carvalho da Costa COSTA, 1706, P. 89): «A Religião lhe tem consignada renda em cada hum anno para a reforma & augmento dos livros».
                A vida efémera desta nova Biblioteca, desde os primeiros anos do século à partida dos monges, permitiu-lhe ainda assim conhecer um flagelo sem paralelo na História do cenóbio, com as destruições provocadas no Mosteiro pelas tropas de Massena no ano de 1811.
                Um testemunho eloquente dessa destruição é uma carta, não assinada, publicada na Gazeta de Lisboa de 9 de Maio de 1811 (Gazeta de Lisboa, n.º 110, Impressão Régia, Lisboa), pouco depois dos eventos. A referência na carta ao «meu Prelado maior» deixa suspeitar que seria um religioso (monge de Alcobaça?), impressão reforçada pelas duas referências feitas à literatura francesa, Fénelon e Bossuet, dois teólogos que se posicionaram nos dois extremos do espetro político, liberalismo e absolutismo. Transcrevemos literalmente essa carta:

LISBOA, 9 de Maio
Cópia de huma Carta de Alcobaça, de 30 de Abril
                Cheguei a esta Villa, e encontrei ainda muitos vestigios da precipitada fugida de Massena; e juntando a estes muitos outros, que tenho diante dos olhos, penso que o Redactor da Gazeta de Lisboa não deve ser acusado de exaggeração, quando elevou a sua perda em cavallaria em mais de 80 praças. O contagio, que he a consequencia natural do abandono e miseria em que ficarão muitas povoações que não forão evacuadas inteiramente á chegada dos Francezes, continua a fazer muitos estragos naquellas, em que os auxilios de Medicina são ainda muito escaços. Nesta Villa, porém, graças ao meu Prelado maior, que trouxe uma grande quantidade de Agoa de Inglaterra, e hum Medico para assistir aos enfermos, estes são já em pouco número, e ha oito dias que cheguei aqui, tem morrido 2 ou 3 pessoas, o que não tem proporção alguma com o estrago de outras povoações, onde morrem todos os dias, pelo menos, 6 pessoas.
                Tenho observado com atenção as espantosas ruinas deste Mosteiro; confesso-lhe que me parecem mais horríveis do que julgava. A Igreja toda denegrida pelas chamas, que consumirão totalmente o Coro; as naves que sustentavão os órgãos, todas estaladas, offerecem hum golpe de vista muito desagradavel. Nota-se que as Imagens de Jesu Christo, Nosso Salvador, e de Nossa Senhora forão as mais insultadas, apparecendo quasi todas inteiramente desfiguradas, ou com as cabeças cortadas. Outras tem os rostos denegridos, e conhece-se que he por lhes terem applicado vellas acezas; em fim a Religião dos Soldados de Buonaparte apparecerá em toda a sua luz a quem examinar a Igreja de Alcobaça.
                Na casa dos Tumulos Reaes fizerão insolencias, que revoltão os espiritos mais indiferentes. Abrirão quasi todas com martello e picareta, donde resultou ficarem estragados, e mormente os do Sr. D.Pedro I, e D. Ignez de Castro, que erão primorosamente lavrados. As Rainhas D. Beatriz e D. Urraca, apparecerão inteiras, e aquella ainda com os proprios vestidos com que foi sepultada. O Corpo do Sr. D. Pedro I, estava perfeitamente organisado, não assim o de D. Ignez, de quem só existião ilesos os cabellos. Em tres pequenos tumulos jazião tres Infantes, cujos restos não apparecem. As grandes aberturas que fizerão nos mais, já forão tapadas.
                Na Livraria deixarão monumentos incontrastáveis do seu amor ás letras. despedaçarão mezas, cadeiras, escadas, vidros, parte das varandas, e lançarão para a cerca muitos livros, que se estragarão com o tempo, e que felizmente não eram os melhores, que muito antes forão postos a salvo. Rasgarão muitos, e he sensivel a perda de quatro globos, dois terraqueos, e dois celestes, de que só existem alguns pedaços.
                Na Hospedaria ficou salva huma casa ou sala, chamada dos Reis, ou por acaso, ou para vermos os nossos Monarchas viipendiados, e com effeito estragarão, ou rasgarão todas as suas pinturas.
                Da relação antecedente se póde colligir qual he o gosto, que tem pelas sciencias, e pelas artes os satellites do Tyrano Napoleão. Com he crível que estes homens sejão os habitantes da mesma Patria dos Fenelons, e dos Bossuetes? Huns monumentos augustos, como os de Alcobaça, e da Batalha, que tinhão respeitado os seculos, vierão a ser destruidos por esta raça perversa de Soldados embrutecidos! A sua destruição porém não pôde ser completa, e cuida-se em reparar os seus estragos; aquelles que forem reparaveis.

                Pela carta, ficamos a saber que os monges se haviam precavido contra a ação dos franceses, escondendo as suas obras mais importantes. Depois deles partirem, foi chegada a hora de reparar alguns dos estragos, e os restauros na Livraria devem ter acompanhado os do resto do Mosteiro, reconstrução que pela sua dimensão, terá sido demorada. O Livro das Contas da Livraria (BNP, cod-7353), que se inicia de forma não regular a 5 de Outubro de 1811, não menciona obras no primeiro triénio (1810-1811-1812), mas o ano que abre o triénio seguinte, 1813, descrimina restauros na Livraria coerentes com o teor da carta: madeira e ferragens para as mesas pequenas e a jorna dos oficiais que consertaram as ditas; vidros e caixões (caixilhos) para eles e «outras coisas precisas para o conserto das vidraças da Livraria». No ano de 1814 prossegue a recuperação da Livraria: compra-se um pranchão de madeira para se consertar as mesas grandes da Livraria, pagando-se as jornas dos carpinteiros para a obra. Paga-se também a jorna de homens contratados para raspar as estantes, certamente para as restaurar.
                A Biblioteca e o Mosteiro refazem-se como podem no coração dos coutos de Alcobaça onde a passagem dos franceses e a epidemia que campeava pelas terras matou muita gente, deixando aos que regressavam às suas terras e casas, a certeza de uma vida difícil envolta pelo espetro da fome. Um decreto de 31 de Março de 1811 (GAZETA DE LISBOA, nº 79, de 2 de Abril de 1811, Impressão Régia, Lisboa), assinado em nome do Príncipe por D. Miguel Pereira Forjaz e pelo desembargador Sebastião Xavier Botelho, determina que se regularize os portos do Tejo para daí se fazer remessas para os pontos da costa de forma a aprovisionar mais facilmente as comarcas do interior como Leiria ou Alcobaça. Estabelece-se que, de quinze em quinze dias, partiriam de Lisboa embarcações carregadas com os géneros que as pessoas pudessem oferecer, e que se dirigiriam aos portos de Peniche, S. Martinho e Figueira para levar essa ajuda aos que dela precisavam. Noutro despacho, datado de 15 de Abril de 1811 (GAZETA DE LISBOA, nº 89, de 15 de Abril de 1811, Impressão Régia, Lisboa), declara-se que o Governo, procurando aliviar as calamidades causadas pelo inimigo com a invasão das terras que ocupou, determinou a efetiva distribuição pelo território do reino, de 1000 moios de grão a um preço simbólico (1050 réis a metal cada alqueire), que deveriam ser embarcados para dez pontos da costa. Ao porto de S. Martinho seriam enviados 120 moios de grão para a comarca de Alcobaça, enquanto a comarca de Leiria teria direito a 230 moios de grão que lhe chegaria por S. Pedro de Muel. No que toca apenas às rendas atribuídas à Livraria ou Biblioteca, sabemos pelo respetivo Livro das Contas que no ano de 1810, quando os Franceses ocupavam a região, o Mosteiro perdoou ou declinou as rendas ordinárias que lhe eram devidos e alguns foros das Quintas do Mosteiro; e que em 1811, perdoou metade das rendas ordinárias para, no ano seguinte, 1812, escusar à cobrança um quarto das rendas ordinárias que recebia, sendo depois disso cobrados normalmente esses rendimentos.
                Com a Revolução de 1820, o Mosteiro de Alcobaça entra num período delicado da sua existência com os progressos dos liberais no sentido de abolir a estrutura senhorial do reino a servir de estímulo para a contestação social crescente dos direitos e foros que se encontravam fixados nos forais das vilas dos coutos. A 20 de Março de 1821 é publicado o decreto (COLLEÇÃO DA LEGISLAÇÃO MODERNA PORTUGUESA, 1823, pp. 30-31) que, entre outras especificações, extingue todos os serviços pessoais feitos pela própria pessoa ou com animais, fundados em Foral (artigo 1.º) e igualmente, «todos os Direitos chamados Banaes que são os de Fornos, Moinhos e Lagares de toda a qualidade» (artigo 2.º), obrigações e prestações consistentes em frutos, dinheiro, aves ou cereais impostas aos habitantes de qualquer povoação, ou distrito, a favor de algum Senhorio (artigo 3.º); e finalmente, no Artigo 4.º, extingue-se «o Privilégio chamado de Relêgo, pelo qual «a Coroa, Donatarios della, ou quaesquer outros agraciados, tinhão a venda exclusiva dos Vinhos em certos meses do anno». A 5 de Junho de 1822, um novo Decreto (COLLEÇÃO DA LEGISLAÇÃO MODERNA PORTUGUESA, Tomo II, 1823, pp. 34-38) determina a reforma dos Forais «considerando que os foraes dados às diversas terras do Reino nos primeiros tempos da Monarquia excessivamente oprimem a Agricultura, tornando-se indispensável diminuir ao menos este gravame quanto seja possível e prescrever regras certas, e claras, que substituão a confusão, e quasi infinita variedade daquelles antigos títulos». Entre outras disposições (o decreto compõem-se de 25 artigos diferentes), dita-se que as quotas incertas estabelecidas por forais e os foros e pensões certas nelas contidas seriam reduzidas a metade da sua vigente importância (Artigo 1.º), a suspensão dos laudémios (Artigo 4.º), abrindo-se ainda a possibilidade do lavrador ou foreiro proceder à remissão da pensão ou foro segundo condições estabelecidas no próprio decreto (Artigo 18.º).
                O decreto de 1821 e o da reforma dos forais refletem-se de imediato no Livro das Contas da Livraria. No período entre 1 de Maio de 1821 e o último dia de Abril do ano seguinte, o Mosteiro apenas consegue receber os direitos de cinco das oito Quintas em que habitualmente os cobrava, e apenas um dos foros costumeiros (o de uma azenha na Mata da Torre), ficando os outros em dívida. Nos dois anos seguintes, o quadro mantém-se nas suas linhas gerais.
                A situação financeira do Mosteiro sofre um grande impacto com estes dois decretos, e na sessão das Cortes Constituintes, é apresentado um requerimento dirigido à Comissão de Agricultura pelo Abade do Mosteiro de Alcobaça (DIÁRIO DO GOVERNO, 1822, p. 1219), no qual este pede certas alterações na Lei dos Forais e «expõe que ela reduz as rendas daquela Corporação ao mais lamentável estado, e que finalmente ela tem por fim promover a anarquia entre os povos». Depois de alguns debates, e seguindo a opinião da Comissão, o requerimento é indeferido, e chega-se a ponderar a possibilidade do Abade ser repreendido nas Cortes por denegrir a finalidade da Lei dos Forais.
                A «anarquia» mencionada pelo Abade traduz o clima de instabilidade e revolta que se instalara nos coutos, com foreiros e Câmaras a desafiarem os quarteiros enviados pelo Mosteiro para arrecadar os direitos e foros. A reação aos decretos do vintismo vai proporcionar ao Mosteiro um novo alento e um último período de prosperidade - o seu canto de cisne. A Carta de Lei de D. João VI de 4 de Junho de 1824, publicada em suplemento na Gazeta de Lisboa do dia 5 desse mês (GAZETA DE LISBOA, 1824, p. 625) revoga as leis e decretos da «monstruosa Constituição de mil, oitocentos e vinte e dois», e restitui a vigência dos forais tradicionais, mantendo no entanto suprimidos os Direitos Banais. Precedido por diversas tentativas políticas e militares de conduzir D. Miguel ao poder, este regressa do exílio e é aclamado rei a 23 de Junho de 1828, apressando-se a contrariar o que fora implementado pelos liberais.
                Para o mosteiro e convento de Alcobaça, a opção era óbvia entre uma fação liberal que era a antítese do seu domínio senhorial e dos seus privilégios, e um rei contrarrevolucionário e tradicional na pessoa do qual os seus interesses ficariam escudados. O apoio incondicional ao rei D. Miguel ficou claro no Auto de Preito e Vassalagem que lhe consagraram, redigido a 9 de Outubro de 1831, onde, além do próprio Abade, assinaram Frei Francisco de Castro, Secretário-geral da Congregação; Frei Manuel de Morais, Visitador Geral; e Frei José de Mendonça, Definidor.
                Esse compromisso sitiou os religiosos do Mosteiro após as vitórias liberais de 1833 e, sobretudo, a capitulação de Lisboa a 24 de Julho de 1833. Mesmo com a corte de D. Miguel deslocada para Santarém, a causa sabia-se perdida e o desfecho inevitável.
                Narra Manuel Vieira Natividade (NATIVIDADE, 1885): A primeira vez que os frades de Alcobaça abandonaram o mosteiro foi em Julho de 1833. Voltaram depois, e essa fuga repetiu-se com pequenos intervalos até princípios de Outubro em que um grito de alarme mais positivo os obrigou a sair de vez (...) em 16 de Outubro de 1833 opera-se em Alcobaça um levantamento liberal, destruindo de uma vez todas as dependências que havia dos senhores dos coutos (...) Apossaram-se da livraria, das alfaias, das mobílias, de tudo o que sem grande custo podiam levar, e senhores de tudo, destruíram, venderam, inutilizaram. Foi um verdadeiro saque que durou onze dias sem que ninguém se lhe opusesse, sem que ninguém lhe lembrasse que faziam um roubo às artes, às ciências e ao Estado. Os soldados de uma divisão francesa que estava em Peniche, e que acudiu aos gritos dos revoltosos, foram os que mais prejudicaram o mosteiro. A livraria foi na maior parte dividida entre eles, sendo-lhes ainda apreendidos nas Caldas muitos livros de grande importância.
                Uma narrativa aproximada é-nos dada por uma carta coletiva enviada ao redator do jornal Nacional, e que integrou o processo do Corregedor António Luís de Seabra (SEABRA, 1871, pp. 27-28): Os monges de S. Bernardo abandonaram o convento em 26 de Julho de 1833; e só três meses depois, em 27 de Outubro seguinte, deu entrada nesta vila o Corregedor António Luís de Seabra. Foi nesse período que os povos dos coutos de Alcobaça e da serra vizinha, que odiavam nos frades os seus opressores e viam neles a causa das perseguições políticas que o governo de D. Miguel tinha por aqui exercido em larga escala, foi então, repetimos, que os povos invadiram e talaram as ricas propriedades do mosteiro, apoderando-se a seu bel-prazer dos móveis, alfaias e frutos que encontraram ao abandono. Nestas correrias tomaram uma parte importante a guerrilha do Vasa, de Santa Catarina, e uma força de franceses dos que estavam nesse tempo em Peniche.
                Na sua fuga em direção aos mosteiros cistercienses de Salzedas e Maceira Dão, os monges haviam já levado consigo os livros que compunham o seu Cartório, e aqueles ditos livros proibidos que se guardavam aos olhares dos comuns nos gabinetes contíguos ao salão da Biblioteca; os livros do Cartório foram depois apreendidos na Beira Alta pelo seu Prefeito (SEABRA, 1871, p. 16). O Auto de Exame da Livraria de Alcobaça, de 15 de Novembro de 1834, confirma que se havia recuperado os livros do Cartório, e que este havia sido achado no convento de Maceira Dão (RASQUILHO, 2015).
                Num nosso artigo anterior (O trilho dos manuscritos do Mosteiro, de Fevereiro de 2015), delineamos o caminho dos códices da Livraria a partir das alegações do Visconde de Seabra (SEABRA, 1835; e SEABRA, 1871) e dos estudos sobre o tema do historiador Paulo J. S. Barata (BARATA, 2003; e BARATA, 2004). Os manuscritos, descobertos pelo Corregedor interino de Alcobaça, António Luís de Seabra, num esconderijo na sacristia da igreja do Valado dos Frades, são encaixotados e enviados para Alfeizerão, onde o Corregedor os vai inventariar, antes dos 27 caixotes serem fechados novamente e levados para o porto de S. Martinho para serem embarcados para Lisboa. Um ofício de 24 de Abril de 1839 do Administrador do Concelho de S. Martinho do Porto, dirigido ao Vice-Secretário da Comissão Administrativa do depósito das Livrarias dos extintos Conventos, informa também da existência de onze estantes que pertenciam à Livraria de Alcobaça e que estavam guardadas em S. Martinho, no Armazém Nacional da Administração dos Pinhais Nacionais de Leiria (NASCIMENTO, 1979, p. 280), provavelmente aguardando o embarque para a capital.
                Um índice impresso dos manuscritos da Livraria, o Index Codicum Bibliothecae Alcobatie, sem nome de autor e impresso em Lisboa, na Tipografia Régia no ano de 1775, recenseia e descreve na Biblioteca do Mosteiro 476 códices diferentes. Essa cifra não é alcançada pelo número de códices alcobacenses que sobreviveram em Lisboa: 456 na Biblioteca Nacional de Portugal e 8 no Arquivo Nacional da Torre do Tombo (NASCIMENTO, 1979). Dos doze códices em falta, alguns terão sido desencaminhados antes e depois da partida dos monges de Alcobaça em 1833, mas alguns terão sido simplesmente destruídos depois do saque do Mosteiro, como testemunha em Alcobaça Manuel Vieira Natividade (NATIVIDADE, 1885): Folhas de pergaminho com lindíssimas iluminuras temos nós visto dispersas, cortadas, e muitos livros manuscritos estupidamente mutilados.
                Entre os códices cuja natureza e localização foi estudada por Aires Augusto Nascimento (NASCIMENTO, 1979, pp. 282-283), existe o caso exemplar de três grandes volumes em pergaminho (Códices 350, 351 e 352) que constituíam uma versão das obras de Flávio Josefo, compostos em fins do século XIII ou princípios do XIV por um frade de Alcobaça, Frei Damião de Óbidos. Esses volumes estavam desaparecidos da Biblioteca quando Frei Fortunato de S. Boaventura compôs a sua Historia Chronologica (S. BOAVENTURA, 1827, p. 60), e escreveu nessa mesma obra o cronista: presumo que forão roubados pela Divisão Franceza que incendiou o Mosteiro de Alcobaça. No seu estudo, Aires Augusto Nascimento localizou essas obras perdidas no acervo do Museu Britânico, ou seja, tinham sido levados, não pelos bárbaros franceses, mas pelos nossos aliados na guerra peninsular; os mesmos que, nas memórias de um militar inglês, William Grattan (GRATTAN, 1902 – a sua passagem por Alcobaça ocupa as páginas 43 a 46), se dá testemunho da sua conduta irrepreensível no teatro de guerra.
                Sobre os manuscritos, e sobre as obras impressas que se contavam em vinte e cinco milhares, existem diversos dados, mas também algumas incertezas que se perfilam como pontas soltas deste tema.
                Um dos testemunhos abonatórios da atuação de António Luís de Seabra (SEABRA, 1871, p. 81) fala-nos de dois baús com manuscritos que presumivelmente, teriam sido também encaminhados para Lisboa, mas na exposição transparece alguma incerteza sobre essa asserção. Joaquim António de Carvalho, de Porto de Mós, disse que havia sido confiado em tempos ao pai de Joaquim do Nascimento Pereira do Vale (Escrivão da Fazenda do concelho de Alcobaça) por dois padres (frades?) dois caixotes ou baús com coisas preciosas, e que ele, testemunha e um seu irmão, espiaram o conteúdo dos baús e viram que continha «livros com capas de pergaminho, alguns com folhas douradas, e manuscritos», havendo também aí «um instrumento bem trabalhado com rodas de metal, cuja aplicação ele, Nascimento, não soube, nem ninguém lhe pôde dizer e explicar, apesar da descrição que dele fez a muitas pessoas». Os baús teriam sido entregues pelo pai de Joaquim do Nascimento à autoridade constituída pelo governo constitucional, mas o tal misterioso instrumento com rodas de metal, a testemunha voltou a encontrá-lo num lugar inusitado, a casa do Escrivão do Juízo de Alcobaça, Joaquim Custódio Freire.
                Sobre os livros impressos, é-nos dito que «alguns soldados franceses venderão livros nas Caldas e em Alfeizirão, [e] que uma grande cópia delles foi levada para Peniche» e que «[se vira] as camas, colxas do convento,vendendo-se pela villa de Obidos, Caldas, Peniche, e os livros da livraria vendiam-se em Lisboa» ( [SEABRA, 1835, p. 13 e p. 125). Por seu turno, António Vitorino da Fonseca Froes (tio de Victorino de Avelar Froes), testemunha que viu «vender publicamente, pelos soldados franceses e batalhão dos Polacos da Serra, livros pertencentes ao mosteiro e que dali tinham furtado e que vendiam às cargas pelo insignificante preço de um pataco» (SEABRA, 1875, p. 70).
                O governador da praça de Peniche, segundo informação de António Luís de Seabra, tinha tratado de apreender e recolher os livros de Alcobaça que para ali tinham sido levados (SEABRA, 1835, p. 33). É o que nos dá conta a Relação dos Livros, pertencentes ao Mosteiro de Alcobaça, aprehendidos em Peniche que ficarão em poder do juis de fora desta ultima villa (BNP, co-cx19), uma relação que impressiona pela vastidão dos títulos, mas também pela sua diversidade – livros religiosos, livros de viagens, biografias, tratados de medicina…
                Um último reparo sobre o fim da livraria. Nas memórias do Dr. António Maria da Silva Brilhante (BIOGRAPHIAS, 1877, p. 206), nascido em Alcobaça a 2 de Fevereiro de 1821, e que Manuel Vieira Natividade diz ter sido o primeiro médico homeopata do nosso país (NATIVIDADE, 1885), ele fala da extinta Livraria de Alcobaça e surpreendentemente, de livros encaixotados a apodrecer sob as abóbadas do Mosteiro. Cito o parágrafo sobre a Livraria: «Estava avaliada em dois mil e quinhentos contos de réis. Eu não conheço maior sala em todo o reino: quem for visitar a livraria do Convento de Jesus nesta cidade, pode fazer ideia do molde. Lá está a casa, nua de livros, estantes e ornatos! Haverá dois anos vi estes já pôdres, encaxotados e metidos debaixo das abóbadas onde quizeram fazer a sala da exposição das Bellas Artes! E que Bellas Artes estas!...».


Bibliografia:

BARATA, Paulo J. S., Os Livros e o Liberalismo: da Livraria Conventual à Biblioteca Pública, edição da Biblioteca Nacional de Portugal, Lisboa, 2003

BARATA, Paulo J. S. Roubos, Extravios e Descaminhos nas Livrarias Conventuais Portuguesas após a Extinção das Ordens Religiosas: um Quadro Impressivo, Revista Lusitânia Sacra, 2ª série, nº 16, Lisboa, 2004.

BIOGRAPHIAS DOS MUI DISTINCTOS E MUITISSIMOS MÉDICOS, OS SRS. DR. ANTÓNIO JOSÉ DE LIMA LEITÃO E DR. ANTÓNIO MARIA DOS SANTOS BRILHANTE, Tipografia Universal, Lisboa, 1877.

COLLEÇÃO DA LEGISLAÇÃO MODERNA PORTUGUESA - Da instalaçção das Cortes Extraordinarias e Constituintes em Diante, Legislação de 1821, Tomo I, pp. 30-31, Tipografia Maigrense, Lisboa, 1823.

COLLEÇÃO DA LEGISLAÇÃO MODERNA PORTUGUESA - Da instalaçção das Cortes Extraordinarias e Constituintes em Diante, Legislação de 1822, Tomo II, pp. 30-31, Tipografia Maigrense, Lisboa, 1823.

COSTA, António Carvalho da, Corografia portugueza e descripçam topografica do famoso Reyno de Portugal, com as noticias das fundações das cidades, villas, & lugares, que contem; varões illustres, gealogias das familias nobres, fundações de conventos, catalogos dos Bispos, antiguidades, maravilhas da natureza, edificios, & outras curiosas observaçoens,  Tomo I, Lisboa, officina de Valentim da Costa Deslandes, 1706.

DIÁRIO DO GOVERNO, n. 168, p. 1219, de 19 de Julho de 1822, Lisboa

GAZETA DE LISBOA, n.º 133, de 5 de Junho de 1824, Impressão Régia, Lisboa

GRATTAN, William, Adventures with the Connaught Rangers (1809-1814), Edward Arnold, London, 1902. (versão eletrónica em https://archive.org/details/adventureswithc01omangoog).

INDEX CODICUM BIBLIOTHECAE ALCOBATIE, Lisboa, na Tipografia Régia, 1775.

NASCIMENTO, Aires Augusto, Em busca dos códices alcobacenses perdidos, revista Didaskalia, volume IX, pp. 279-288, Lisboa, 1979.

NATIVIDADE, Manuel Vieira, O Mosteiro de Alcobaça - notas históricas, Coimbra, Imprensa Progresso, 1885.

RASQUILHO, Rui (2015), “As três Bibliotecas do Mosteiro de Alcobaça”, in Caderno de Estudos Leirienses, Textiverso, Leiria, 2015.

RELAÇÃO DOS LIVROS, PERTENCENTES AO MOSTEIRO DE ALCOBAÇA, APREHENDIDOS EM PENICHE, QUE FICARÃO EM PODER DO JUIS DE FORA DESTA ULTIMA VILLA, Alcobaça, 11 de Abril de 1834 (BNP, co-cx19). Versão eletrónica no endereço http://purl.pt/27233, visitado pela última vez em 3 de Agosto de 2016.

S. BOAVENTURA, Fr. Fortunato de, Historia Chronologica e Critica da Real Abbadia de Alcobaça da Congregação Cisterciense de Portugal para servir de continuação à Alcobaça Illustrada do chronista Fr.Manoel dos Santos, Lisboa, Impressão Régia, 1827.

SEABRA, António Luís de, Observações do ex-corregedor de Alcobaça sobre um papel enviado à Camara dos Senhores Deputados a cerca da arrecadação dos bens do mosteiro daquella villa, Typographia de Eugenio Augusto, Lisboa, 1835.

SEABRA, António Luís de, Resposta do Visconde de Seabra aos seus calumniadores, Imprensa da Universidade, Coimbra, 1871.


sexta-feira, 29 de julho de 2016

Contexto e estudo do «Livro das Contas da Livraria do Real Mosteiro de Alcobaça» - parte 1.ª

Resumo:
                O Livro das Contas da Livraria do Real Mosteiro d'Alcobaça (BNP, cod-7353, versão eletrónica no endereço http://purl.pt/24965) apresenta-nos o registo minucioso das rendas e despesas da Livraria no período (final) compreendido entre 1812 e 1833. As rendas e foros atribuídos pelo Mosteiro à sua Livraria tinham a sua proveniência no interior e fora dos Coutos de Alcobaça, ao passo que o arrolamento das despesas nos permite compreender onde é que esses réditos eram aplicados. Privilegiaremos a natureza desses movimentos contabilísticos em detrimento da sua expressão financeira e do tratamento estatístico dos dados disponíveis.
                Para transmitir um enquadramento temático dessa obra, começaremos por tecer algumas considerações sobre a Livraria conventual e o seu espaço físico ao longo dos séculos, rematando essa introdução com algumas considerações sobre o fim da Livraria e o destino do seu espólio. 


Os três avatares da Livraria de Alcobaça

1 – As duas primeiras livrarias.
                Quando no início do século XIII se conclui a igreja do mosteiro de Alcobaça e os monges se transferem para aí no ano de 1227, vindos da Chiqueda; a Livraria inicial do Mosteiro, o Scriptorium, fica instalada junto à Sala dos Monges, no lugar onde depois se construiu as cozinhas do mosteiro (RASQUILHO, 2011; e RASQUILHO, 20151), e aí permanecerá até ao século XVI, quando é transferida para os dormitórios do Mosteiro, sendo assim descrita por Frei Manoel dos Santos por volta do ano de 1700 (SANTOS, 1979, p. 56): O Archivo Real do Mosteiro de Alcobaça he uma casa grande repartida em tres salas. Está situada no primeiro lanço dos dormitorios à parte esquerda; e da outra parte as cellas, ou quartos, dos Abbades Geraes, e dos seus secretarios; em tal forma, que a porta do Archivo e a dos Abbades ficam em correspondencia na frontaria do taboleiro, ou patim da escada grande que sobe do claustro. A primeira sala das tres he publica; serve de escreverem nela os tabelliaens e de se ouvirem e despacharem as partes, que tem negocio. Na segunda está o cartorio; e na ultima a livraria antiga manuscrita.
                Tratando a livraria manuscrita com nítida admiração (os pergaminhos sam alvos como a neve; e alguns tam finos, e delicados, o que nam havera papel por mais fino que seja que os iguale), o cronista fala já do descaminho que fora dado a muitos manuscritos dos mais preciosos da livraria, dado já avançado na primeira parte da Alcobaça Illustrada (SANTOS, 1710, P. 80): [os monges ] por que ainda com nam terem no seu tempo outro modo de compor senão escrevendo em pergaminho, nos deixarão huma livraria manuscrita, a qual assim truncada como está, & meyo roubada, he hum dos mais preciosos thezouros que de semelhante genero, se sabem em toda Hespanha. Neste descaminho de livros manuscritos, temos de associar os castelhanos ao tempo da dominação filipina, que Frei Fortunato de S. Boaventura (S. BOAVENTURA, 1827) acusa diretamente (ainda que essa acusação careça de uma crítica acurada) de tirarem livros importantes do mosteiro para enriquecer a coleção do Escorial.
                Na descrição da livraria, Frei Manuel dos Santos explana as partes e figuras que compõem o teto pintado (SANTOS, 1979, pp. 68-75), relato que principia assim: o tecto he de forro apainelado, repartido em 16 quadrangulos maiores com sua caixa no centro e a coxia tambem dividida em seis grandes e des quadrangulos mais piquenos tudo pintado primorosamente ao intento da livraria. Ao redor das paredes por sima das estantes vam quadros ou paineis, de preciosissimas pinturas nos quais se vem santos escritores da Ordem da figura, ou proporção, natural. Dou notícia da pintura do tecto, e depois dos escritores, que se vem nos quadros.
                Um outro relato desse teto pintado de grande riqueza simbólica e iconográfica, pode e merece ser lido no Index da Livraria composto por Fr. António de Araújo em 1656 (ARAUJO, 1656, fls. 8-15 v.), e do qual respigo duas passagens para estimular a curiosidade: O Segundo Emblema que lhe fica proximo à parte direita he a officina de hum impressor com hua letra que diz, Ex fumo in lucem, porque assim como a obra da impressão de hum tão fumozo e escuro lugar sae tão luzida, que se faz commua aos olhos de todos, assim quanto mais a vista cança cõ a continuação do estudo, e quando mais se offende os olhos com o fumo do trabalho, tanto a vista do mundo saem seus effeitos mais luzidos, ou tambem nisto se mostra que tem a sciencia tal vigor, que aqueles que nas fumozas trevas de seu abatimento vivião desconhecidos, os faz logrando luzes proprias, ficar acreditados e lustrosos. (...) O Quinto, que lhe fica fronteiro he hum Sino quebrado posto em huma torre alta; diz a letra: Ex pulsu noscitur. Hum Sino quebrado pode enganar os olhos mas não engana os ouvidos, porque pello som que da se julga se tem quebras ou deffeitos; a isto parece que alludia o filozofo Biantes, quando dezia que emquanto hum homem estava callado, se podia julgar por entendido; pellas vozes que se formão, se infere bem a discrição ou ignorancia de quem as lança: he a lingua, fiel interprete do Juízo, não pode mentir a palavra à muita ou pouca sciencia de quem a forma, e como as palavras são sobrescrito do entendimento, não pode desdizer a letra de fora as muitas ou poucas letras que dentro ficão encerradas.

                Outros três códices da BNP versam esta biblioteca “intermédia”, constituindo índices das suas obras, elaborados segundo diferentes critérios. Constituem matéria de estudo, mas sobretudo, e sobremaneira, objetos de apreciação estética pela sua composição, caligrafia e ilustrações. O Códice 7412 (AUREA CLAVIS, 1701) integra uma gravura da biblioteca (Figura 2) com o altar ao topo da sala, as estantes de livros, as duas grandes mesas de trabalho e, entre elas, o símbolo de Cristo entre um globo terrestre e um globo representando a esfera celeste; por cima das estantes, percebem-se os quadros com os santos escritores da Ordem de que fala Frei Manoel dos Santos. Os outros dois códices (Códices 7382 e 7383) são complementares um do outro, datam do Ano do Senhor de 1684 e ostentam a “assinatura” do frade «Anonimo de Castrebbedred». Do primeiro (RADIUS BIBLIOTHECAE, 1684) extraímos a planta da biblioteca (Figura 1) que corresponde à gravura do Aurea Clavis, e que servia de base aos catálogos de obras, indicando o lugar onde podiam ser procuradas ou aonde deviam regressar após o seu manuseamento.

Figura 1

Figura 2
Gravura assinada pelo autor na moldura inferior:
 Fr. Ludovico (?) José fez: Fr. Loud.is. Ioxepho fecit.

2 - A Biblioteca de 1800
                Mesmo com as condições e possibilidades criadas com a instalação da Biblioteca nos antigos dormitórios, as necessidades crescentes (os trabalhos de impressão e encadernação, a aquisição de novas obras, e a complexidade do Cartório) impunham a criação de um novo espaço dedicado a ela. Já em 1716, Frei Manuel dos Santos escreveu que na Ala a Sul do Claustro do Rachadouro estava «ideada uma Livraria», o edifício onde ela se implantaria estaria praticamente concluído em 1772 (TAVARES, 2001, P. 92), mas prosseguiam as obras no seu interior, que se prolongaram por mais duas décadas. Em 1773, D. José I determina a Wiiliam Elsden que fosse ao Mosteiro por causa das obras no Colégio e na Biblioteca; mas em 1786, quando a rainha D. Maria I visita o mosteiro, a biblioteca ainda estava instalada nos antigos dormitórios. Em 1798, o viajante alemão Heinrich Friedrich Link visita o Mosteiro e afirma que «agora está a ser arranjada uma nova e magnífica sala» para a Biblioteca (RASQUILHO, 2015).
                A mudança das obras para o novo salão junto ao claustro do Rachadouro deve ter ocorrido na viragem do século, e já aí funcionava em pleno em 1811 quando o exército de Massena devastou o Mosteiro, facto reforçado pelas informações disponibilizadas pelo Livro das Contas da Livraria do Real Mosteiro de Alcobaça, cujos assentos se iniciam em 1812.
                Manuel Vieira Natividade (NATIVIDADE, 1885, PP. 91-95) traça-nos um fresco da nova livraria:
                A livraria e o cartório estavam num dos lados do claustro do Rachadouro. O cartório situado no primeiro plano é uma espaçosa e lindíssima sala, formada por uma série de arcos que assentam sobre colunas jónicas de uma grande imponência. No plano inferior - rés-do-chão - ficavam algumas oficinas do mosteiro, tais como as de carpintaria, encadernadores, barristas, serralharias, escultores, etc.
                No plano superior, o segundo, abre um extenso corredor em todo o comprimento da sala da livraria. É esta uma elegante e formosa sala, lajeada do mais fino mármore. Mede 47,70 metros de comprimento por 12,70 de largura, e as suas estantes mediam 3,70 metros de altura. Recebe luz por vinte e duas amplas janelas em duas alturas, e por doze frestas elipsoides quase a tocar o teto. A meia altura sai uma varanda interior que rodeia toda a sala, e que dá para as onze janelas superiores. Nos golpes da parede correspondentes a cada janela, tanto inferiores como superiores, destacam-se uns frescos admiráveis, umas miniaturas cheias de poesia que fazem muitas vezes lembrar o rasgo de um grande talento.
                No estuque do teto nota-se com assombro a elegância e o colorido. Ao centro sobressai a imagem de S. Bernardo a mais de meio relevo, rodeada de florões, insígnias e símbolos que se sucedem em todo o comprimento e largura, como que num artístico labirinto.
                Tem três estradas: a principal ao centro e duas que abrem nos topos e que veem de uns pequenos gabinetes que supomos serem de estudo. Nota-se nestes o mesmo estilo da sala e é para lastimar que os bocados de estuque que tem caído fossem substituídos por uns remendos boçais e estúpidos, em vez de se ter imitado o trabalho geral do teto de cada um.
                (...) Ao lado esquerdo da livraria, fazendo a frente para leste, existem uns quartos bastante espaçosos que eram destinados a encerrar os livros proibidos, os livros dos grandes pensadores que só aos monges velhos e de reconhecido fervor religioso era permitido ver, porque esses por certo se não deixariam arrastar pelas doutrinas dos novos filósofos.

                Outro historiador, Vilhena Barbosa (BARBOSA, 1886, p. 262), faz esta “leitura” da sala da Biblioteca:
                É uma sala mui vasta e alegre. Não é proporcionada a altura à sua vastidão. Se tivera maior elevação ofereceria um aspeto mais grandioso. De um lado, em todo o seu comprimento, é aberta a parede em grandes janelas, com os seus óculos por cima, correspondendo a estes outros óculos iguais na parede fronteira. O pavimento é de mármore de cores em mosaico; e o teto, de obra de estuque e pintura, não de muita perfeição, mas vistosa. As paredes, hoje nuas, vestiam-se outrora com as estantes dos livros, e por cima com painéis a óleo, com medalhões e figuras de alabastro. Não havia em tido isto coisa alguma de primor de arte. Todavia, aqueles diversos ornamentos davam à sala uma perspetiva de magnificência que encantava a quantos a viam. Foi certamente um ato de vandalismo despojá-la dos adornos, que lhe formavam uma feição tão particular, e fora dali pouco valor podiam ter (...) A biblioteca do mosteiro de Alcobaça contavam perto de 25.000 volumes, em que avultavam muitas obras raras, e entre estas algumas impressas pelo próprio Gutenberg. Porém, os manuscritos é que constituíam a sua principal riqueza e a tornavam célebre no nosso país. Conforme o catálogo que se publicou em 1775, passavam de 400 os códices manuscritos, in-fólio.

                Da sala grande da Biblioteca mantém-se o piso em mármore e a galeria de madeira em volta. O teto estucado e pintado desapareceu na sua maior parte devido às infiltrações de água, já assinaladas por Natividade para os gabinetes contíguos. Em 1904, o peso do «barrotado da cobertura» fez mesmo cair uma parte do teto; e do seu teto original apenas se conserva hoje os florões dos cantos (RASQUILHO, 2011). Em jeito de ilustração, trazemos aqui uma imagem de como esse teto se apresenta atualmente (Figura 3), extraída de uma das obras de um grande investigador, Dom Maur Cocheril (COCHERIL, 1989), uma fotografia (Figura 4) do período em que aí estavam aquartelados os militares da Cavalaria 9 em finais do século XIX e, finalmente, uma estampa patente na referida obra de Vilhena Barbosa (Figura 5). 

Figura 3

Figura 4

Figura 5
Bibliografia:

ARAUJO, António de, Index. e su[m]mario dos livros que conte[m] esta Livraria de Alcobaça com o epitome e declaração de todas as tarjas, emblemas, e quadros, de que está ornada, a qual liuraria foi ampleada e renouada pello grãnde zello do Nosso Reuerendissimo P.e Frei Manoel de Moraes Abbade Geral deste Real Conuento, anno de 1656, BNP, cod-8388, exemplar digitalizado no endereço http://purl.pt/27198.

Aurea clavis reserans bibliophilacium hoc magnum Alcobatiae, 1701, BNP, cod-7412. Exemplar digitalizado no endereço http://purl.pt/24968.

BARBOSA, Inácio de Vilhena, Monumentos de Portugal - Históricos, artísticos e arqueológicos, Castro Irmão Editores, Lisboa, 1886.

COCHERIL, Dom Maur, Alcobaça – abadia cisterciense de Portugal, Imprensa Nacional Casa da Moeda, Lisboa 1989.

NATIVIDADE, Manuel Vieira, O Mosteiro de Alcobaça - notas históricas, Coimbra, Imprensa Progresso, 1885

Radiolus Radiolorum Radii Bibliothecae Secundariae Regalis Archicoenobii Alcobacensis / Irradiatus breuiter A Fr[atre] Anonimo de Castrebbedred Anno Domini 1684. BNP, cod-7383. Exemplar digitalizado no endereço http://purl.pt/24967.

Radius Bibliothecae Secu[n]dariae Regalis Archicoenobii Alcobacensi / Ex quo Radioli Bis duodecim radiant, Breuiter radiati A Fr[atr]e Anonimo de Castrebhedred. Anno D[omi]ni 1684. BNP, cod-7382. Exemplar digitalizado no endereço http://purl.pt/24966.

RASQUILHO, Rui (2015), “As três Bibliotecas do Mosteiro de Alcobaça”, in Caderno de Estudos Leirienses, Textiverso, Leiria, 2015.

RASQUILHO, Rui, e MADURO, António, 50 coisas de escrita vária alcobacense, edição conjunta do CEPAE – Centro de Património da Estremadura e AMA – Amigos do Mosteiro de Alcobaça, Alcobaça, 2011.

S. BOAVENTURA, Fr. Fortunato de, Historia Chronologica e Critica da Real Abbadia de Alcobaça da Congregação Cisterciense de Portugal para servir de continuação à Alcobaça Illustrada do chronista Fr.Manoel dos Santos, Lisboa, Impressão Régia, 1827.

SANTOS, Frei Manoel, Alcobaça Illustrada - Notícias e Historia dos Mosteyros & Monges insignes Cistercienses da Congregaçam de Santa Maria de Alcobaça da Ordem de S. bernardo nestes Reynos de Portugal & Algarves, Primeyra Parte, Coimbra, Officina de Bento Seco Ferreira, 1710.

SANTOS, Frei Manoel dos, Descrição do Real Mosteiro de Alcobaça - Século XVIII, leitura, introdução e notas de Aires Augusto NASCIMENTO,  in Alcobaciana - Colectânea Histórica, Arqueológica, Etnográfica e Artística da Região de Alcobaça, n.º 3, 1979.

TAVARES, José Pedro Duarte, “Hidráulica – Linhas gerais do sistema hidráulico Cisterciense em Alcobaça”, in Roteiro Cultural da Região de Alcobaça – a Oeste da Serra dos Candeeiros, edição da Câmara Municipal de Alcobaça com coordenação de Carlos Mendonça da Silva, 2001.


quinta-feira, 28 de julho de 2016

Uma citação de Frei Manuel dos Santos, e um dado cronológico para o fim do porto de Alfeizerão


                A Descrição do Real Mosteiro de Alcobaça, de Frei Manuel dos Santos (SANTOS, 1929) principia com uma descrição da região em que o Mosteiro está implantado (nos três primeiros parágrafos do Título 15 da obra). Sobre os Coutos, escreve o cronista:

                As Terras, e coutos de que he senhor o dito mosteiro e no meio dos quaes está fundado são na província da Estremadura, e Arcebispado de Lisboa naquela parte, que toca o Arcebispado na diocesia de Leyria da qual também participão as ditas terras; seu comprimento he de Norte a Sul pela costa do oceano; e a largura he do Oriente ao Poente olhando da serra para o mar; da parte do Norte confinão com terras de Leyria; dahi voltando para o nacente vem partindo com terras de Porto de Mos; e da parte do Poente terminão no Mar. São terras sem aspereza montuosas; cortadas de rios e abundantes de fontes; os altos todos são frutíforos, que parece os plantou a natureza para competirem na fertilidade com as planícies e campos que tambem há em distancias proporcionadas. Se fechassem com hum muro as mesmas terras, e coutos, tem dentro de si, sem necessidade de sahir fora, quanto he necessario, e se pode desejar para delicia, e alimento da vida humana: carnes, gados, caça de todo o genero, lacticinios, peixe, pam, vinhos, azeites, fructas, legumes, poços, marinhas de sal, matas, souttos, pinhaes, panos, lans; e tudo em abundancia com dous portos de mar nas villas da Pederneira e S. Martinho; além de outros que as areas entupirão há menos de cem anos, nas villas de Alfeizarão, Paredes e na Serra da Pescaria; ares benignos e sadios porque he o mesmo de ventos frescos do Norte e do mar; todas as quaes commodidades fazem ser a terra bem povoada e deliciosa.
                Quasi no meio deste fecundo e aprazível território está situado o Real Mosteiro em hum vale dilatado como coração e alma que dá vida ao corpo das suas terras e he alimentado exercicio das suas partes (…).

                A frase que destacamos no texto citado contém o dado cronológico que enunciamos em título. Esta descrição do Mosteiro de Frei Manuel dos Santos (1672-1740) teria como finalidade, segundo Aires Augusto Nascimento, ser interpolada na segunda parte da Alcobaça Illustrada, pelo que a data da sua redação estaria (estimamos nós) próxima da data de publicação da parte primeira da mesma obra, 1710. Desse modo, «menos de cem anos» antes dessa data, colocaria o fim desses portos nas primeiras décadas do século XVII. Naturalmente, e apesar da sua validade, este não é um dado absoluto, acrescido da evidência do declínio desses portos ter sido cronologicamente próximo, mas não repentista.
                O porto de Paredes da Vitória desapareceu de forma gradual durante o século XVI. Nas Memórias da Real Casa de Nossa Senhora da Nazaré, de José de Almeida Salazar, citadas por Adolpho Loureiro (LOUREIRO, 1904:245), diz-se que a vila tinha um forte e 17 caravelas para a defesa do porto, mas que as areias destruíram o porto por volta de 1600; nos seus estaleiros, no entanto, ainda em 1612 D. Gastão Coutinho mandou aí construir a nau Nossa Senhora da Nazareth. No entanto, a vila despovoou-se rapidamente, pois já em 1628, Manuel de Brito Alão diz que ela se encontra deserta (ALÃO, 1628).
                O porto da Serra da Pescaria de que fala Frei Manuel dos Santos, é uma forma diversa de aludir ao antigo porto da Pederneira, que se encontrava aninhado dentro da antiga lagoa da Pederneira e mais distante da vila do mesmo nome. Adolpho Loureiro (LOUREIRO, 1904:249), retira dos escritos de Frei Manuel de Figueiredo a informação de que no Campo e Aljarifeira, na foz do Alcoa, se situava o porto da Pederneira, e que os seus estaleiros funcionavam junto à ponte da Barquinha (hoje, ponte da Barca), logo, nas faldas da Serra da Pescaria. As atividades portuárias e a construção de navios foram sendo deslocadas mais para a foz por força do assoreamento da lagoa, mas não possuímos dados cronológicos documentados para esse processo.
                Sobre o porto de Alfeizerão, já aqui apontamos (in “Os Portos da Lagoa de Salir – um pequeno périplo, de Outubro de 2015) que a ruína do seu porto ocorreu no último quartel do século XVI. Num mapa inserto no livro de arquitetura militar composto por Luís de Figueiredo Falcão entre 1607 e 1617 (FALCÃO), podemos admirar o desenho do rio alargado por onde os barcos alcançariam a vila, mas a situação já seria diferente por essa altura. Datam de 1616 (LIVRO DE PRIVILÉGIOS, JURISDIÇÕES…, fl. 274), as primeiras instruções do rei D. João IV ao Juiz de Fora de Óbidos para mandar abrir o rio de Alfeizerão, prova cabal de que este já se encontrava intransitável.
                Os dados que possuímos sobre dois dos três portos, Paredes e Alfeizerão, parecem validar a informação transmitida por Frei Manuel dos Santos.

Bibliografia:
Livros impressos:

ALÃO, Manuel de Brito, Antiguidade da sagrada imagem de Nossa S. de Nazareth : grandezas de seu sitio, casa, & jurisdiçaõ real, sita junto à villa da Pederneira, capítulo 36, impresso por Pedro Crasbeek, Lisboa
FALCÃO, Luís de Figueiredo (organização), Descrição e plantas da costa, dos castelos e fortalezas,desde o reino do Algarve até Cascais, da ilha Terceira, da praça de Mazagão, da ilha de Santa Helena, da fortaleza da ponta do palmar na entrada do rio de Goa,da cidade de Argel e de Larache, composto entre 1607 e 1617, Direção Geral de Arquivos/TT, Casa de Cadaval, nº 29
LOUREIRO, Adolpho, Os Portos Marítimos de Portugal e Ilhas Adjacentes, volume II, Imprensa Nacional, Lisboa, 1904
SANTOS, Frei Manuel dos, Descrição do Real Mosteiro de Alcobaça, leitura, introdução e notas de Aires Augusto NASCIMENTO, Separata de Alcobaciana – Colectânea, Histórica, Arqueológica, etnográfica, e artística da região de Alcobaça, 1979.

Fonte manuscrita:


LIVRO DE PRIVILÉGIOS, JURISDIÇÕES, SENTENÇAS, IGREJAS DESTE REAL MOSTEIRO DE SANTA MARIA DE ALCOBAÇA – Ano de 1750 (Direção Geral de Arquivos/TT, Ordem de Cister, Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, liv. 92).

domingo, 24 de julho de 2016

A visita de D. Miguel I aos Coutos de Alcobaça

Infante Dom Miguel de Bragança.
Retrato pintado por Johann Nepomuk Ender em 1827 (acervo do Palácio Naconal de Queluz)

            D. Miguel, o sétimo filho de D. João VI, foi exilado pelo seu pai na sequência da Abrilada, a revolta política desencadeada por ele. Vivendo no exílio em Viena de Áustria, regressa ao país após a morte do pai, e presta juramento de fidelidade à Constituição e à rainha, D. Maria da Glória (a futura rainha D. Maria II). Logo de imediato, a 23 de Junho de 1828, é aclamado rei pelas Cortes e declara nula a Carta Constitucional que aceitara servir. Durante os seis anos do seu reinado (e de guerra civil), D. Miguel encarna o papel do monarca absoluto, assumindo-se como uma figura populista, defensora da religião e dos valores tradicionais, irmanado às instituições religiosas que acudiam ao povo nas suas horas de fome e infortúnio. As suas viagens apoteóticas pelo país concitam esses traços de rei salvador e magnânimo - alimenta os pobres, ajuda os inválidos, solta os presos das cadeias, e deixa-se alcançar pelos populares que lhe beijam a mão como se ele fosse um santo milagroso. A derrota dos miguelistas e a Convenção de Évora Monte marcam o claudicar de um Portugal antigo, de um país de relíquias e crendices a marchar em sentido inverso ao do resto da Europa, mas o modelo parece permanecer, insinua-se e dir-se-ia que inspira o Estado Novo um século depois, uma república, a segunda, mas ainda assim afeita à figura do líder quase sagrado, ao ouro dos tolos da aurora dourada da nação e a toda a retórica laudatória e dulcificada que adorna o pérfido despotismo.
            D. Miguel I visita Alcobaça em agosto de 1830. De Alcobaça colherá uma receção gloriosa, o preito de homenagem do concelho e a ajuda dos coutos em bens para o seu exército. Acima de tudo, como expressão da forma como o mosteiro apoiou o seu regime e “morreu” com ele, talvez devêssemos destacar a figura de Frei Fortunato de S. Boaventura, um filho da casa, que foi um defensor aguerrido do rei D. Miguel e um opositor verrinoso e panfletário dos liberais e maçons que o monarca tinha como inimigos fidalgais.
            Da visita de D. Miguel a Alcobaça, transcrevemos dois textos narrativos distintos que se complementam. É de supor (ainda que isso não esteja escrito) que a viagem de D. Miguel tenha cruzado a vila de Alfeizerão porque ele deambula entre Caldas, Nazaré e Alcobaça.
            A citação seguinte, abreviada, é a de um Auto de Preito e Vassalagem a D. Miguel, redigido e assinado durante uma sessão extraordinária da Câmara de Alcobaça realizada a 9 de Outubro de 1831. Os tempos eram de preocupação para os apoiantes do rei. O irmão do monarca, D. Pedro IV, renunciando ao trono brasileiro, cravara uma lança nos Açores e previa-se a sua passagem ao Portugal continental e o intensificar da guerra. As autoridades civis e religiosas, muitos militares e diversos populares da comarca de Alcobaça decidiram endereçar ao Rei Majestoso um sinal inequívoco de que estavam do seu lado, e prontos a sacrificar por ele os seus «bens, faculdades e pessoas».
            O último texto, que apenas citamos em parte, fundamenta-se neste Auto de Preito e Vassalagem. Os habitantes dos Coutos, aparentemente encorajados pelo Corregedor da Comarca, José de Almeida Pedroso, reúnem roupas e panos para serem oferendados aos soldados dos exércitos miguelistas. Alguns dos nomes indicados nesta lista de oferentes, figuram entre as assinaturas do Auto de Preito e Vassalagem.
            Nas transposições de texto, atualizamos a grafia de algumas palavras, procurando manter a pontuação do original, e a caraterística profusão de iniciais em maiúscula.

A visita de D.Miguel I aos Coutos de Alcobaça

            Já transcrevemos duas relações sobre a festival receção de El-Rei Nosso Senhor em diversas partes, na Sua recente viagem; e como recebemos depois outro relatório, que compreende algumas passagens ainda não publicadas, por isso aqui o inserimos na forma seguinte:
            Chegou El-Rei Nosso Senhor ao Mosteiro de Alcobaça da uma para as duas da tarde do dia 8 de Agosto. Dificultosamente poderá ser excedido o júbilo, e alvoroço, ou para melhor dizer, o entusiasmo de alegria e fidelidade com que Sua Majestade foi recebido em todos os lugares do Seu trânsito pelos coutos de Alcobaça, assim na sua chegada ao Mosteiro, como no regresso deste para o da Batalha e Sítio da Nazaré. Era para ver, e para enternecer sobremaneira, o bom acolhimento que Sua Majestade fez não só aos Monges, porém às chusmas do imenso Povo que se apinhou no átrio da maior Igreja de Portugal. Entrando El-Rei nesta, e debaixo do Pálio, duas causas empeciam que se ouvisse o Te Deum que principiou de cantar-se por tão plausível motivo; primeira, os alaridos do Povo inquieto e desejoso de aproximar-se de Sua Majestade de contemplar mui de espaço as feições de um semblante onde se pinta a bondade de coração, sem que por isso venham a ter menor quebra os respeitos devidos à Majestade do Trono; segunda, as lágrimas de prazer que muitas vezes cortaram e ameaçaram fazer parar o Sagrado Cântico. Tomou-se o acordo de fechar umas grades que separam o Coro do restante da Igreja, porém tudo foi inútil, e apenas Sua Majestade tinha chegado à Capela-Mor e dobrado os joelhos na presença do Rei dos Reis com aquela devoção e recolhimento que O distinguem nestes lances, e já o ardor e esforço dos povos tinha arrombado as grades, donde resultou ver-se atulhado de gente o mui vasto Cruzeiro e Naves da Igreja, e ser muito custoso a El-Rei o desembaraçar-Se do sem número de pessoas que O cercavam em todas as direções, e que nem a espadas teriam medo, pois romperiam denodadamente por elas, só para verem o seu por tantas razões amável e adorado Soberano.
            Tomando um breve descanso, passou El-Rei a examinar as coisas notáveis do Mosteiro que lhe mereceram especial interesse e atenção, nomeadamente, a Casa dos Túmulos Reais e o Arquivo. Neste se demorou mais tempo, e deu bem a conhecer que Lhe são vulgares certos conhecimentos, mui difíceis de encontrar ainda em pessoas dadas à vida literária, dos quais tornou a dar outra prova mais solene e decisiva quando chamou a Si, e examinou de perto a Espada que se diz ter servido ao Senhor D. Afonso IV na memoranda batalha do Salado.
            Chegada a noite, dignou-se ver das janelas da Hospedaria do Mosteiro que caem sobre o Rossio de Alcobaça, um festejo que a Câmara da Vila e os seus dignos Magistrados atuais haviam preparado no intuito de que esta receção excedesse muito quantas, em diferentes ocasiões e por igual motivo, lhe haviam precedido.
            Fizeram iluminar os bem trabalhados, elegantes, e vistosos Arcos triunfais por onde El-Rei havia entrado, dispuseram um excelente fogo-de-artifício, e apresentaram a Sua Majestade uma bem concertada e pomposa dança, assim como os Génios do Patriotismo, da Razão e da Religião, representados por três meninos adequadamente vestidos, que endereçaram a El-Rei as expressões do mais vivo reconhecimento pelos bens incalculáveis que o Seu Reinado trouxe aos Portugueses.
            Na manhã seguinte partiu Sua Majestade para o Convento da Batalha, onde examinou tudo quanto há de primor de arte naquele edifício, e a cada passo mostrou doer-se de que os Seus Augustos Predecessores não tivessem posto o último remate a uma obra, que até sendo imperfeita como é, faz a maior honra à magnificência e piedade dos Soberanos que a intentam e prosseguiram, e à perícia dos Portugueses que, ou dirigiram ou fizeram o melhor desta obra.
            Por [pela] volta das 11 da manhã saiu El-Rei para a Marinha Grande, e feito o exame que se propunha fazer do estado atual da Fábrica de Vidros e do modo porque ali se trabalham, saiu em continente para o Sítio da Nazaré, e como se o empenho de venerar a Mãe de Deus naquela antiga e suntuosa Capela que os Soberanos deste Reino edificaram e sempre protegeram, lhe desse asas para voar, já pelas três da tarde havia chegado ao referido Sítio da Nazaré. Aí dispôs para o dia seguinte, 10 de Agosto, uma função votiva a Maria Santíssima, em que assistiu, além de imenso povo que se desfazia em protestos de amor e lealdade para com o seu Augusto e incomparável Soberano, uma boa parte da Comunidade do Mosteiro de Alcobaça, a que presidia o D. Abade-Geral, e quando se estava para cantar o Evangelho, Dignou-se El-Rei chamar um dos Monges que estavam presentes, incumbindo-o de pregar o Sermão, que não sendo esperado, era de todos mui vivamente apetecido. Houve pois o Sermão, que só foi notável que o auxílio Divino confortasse o Pregador a pontos que, nem El-Rei fosse mal servido, nem o auditório desse outros sinais que não fossem de atenção e aplauso.
            Enfim saiu Sua Majestade do Sítio da Nazaré para as Caldas da Rainha pela uma da tarde, levando consigo todos os corações justamente saudosos do que viram, e ansiosos de O tornarem a ver muitas mais vezes, de que El-Rei deu grandes esperanças, afirmando que se propunha visitar todas as Províncias do Seu Reino; Deus o permita para consolação dos bons e confusão dos maus, e para se tornarem cada vez mais fortes os já indestrutíveis laços que prendem o melhor dos Soberanos com o mais heroico, denodado e fiel povo do Universo.
            Eis o que se passou de mais digno de relatar-se nos dias mais alegres que nunca teve o Mosteiro de Alcobaça, que só há mais de 400 anos e no próprio mês de Agosto, quando recebia nos seus muros o Vencedor de Aljubarrota, é que disfrutou os únicos dias que podem competir com os atuais.
            Se se omitem de propósito algumas circunstâncias assaz notáveis, como por exemplo, a visível alteração que apareceu no semblante de El-Rei quando no meio dos festejos de Alcobaça, lhe chegaram aos ouvidos as lamentações e brados dos presos da Cadeia pública, que depois do necessário exame dos seus crimes a que El-Rei procedeu, foram imediatamente postos em liberdade; se nem sequer se mencionam as lágrimas que assomaram aos olhos de El-Rei quando se apresentou no Sítio da Nazaré um infeliz com as mãos decepadas por uma moléstia, e que foi logo e mui largamente socorrido, é porque todos estes lances de paternal amor ao seu povo, tem melhor cabimento numa História ou num Panegírico, do que numa abreviada exposição.

(in Gazeta de Lisboa, n.º 203, pp. 824-825, Anno 1830, Sábado, 28 de Agosto, Impressão Régia, Lisboa).

Lisboa, 17 de Agosto
            Sua Majestade, El-Rei Nosso e a Sereníssima Senhora Infanta Dona Maria de Assunção, saindo a 5 do corrente com o devido acompanhamento do Real Palácio de Queluz, dirigiram-se a Mafra, onde pernoitaram, e prosseguindo caminho pelas 8 horas da manhã seguinte na direção das Caldas da Rainha, no meio das mais tocantes demonstrações de lealdade e regozijo dos seus moradores, ali chegaram às 3 horas da tarde do mesmo dia. Sua Majestade tomou três banhos e a Sereníssima Senhora Infanta permaneceu no mesmo sítio para fazer uso das mesmas águas.
            Movido pela inata piedade que em tão sublime grau distingue o Seu Real Coração, Se dignou o Mesmo Augusto Senhor visitar os enfermos que se achavam no Hospital, oferecendo o tocante espetáculo do Paternal Desvelo com que o Melhor dos Reis Se interessa no bem dos Seus leais vassalos.
            No dia 7 Se dirigiu Sua Majestade a S. Martinho, voltando no mesmo dia às Caldas, e no dia seguinte, depois de ouvir Missa, que disse o Seu Capelão, passou Sua Majestade a Alcobaça, onde pernoitou; no dia seguinte dirigiu-se ao majestoso edifício da Batalha, passando por Aljubarrota, cujo nome viverá para sempre associado com as mais nobres recordações da glória e grandeza da Monarquia Lusitana. Sua Majestade mui averiguadamente examinou todos os objetos dignos da Sua Real atenção em todas as Vilas e Lugares do Seu trânsito, tendo a honra de satisfazer as Suas judiciosas indagações o Muito Reverendo Padre Mestre Frei Fortunato de São Boaventura, Lente da Universidade de Coimbra, como mais versado na História e antiguidades deste Reino. No mesmo dia 9 Se dirigiu Sua Majestade à Marinha Grande a fim de ver a Real Fábrica de vidros, patenteando o vivo interesse que consagra ao adiantamento das artes, que sempre mereceram o Régio amparo dos Seus Augustos Predecessores.
            Pernoitando nesse dia no Seu Real Palácio da Nazaré, foi Sua Majestade no imediato à Igreja da mesma Vila, e depois de ouvir Missa Cantada pelo Reitor, e no Coro pelos Religiosos de Alcobaça. que para esse fim se ofereceram a Sua Majestade, e manifestando o mesmo Real Senhor naquela ocasião o desejo de ouvir na Cadeira da Verdade o Reverendíssimo Padre Mestre Frei Fortunato de São Boaventura, este Religioso mui douta e edificantemente satisfez o pio desejo de Sua Majestade e dos ouvintes em geral: depois de falar do Martírio de São Lourenço (sendo aquele o dia do mesmo Glorioso Santo), ponderou com eloquência digna do assunto o visível amparo da Mãe de Deus a favor deste Reino, e a ventura daqueles povos em gozarem a Augusta Presença do Legítimo Soberano e verdadeiro Pai dos Portugueses.
            Na tarde do mesmo dia 10, dirigiu-Se e chegou Sua Majestade às Caldas da Rainha; no dia 11 foi a Óbidos e visitou as Igrejas de S. Pedro e de Santa Maria, onde se entoou o Hino Te Deum Laudamus em ação de graças pela Sua venturosa chegada.
            Passando no mesmo dia às Caldas, ali pernoitou, e pelas 8 horas da manhã do dia 12 partiu Sua Majestade para Mafra onde se demorou até Sábado, 14 do corrente, e voltou pelas 2 horas e meia para o Real Paço de Queluz, chegando felizmente pelas 4 horas e meia da mesma tarde.
            Não pode a expressão fielmente descrever o regozijo e entusiasmo de que deram as mais tocantes provas os habitantes de todas as povoações por onde Sua Majestade transitou, sendo recebido com profundo acatamento e júbilo pelas Câmaras de todas as Vilas; à porfia procuravam todos a Sua Presença Augusta e beijar submissos a Sua Régia Mão. Em toda a parte ressoavam as aclamações da exultação e da lealdade; em todas as Vilas e Lugares rompia os ares grande cópia de foguetes antecipadamente preparados; o louro e as flores juncavam os caminhos e guarneciam os arcos triunfais, onde se viam legendas e emblemas expressivos da fidelidade e amor que penetravam o coração de todos. Em Alcobaça houve de tarde uma dança bem desempenhada na praça, e à noite fogo-de-artifício, brilhando a sua iluminação tanto ali como em todas as partes que Sua Majestade honrou com a Sua Real Presença.
            Sua Majestade, consultando os ditames da Sua Régia Clemência, mandou em todas as cadeias soltar os presos e aos indigentes socorreu com avultadas esmolas; podendo afirmar-se que entre as demonstrações de regozijo com que foi acolhido, não foram as menos tocantes, as lágrimas da gratidão dos infelizes a quem prestou generoso amparo, e que para sempre abençoaram o Seu Glorioso Nome.

(Gazeta de Lisboa, n.º 194, pg. 789- Anno 1830, Quarta Feira, 18 de Agosto, Impressão Régia, Lisboa)

O Auto de preito e vassalagem a D. Miguel I

            Aos nove dias do mês de Outubro de mil oitocentos e trinta e um nesta Vila de Alcobaça e Sala da Câmara da mesma Vila, em ato extraordinário da Câmara presidida pelo Doutor Corregedor desta Comarca, José de Almeida Pedroso, sendo presentes as mais Conspícuas pessoas Militares, Clero Regular e Secular, Nobres e Povo da mesma Vila, e fora dela convocadas, umas por Cartas, e outras por Edital público. O mesmo Ministro em plena Sessão Geral, depois de haver lido o Assento dos Três Estados do Reino, juntos nas Cortes da Cidade de Lisboa, feito aos onze de Julho de mil, oitocentos e vinte e oito; foi por ele ponderado que para se não derivar de uma conduta silenciosa e indecisa, fundamento alguma a Facciosos Patricidas, a Traidores, e aos Inimigos da Estabilidade do Trono do Nosso Legítimo e adorado Monarca e Senhor Dom Miguel Primeiro, para duvidarem dos sentimentos de lealdade e adesão ao Legítimo Governo do Mesmo Augusto Senhor de todos os habitantes desta Vila, e seu Termo e Comarca, conviria que em plena Sessão Camarária se deliberassem os meios de fazer patente a El-Rei Nosso Senhor, à Nação e ao Mundo inteiro; e por todos espontânea e unanimemente acordado o reiterar por si e seus Vindouros na presença de Deus Todo Poderoso, os mais Solenes Juramentos de Fidelidade, Obediência e Vassalagem ao Muito Alto e Poderoso Rei o Senhor Dom Miguel Primeiro, como tal reconhecido e aclamado Rei e Senhor Natural destes Reinos e seus Domínios no referido Assento pelos Representantes da Nação Portuguesa, nos Três Estados do Reino juntos nas referidas Cortes.
            (...) os abaixo-assinados estavam gravemente determinados, debaixo dos seus Juramentos que prestaram, e Protestos que fizeram por si e seus vindouros, e mandaram fazer este Auto e acordam que em conformidade dele se dirigisse à Presença de Sua Majestade o Senhor Dom Miguel Primeiro, e submissa do seu conteúdo na forma seguinte:
            Senhor! A Câmara, Clero, Nobreza e Povo da Vila e termo de Alcobaça, e seus Coutos, reunida em Câmara geral extraordinária, Presidida pelo atual Corregedor da Comarca, José de Almeida Pedroso, com o mais profundo respeito levam à Real Presença de Vossa Majestade o solene Auto de Preito e Vassalagem, que reiteram na Real Presença de Vossa Majestade, as acatadas ponderações seguintes, que para a fazer se lhe ofereceram: que havendo constado pela lição dos Papéis públicos que o Senhor Dom Pedro, ex-imperador do Brasil, tem aportado na Europa, depois de abdicada em seu filho a Coroa daquele Império; não é sem motivo que os supraditos justamente receiam que da vinda daquele Príncipe para o Continente, se possa maquinar Pretexto para se intentar e preparar alguma perturbação da Legítima Ordem das Coisas do Governo, e Sessão estabelecida neste Reino segundo as Leis Fundamentais, declaradas e confirmadas pelas legítimas Cortes de mil oitocentos e vinte e oito; atesta a experiência que o mesmo Príncipe [D. Pedro] tem por muitas vezes sido iludido a ponto de se deixar fazer Instrumento de horríveis planos de revolução universal, a qual trabalha ansiosamente para difundir e fazer brotar em todos os Estados o flagelo da anarquia, para à sombra da mesma, a seu sabor, poder levar a efeito os nefandos projetos das mais frenéticas teorias; e como a Rebelião tenha por seu principal objeto atacar o Trono de Vossa Majestade e a tranquilidade destes Reinos; nesta ocasião em que o Mundo inteiro deve ter o mais confirmado e reiterado conhecimento dos verdadeiros sentimentos e vontade do Povo Português, para que cavilosamente se não possa alegar em favor das injustas pretensões, qualquer equívoco nos mesmos Sentimentos da Nação; a referida Câmara, por si e em nome dos mais assistentes [habitantes] deste Distrito por ela representado, protesta reiteradamente na Augusta Presença de Vossa Majestade e da Nação e Poder, tanto Espiritual como Temporal, em conformidade aos Juramentos que prestaram contra quaisquer pretensões, seja de quem quer que for, procure e intente levantar e sustentar com prejuízo dos Direitos independentes da Lusa Nação, e das legais decisões dela, dos de Vossa Majestade, contidas e abrangidas na Letra e Espírito do Assento das Cortes dos Três estados, levantado e tomado no dia onze de Julho de mil, oitocentos e vinte e oito. - Senhor, os tempos da ansiedade e do sofrimento tem sido sempre marcados pelo maior realce da lealdade e adesão com que os honrados e fiéis Portugueses se tem pronunciado para com a Sagrada Pessoa de Vossa Majestade; protestam também combater com todas as suas forças e meios, os abaixo-assinados, quaisquer pretensões que se levantem contra os Direitos da Nação, e para esse fim põe com todas as varas do seu Coração, à disposição do governo de Vossa Majestade, todos os seus bens, faculdades, e Pessoas, sem alguma reserva, para que tudo seja empregue em defesa daqueles Direitos e Sustentação das legítimas Decisões das Cortes Representantes de toda a Nação Portuguesa.
            [Seguem-se as (muitas) assinaturas, que se desenrolam segundo um aparente critério de relevância, a começar pelo Abade-Geral e pelo Corregedor, José de Almeida Pedroso, o juiz de Fora, Procurador do Concelho, vereadores, figuras importantes do mosteiro cisterciense, militares, frades e clero secular, nobres e populares. Arrematando as assinaturas, surge a conclusão do escrivão:]
            E deram esta Vereação por finda e acabada; e eu, António de Alexandre de Andrade, Escrivão da Câmara, o escrevi e assinei. Findo que foi este Solene Ato, retumbaram imediatamente as Salas da mesma Câmara com as alegres Aclamações: Viva o Senhor Dom Miguel Primeiro Nosso Legítimo Rei, e toda a sua Real Família; e com a continuação delas, todas as Autoridades, Civis, Militares, Clero, Nobreza e Povo, se encaminharam para a Igreja do real Mosteiro desta mesma Vila, onde se entoou um solene Te Deum, fechando-se esta ação com os mesmos Vivas.

(Gazeta de Lisboa, n.º 249. Anno de 1832, Sábado, 20 de Outubro, Impressão Régia, Lisboa).

As oferendas ao exército miguelista

            Sendo presente a Sua Majestade El-Rei Nosso Senhor o Ofício que Vossa Mercê me enviou em data de 27 de Março último com a relação das roupas que os habitantes desta Comarca [de Alcobaça] ofereceram para o serviço das praças do Exército em Operações, e entregaram na Comissão reunida nesta Cidade e havendo-Se Dignado o Mesmo Augusto Senhor aceitar a mencionada oferta, Determina que Vossa Mercê assim faça constar aos oferentes, e que tornam mui dignos de louvor os seus leais sentimentos de fidelidade e adesão pela Justa Causa que defendemos, bem como aqueles que Vossa Mercê me patenteia em promover tais donativos. Deus guarde a Vossa Mercê. Paço de Braga em 17 de Abril de 1833. Conde de Barbacena. [Ao] Senhor José de Almeida Pedroso, Corregedor da Comarca de Alcobaça.

Relação dos Donativos a que se refere o Aviso supra:

Vila de Alcobaça
Silvério da Silva, 6 varas de estopa; D. Maria do Carmo, 4 lençóis, 2 travesseiros, 2 cobertores; Padre José da Silva de Leão Guerra, 1 lençol; Francisco Assenço [Ascenso?), 6 varas de estopa; António de Sousa, 1 lençol; Isidoro dos Santos, dois ditos; D. Maria Pula, 1 dito; D. Ana Ribeira, 1 dito; Rosa Ribeira, 1 dito; António Manuel Pombo, 2 varas de estopa; Ana Joaquina, viúva, 1 manta; Manuel Fernandes, 1 lençol; Doutor Alexandre Pereira, 6 varas de pano de linho; Alexandre Peixoto, uma vara de estopa; Agostinho Magalhães Dias, 1 dita; João da Silva Rosa, 1 dita; Luís Lobo do Couto, 1 dita; Manuel Vicente, 1 dita; Maria do Nascimento, 1 dita; João Trindade, 1 dita; Francisco Pereira Trindade, 1 dita; Joaquim dos Reis, 1 dita; Doutor José Emílio, 1 lençol; Ana Cristina, 1 dito; Feliciana Maria, uma vara de algodão e linho; José de Sousa Leão, 2 ditas; Mariana Vitória, 1 lençol; Maria da Assunção, viúva, 2 ditos; Maria do Carmo, 1 dito; Gerardo dos Santos, 1 vara de algodão e linho. Manuel Henriques, 1 vara de estopa; Maria Narcisa, 1 vara de algodão e linho; José dos Reis, 1 manta; Duarte Pintor, 1 guardanapo; Joana Vieira, 1 travesseiro; Maria Inácia, viúva, 1 vara de algodão e linho.

Vários anónimos
Mantas, 10; cobertores, 2; lençóis de linho, 35; ditos de algodão, 5; camisas de linho, 6; camisas de algodão, 5; Pano de linho novo, 47 varas e meio; travesseiros de linho, 16; ditos de algodão, 1; ligaduras, 2; toalhas de linho, 9; ditas de algodão, 5; ceroulas de linho, 1.

Vila da Pederneira
Os Proprietários da mesma Vila, 4,290 reis; pano de linho, 9 varas; estopa, 11 ditas.

Vila de Alfeizerão
Capitão António Joaquim de Oliveira, 1 manta; Alferes António Marques, 1 lençol de linho; Rosa Marques, 1 dito; António Custódio, 1 dito de estopa; Joaquim Dinis, 1 dito; José Coelho, 1 manta; António Pereira, 1 lençol de estopa. Dito 1 manta.

Vila de S. Martinho
António de Moura, 1 lençol de linho, José da Silva Canteiro, 1 dito; Maria Inácia Sé, 1 dito; Capitão José Alves, 1 dito; António Ribeiro, 1 manta; José dos Santos Fradinho, 1 lençol de linho; José Pereira Santo Amaro, 1 dito; José dos santos Neto, 1 manta.

Vila de Salir de Matos
O Reverendo Vigário, 4 mantas novas; vários habitantes da dita vila, 8 ditas.
(...)

(Gazeta de Lisboa, n.º 100, Anno de 1833, Segunda-feira, 29 de Abril, Impressão Régia, Lisboa)


quarta-feira, 6 de julho de 2016

CASTELO DE ALFEIZERÃO: alguns elementos cronológicos

   


- (Imagina-se que) o castelo fundado pelos muçulmanos em 714 (Larcher, 1933:37) ou 717 (Leal, 1873:117).


- Terá sido conquistada por D. Afonso Henriques em 1148 (Brandão, 1632: f. 185r).


- Na luta dinástica entre D. Sancho II e Afonso III, o Mosteiro de Alcobaça, com as suas duas fortalezas, tomou o partido de D. Afonso III: «Contra os dois castelos, de Alcobaça e de Alfeizerão (que são da Casa, e os alcaides deles postos pelos abades) não lhe foi necessário a El Rei D. Afonso III levantar lança, mas assegurando-se dos Abades de que a todo o tempo que ele se visse na posse pacífica da Coroa, ou por morte ou por desistência do seu irmão D. Sancho, teria à sua obediência os mesmos castelos, e deixou-os estar como em depósito nas mãos dos monges» (Santos, 1710:102-103).


- «No mês de Maio de 1287 sucedeu que fez jornada el-rei D. Dinis de Lisboa para Coimbra e na sua companhia a mesma Rainha Santa e tomaram ambos a via de Alenquer; de Alenquer vieram a Óbidos e daí teve aviso o Abade Dom Frei Martinho da vizinhança das Pessoas Reais, pelo que os foi esperar à sua Vila de Alfeizerão, que é entre Óbidos e Alcobaça. Chegaram a Alfeizerão os dois Reis a 9 do mês de Junho e no Castelo da mesma vila os agasalhou o Abade com o devido esplendor a tanta Alteza; do Castelo abalaram para Alcobaça em 12 de Junho» (Santos, 1710:122 – atualizamos a grafia). Frei Francisco Brandão, na quinta parte da “Monarchia Lusitana” conta essa viagem com palavras idênticas: «[os reis] fizeram a jornada por Alenquer, Torres Vedras e Óbidos; daqui chegaram á vila de Alfeizerão a nove de Junho e nela foram agasalhados no Castelo, que é dos bons daquele tempo, pelo Abade de Alcobaça, D. Martinho, segundo do nome, de cujo Senhorio é aquela Vila (...) De Alfeizerão acompanhou o Abade Dom Martinho a el-Rei e á Rainha até ao Convento de Alcobaça» (Brandão, 1650:124r-124v – atualizamos a grafia).


- Por duas vezes estanciou no castelo o rei D. Pedro I, em Setembro de 1357, quando viajava de Óbidos para Leiria, e em Agosto do ano seguinte, altura em que se redigiu em Alfeizerão o diploma em que o rei entregava o castelo de Montemor-o-Novo a Gonçalo de Alcácer (Machado, 1978).


- O seu filho, o rei D. Fernando I, alojou-se em Alfeizerão em 1375 (a 14 de Outubro) e a 20 de Outubro de 1382 (Rodrigues, 1978). Uma ordenação feita em benefício do Mosteiro e lavrada e assinada quando o rei D. Fernando se encontrava hospedado no castelo de Alfeizerão, é referida sem menção da data por frei Manuel dos Santos, podendo recair numa das datas acima indicadas (Santos, 1710:204).


- Na crise de 1383-85, o Mosteiro de Alcobaça, com os seus domínios, efetivos e fortalezas, tomou o partido de D. João I: das Cortes de Coimbra «partiu também o Abade D. Frei João de Ornelas para as suas terras a se preparar, e sendo já no Mosteiro, primeiro que tudo reformou os seus Castelos, que estavam danificados do ócio da paz, e para fazer mais defensável o de Alcobaça lhe acrescentou a barbacã, que ainda não tinha; juntamente levantou um bom troço de soldadesca que entregou a Martim de Ornelas, seu irmão, com outras muitas prevenções que fez de armas, mantimentos e dinheiro» (Santos, 1710:212).


- «Os abades de Alcobaça residiram muitas vezes nesta fortaleza, na qual estava, a 4 de Janeiro de 1430, D. Estevão de Aguiar. O comendatário D. Henrique o habitou também» (Larcher, 1907:207).


- O rei D. João II alojou-se no castelo de Alfeizerão em Agosto de 1485 (Serrão, 1975), e o seu filho, o infante D. Pedro, também aí estanciou, como nos conta o cronista Rui de Pina. Em 1439, viajando de Coimbra para as Cortes que se iriam realizar em Lisboa, D. Pedro é interpelado em “Alfeizeeram” por um enviado da rainha, que lhe transmite a solicitação da rainha para que regresse sem demora a Lisboa, apresentando o argumento de «a Vila não ser capaz de seu aposentamento, e menos abastante [abastada, com posses] para vos manter” (Pina, 1971).


- Nele terá residido por vezes o cardeal-infante D. Afonso no tempo em que foi Abade do Mosteiro de Alcobaça (1519-1540), quem o afirma é o padre Luís Cardoso no seu Dicionário Geográfico, registando também que ele terá oferecido à paróquia uma imagem do Santo Cristo que era muito venerada no lugar (Cardoso, 1747:279).


- Nos anos de 1532 a 1533, o abade de Claraval, Dom Edme de Saulieu e o seu secretário, frei Claude de Bronseval, iniciam uma viagem pelos mosteiros cistercienses de Portugal e Espanha com o objectivo de comprovarem o cumprimento das regras da Ordem de Cister. Em Portugal, visitam Alfeizerão (a que chamam Lezeram) e o seu castelo durante a viagem entre Óbidos e Alcobaça, pernoitando no castelo entre os dias 10 e 11 de Novembro de 1532. Depois de cruzarem por uma ponte o rio da Mota ou rio chamado Mota («pluviolum nomine Amotte»), atravessam um vale ao pé de “montanhas estéreis” e chegam a Lezeram: «Vimos aí uma fortaleza, que pertence a Alcobaça, para onde os abades têm, por vezes, o costume de se retirar, porque dista apenas duas léguas do mosteiro. Nós fomos aí pobremente alojados e tratados. Deitamo-nos sobre o chão, à maneira do país, e não encontramos carne para nós» (Cocheril, 1986).


- As lacunas documentais sobre o castelo a partir de finais do século XVI parecem documentar o seu progressivo abandono, quer como fortaleza, quer como lugar de residência: «no tempo dos abades comendatários D. José de Almeida, D. José de Ataíde e de D. Fernando de Áustria, se arruinou o edifício da casaria por falta de reparos e ainda a 27 de Junho de 1630 declarou o auto de posse ao novo alcaide-mor que estavam vigadas as casas e a grande com 18 vigas muito fortes capazes de duração» (Larcher, 1907:207). A fonte parece ser a corografia de frei Manuel de Figueiredo, que nos diz que nesse mesmo ano de 1630, na tomada de posse como alcaide-mor interino de Francisco da Silva da Fonseca em nome do seu neto Silvério Salvado de Morais «nas casas que havia dentro e fora do mesmo castelo, só se conservavam as traves, e que as casas de dentro tinham ainda dezoito» (Leroux, 2020:130).


- No sismo de 1 de Novembro de 1755, conforme narra o pároco de Alfeizerão, «caiu muita parte mas sempre lhe ficaram bastantes torres ilesas» (ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 2, n.º 53, f. 469). A iconografia novecentista sobre o castelo, permite constatar que o castelo se manteve bem conservado até datas muito próximas de nós. Em 1788, frei Manuel de Figueiredo visita-o e faz uma descrição do que ele fora e do estado em que se encontrava.






Fontes:
BRANDÃO, Fr. António – TERCEIRA PARTE DA MONARCHIA LVSITANA - Que contem a Historia de Portugal desde o Conde Dom Herique, até todo o reinado delRey Dom Afonso Henriques, impressa por Pedro Craesbeck, Lisboa, 1632
BRANDAO, Francisco, Quinta parte da Monarchia lusytana : que contem a historia dos primeiros 23. annos delRey D. Dinis... / escrita pelo Doutor Fr. Francisco Brandão... - Em Lisboa : na officina de Paulo Craesbeeck, 1650.
CARDOSO, Pe. Luís, «Diccionario Geografico ou Noticia Historica de todas as Cidades, Villas, Lugares e Aldeas, Rios, Ribeiras, e Serras dps Reynos de Portugal e Algarve, com todas as cousas raras, que nelles se encontraõ, assim antigas, como modernas», Tomo I, p. 479, Lisboa, na Regia Oficina Sylvana e da Academia Real, 1747.
COCHERIL, Maur (1978) – “Routier des Abbayes Cisterciennes du Portugal”, Paris, Fundação Calouste Gulbenkian - Centro Cultural Português (2.ª edição, Paris, 1986)
GONÇALVES, Iria – O Património do Mosteiro de Alcobaça nos séculos XIV e XV, edição da Universidade Nova de Lisboa – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Lisboa, Julho de 1989
CORREIA, Fernando Branco – “Fortificações de iniciativa omíada no Gharb al-Andalus nos séculos IX e X: hipóteses em torno da chegada dos Majus (entre Tejo e Mondego)”, in
Fortificações e Território na Península Ibérica e no Magreb (Séculos VI a XVI) – II Simpósio Internacional sobre Castelos. Lisboa, Edições Colibri, 2013.
LARCHER, Jorge das Neves – Castelos de Portugal – Distrito de Leiria , ImprensaNacional de Lisboa, 1933.
LARCHER, Tito Benvenuto de Sousa, «Dicionário Biográfico, Corográfico e Histórico do Distrito de Leiria», Leiria, 1907
LEAL, Augusto Soares d'Azevedo Barbosa de – Portugal antigo e moderno : diccionario geographico... , Volume Primeiro, Lisboa, Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia, 1873.
LEROUX, Gérard, «Frei Manuel de Figueiredo – Memórias de várias vilas e terras dos Coutos de Alcobaça (1780-1781)», Alcobaça, Jornal «O Alcoa», 2020
MACHADO, J. T. Montalvão, “Itinerários de El-Rei D. Pedro I”, volume I (1357-1367), Academia Portuguesa de História, Lisboa, 1978.
PINA, Rui de Pina, “Crónicas de Rui de Pina”. Lello e Irmão Editora, Porto, 1971.
RODRIGUES, Maria Teresa Campos, “Itinerários de Dom Fernando (1367-1383), Separata de Bracara Augusta, 32 Braga, 1978.
SANTOS, Frei Manuel dos – Alcobaça illustrada: Noticias e Historia dos Mosteyros et monges insignes Cistercienses da Congregaçam de santa Maria de Alcobaça da Ordem de S. Bernardo nestes Reynos de Portugal et Algarves, Primeira Parte, impresso na Oficina de Bento Seco Ferreira, Coimbra, 1710.
SERRÃO, Joaquim Veríssimo, “Itinerários de El-Rei D. João II”, volume I, Academia Portuguesa de História. Lisboa, 1975.


José L. Coutinho