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domingo, 8 de fevereiro de 2015

PEDRO FERNANDES, UM PIRATA ALFEIZERENSE DO SÉCULO XVII - por Carlos Casimiro de Almeida




TRANSCRIÇÃO
(por Carlos Casimiro de Almeida):

     
Ao primeiro dia do mês de julho do ano de mil seis centos quarenta e oito, em Lisboa, nos estaos (1) e casa do despacho da santa inquisição, estando aí em audiência da manhã, os senhores inquisidores mandaram vir ali ante si a um homem que da sala mandou pedir audiência, e sendo presente disse chamar-se Pedro Fernandes, natural disse ser da vila de Alfeizirão, coutos de Alcobaça, de idade de trinta e seis anos, hi per dizer que tinha de que se acusar nesta mesa. Lhe foi dado juramento dos santos evangelhos, em que pôs a mão, sob cargo do qual lhe foi mandado dizer verdade e guardar segredo, o que tudo protestava cumprir.
     E disse que sendo menino de sete para outo anos e vivendo com sua mãe na vila de Peniche, o levou em sua companhia, pera a pescaria de Arguim [!!], Gomes da Costa, vizinho, da dita vila de Peniche, na sua caravela. E vindo iunto à Rocha de Sintra os tomaram os mouros de Argel e os levaram. E ele, declarante, foi vendido a um turco que se chamava Bezarã, o qual dali a poucos meses [o] persuadiu, a ele, declarante, que se conhecesse turco. O que ele, declarante, fez. E lhe ensinaram que dissesse as palavras com que se costuma renegar. Que são (leyla'alá maometh so lá) que querem dizer que deus é grande, e Mafamede está iunto dele. E logo lhe puseram nome Solimão e o cortaram e lhe deram trajes de turco, e ficou cuidando, por não ter ainda entendimento, que ser turco era bom para a salvação, e serviu ao dito mouro cousa de catorze anos, o qual, morrendo, o deixou forro. E então se fez soldado e andou a corso com os turcos contra cristãos, e também era soldado na terra, e haverá um ano pouco mais ou menos que ele se casou em Argel com uma turca chamada Jasmina. E haverá dois meses e meio que ele, declarante, se embarcou em Argel por capitão de um navio em companhia de mais quatro navios de que era cabo um renegado natural da Ilha da Madeira que se chama Jafet, morador em Argel. E chegando à costa de Portugal junto à Pederneira em arrais um navio holandês carregado de trigo que vinha de Biscaia e o levaram para lá ficar. E então o dito cabo Jafet mandou a ele, declarante, que se metesse no dito navio holandês e levasse aquele trigo a Argel, dando-lhe para sua guarda cinquenta mouros e turcos, e do dito navio tiraram os holandeses e os repartiram pelos cinco navios, e também do mesmo navio holandês que tinha vinte peças de artilharia tiraram treze, menos sete para levar em sua guarda, e, apartando-se ele declarante dos ditos navios de mouros para fazer sua viagem para Argel na madrugada seguinte, se achou entre quatro navios de holandeses que lhe tiraram [aquelas?] peças de artilharia, e fugindo ele declarante para terra, quis [antel?] surgir na Ericeira, que não a poder de holandeses, e por ser ele declarante muito apertado encalhou a nau no rochedo. Os que sabiam nadar saíram a terra, que foram dezoito pessoas e a guarda se afogaram vinte e cinco que ficaram no navio por não saberem nadar, e tiraram os holandeses em suas lanchas e ouviu dizer que os vieram vender a Cascais. E tanto que ele declarante e seus companheiros chegaram a terra logo foram ali vistos pelos portugueses e levados à frente deles à Ericeira e outros para algum lugar ali perto a que não sabe o nome, e ele declarante ficou ali em serviço do conde, e seus mouros mais, e ali esteve ele declarante alguns dias sem dizer que era cristão. E o não declarou por temer que o queimassem e haverá cousa de quarenta dias que saíram em terra e vindo ali haverá quatro ou cinco dias um homem de Peniche que tinha sido cativo em Argel e veio resgatado haverá ano e meio, conheceu a ele declarante e lhe disse que já que se via em Portugal e era cristão, que o declarasse e que não houvesse medo que lhe não haviam de fazer mal algum e com isto foi ele declarante à condessa da Ericeira (2) e lhe declarou que era cristão e que o queria ser e que lhe desse remédio. E logo ela o mandou com um criado seu remeter ao senhor bispo a esta inquisição, onde chegaram ontem à tarde. E que isto é o que passou na verdade. E ele quer de coração e boa vontade ser cristão e viver e morrer em nossa santa fé católica e aprender as orações e tudo o mais que for necessário para sua salvação; e que está muito pesaroso de ter gastado tantos anos fora do serviço de deus, mas que não entendia mais.
     Ele declara que quando o cativaram sabia o Pai Nosso e Ave Maria e Salve Rainha, mas que tudo lá lhe esqueceu por ser de tão pouca idade e em terra de mouros fazia algumas vezes as ceremónias que eles faziam, indo às mesquitas e jejuar, e mais inclinado era a amizade dos cristãos com os quais gastava alguma cousa que tinha.
     Perguntado como se chamava seu pai e sua mãe e de onde eram naturais e de que viviam, respondeu que seu pai se chamava Pero Francisco Fernandes e era lavrador já defunto, e sua mãe Francisca da Costa, naturais da dita vila de Alfeizirão, e depois de sua mãe viúva veio viver a Peniche, e tinha ele declarante uma irmã, de nome Maria, de menor idade, que ele declarante ouviu dizer a um homem de Peniche que ambas eram cá mortas.
     E que ele declarante é cristão batizado e o foi na igreja da vila de Alfeizirão, mas não sabe quem o batizou nem quem foram seus padrinhos, nem foi crismado nem sabe que cousa é.
     Foi-lhe dito que dê muitas graças a deus nosso senhor pelo trazer a terra de cristãos e pela [?] ocasião de salvar sua alma – afinal o objetivo da vida. Para tal têm em conta a pouca idade dele à data da captura por piratas muçulmanos, absolvem-no de culpas e reenviam-no à Ericeira para continuar ao serviço de D. Fernando de Meneses (3) e ser instruído na fé católica. O que vem a acontecer e será autenticado por notário:

     António Veloso […], presbítero notário público apostólico [?] e pároco da Stª Igreja da vila da Eiriceira, certifico e faço fé que por comissão dos senhores inquisidores da santa inquisição da cidade de Lixboa, inemei [?] a Pedro da Costa natural de Alfeizirão, varinho [varino, vendedor de peixe]de Peniche, as orações que os fieis cristãos são obrigados saber, e o instrui nos mistérios de nossa santa fee católica, e o confessei e o absolvi da excomunhão em que podia ter incurrido nas partes da Turquia, em que viveu de menino, negando nossa fé católica, que hoje professa como cristão, o que tudo fiz na forma que me foi ordenada pelos [?] senhores inquisidores, e por o dito Pedro da Costa me pedir esta e minha letra, e signei [autentiquei] de meus signaesPúblico e Raro (4), na Ericeira em vinte de septembro de mil e seiscentos quarenta e oito anos.






(1) O Palácio ou Paço dos Estaus, era o Palácio da Inquisição em Lisboa, situado no Rossio. Mandado construir pelo infante regente D. Pedro como um palácio para hóspedes ilustres, foi, na primeira metade do século XVI, adaptado a sede do Santo Ofício em Lisboa. Um incêndio reduziu-o a cinzas em 1834, e foi reconstruído para abrigar o teatro D. Maria II, inaugurado como tal em 1846.

Auto-de-Fé no Rossio, saindo dos Estaus (gravura inserta no 6ª tomo dos
Annales D'Espagne et de Portugal,
de Juan Alvarez de Colmenar, publicado em Amsterdão no ano de 1741))
(2) D. Leonor Filipa de Noronha


(3) D. Fernando de Menezes (1614-1699), 2º conde da Ericeira.

(4) Este sinal, que designa por raro (o da esquerda), seria talvez equivalente ao moderno selo branco. Nele se veem as iniciais AVF do nome do notário. Não parece fácil desenvolver a abreviatura do último: à inicial parece seguir-se r – e termina em a. Poderá ser Ferreira, pouco importa.
Na personagem, o nosso pirata, note-se a troca do apelido paterno pelo materno (Costa).  











domingo, 5 de abril de 2015

O "Santo Ofício" e a vila de Alfeizerão


          Estamos a elaborar um singelo artigo sobre a perseguição movida pela Inquisição à família judia dos Brito Alão, que originou o encarceramento e condenação (por judaísmo e apostasia) de diversos membros da família que moravam na vila da Pederneira e na Quinta da Cavalariça, termo da vila de Alfeizerão. Este é um tema com diferentes leituras possíveis, que tentaremos abordar com algum critério e ponderação. No emmeio desse artigo em preparação, surgiram-nos outros documentos da Inquisição (quatro) em que o topónimo Alfeizerão era indicado, e são esses documentos que evocamos agora, superficialmente, neste texto. Qualquer um dos processos aludidos do chamado Santo Ofício, foi disponibilizado em formato digital pelo Arquivo Nacional da Torre do Tombo (como milhares de outros documentos da Inquisição, que abrangem processos, cartas, confissões, diligências e denúncias), num trabalho utilíssimo e gigantesco que sublinhamos e enaltecemos.

          Os quatro documentos em foco são algo diferentes entre si, e ilustram bem o ofício dos inquisidores. De um quinto processo da Inquisição (de grande interesse), sobre o pirata alfeizerense Pedro Fernandes da Costa, já aqui publicamos a transcrição feita por Casimiro de Almeida. Assinale-se, a título de curiosidade, que também a vila da Pederneira teve o seu pirata: chamava-se Álvaro Dias - nascido na Pederneira, foi capturado pelos piratas, acabando por se tornar num deles; com o novel nome de Solimão luta como artilheiro pirata até ser feito prisioneiro. É levado aos inquisidores sob a acusação de arabismo, mas as coisas correm-lhe bem: cumpre algumas penitências e é reeducado na religião católica. No final do processo (folha 16), atesta-se que ele está bem instruído nos mistérios da Santa Fé, e que comungara depois de se confessar na Igreja de São Roque, em Lisboa, a 29 de Maio de 1631.

1- JOANA FERREIRA  

          O processo de Joana Ferreira, desenrola-se nos anos de 1584 e 1585. Ela é natural de Alfeizerão, nascida no seio de uma família de cristãos-novos: João do Couto, sapateiro, e Beatriz Vieira. Sabemos pelas inquirições do processo que este sapateiro alfeizerense é órfão de pai e que a mãe se chama Inês do Couto, e que a sua esposa, Beatriz Vieira, é filha de Lionardo [sic] Vieira e Ana Ferreira.
          Joana Ferreira trabalha na Póvoa de Santa Iria, termo de Lisboa, como criada de um carpinteiro, Francisco Fernandes, cristão-velho. Presa aos vinte anos pela inquisição sob a acusação de «blasfémias contra o nome de Jesus», é condenada a integrar um auto-de-fé particular e à abjuração e penitência pública. 
          Francisco Fernandes, o carpinteiro de Santa Iria para quem Joana Ferreira trabalhava, é preso pouco depois (processo 4232 do Tribunal do Santo Ofício) com a acusação similar de blasfémias. Na prática, são dois processos separados sobre a mesma transgressão, já que a ré Joana Ferreira é confrontada também neste processo de Francisco Fernandes (pg.. 16), O carpinteiro dá corpo ao mesmo auto-de-fé que ela (realizado a 23 de Julho de 1585), e condenam-no a abjurar, a penitências públicas e a pagar as custas do processo. Os processos de ambos são conduzidos por Bartolomeu da Fonseca e pelo Inquisidor-mor do reino, D. Diogo de Sousa.


2- SILVÉRIO SALVADO DE MORAIS (diligência de habilitação de)

          Documento datado de 1627, representa uma diligência de habilitação de Silvério Salvado de Morais para Familiar do Santo Ofício. Nesta data, o candidato, que é natural da Guarda, desempenha as funções de alcaide-mor de Alfeizerão e reside em Alcobaça. Silvério Salvado de Morais é cavaleiro da Ordem de Cristo, e tem como abono o facto de o sogro, Francisco da Silva, ser irmão do inquisidor de Lisboa, o bispo Pedro da Silva de Sampaio (que ocupou o cargo entre 1617 e 1632, antes de rumar ao Brasil). 
          Grande parte deste processo (uns vinte fólios) encontra-se gravemente deteriorado mas, do que subsiste, percebe-se que a inquirição levantada pelos inquisidores aos familiares de Silvério Salvado de Morais e da esposa, Micaela da Silva (um interrogatório cerrado com diversas perguntas padronizadas - enunciadas nos fls. 3 e 4), comprova a sua lympeza do sangue e geração, ou seja, que são christãos velhos legitimos, limpos e de limpo sangue, sem raça alguma de Judeus, Mouros, Cristãos Novos ou de outra secta. Por sua vez, a inquirição sobre a estatura moral de Silvério Salvado de Morais, procurava averiguar se ele era homem de boa vida e costumes, quietto, pacifiquo, capaz de segredo, pra delle se poderem fiar [em] negocios de segredo e importancia.
       
           Extra-texto, lembramos que os Familiares do Santo Ofício representavam a base da estrutura hierárquica da instituição, formada por leigos que se vinculavam à Inquisição e "policiavam" as comunidades em que estavam inseridos,fazendo diligências, denúncias e prisões. No Regimento do Santo Ofício da Inquisição dos Reinos de Portugal, publicado um pouco depois desta data, em 1640, encontram-se esmiuçados os requisitos e funções dos Familiares (no Título XXI). de onde transcrevemos este trecho:
          Os Familiares do S, Officio, serão pessoas de bom procedimento, & de confiança, & capacidade conhecida: terão fazenda, de que possão viver abastadamente (...). Na vespora, & dia de Saõ Pedro Martyr, sendo possivel, se acharão na Inquisição do seu districto para acompanharem o Tribunal, & assistirão na Igreja, em que se celebrar a festa do Santo: no dia em que se fezer o Auto da Fé, se acharão ante manhaã na Inquisição, para hirem com os prezos na procissão; e sómente nestes dias, & quando forem prender alguma pessoa, ou a trouxerem preza para os carceres, levarão o habito de Familiar do Santo Officio, que haõ de ter.
           Por outro lado, o segredo ou a capacidade de guardar segredo, que várias vezes é inquirido nesta diligência de Salvado de Morais, era algo indispensável aos inquisidores e seus coadjutores, como se encontra estabelecido no Título 7 do mesmo Regimento de 1640: E por quanto o segredo he huma das cousas de mayor importancia ao santo Officio, mandamos, que todos o guardem com particular cuidado, não só nas materias, de que poderia resultar prejuizo se fossem discubertas, mas ainda naquellas que lhes parecerem de menos consideração, porque no Santo Officio não há cousa em que o segredo não seja necessario.

3 - MARIA RODRIGUES (processo de)

          Neste processo, iniciado a 24 de Setembro de 1701, Maria Rodrigues, natural de Pombal e a viver em Setúbal, acusa de bigamia o marido, conhecido pelos nomes de Manuel do Couto ou Manuel Francisco, que era natural de Alfeizerão [Alfizerão], e que alegadamente, depois de viver com ela durante seis meses, se teria ausentado para se casar com Maria Gonçalves, moradora na mesma cidade de Setúbal. É ordenada a prisão de Manuel do Couto, com sequestro de bens (página 11), e ordenada a obtenção das duas certidões de casamento para se comprovar o delito. Depois de averiguada a acusação, Manuel do Couto é ilibado e solto, enquanto é presa Maria Rodrigues, por perjúrio, e condenada a um auto-de-fé, a pagar as custas do processo e a degredo por três anos para o couto de homiziados de Castro Marim.

          (Manuel do Couto era filho de Domingos Pires, lavrador, e Lucrécia Álvares, residentes em Alfeizerão).

          Nota: a bigamia, era um dos delitos que estava sob a alçada da Inquisição, como o comprova o já citado Regimento do Santo Ofício da Inquisição dos Reinos de Portugal.

Processo de Maria Rodrigues, cazada com Manoel Francisco trabalhador 
natural da villa de Pombal, Bispado de Coimbra, moradora na de Setubal [Setuual), 
Arcebispado de Lisboa, preza nos carceres da Inquisição da mesma Cidade
4 - CRISTÓVÃO MACHADO (processo de)

         Cristóvão Machado, meio cristão-novo, natural de Aljubarrota, e que vivia de sua fazenda na vila de Alfeizerão, é preso com a idade de 35 anos a 12 de Maio de 1683 sob a acusação de judaísmo. A sua prisão devera-se a revelações feitas pelo seu irmão Bento Brado da Silva, meio cristão-novo, que fora preso por culpas de judaismo nos cárceres secretos da inquisição de Évora a 12 de Maio de 1692, dos quais foi trazido para a Inquisição de Lisboa. Interrogado pelo inquisidor Estevão de Brito, declarara que, quatro anos antes, se achara com o seu irmão Cristóvão de Machado, casado com uma cristã-velha chamada Maria de Almada; e estando ambos sós, entre práticas de que já não se lembra, ouviu dizer a seu irmão que acreditava na Lei de Moisés para a salvação das suas almas e que em observância dela, guardava os Sábados de trabalho. Foi lida a confissão e Bento Brado da Silva assinou.

          Interrogado Cristóvão Machado sobre os seus bens ou rendimentos no título Inventário, responde este:
Disse que não tinha bens alguns de raiz seus, e vivia do rendimento de huma _____ [?] de sua mulher, Maria de Almada com obrigação de duas missas cada anno a capella de São João Baptista de Alfeizerão, e algumas terras livres que não sabe indicar. E que de bens moveis tinha so os necessários para o seu uzo.
          Interrogado sobre o motivo da sua prisão, e diante do inquisidor Pedro de Ataíde de Castro, Cristóvão Machado, com um dia de prisão, faz e assina a sua longa confissão a 13 de Maio de 1683 (páginas 29-38), na qual denuncia a sua irmã, Maria Baptista, mulher de António da Cunha, natural da vila de Aljubarrota e moradora na vila da Pederneira, já que quinze anos antes, quando se vira a sós com a sua irmã, entre práticas de que já não se lembra, esta lhe confessara a sua fidelidade à Lei de Moisés e às práticas próprias dela. Confirma também a conversa havida com o seu irmão Bento Brado da Silva, não se lembrando muito bem como haviam falado da Lei de Moisés e da sua observância. Mais relata que, oito anos antes, na sua quinta junto a Aljubarrota, conversara com seu irmão Jerónimo Rodrigues, meio cristão-novo que vivia da sua fazenda, casado com Catarina de Almada, e por ocasião de falarem nas prisões do Santo Ofício com a sua irmã, Maria Baptista, eles declararam a mesma fé (a Lei de Moisés e a sua observância). Denuncia também, nos mesmos moldes, ao seu irmão Francisco da Silva, meio cristão-novo, com quem estivera cinco anos antes na quinta da Charneca, termo da cidade de Lisboa; e ao seu irmão Sebastião Nunez, meio cristão-novo, com quem conversara cerca de um ano atrás junto da igreja de Santa Ana dessa cidade (Lisboa); e ainda… que cinco anos antes, numa eira junto à vila de Alfeizerão, se achou com o seu irmão Rafael da Silva, que era alferes de ordenança, também natural de Aljubarrota e morador em Alfeizerão, e que este confessara ser observante e crente na Lei de Moisés; e ainda… que dez meses antes, em Lisboa, em casa de Benjamim Sebastião da Silva, e estando ambos a sós, este lhe declarou o mesmo. E as denúncias sucedem-se: Sebastião da Silva, natural de Alcobaça, um quarto de cristão-novo; o primo António da Silva, um quarto de cristão-novo; a tia materna Catarina da Silva, natural de Alcobaça, com quem ficam associados nas culpas de judaísmo, outros cinco familiares que se encontravam em sua casa (todos citados pelos nomes).

          Cristóvão Machado é condenado a auto-de-fé, a abjurar das suas crenças judaicas, a usar o hábito penitencial, e a cumprir as penitências espirituais. A 23 de Agosto (página 65), sem dúvida, como prémio pela sua copiosa colaboração, os inquisidores dão por levantado o cárcere e tirado o hábito, e que pode ir para onde bem quizesse, contanto que não seja para fora do Reino sem licença desta Mesa, ficando apenas obrigado a algumas penitências espirituais; como confessar-se e comungar nas quatro datas principais do ano (Natal, Páscoa da Ressureição, Espírito Santo e Assunção de Nossa Senhora).

Processo de Christovão Machado, meyo Christão novo que vivia de sua fazenda, 
natural de Algibarrota e morador na villa de Alfeizirão

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Há mouro na costa: sobre piratas e cativos


 

Os “renegados” piratas

            Durante séculos, corsários turcos e argelinos assediaram as nossas costas, quer as povoações costeiras, quer os barcos que encontravam no caminho, destruíam, pilhavam bens e faziam prisioneiros. Destes, alguns eram resgatados e voltavam à pátria, outros morriam em cativeiro, outros ainda, os chamados “renegados”, iludiam a má-fortuna e convertiam-se ao islamismo e tornavam-se corsários ao lado dos seus antigos senhores.

            Em Alfeizerão temos a notícia de um desses piratas, Pedro Fernandes da Costa, que raptado pelos piratas em Peniche, é levado para Argel, onde se converte e se torna pirata, casando-se aí com uma mulher turca chamada Jasmina, sendo-lhe confiado um barco para capitanear. Depois de o seu barco encalhar na Ericeira, é feito prisioneiro e conduzido aos Estaus, em Lisboa, onde é julgado e readquire a liberdade. Esta história novelesca é desenvolvida num processo da Inquisição que Carlos Casimiro de Almeida teve o mérito de transcrever e dar a conhecer. Em S. Martinho do Porto, encontramos Manuel Teixeira (mais cozinheiro que pirata, poderíamos dizer) que, raptado quando andava na faina da pesca com familiares seus, foi feito escravo e converteu-se ao islamismo, tendo perseverado durante quinze anos até conseguir regressar a Portugal. O pai era pescador em S. Martinho e natural das Beiras (Ílhavo?) e a mãe, Catarina Clemente, era natural de Famalicão.

 

Alguns dos que pereceram em Argel

            Nos livros paroquiais das terras próximas ao mar, também se encontra o triste registo dos que pereceram em Argel depois de para aí terem sido levados pelos seus captores. Transcrevemos esses assentos dos livros paroquiais de Alfeizerão e S. Martinho do Porto, os dois últimos assentos, mais desenvolvidos, falam-nos de dois mareantes de S. Martinho capturados no mesmo ataque pirata ao navio em que viajavam, o primeiro deles falece no designado Hospital Espanhol de Argel.

 

Em o mês de Outubro de seis sentos setenta e seis annos fis nesta igreja de São João Baptista da villa de Alfizarão os officios pella alma de Vicente Rodrigues que faleceo catiuo em Argel, cazado que foi com Isabel Ribeiro desta villa, era ut supra.

O Vigario Antão Carreira [1]

 

Em os uinte e seis dias do mês de Setembro de mil e seis sentos setenta e noue annos, fis os officios pella alma de Domingos Luis, morador que foi em esta Villa de Sam Martinho e foi cazado com Maria Clementa, por auer noua serta [certa] em como morreo em Argel aonde estaua cativo. Feci dia o dia [sic] ut supra.

Manuel Pinto de Abreu [2]

 

Em os doze dias do mês de Maio de mil e seis sentos e outenta e sete annos, fis dous ofícios pella alma de Manoel Pereira Freire por pobre, por auer nouas sertas morrera em Argel aonde estaua cativo e ser morador nesta villa e freguesia de Sam Martinho, de que fis este asento, dia, mês, era ut supra.

Manuel Pinto de Abreu [3]

 

Em os vinte e quatro dias do mês de Junho de mil e seis centos e setenta e sinco annos chegou noua certa que era falecido Gaspar Farto, mareante e morador que foi em esta villa, o qual imbarcando na Pederneira em hum nauio que sua Alteza naquella Ribeira mandou fazer, vindo acompanhado de huma fragata de guerra que o comboiava, sendo defronte de Berlenga, os Turcos queimarão a fragata e capturarão o nauio que leuarão a Argel com trinta e sinco pessoas desta villa e da Pedarneira, entre os quais hia o dito Gaspar Farto que faleceo no Hospital que os Reis de Castela sustentão naquella infame terra* para nelle se curarem os pobres e afleitos captiuos. Este, dizem faleceo com todos os sacramentos e esta sepultado no Cemeterio do mesmo Hospital. Deos lhe de sua Gloria e a todos nos, sua Graça. Feci dicto die ut supra.

Antonio Deniz Coresma [4]

* Hospital Espanhol, ou Hospital Real da Puríssima Conceição dos Padres Calçados da Santíssima Trindade da Província de Castela.

 

Em os trinta dias do mês de Setembro de mil e seis centos e setenta e seis annos fis os officios pella alma de Manoel Rodrigues, morador que foi em esta villa e mestre de hum nauio de Sua Alteza que os mouros capturarão quando se queimou a fragata chamada Piedade que [o] comboiava da Pederneira carregado de madeira para o mesmo ____  [?], e por desgraça susedeo no anno de seis centos e setenta e quatro no mês de Setembro; de prezente ueio noua certa o dito Manoel Rodrigues captiuo falecera e se dis fes testamento que athe agora não ueio. Deos o tenha em sua Gloria e a todos nos conserve em sua Graça. Feci dicto die ut supra.

Antonio Deniz Coresma [5]

 


[1] Arquivo Distrital de Leiria, IV/24/C/11, Registos de óbito da freguesia de Alfeizerão: 1666-1747, número de folha não legível

[2] ADL, IV/26/A/33, Registos de óbito da freguesia de São Martinho do Porto: 1666-1733, número de folha não legível

[3] ADL, IV/26/A/33, Registos de óbito da freguesia de São Martinho do Porto: 1666-1733, número de folha não legível

[4] ADL, IV/26/A/33, Registos de óbito da freguesia de São Martinho do Porto: 1666-1733, número de folha não legível

[5] ADL, IV/26/A/33, Registos de óbito da freguesia de São Martinho do Porto: 1666-1733, número de folha não legível

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

A pena e o convento: autores nascidos nos Coutos de Alcobaça

     A alusão em vários autores a Fr. Dionísio do Couto, um frade cisterciense nascido em Alfeizerão que deixou obra escrita sobre direito pontifício, conduziu-nos à fonte de onde essa informação foi colhida, a obra de referência do presbítero e bibliógrafo Diogo Barboso Machado (1682-1772): Biblioteca Lusitana, obra em 4 volumes. O primeiro Tomo foi impresso em 1741 (Lisboa, Oficina de António Isidoro da Fonseca), e os seguintes em 1747 (Lisboa, Oficina de Inácio Rodrigues), 1752 (Idem), e 1759 (também em Lisboa, pela Oficina patriarcal de Francisco Luís Ameno). Todas elas podem ser consultadas em formato eletrónico em páginas Web como a do Archive.org.

     A folha de rosto da obra apresenta-nos no título uma descrição meticulosa do seu conteúdo, à qual se soma um sucinto perfil do autor: Bibliotheca lusitana historica, critica, e cronologica. Na qual se comprehende a noticia dos authores portuguezes, e das obras, que compuseraõ desde o tempo da promulgação da Ley da Graça até o tempo prezente por Diogo Barbosa Machado, Ulisiponense, Abbade da Paroquial Igreja de Santo Adrião de Sever e Académico do Número da Academia Real.

     Nesta obra, são muitos os autores estudados que foram monges cistercienses em Alcobaça, havendo também inúmeras menções a obras que se guardavam na célebre livraria do Mosteiro.

     Neste artigo, optamos por destacar os autores nascidos nos Coutos de Alcobaça. Atualizamos a grafia da obra original de Barbosa Machado (exceto no título das obras), e abreviamos pontualmente algumas das entradas bio-bibliográficas. As vilas dos domínios do mosteiro que se encontram representadas na Bibliotheca são: Alcobaça (12 autores), Alfeizerão (1), Aljubarrota e Batalha (8), Alvorninha (1), Cela (2), Cós (2), Évora de Alcobaça (2), Paredes da Vitória (1), Pederneira e Nazaré (3), S. Martinho do Porto (2), Salir de Matos (1), e Santa Catarina (2).


ALCOBAÇA

     Fr. FRANCISCO DE ALCOBAÇA, cujo apelido denota o lugar que lhe deu o nascimento, e Monge da famosa Abadia, cabeça da Ordem Cisterciense neste Reino, situada na mesma vila de Alcobaça. Foi ornado de singular prudência, natural discrição e religiosa observância. Floresceu pelos anos de 1597.
Compôs:
Contra Judaicam perfidiam maxime contra hujus temporis Judeos. Da obra e do autor se lembram Carol. de Vich. Bib. Cister. Carol. Joseph Imbonat. Bib. Latin. Herb. pag. 40 § 162, e Fr. August. Sartor. Cisterc. Bistert. pág. 565. in quo fala da obra: in obstinatissimam gentem doctissima fulmina detonuit.



       PEDRO DE ALCOBAÇA, natural da vila do seu apelido, e Monge Cisterciense no Real Convento da mesma vila. Foi muito versado na lição da Sagrada Escritura e Santos Padres.
Compôs:
In omnes Epistolas D. Pauli, fol. M. S. [manuscrito]. Conserva-se na Livraria do Mosteiro de Alcobaça.



     Fr. ANTÓNIO BRANDÃO, nasceu na vila de Alcobaça em 5 de Abril de 1584, sendo seus pais Rodrigo Dias Rebelo e Antónia Brandoa, ambos descendentes de famílias nobres. Na fonte batismal lhe impuseram o nome de Marcos por ter nascido no dia consagrado a este Evangelista, logo se lhe antecipou com tal excesso o engenho à idade, que quando contava quatro anos sabia ler, escrever, e de oito anos aprendia com grande aplicação a língua latina da qual para alcançar mais perfeito conhecimento, e lançar os sólidos fundamentos para maiores faculdades, foi mandado por seus pais para casa da sua avó materna que assistia em Lisboa por esse tempo, que com igual aclamação do seu nome, como emolumento da República literária, ensinava as letras humanas no Colégio de Santo Antão o insigne Francisco de Mendonça do qual foi instruído nelas por espaço de dois anos, saindo tão excelente Retórico e elegante Orador que recitou cinco Orações, umas em verso e outras em prosa, primeiros frutos do seu florido engenho onde admiraram os circunstantes felizmente unida a viveza das ações e a energia da frase com a fineza e sublimidade dos conceitos (…) Iguais progressos fez na palestra da Filosofia quando tinha catorze anos, como fizera nas letras humanas tendo por Mestre daquela faculdade o mesmo Mendonça, cujo curso não pôde acabar por fugir ao flagelo da peste que fatalmente devastava Lisboa. Restituído à sua pátria e obedecendo à vocação de Deus recebeu na florente idade de quinze anos no Real Convento de Alcobaça a cogula cisterciense no ano de 1599 e para que deixasse toda a memória do século, até deixou o nome de Marcos pelo de António entregue à disciplina do virtuoso varão Fr. Francisco de Santa Clara, era já em noviciado veterano na observância regular. Continuamente se ocupava na lição das vidas dos seus primitivos monges, desejando imitar os vestígios de varões tão austeros. Macerava com tantas mortificações e disciplinas o corpo que muitas vezes não se podia sustentar em pé. Com tal excesso se arrebatava na suave contemplação das delícias celestiais que era preciso, para se restituir aos sentidos, que o despertassem os outros noviços com grande violência como de um profundo letargo. Nestas e outras virtudes se exercitava com tal excesso, que se a prudência do Mestre lho não moderasse, primeiro acabaria a vida do que o noviciado. Passados cinco anos depois de feita a profissão solene, não dedicou menor cuidado ao estudos das Ciências Escolásticas do que aplicara em alcançar as virtudes religiosas, sendo indeciso entre os seus domésticos em qual delas era mais eminente, principalmente quando pelo largo espaço de dezoito anos lhes ensinou as faculdades da Filosofia e Teologia, recebendo em recompensa do seu grande magistério a Borla Doutoral na Universidade de Coimbra no ano de 1621. Inflamado com o nobre ardor de dilatar a glória deste Reino, posto que impedido com as multiplicadas ocupações que exercitou na Religião, sendo Secretário do Geral por duas vezes, Definidor, Abade do Convento de Lisboa e, ultimamente, Geral de toda Congregação Cisterciense, deliberou prosseguir a História da nossa Nação que ficara interrompida [interrupta] pela morte do insigne Fr. Bernardo de Brito, principalmente quando sucedeu a D. Manuel de Meneses no lugar de Cronista-mor do Reino, consumindo larga diuturnidade de dez anos em revolver e examinar os mais antigos e veneráveis Cartórios dos Mosteiros, Igrejas, Cidades, e vilas, e sobre todos o Real Arquivo da Torre do Tombo, não perdoando seu indefeso trabalho a todo o género de diligência para conseguir fim de tão heroica empresa de que resultou escrever uma História clara, sólida, verdadeira, copiosa, bem digesta, lendo-se nela a genealogia certa dos nossos monarcas, os seus nascimentos, mortes, descendência, ações mais memoráveis obradas tanto na paz como na guerra, as origens das famílias ilustres, brasões e apelidos de que usam; as fundações, forais e privilégios dos mais célebres Conventos, Igrejas, cidades e vilas de todo o Reino, o princípio das Catedrais, o catálogo e sucessão dos seus Prelados e todos os sucessos dignos de memória (…).
Compôs:
Terceira Parte da Monarchia Lusitana que contem historia de Portugal desde o Conde D. Henrique, e todo o reinado delRey D. Affonso Henriquez. Lisboa por Pedro Crasbeeck. 1632. fol.
Quarta Parte da Monarchia Lusitana que contem historia de Portugal desde o tempo delRey D. Sancho primeiro até todo o Reynado delRey D. Afonso Terceiro. Lisboa pelo mesmo Impressor, 1632. fol.(…).



     D. Fr. ANTÓNIO BRANDÃO, sobrinho do precedente e irmão de Fr. Francisco Brandão, Cronista-mor do Reino, de quem fazemos memória em seu lugar. Nasceu na vila de Alcobaça, e seguindo exemplo destes dois insignes varões quis unir-se eles com outro mais ilustre vínculo do que lhe dera a natureza, o qual foi o da religião, recebendo hábito monacal de S. Bernardo no Real Convento da sua pátria em 1 de Fevereiro de 1637, quando contava dezassete anos. Não somente os imitou nas virtudes mas nas ciências em que foi eminente, pelas quais o admitiu entre os seus Doutores a Universidade de Coimbra. A sua grande prudência o fez capaz de administrar com zelo os maiores lugares da sua Congregação Cisterciense sendo Procurador-Geral, Abade do Convento do Desterro, e Geral, eleito no ano de 1672. Ainda não tinha acabado este governo quando a Majestade D’El Rei D. Pedro II o julgou digno de outro maior, nomeando-o Arcebispo de Goa, aonde chegou a 24 de Setembro de 1675 (…). No tempo do seu Generalato renovou a solenidade e culto do lausperene no Real Convento de Alcobaça a 21 de Novembro de 1672, o qual se continua incessantemente por dez Monges de dia e de noite, a que chamam Decanias, substituindo a estes outros dez quando acabam uma Hora do Coro, enchendo por esta repartição quarenta Monges deputados para este louvável ministério as horas que restam do Coro Conventual. Para direção deste sagrado exercício compôs juntamente com o seu sobrinho, Fr. Paulo Brandão: 
Regimento das Decanias do Lausperene, que se observa em Alcobaça. Fol. 6 tom. Que se conservam M. S. no Cartório do mesmo Convento.
Regimentos pelos quais se deve governar cada um dos Oficiais do Convento de Alcobaça. fol. M. S. Guardam-se no mesmo Convento (…).



     Fr. FRANCISCO BRANDÃO , nasceu na vila de Alcobaça a 11 de Novembro de 1601, onde depois de estudar os preceitos da Gramática, passou à vila de Santarém para nela assistir um seu tio cónego que o educou com exemplares documentos. Completos dez anos em que pela viveza do engenho superior à verdura da idade, sabia perfeitamente a língua Latina e as humanidades, partiu em companhia de um outro seu tio, Fr. António Brandão, monge cisterciense (de quem sem seu lugar se fez digna memória), para o Real Convento de Alcobaça onde havia de ditar [«dictar» - ensinar] Filosofia, e entre os seus claustros como se fora religioso assistiu alguns anos, admirando os moradores daquele venerável Mosteiro a modéstia do semblante, a profundidade do talento, e subtileza do juízo que mostrava em anos tão tenros. O familiar comércio dos Monges lhe foi suavemente inclinando o ânimo para que, sem revelar ao tio a sua resolução, pedisse a cogula Cisterciense que benevolamente lhe concedeu o Geral como prevendo o grande crédito que haveria de resultar à religião com um tão insigne filho. Recebido o hábito monacal no Real Convento de Alcobaça a 25 de Agosto de 1618 e feita a profissão solene a 29 do dito mês do ano seguinte, ouviu a Filosofia do Doutor Fr. Estevão de Sequeira, e em Coimbra estudou Teologia, saindo tão profundamente versado nestas Faculdades que não somente as ditou pelo espaço de seis anos aos seus domésticos, mas foi laureado Doutor Teólogo pela Universidade de Coimbra. Para não degenerar do génio de seu tio Fr. António Brandão o imitou por igual nas ciências severas como nas amenas, aplicando-se desde os primeiros anos ao estudo da História, principalmente do nosso Reino em que foi tão versado que mereceu substituir a seu tio no lugar de Cronista-mor em que foi provido a 19 de Janeiro de 1649 (…). Foi Qualificador do Santo Ofício, Examinador das Três Ordens Militares, Esmoler-mor, e por duas vezes Geral da sua autorizada Congregação; a primeira no ano de 1667 e a segunda no ano de 1674. Faleceu no Convento de Nossa Senhora do Desterro desta Corte a 28 de Abril de 1680.
Compôs [entre outras obras]:
Quinta Parte da Monarchia Lusitana, que contem a historia dos primeiros 23 anos del Rei D. Diniz. Lisboa, por Paulo Craesb., 1650. Fol.
Sexta parte da Monarchia Lusitana, que contem a historia dos ultimos 23 anos del Rei D. Diniz. Lisboa, por João da Costa, 1672, Fol.



     Fr. GASPAR BRANDÃO - natural da vila de Alcobaça, solar ilustre de insignes varões deste apelido, sobrinho de D. Fr. António Brandão, Arcebispo de Goa e do Doutor Francisco Brandão, Cronista-mor do Reino, ambos Monges Cistercienses, cujo sagrado instituto recebeu no Convento de S. João de Tarouca a 24 de Janeiro de 1642, e professou solenemente a 28 do dito mês do ano seguinte. Tendo ditado aos seus domésticos as principais matérias da Teologia Escolástica e Positiva, recebeu as insígnias Doutorais na Universidade de Coimbra, onde foi Condutário, provido em 30 de Julho de 1677 e Lente da Cadeira de Durando [Durando de Saint-Pourçain, teólogo e filósofo escolástico] em que deu a conhecer a viveza do seu engenho e a profundidade do seu talento. Faleceu no Convento de Alcobaça no ano de 1682 e jaz sepultado na Casa do Capítulo. 
Compôs:
Tractatus de Fide, e Spe.Tractatus de IncarnationeTractatus de Trinitate.Tratactus de Gratia.Tractatus de Eucharistia.
Todas estas matérias sendo digníssimas de luz pública a merece como maior entre elas:
De sensibus Sacrae Scripturae. fol. M. S. onde com subtil investigação e profunda inteligência penetra e expõe os mistérios mais ocultos de um e outro Testamento. Todas estas obras se conservam M. S. no Colégio de S. Bernardo de Coimbra.



     Fr. PAULO BRANDÃO, natural da vila de Alcobaça do Patriarcado de Lisboa, filho de Pedro Varela e Maria de Almeida, sobrinho pela parte materna do Ilustríssimo Arcebispo de Goa, D. Fr. António Brandão e de Fr. Francisco Brandão, cronista-mor do Reino, dos quais se fez memória em seu lugar. Vestiu a cogula cisterciense no Real Convento da sua pátria a 21 de Janeiro de 1650, e professou solenemente a 25 do dito mês do ano seguinte. Foi ornado de subtil engenho e feliz memória, com que compreendeu as ciências amenas e severas. Ocupou os lugares de Secretário da sua Congregação no tempo em que foi Geral seu tio Fr. Francisco Brandão, e Abade de Mosteiro de Santa Maria de Seiça. Faleceu no Convento de Alcobaça em 20 de Maio de 1681.
Compôs:
Disposição do Lausperene do Convento de Alcobaça. fol. M. S. Esta obra escrita no ano de 1672 está ornada de poemas, emblemas e anagramas que manifestam o engenho do seu autor.
Apologia pela Visão do Campo de Ourique feita ao nosso primeiro Monarca D. Afonso Henriques, contra Fr. João Caramuel que a nega no livro Philippus Prudens.



    CRISTÓVÃO DE ALMEIDA DE ALBUQUERQUE E GUSMÃO, natural da vila de Alcobaça do Patriarcado de Lisboa. No tempo em que frequentava os estudos severos na Universidade de Coimbra, querendo mostrar que não era ignorante dos estudos amenos, publicou: Metros vários, Coimbra, por António Simões Ferreira, 1745, 4.




     Pe. GASPAR DE MACEDO. Nasceu na vila de Alcobaça do Patriarcado de Lisboa onde teve por pais a Pedro Leitão e Maria de Macedo. Entrou para a Companhia de Jesus no Colégio de Coimbra a 6 de Janeiro de 1615 onde ditou Retórica e Filosofia. E Sagrada Escritura na Universidade de Évora na qual recebeu o grau de Doutor. Fazendo uma missão na vila de Setúbal instituiu nela a Confraria de S. Francisco Xavier, ainda quando a sua religião não tinha Colégio na dita vila. Pela muita afabilidade de que era dotado atraiu os ânimos de todo o género de pessoas. Voltando das Caldas aonde fora buscar remédio para o achaque que padecia, foi acometido de uma febre tão perniciosa que o privou da vida a 11 de Outubro de 1649 (…).
Compôs.
Sermão pelo bom Sucesso das Armas Portuguesas pregado no Colégio da Universidade de Évora a 30 de Maio de 1644. Lisboa por Lourenço de Anvers, 1644. 4.
In obitu Excellentissimi Principis Odoardi, epicedium (…).
Elegia ao mesmo assunto (…) Consta de 25 dísticos com 6 epigramas ao mesmo argumento, que tudo vimos. M. S.



     BELCHIOR DO CRATO DA SILVEIRA DE AGUIAR MOUZINHO, Cavaleiro professo da Ordem Militar de Avis. Nasceu nos Coutos de Alcobaça, Comarca da Estremadura a 12 de Março de 1670, sendo filho de Inácio da Silveira do Crato e D. Isabel Maria Silveira do Crato. Ainda que tenha seguido a vida militar, nunca interrompeu o estudo da História, Genealogia e Matemática, com grande emolumento da sua aplicação.
Compôs:
Discurso Genealogico, Historico, e Panegyrico em que se faz memoria da ascendencia do grande D. Nuno Alvares Pereira de Mello, primeiro Condestavel de Portugal, sua descendencia e alianças com todas as Coroas e Casas grandes da Europa pela Serenissima Casa de Bragança, com as ascendencias das Duquezas que forão daquele Estado, e da Condessa de Ourem D. Leonor de Alvim, Consorte do mesmo D. Nuno Alvares Pereira, fol. M. S.



     MANUEL MADEIRA DE SOUSA, célebre patrono de causas forenses, nasceu na vila de Alcobaça do Patriarcado de Lisboa, e na Paroquial Igreja do Santíssimo Sacramento recebeu a sua primeira graça a 17 de Março de 1697. Foram seus progenitores João de Sousa e sua mulher, Benta Madeira. Estudadas as letras humanas na pátria, em que mostrou invulgar engenho, passou à Universidade de Coimbra onde, depois de frequentar a Filosofia, se aplicou ao estudo da Jurisprudência Cesárea, em que fez Formatura a 22 de Janeiro de 1723, com aplauso dos catedráticos. Provada a sua ciência legal no Desembargo do Paço, preferiu ao exercício de Juiz, o de advogado da Casa da Suplicação, e Síndico do Hospital Real de Todos os Santos, para cujo aumento incessantemente trabalhou. Faleceu em Lisboa a 12 de Outubro de 1757.
Compôs [entre outras obras apontadas]:
Resposta que em huma Allegação de Direito se defende a Jurisdição do Tribunal do Santo Officio contra a Pastoral do Excellentissimo e Reverendissimo Senhor Arcebispo de Evora. Sem nome de autor. Saiu impressa na Colleção primeira dos papéis que se publicaram contra os Sigilistas. Madrid, na Oficina dos herdeiros de Francisco del Hierro, 1746, 4.



     Fr. SEBASTIÃO VARELA, natural da vila de Alcobaça do Patriarcado de Lisboa, Eremita Augustiniano, cujo instituto abraçou no Convento de Goa, onde aprendeu as ciências escolásticas. Restituído a Portugal, foi prior do Convento de Montemor. Segunda vez passou à Índia no ano de 1675, acompanhando o seu tio, o ilustríssimo Arcebispo de Goa, D. Fr. António Brandão, Monge Cisterciense, onde depois da morte deste prelado, sucedida a 28 de Junho de 1678, assistiu até que também faleceu. Compôs a instâncias do Grão Duque da Toscânia: Relação de tudo que tiverão os Portugueses, e tem hoje na Índia. fol. M. S. É muito extensa.



ALFEIZERÃO

     Fr. DIONÍSIO DO COUTO - natural da vila de Alfeizerão dos Coutos de Alcobaça, monge cisterciense e filho do Real Mosteiro de Alcobaça. Foi muito douto em Direito Pontifício, compondo:
Casus abbreviati super Decretales. Fol. M.S. Conserva-se na Biblioteca do Convento de Alcobaça.


ALJUBARROTA (e Batalha)

     Fr. EDMUNDO DE ALJUBARROTA - natural desta vila célebre pela famosa batalha que as armas Portuguesas alcançaram das Castelhanas a 14 de Agosto de 1385. Professou o Instituto Cisterciense no Real Convento de Alcobaça onde se conserva a seguinte obra que escreveu:
Reformatio libelli judiciarii à D. Gravaredo compsiti anno 1326. M.S.



     JOSÉ GOMES AMADO DE AZAMBUJA, natural da vila de Aljubarrota do Patriarcado de Lisboa e morador na cidade de Coimbra, filho de Manuel Gomes Vogado de Azambuja, e de D. Maria Amada. Aplicou-se com particular desvelo ao estudo da Genealogia, compondo:
Famílias do Reyno de Portugal, 10 Tomos, fol. M. S.
Arvores de Costados divididas pelas Provincias do Reyno, M. S.



     MANUEL TAVARES DE SOUSA, Capelão Fidalgo da Casa Real, nasceu na vila de Aljubarrota do Patriarcado de Lisboa no ano de 1680, sendo filho de António Tavares de Sousa e D. Maria Pereira. Foi muito estudioso da genealogia, escrevendo:
Nobiliario de diversas Famílias de Portugal, fol. M. S. Conserva-se em poder de José Gomes Amado de Azambuja, parente do Autor.
Casas ilustres de Castella. M. S. Compôs esta obra quando assistiu em Castela, a qual deu José Gomes Amado ao P. Mestre Fr. Manoel de S. Caetano, duas vezes Provincial da Seráfica Província de Portugal.
     Faleceu no ano de 1647, quando contava 67 anos de idade (…).



     Fr. MARTINHO DE ALJUBARROTA, cujo apelido denota a pátria que lhe deu o berço, situado nos Coutos de Alcobaça do Patriarcado de Lisboa, Monge Cisterciense. Traduziu por ordem de Dom Fernando Mendes, Abade Perpétuo de Alcobaça, no ano de 1607, da língua latina à materna:
Regra de S. Bento. fol. M. S. Conserva-se na Biblioteca do Real Convento de Alcobaça.



     MARCELINO LEITÃO DE MACEDO, filho de Pedro Leitão e Maria de Macedo, ambos de nobre geração, e natural da vila de Aljubarrota. Abraçou o instituto de Jesuíta quando contava 15 anos a 6 de Abril de 1621, donde saindo egregiamente instruído nas letras humanas, não deixou de cultivar as Musas que sempre experimentou propícias ao seu entusiasmo, compondo o poema heroico que consta de 8 livros, com o título seguinte:
Occultus Lusitaniae Rex Joannes, sive Lusitania Restauratan sub Rege Joanne IV. 4. M.S. Dedicado ao Príncipe D. Teodósio, e se conserva na Biblioteca Real (…) É excelente assim na metrificação como na ordem do poema.



     Fr. VALÉRIO DE MOURA, natural da vila de Aljubarrota nos Coutos de Alcobaça do Patriarcado de Lisboa, filho de Julião de Moura Negrão e de D. Margarida de Moura. Professou o instituto da preclaríssima Ordem dos Pregadores no Convento de Santarém a 3 de Abril de 1675, onde na penetração das Ciências Escolásticas mostrou uma subtileza e admirável compreensão. Recebida a borla doutoral na Universidade de Coimbra, foi condutário com privilégios de Lente a 2 de Outubro de 1706, e igualado à Catedrilhas de Escritura em 10 de Novembro de 1718. Faleceu no Convento de Lisboa a 17 de Maio de 1721.
Compôs:
In Magiarum Sententiarum Comentaria, fol. 2 Tomos. Estavam prontos para a Impressão, como escreve Fr. Pedro Monteiro em Claust. Domin., Tomo 3, p. 320.



     Fr. MANUEL DE SANTA ROSA DE VITERBO – Nasceu na vila de Aljubarrota do Patriarcado de Lisboa no ano de 1666, sendo filho de Amaro João Preto, Juiz dos Órfãos da mesma vila, e de sua mulher, Helena Amada. Dotado de voz clara e sonora, entrou pupilo na Religião Seráfica onde, aprendendo as letras humanas, saiu tão consumado latino que foi admitido ao Noviciado no Convento de S. Francisco de Alenquer a 17 de Novembro de 1681. Nas ciências escolásticas fez tais progressos que, ditando Filosofia no Convento de Guimarães, foi eleito Mestre de Teologia no ano de 1702, a qual leu por espaço de doze anos no Colégio de S. Boaventura de Coimbra com tanto aplauso dos catedráticos, como se manifestava em todas as ocasiões [em] que argumentava, unindo a subtileza com a jocosidade com que se fazia plausível a todos os ouvintes. Foi guardião do Colégio de S. Boaventura, e Confessor do Mosteiro das Religiosas de Santa Ana de Lisboa. Faleceu no ano de 1722, quando contava 56 anos de idade e 40 de religião.
Compôs:
Sermão do Glorioso Patriarcha S. Domingos, prègado no seu Convento da Cidade do Porto em 4 de Agosto de 1696. Coimbra, por José Ferreira, Impressor da Universidade, e do Santo Officio, 1698, 4.
Hora Seraphica Immaculata ac Semper Virginis Maria ex Seraphici Doctoris D. Boaventura opusculis desumpta. Conimbricae apud Joanem Antunes, 1711, 12.
Familia dos Amados historiada. Depois de estar impressa esta obra no Colégio das Artes de Coimbra, se recolheu por razões políticas.



     Fr. SANCHO DA BATALHA - natural da vila que tomou por apelido situada nos Coutos de Alcobaça do Patriarcado de Lisboa, Monge Cisterciense, e muito douto em Teologia Dogmática.
Escreveu:
Speculum disputationis cum hereticis. fol. M. S.
Conserva-se na Biblioteca do Real Convento de Alcobaça.



ALVORNINHA

     Fr. CRISTÓVÃO DE ALVORNINHA - cujo apelido denota a pátria onde nasceu, que é uma vila dos Coutos de Alcobaça de que é senhor e donatário o Abade Geral da Congregação de Cister, cujo hábito professou no Convento de Santa Maria de Aguiar. Foi muito douto, assim na Sagrada Escritura, como na Teologia Escolástica, deixando para argumento infalível da ciência que tinha em ambas estas Faculdades a seguinte obra:
De Verbo Abbreviato. M. S. fol. o qual se conserva no Real Convento de Alcobaça.



CELA NOVA

     Fr. EUSÉBIO DA CELA - vila situada nos Coutos de Alcobaça, onde nasceu, e monge professo no Real Convento de Santa Maria de Alcobaça.
Escreveu:
Horae Sanctae CrucisHorae de Spiritu SanctoHorae de D. VirgineHorae pro DefunctisTudo se conserva M. S. no Arquivo do mesmo Real Convento.



     Fr. VITAL DA CELA - cujo apelido declara o lugar do seu nascimento que é uma das vilas dos Coutos de Alcobaça, em cujo Real Convento professou o instituto cisterciense. 
Escreveu:
Vita S. Martini collecta a M. Albino à Severo Sulpitio, & Gregorio Turonensi.Vita S. Britii, & aliorum Episcoporum Turonensium.Laudes S. Jacobi traslatio, & miracula. Epistola Turpini degestis Caroli Magni in Hispania.Comemoratio Alphonsi Primi Lusitanorum Regis.Vita & Passio S. Eutropii Sanctonensis Episcopi.
Todas estas obras M. S. se conservam na Livraria de Alcobaça.



CÓS

     Fr. FILIPE AFONSO - natural da vila de Cós do patriarcado de Lisboa e Monge Cisterciense no Real Convento de Alcobaça, muito douto na lição da Sagrada Escritura, e dos seus maiores intérpretes, escrevendo a seguinte obra que se conserva no Real Convento de Alcobaça.
Commentaria in Psalmos. M. S. fol.



     Fr. EDMUNDO DE CÓS - vila distante uma légua da vila de Alcobaça que lhe deu o berço. Recebeu a Cogula Monacal do Doutor Melífluo S. Bernardo no Real Convento de Alcobaça onde se guarda esta obra em que mostra a vasta notícia que tinha dos ritos e Cerimónias da sua Congregação:
Regimen Officiorum Ecclesiasticorum secundum Usum Cisterciensem. 4. M.S.



ÉVORA DE ALCOBAÇA

     PEDRO HENRIQUES DE ABREU, natural de Évora de Alcobaça, chamada ao tempo dos romanos Eburobritium, licenciado n na Faculdade dos Sagrados Cânones, Reitor da paroquial Igreja de S. Pedro de Farinha Podre do bispado de Coimbra. Foi muito versado na erudição sagrada e profana, e incansável investigador das antiguidades históricas, assim da sua pátria, como de todo o mundo, por cuja causa o intitularam João Franco Barreto (Bib. Portug. M.S.) Curioso Antiquário, e João Soares de Brito (Theatr. Lusit. Litter. Lit. P. n. 34) vir antiquitatum studiosus.
Escreveu com crítico exame: A Vida, e martyrio de S. Quiteria, e de suas oito Irmãas todas nacidas de hum parto portuguezas, e Prothomartyres de Hespanha com hum discurso sobre a antiga Cidade de Cinania. Coimbra, por Manuel Carvalho, 1651. 4.
     No Prólogo desta obra (que muito louva Jorge Cardoso no Agiol. Lusit. Tomo 3, p. 370 no Coment. de 22 de Maio, letra D, col. I) afirma que a escrevera naqueles intervalos que lhe permitiam as obrigações de pároco, prometendo publicar: Historia das Grandezas, e excellencias da Ilustrissima Igreja, e Real Cidade de Coimbra, M. S.



     Fr. JOSÉ DA ESPERANÇA, natural da vila de Évora dos Coutos de Alcobaça do Patriarcado de Lisboa, e filho de António Sueiro e Maria Coelha. Professou o severo instituto da Seráfica Província da Arrábida no Convento do Espírito Santo, situado no lugar de Loures, a 3 de Fevereiro de 1692, onde estudou as ciências severas. Depois de administrar diversas Guardianias, foi eleito Provincial a 2 de Dezembro de 1724, em cujo ministério conservou o primitivo rigor do seu instituto. Retirado para o Convento da Arrábida, finalizou a vida no ano de 1752 com suma piedade.
Compôs:
Jardim Espiritual em que se trata de quinze flores, distribuídas por quinze dias para proveito das almas que querem exercitar as virtudes. Lisboa, na Oficina dos herdeiros de António Pedroso Galrão, 1752, 8.



PAREDES DA VITÓRIA

     Fr. JOÃO DE PAREDES - natural da vila do seu apelido situada nos Coutos de Alcobaça, Monge Cisterciense, e muito douto na Teologia Escolástica.
Escreveu:
Compendium Sacrae Theologiae. fol. M. S. Conserva-se na Livraria do Real Convento de Alcobaça.


PEDERNEIRA E NAZARÉ

     MANUEL DE BRITO ALÃO, natural da vila da Pederneira do Bispado de Leiria, filho de Cristóvão de Brito Alão e neto de Nuno Gonçalves Alão, fidalgo da Casa Real. Frequentou a Universidade de Coimbra onde depois de receber o grau de Bacharel na Faculdade dos Sagrados Cânones, foi Abade de S. João de Campos, e Administrador das rendas do célebre santuário de Nossa Senhora da Nazaré, situado na sua pátria, de cuja administração lhe fez mercê Filipe II no ano de 1608, devendo-se à sua grande indústria a fábrica da Capela-mor onde se venera esta prodigiosa imagem, e à sua infatigável investigação relatar nos dois tomos seguintes que publicou:
Antiguidade da Sagrada Imagem de Nossa Senhora de Nazareth grandezas do seu sitio, casa e juridisção real sita junto à Villa da Pederneira. Lisboa, por Pedro Crasbeeck, 1628. & ibid por João Galrão, 1684. 4. 
Prodigiosas Historias, e miraculosos sucessos acontecidos na Casa de Nossa Senhora de Nazareth. Parte Segunda. Lisboa por Lourenço Crasbeeck, Impressor del Rei, 1637. 4. Neste ano ainda vivia o autor com mais de 82 anos de idade. Dele fazem menção Nicol. Ant. (Bib. Hisp. Tomo I, pag. 263, col. 2), Cardoso (Agiol.Lusit. Tomo 2, pag. 284. no Coment. de 23 de Março, letra C, col. I) e Fr. Petr. De Alva y Astorga (in Milit. Immac. Concept.)



     Pe. JOÃO DA NAZARÉ - natural da vila da Pederneira do Patriarcado de Lisboa, e filho de João Fernandes e Cecília Rodrigues tão dotados dos benefícios da graça como dos bens da fortuna. Na primeira idade mostrou génio inquieto e turbulento armando de motivos leves pendências graves que serviam de universal escândalo. Penetrado de um misterioso sonho mudou de condição e estado de vida recebendo o hábito de Cónego Secular do Evangelista amado no Real Convento de Santo Elói de Lisboa no faustíssimo dia da Assunção da Senhora, e debaixo de tão feliz auspício começou a sujeitar a rebeldia da carne às leis do espírito, jejuando Quartas, Sextas, e Sábados, e comendo na Quaresma e Advento manjares grosseiros, que nem satisfaziam o apetite com a quantidade, nem o deleitavam com o sabor. Todos os dias se açoitava duas vezes com disciplina de ferro fazendo mais penetrantes os golpes a atividade do impulso e a dureza do instrumento. Eleito Reitor do Convento de Vilar reedificou a Igreja para cuja obra concorreu o Céu com mão invisível. Armado de zelo apostólico se opôs à execução de um subsídio eclesiástico que ou por falta de conselho ou por excesso de ambição impusera o Arcebispo de Braga, D. Luís Pires da Cunha. Depois de ter governado catorze anos o Convento de Vilar, sendo-lhe revelado o termo da sua peregrinação, se despediu dos Padres de Santo Elói por uma carta. Tolerada com grande resignação a ultima enfermidade pelo espaço de três semanas em que triunfou de diversas sugestões diabólicas, recebidos os Sacramentos com ternura, expirou placidamente a 27 de Fevereiro de 1478 (…).
Compôs:
Tratados espirituaes.
Officios, e Hymnos a S. Gregório Magno, S. Jerónimo, Santo Ambrósio, S. Clemente Martyr, S. Nicolao Bispo, e outros Santos.
Officio de Nossa Senhora chamado Vigilia que todos os Sabbados se cantava nas Casas da Congregação,  como escreve o Padre Francisco de Santa Maria na Chronica dos Coneg. Secul. Liv. 3, pag. 821.



     Fr. DUARTE DA NAZARÉ - natural da vila da Pederneira do Patriarcado de Lisboa, monge cisterciense cujo Instituto professou no Real Convento de Alcobaça em cuja Livraria se conservam as obras seguintes que escreveu:
Historia de expugnatione Santarem ab Alphonso HenriquezLiber de fide Incarnationis S. Fulgentii.Libér Septem historiarum B. Orosii Presbiteri cum descriptione terrarum, & eventibus ante urbem conditam 1300. usque ad 1169. ab urbe condita.


S. MARTINHO DO PORTO

     Fr. ANTÓNIO DA MADRE DE DEUS, natural da vila de S. Martinho dos Coutos de Alcobaça do Patriarcado de Lisboa, e filho de Francisco Ribeiro e Helena da Silva. Professou no estado de leigo na austera Província da Arrábida a 8 de Julho de 1735. Tem publicado as seguintes obras índices da sua devota aplicação:
Vozes do Desengano, que bradão aos ouvidos dos pecadores adormecidos no lethargo das culpas. Lisboa, na Oficina dos herdeiros de António Pedroso Galrão, 1743, 8. 
Eccos do temor, clamores da verdade reflectidos em proclamorosos brados do desengano para despertar os pecadores do profundo sono da culpa, e do esquecimento que tem da eternidade. Lisboa, por Pedro Ferreira, 1748, 8. 
Progymnasmo Sagrado, que convida e ilustra aos Catholicos para assistirem pelo estylo mais próprio ao Santo Sacrificio da Missa e para practicarem pelo mesmo modo o inefavel  exercício da Communhão Eucharistica. Lisboa, pelos herdeiros de António Pedroso Galrão, 1748, 12. 
Elogio do preclaríssimo Fundador da Arrabida, o Veneravel Padre Fr. Martinho de Santa Maria, prodigioso Cenobita deste Sagrado Promontorio, e gloria imortal da mesma Província. Lisboa, na dita Oficina, 1750, 4. 
O Monte Santo da Arrábida. Monumento venerável deste Sagrado Promontorio, em o qual se descrevem os domésticos exercicios, e grandes progressos dos exemplarissimos Religiosos que nelle habitão, 4. M. S. Está corrente com as licenças para a impressão.



     Fr. CAETANO ROQUETE, filho do Capitão João Roquete da Silva e D. Vitória de Jesus, nasceu na vila de S. Martinho, nos coutos de Alcobaça do Patriarcado de Lisboa. Sendo de idade muito tenra entrou na religião do Carmo onde recebendo hábito a 30 de Maio de 1719, professou a 9 de Junho de 1720. Concluídos os estudos escolásticos veio por Conventual do Carmo de Lisboa no qual não somente foi subprior três anos, mas Mestre-de-cerimónias. É Consultor da Bula da Cruzada.
Imprimiu:
Oração na Tresladação dos Ossos, que se fez em 29 de Novembro de 1734 na Paroquial Igreja de S. Paulo desta Cidade de Lisboa. Oficina da Música, Lisboa, 1739. 4-


SALIR DE MATOS

     SISTO DE SALIR - cujo apelido declara o seu berço, que foi no lugar de Salir de Matos dos Coutos de Alcobaça. Foi Monge Cisterciense, e muito douto na lição da Sagrada Escritura, e dos Santos Padres.
Escreveu:
Vidua Sereptana moraliter explanata. fol. M. S.
Conserva-se na Biblioteca do Real Convento de Alcobaça.


SANTA CATARINA

     MANUEL DA SILVA DE MORAIS, natural da vila de Santa Catarina do território de Alcobaça de que é donatário o Reverendíssimo Geral da Ordem Cisterciense. Sendo capelão da Santa Igreja Patriarcal de Lisboa, foi eleito no ano de 1739 Tesoureiro-mor da Real Colegiada de Santa Maria de Alcáçova, situada na nobre vila de Santarém. Faleceu na sua pátria a 9 de Outubro de 1742. Traduziu da língua castelhana para a materna, acrescentando o Tratado da Bula da Cruzada concedida ao Reino de Portugal e outro dos Casos reservados nas Dioceses deste Reino:
Promptuario de Theologia Moral muito util,e proveitoso para todos os que se quizerem expor para Confessores, e para a devida administração do Sacramento da penitencia, composto pelo P. Fr. Francisco Larraga da Ordem dos Pregadores, Lisboa, por Francisco Xavier de Antrade, 1723, e Coimbra por Antonio Simoens Ferreira. 1735. 4. 
Vida admiravel do mais raro milagre da natureza, prodígio da graça, assombro da penitencia, portento de virtudes, modello, e exemplar da humildade, admiração dos Serafins, Abrahão da Ley da Graça, Elias do Novo Testamento, Elizeu de maravilhas, Thesouro de divinos poderes, substituto dos amores de Christo nas suas chagas, novo homem do mundo e glorioso Patriarcha Serafico S. Francisco de Assis, Lisboa, por Manoel Fernandes da Costa, Impressor do S. Officio, 1727. 4.


     FAUSTINO DO REGO - natural da vila de Santa Catarina, situada nos Coutos de Alcobaça, no Patriarcado de Lisboa, monge cisterciense, e muito versado nos privilégios da sua observantíssima Congregação. Escreveu no ano de 1525, num grande volume que se guarda na Biblioteca do Real Convento de Alcobaça, as obras seguintes M. S.
Comesso da Ordem Cisterciense
Fundação de Odivelas, e Ordem de Cristo
Estatutos de D. Jorge de Melo, fundador do Mosteiro de Portalegre para o bom governo das Religiosas do dito Mosteiro
Regimento de como se hade ler á Mesa nos Domingos e Festas do Anno.

Monge do Scriptorium a trabalhar
Gravura de William Blades (s. XIX)