quarta-feira, 22 de outubro de 2014

ALFEIZERÃO CISTERCIENSE - por Carlos Casimiro de Almeida

Escreve Fr. Figueiredo que «A Igreja é filial desmembrada da de S.Martinho, para a qual «foi o distrito [território da paróquia] de Alfeizerão demarcado nos seus limites, em 9 de Novembro de 1296, pelo Bispo de Lisboa D. João Martins de Soalhães».[1] Deu-lhe carta de foral o abade de D. João Martins, na «Era de mil 7 ccc 7  sete~eta anos» (1332). Aí designado por «logo» (lugar), os «pobradores devedes ∫eer Cento e nõ  meos» (menos), mas dois séculos depois (censo de 1527) o número de moradores não chegava a 60, o que demonstra a dificuldade de povoamento da área lacustre, com a terrível malária a dizimar a população (lembra Vieira Natividade). Outras circunstâncias (nacionais: a peste negra de 1348 e os Descobrimentos) terão dificultado o povoamento.
O foral novo de D. Manuel (1514) designa  Alfeizerão como lugar, porém logo no ano seguinte num «Instromento q/mandou tirar D. Jorge de Mello D. Abbade» é designado por vila:




A igreja matriz deve ser desta época de desenvolvimento [2] e prosperidade, apesar da fraca densidade populacional.  Assim  como  o pelourinho (manuelino) é certamente fruto desta mudança de categoria, que até ao séc. XIX se verifica em documentos reais e da Abadia – não obstante o frade arabista do séc. XVIII lhe chamar lugar.
Em 1863 a administração local refere a terra como freguesia (em resposta a uma carta da câmara de Alcobaça), como se a perda da categoria de concelho acarretasse paralelamente a de vila. A freguesia foi primeiro engrossar o (efémero) concelho de S. Martinho, brevemente o de Caldas, para logo regressar ao de Alcobaça.

Principal porto de mar da Abadia no séc. XV, escreve Iria Gonçalves que por ele se exportavam sal, madeiras, cereais, e que no tempo de D. João I todo o ferro gasto pelo Mosteiro aqui se concentrava. Nessa altura Alfeizerão terá conhecido apreciável surto de desenvolvimento, como depois no tempo do rei Venturoso. Um poeta da transição do séc. XV para o XVI fala de «Allfeyzyram onde ha ynfyndo sal»  – que  a Abadia exportava, sendo as salinas sua propriedade.

No tempo de D. João V os lugares mencionados são os seguintes: «Macarca, Rebollo, Famalicaõ debaixo, Mata da torre, Val da Maceira, Valado, Mosqueiros, e Casalino». [3] Na passagem do séc. XVII para o XVIII, a população total perfazia, «com os moradores do termo, 160 vizinhos»; mas em 1758 «Tem a villa sincoenta e douz vezinhoz e toda a freguezia duzentos e oitenta e seiz, [e] PeSsoas nove sentas e trinta e trez.»
Quer dizer: na primeira metade do séc. XVIII a população terá aumentado na ordem dos 78%! O que teria acontecido? A secagem dos tais «paùs» que o rodeavam. Fora preciso regularizar as águas, abrindo valas, reabrindo rios: ao que parece, os valadores vinham dos outros coutos de Alcobaça, mas também dos arredores de Leiria e do noroeste deste distrito, até à Figueira da Foz: Arrabalde, Mazeide,  Amor, Mata  Mourisca, Paião…

Em 1761 parece terem-se realizado três casamentos: um na ermida de Stº Amaro, em que o noivo, viúvo, era natural de Barosa, e dois na do Espírito Santo; em 1763, cinco, num dos quais ela é do Casal da Marinha (Stª Catarina) e ele do Monte Gordo. Em 1764 voltam a realizar-se «nesta Igreja de S. João Baptista», reparada, e não apenas dos danos do terramoto, pois que em 1758 o pároco informara que «está fora da villa distante seSsenta paSsoz, posta por Terra, e quasi demolida á maiz de sincoenta annoz e serve=lhe de Matriz a lemitada Igreja do Espirito Santo, sita no meyo da villa, que amiaça total ruína.» Também Fr. Figueiredo escreve (uns 20 anos depois) :
 «A primeira Igreja se arruinou no princípio deste século [XVIII]; a câmara, que consumiu os seus materiais, alcançou provisão para fintas [taxas, impostos], que não empregou na reedificação. E o padroeiro donatário, para se decidir a obrigação da fábrica [reconstrução] deste templo demandou o povo, que, por sentença do Juízo da Coroa, foi desobrigado de todo o encargo. E logo o mandou [re]edificar o Geral Fr. Caetano de Sampaio, em 1762, ao poente da vila, em sítio plano, entre a povoação e o castelo, com a porta principal para nascente».

Voltando à capela do Espírito Santo, três questões se impõem:
No meio da vila será o mesmo que no centro?
Onde seria este? Quais os limites da urbe?
Responde o pároco:
[Alfaceirão(sic)] «Está situada em Areal quasi planicie com alguma declinação para o Sul. […] Junto a esta villa para a parte do Sul en distancia de sento e sincoenta paSsoz tem huma ponte de madeira no caminho que vai para a villa das Caldas».

Ora, em areal com ligeiro declive para sul; a igreja situada a 60 passos; a capela de Stº Amaro fora da vila («taõ antiga como a  mesma»); com  uma ponte a sul e a 150 passos [não parecendo a actual, sobre o rio] este Alfeizerão quase medieval corresponde grosso modo ao espaço entre a rua do Relego (ao sul) e a  estrada 242 (ao norte); e entre o largo Vitorino Frois (ao poente) e a rua D. Afonso Henriques (ao nascente). O largo Vasco da Gama é o centro aproximado desta área.

A capela do Espírito Santo ficava aí, «com a porta principal para o sul. O desembargador […] a mandou derrubar e fez sociedade com alguns moradores devotos para levantarem um templo mais magnífico. Porém, não igualando os seus teres a sua devoção, ficou a ideia nos alicerces e inteira a capela-mor [?], que nos remates atados da abóbada tem semelhança com o claustro de Belém e antefachada do Mosteiro de Alcobaça. Mostra o erro na voluntária  demolição de um templo perfeito sem terem os autores do projecto meios para fabricarem outras de maior grandeza e de mais perfeita arquitectura.»    (Fr. Manuel de Figueiredo)



Mais conclusões:
1-Acredito ter ficado demonstrado onde nasceu Alfeizerão e onde se localizava a sua igreja primitiva;
2-O edifício atual é a renovação de outro e ficou pronto em 1764.
3-Na sua dupla qualidade de bispo de Lisboa (primeiro) e abade de Alcobaça (depois), D. João Martins é o pai oficial de Alfeizerão.


Carlos Casimiro de Almeida
Alfeizerão, Julho/2011.




[1]  Este bispo de Lisboa parece a mesma pessoa que depois será Abade do Mosteiro de Alcobaça e dará a Alfeizerão carta de povoação e foral.

[2] Numa capela interior encontra-se gravada a data de 1663, mas deve tratar-se de um acrescento. Na transição desse séc. XVII para o seguinte, o edifício estava por terra, informam não só as «Memórias Paroquiais», mas também o Diccionário […] do Pe. Luís Cardoso, publicado antes do terramoto. Tal não aconteceria a um edifício com menos de 40 anos de idade, por muita falta de conservação de que padecesse.

[3] Pe. Luís Cardoso, Diccionario geografico […], Tomo I, 1747.
O facto de não serem mencionados o Casal Velho e o Casal Pardo, que nesta altura sem dúvida já existiam, faz pensar que Cardoso se baseia em dados mais antigos e ultrapassados. Mesmo atendendo a que a recolha de dados seria muito lenta, entre esta e a publicação não poderia mediar meio século! 






Nota: o presente artigo é um de três que integravam o desdobrável "Alfeizerão - 3 mergulhos na História", elaborado por Carlos Casimiro de Almeida para a efeméride do Vigésimo Aniversário da reelevação de Alfeizerão a vila.

Reproduzido do original com a anuência do autor.
José Eduardo Lopes
20/10/2014

HISTÓRIA SUCINTA DO PÃO-DE-LÓ DE ALFEIZERÃO - por Carlos Casimiro de Almeida

Vivemos um tempo sem pudor, concorda?
Ponha então de lado tudo o que nos últimos 10 ou 15 anos leu ou ouviu na imprensa sobre o pão-de-ló de Alfeizerão.
Diz o povo que a verdade é como o azeite, vem sempre à superfície. Pois é, mas está muitas vezes sujeita a interesses de conjuntura e a deturpações que confundem os que a desconhecem.
Existe uma verdade como o azeite e que se comprova documentalmente.

Como acontece geralmente com a doçaria tradicional portuguesa, o pão-de-ló terá origem conventual. Aparentemente não em Portugal, mas no país vizinho, visto que, levado pelos jesuítas para o Japão, ali lhe chamaram «bolo de Castela, kasutera ou kastera», sendo estes nomes corruptelas devidas à dificuldade do falante nipónico ao articular o topónimo. (in O Ocidente No Oriente Através dos Descobrimentos Portugueses, Estudos Orientais, vol. VIII, Univer.  Nova de Lisboa, 1992, pp.138,184 s.).

Na sequência da vitória do Liberalismo no séc. XIX, as ordens religiosas foram extintas em Portugal e os conventos encerrados (1834) . Foi o que aconteceu ao Mosteiro de Alcobaça. O mesmo não se passou com o vizinho Mosteiro de Cós, feminino e igualmente cisterciense, que pôde continuar até ao dia em que falecesse a última freira ou as últimas ocupantes o deixassem espontaneamente – como veio a acontecer sensivelmente a meio daquele século.

É tradição familiar que foram acolhidas em Alfeizerão por uma família de apelido Grilo. E é assim que na transição para o séc. XX, Amália Grilo(1858/1928) , parece que com uma amiga (cujo nome omito por não estar documentado nem ter tido relevância para a continuidade) , começa a fabricar por encomenda ocasional este tipo de pão-de-ló - cedo referenciado por M. Vieira Natividade (Alcobaça d´Outros Tempos, publicado em 1906) como uma das «indústrias tradicionais e caseiras» da região, ao mesmo tempo que assinala a sua presença na Exposição Industrial realizada nesse ano em Alcobaça.
Na Exposição Comercial e Industrial das Caldas da Rainha de 1922, de novo o Pão-de-Ló de Alfeizerão marca presença, tendo Maria Grilo (sobrinha de Amália Grilo) merecido uma menção honrosa pelo seu fabrico para a Pastelaria Primorosa, daquela cidade. Mas a verdadeira e definitiva industrialização do produto inicia-se em 1925, quando Américo da Silva Ferreira forma uma sociedade (com o padre João de Matos Vieira, com uma irmã deste ou com ambos parece irrelevante) denominada A. S. Ferreira & C.ia, com uma casa comercial a que o vulgo chamava Casa dos Pretos (por exibir à entrada duas estatuetas, recortadas em tábua, representando um casal africano: ele, com uma das mãos ao alto, como que mandando parar quem passava, enquanto a outra apontava a entrada; ela com uma bandeja nas mãos).

                                                                            * * *

Amália Grilo, que pela sua idade rejeitara participar dessa sociedade (informa sua neta, Maria Rosa de Almeida Ferreira) , sugeriu uma sua nora para o lugar. Esta, Maria Ferreira, entrou assim no conhecimento e posse da receita e das técnicas de fabrico, ficando responsável pela produção na Casa dos Pretos. Presume-se que sob orientação da sogra (pouco depois falecida) , atendendo a que, em 1932, escrevendo sobre Alfeizerão no jornal «Ecos do Alcoa», o professor Elias Cravo (figura muito concieituada na Alcobaça da época) refere «a indústria do afamado Pão-de-Ló da tia Amália» [sic] – e o recomenda aos leitores. Da tia Amália! Não do Senhor Avelino Ferreira, apesar de muito conceituado na terra e sócio principal da firma, nem do Senhor Prior. Para este, havia pouco chegado à Paróquia, nem mesmo se vislumbra motivo. E claro se torna que tanto a indicação do ano de 1906 como a designação «da Tia Amália» se constituem como verdadeira certidão de nascimento do Pão-de-Ló de Alfeizerão.
A firma A. S. Ferreira & Cia e a sua Casa dos Pretos manteve-se até 1947, quando a sua fabricante descobriu que afinal o apelido Ferreira, constante da firma, não se referia à sua pessoa. E que, pior ainda, não fazia parte da sociedade! Aquilo que julgava serem lucros, esporadicamente recebidos, era afinal um salário que nunca negociara. Considerando-se ludibriada e lesada, deixou aquela casa e adquiriu um velho estabelecimento a uns 50 metros de distância. E, remodelando-o, inaugurou o seu Café Ferreira ainda no ano de 1947.
Em breve a Casa dos Pretos encerrou e a firma A. S. Ferreira & C.ia se extinguiu. E só no ano seguinte (1948) , Adília de Matos Vieira (a irmã do padre) , constituiu uma firma em nome próprio e inaugurou a sua Casa do Pão-de-Ló, correntemente e impropriamente chamada Café do Padre. Em edifício de raiz sem nada a ver com o da Casa dos Pretos, que lhe ficava em frente.

                                                                         * * *

A rigor, nenhuma das duas casas pode reivindicar a condição de herdeira da primitiva. E, muito menos, ser a primitiva.  Aspirar a isto é ignorar quer a cronologia quer as circunstâncias.  



                                                                    Carlos Casimiro de Almeida
                                      (natural de Alfeizerão e contemporâneo da Casa dos Pretos)




Nota:
Artigo publicado inicialmente por Carlos Casimiro de Almeida na sua página ALFEIZERÃO HISTÓRICO, e reproduzido com a anuência do autor.

José Eduardo Lopes

20/10/2014

terça-feira, 21 de outubro de 2014

BECKFORD E ALFEIZERÃO - por Carlos Casimiro de Almeida


                    1 - Esta é, muito provavelmente, a única imagem do castelo de Alfeizerão obtida por visualização direta. Ou melhor, do que restava dele e era visível à distância. Trata-se de um esboço feito em 1794 por William Beckford.
                O seu livro Recollections of […] Alcobaça and Batalha e o livro The Travel-Diaries of William Beckford [...] conheceram várias edições, a primeira, parece, em 1835.  Mas a gravura foi publicada apenas uma vez: na edição (inglesa, de 1928) do segundo título, por Guy Chapman. Uma edição portuguesa do primeiro (1997, com tradução de Iva Delgado e Frederico Rosa) também não a publica.

                2 - Diz Beckford:
                «A certa distância vimos um castelo mouro, orgulhosamente de pé sobre uma elevação isolada, que apresentava uma grandiosa massa: tem também um nome grande, Alfeizerão. [...] Este pitoresco monumento, a quietude e os tons suaves do entardecer, e o perfume dos tremoçais, eram circunstâncias muito agradáveis! [...] Diz a tradição que era neste castelo, que pelo menos à distância parece magnificamente pitoresco, que o bom rei D. Dinis por vezes alojava a sua esplêndida e opulenta corte».
                [Acrescento eu: e a tradição está certa. Foi neste castelo que o Lavrador cedeu à rainha santa, os direitos alfandegários que detinha sobre certas mercadorias entradas pelo porto de «Selir», em carta «Dante eno Alfeisarã, IX das de Juynho. (...) Era Mª CCC XXVª]» -- isto é, 1287. É o documento mais antigo em que o topónimo aparece registado! (Cf. João M. da Silva Marques, Descobrimentos Portugueses, Documentos para a sua História, vol.I, p.20, 1944)].

                3 - Para olhos que conhecem bem o local e o seu enquadramento, este esboço, obtido de um ponto de observação elevado, de S. Martinho ou de Salir, apresenta dados topográficos que lhe conferem veracidade óbvia! Há outras versões, bem sei, obtidas a partir da suposta «cópia de um original feito em 1755», estereotipado, sem semelhanças com o cimo das torres no esboço de Beckford, e cuja publicação nunca é esclarecida! Acredito que esse original nunca existiu e que tal cópia não passa de uma criação fantasiosa, posterior ao fatídico terramoto.
                Que dados são esses a que aludi? Em primeiro lugar, a lagoa no sopé da elevação: vários autores do séc. XVIII se referem a ela, destacadamente o pároco nas Memórias Paroquiais de 1758. Depois, a extensão e o grau de inclinação do terreno: íngreme e curto na vertente virada a S. Martinho, mais suave e extensa para sul. Em fundo, antes da aparente linha do horizonte, são sugeridos os inevitáveis outeiros do nascente; e à direita, pormenor quase impercetível, a insinuação arredondada do Casal do Aguiar, concretizada nuns rápidos quatro pontos. Finalmente, sugerida de modo a passar a sul da lagoa, uma linha de pontos e traços a representar a vegetação pobre do rio - salgueiros e canas. Somente olhos visualizantes poderiam tão eficazmente esboçar o quadro! Somente olhos conhecedores do contexto, podem reconhecer no quadro fidelidade ao real. Perante tal fidelidade, não se pode duvidar de que fosse aquele o aspeto das torres avistadas!
                Um só pormenor intrigante, o que parece ser a linha do horizonte: aqueles quatro traços, bem marcados, não podem ser a Serra dos Candeeiros! Nuvens? Abandono da linha do horizonte, que inicialmente tivesse sido mal esboçada? Não sei...

P.S.: Desejo expressar o meu vivo agradecimento aos senhores  Miguel Soares Franco e Margarida (proprietários do Antiquário Alfarrabista J. A. Telles daSylva, em Lisboa), que gentil e prontamente me facultaram fotocópia da gravura – haverá meia dúzia de anos. 


                                            CARLOS CASIMIRO DE ALMEIDA, Julho/2011




Nota:
Artigo e imagem publicados inicialmente por Carlos Casimiro de Almeida em Julho de 2011 na sua página ALFEIZERÃO HISTÓRICO, e reproduzidos com a anuência do autor.
José Eduardo Lopes


20/10/2014

sábado, 18 de outubro de 2014

Forais manuelinos de Alfeizerão, Salir do Porto e S. Martinho do Porto (a transcrição de Carvalho Dias)

Reproduzimos, infra, cópias fotográficas dos forais das três vilas da antiga lagoa de Alfeizerão, e que foram disponiblizados pelo Arquivo Nacional da Torre do Tombo no endereço eletrónico: http://digitarq.arquivos.pt/viewer?id=4223239.

No índice, procurar os fólios 131 e 131 verso (páginas 281 e 282), onde podem encontrar os forais manuelinos de Alfeizerão e Salir da Foz, e o fólio 134 (página 287 do índice) para o de S.Martinho do Porto.

Com base nestes forais, elaborei uma pequena publicação, onde reproduzo as imagens dos ditos forais, e a transcrição que deles fez o historiador Luís Fernando de Carvalho Dias.










José Eduardo Lopes

sábado, 11 de outubro de 2014

O foral de Alfeizerão de 1422, a transcrição publicada por Gama Barros

O foral de Alfeizerão de 1422 (Era de César de 1460) foi outorgado por D. Estêvão de Aguiar, abade do Mosteiro de Alcobaça.

Encontra-se na Torre do Tombo (Forais Antigos, nº339, maço 1, nº4). Henrique da Gama Barros publicou-o na "História da Admnistração Pública em Portugal nos séculos XIII a XV" (tomo VIII, pp. 121-124, Livraria Sá da Costa, Lisboa), omitindo apenas a parte das demarcações e confrontações do couto de Alfeizerão, que em quase tudo se assemelha ás descritas no foral de 1332 (e afirmamo-lo por consulta do original).

Em baixo entre duas imagens do foral, reproduzimos a transcrição que Henrique da Gama Barros fez do foral de 1422, incluindo os parêntesis inseridos pelo historiador e respeitando as suas opções paleográficas.

Quem tiver lido o primeiro foral de Alfeizerão, notará que este foral de 1422 é muito semelhante a ele, mas a sua função não era criar algo de novo, um novo foral, mas reafirmar e ratificar, num século de crise, os direitos e as rendas do Mosteiro, e a extensão dos seus domínios (que o Mosteiro procurou sempre alargar para as terras férteis e apetecíveis em volta).

Um dado ambíguo neste foral, é a sua data. O foral data de 1422, ano em que o rei D. João I, por decreto régio de 22 de Agosto, ordena que se substitua a Era de César (calendário Juliano) pela Era Cristã, a iniciar-se no ano (estimado) do nascimento de Cristo. Este foral é outorgado nesse mesmo ano, mas em Junho e se, na parte final, encontra-se escrito João Rodrigues a fez. era de mil quatrocentos e sessenta annos (1460 da Era de César, ano de 1422), no início do foral, encontra-se a data, errónea, do ano de nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil quatrocentos e quarenta.



CARTA DE FORAL DE 1422




         «Em 28 de Junho de 1440, em Alfeizarão [«Alfeizarom»], lugar e jurisdição do mosteiro d’Alcobaça à porta das casas onde mora Fernão Vasques, procurador que ora é do dito lugar, estando ahi Estevam Vasques, ouvidor do dito mosteiro e seus coutos por dom Estevam d’Aguiar, abbade do dito mosteiro, do conselho d’el-rei e seu esmoler mór, e estando ahi outrossim Gonsalo Esteves e Garcia Pires e João de S. Martinho, e Vicente Domingues o Conde e João Afonso das Calças, homens bons do dito lugar de Alfeizarão, em presença de mim Pedro [falta Alvares, como se mostra da subscripção do instrumento], tabellião por el-rei, meu senhor, no julgado do dito mosteiro e geral em todollos seus coutos e das testemunhas que ao deante vão escriptas, o dito Fernão Vasques, procurador, apresentou ao dito ouvidor, e a mim tabellião ler fez uma carta escripta em pergaminho, sellada de dois sellos pedentes postos em fita «cardea» e branca, da qual carta o teor de verbo a verbo é este q se segue.
         « “In dey [sic]nominy [sic] amen”. Saibam quantos esta carta virem que nós frei Fernando, abbade, e o convento do mosteiro d’Alcobaça damos a vós povoadores d’Alfeizarão, e a todos os vossos successores que depois vós vierem d’este dia pera todo sempre, as nossas herdades d’esse lugar d’Alfeizarão e da Mota e da Torre de «fromendo», segundo sam demarcadas per estas divisões que seguem [Vêm logo descritas as divisões, e depois continua assim].
         «Damos á vós sobreditos as ditas terras sob estas condições: que vós lavredes e fruytifiquedes as ditas herdades bem e fielmente, e façades vinhas e pomares e olivaes, e façaes hi marinhas de sal, e daredes a nós em cada hum ano, pera todo sempre, a quarta parte de todo pão e legumes, e linhos que Deus der em as ditas herdades, e outrossim do sal que ouverdes e mais nos daredes a quarta parte de todo o que vos Deus der em as ditas vinhas e pomares e olivaes, todo colheito e apanhado ás vossas despesas, posto em paz e a salvo, a saber, o pão e legumes na eira e o linho no tendal, e o sal nas marinhas e o vinho no lagar e a fruyta e hollivas aos pés das arvores, e todallas outras cousas postas em os lugares acostumados, segundo melhor se usa per todo o nosso couto, e mais nos daredes de cada uma «casarya» assim os moradores no lugar como no termo, um bom alqueire de trigo «reçebomdo», na eira, de fogaça, e uma boa gallinha «reçebonda» por S. Miguel de setembro, de foro; e os outros moradores que não lavrarem herdade não dêem fogaça, mas dêem senhas boas gallinhas por o dito dia; determinando todo em esta guisa, que quantos moradores fordes, que tantas fogaças e gallinhas nos haveis de dar pela guisa que dito é; e se a mais nos «erades» obrigados, fazemos-vos d’ellas merçê. E vos «deuees» «vymgar» estas terras até tres annos, «merando as» e aproveitando-as continuadamente per vós ou per outrem; e o que assim não fizer, seja em merçê de nós sobreditos de l’ha tolher ou não; e vós nom «auedes» poder de vender essas herdades, nem parte d’ellas, sem nollo fazerdes primeiramente a saber, e dando-vos lugar que as vendaes, sejam vendidas a taes pessoas que nos pagem os nossos direitos e façam o dito foro, e se o assim não fizerem, a venda não valha. E vós sobreditos sereis sempre obrigados de nos dardes, cada um, sua carga de palha pera nós quando a lá formos, ou para quem por nos estiver em ese castello, e se volla não demandarem na eira não sejaes depois teúdos de a pagar. Item. Todos os que viverem per almocrevaria devem nos fazer senhos caminhos cada um com sua besta em cada um ano. E nós reservamos pera nós o nosso castello, que ora hi esta situado, com todas suas moradas e entradas e sahidas e pertenças, segundo melhor he devisado, e a terra, que foi vinha, que chamam «de pero neto» e a horta assim como esta devisada. Item. Mais reservamos pera nós as saynhas que som corregidas e adubadas per nós com todas suas entradas e sahidas e pertenças. Item. Mais reservamos pera nós moinhos e açenhas feitas e por fazer, pisões, lagares de vinho e d’azeite, fornos, relegos, açougagens, portagens, mordomado, alcaidaria, e todos outros senhorios e direitos reaes per qualquer guisa que sejam, tambem do mar e do rio como da terra, e o relego seja pollo costume de Santarem. E vós deveis dar bem e fielmente e direitamente compridamente as dizimas e primicias e conhecenças á Igreja. E vos enlegeredes vosso juiz por dia de S. Miguel, apresentando-nollo, e nos juramentallo, e o alcaide seja vizinho. E damos-vos medidas e pesos e foro de Santarem em todallas outras cousas. E vos deveis pera sempre ser obrigados a abrir a vargea da mota, assim a aberta de meos, como as sergentes, des contra os montes, e manterdellas á vossa custa; e vos poherdes guardadores jurados que guardem os fruytos e novidades que Deus der em essas terras e herdades, assignando aos damnadores que paguem coima certas pollos damnos que fizerem com suas animareas, e os dannos que se fizerem antre nos e vos devem-se de corriger de vizinho a vizinho segundo costume de Santarem. E vos darees de lagaragem até S. çibraão tres soldos de boa moeda, do dia e da noite, e dahi avante cinco soldos do dia e da noite, ainda que sejaes muitos juntos em um; e nos vos devemos fazer lagares segundo cumprirem ao lugar e não os fazendo, requerer nos hedes que os façamos até tres vezes, e de cada uma vez haver espaço um mez e dahi em avante, não os fazendo, faça-se o que for direito. E vos aveis de poher a apanhar o pam todos os de vossas casas; e se mester for trazerdes alguns obreiros, paguem-se do monte maior antes que se parta. Item. Damos-vos logar que possaes semear senhas teigas de cevada pera vossas bestas e bois; e se d’ella venderdes ou colherdes, dardes-nos o nosso quarto. Outrossim das favas, ervilhas .cebolas, alhos, fruitas, posades comer em verde sem má malicia; e do que colherdes e emprestardes e venderdes, dardes-nos o nosso quarto. E os nossos gados e os vossos devem paçer as hervas e beber as aguas em sembra, em guisa que nom façam damno. E nos devemos tapar o nosso pomar em guisa que seja bem tapado e se assim não for, posto que alli entrem alguns gados, nom sejam teúdos a corregimento. E se vós sobreditos não fizerdes em o dito lugar casas em que moredes, ou não as morardes, ou não aproveitardes as ditas terras e herdades, fazendo hi vinhas e pomares e olivaes, ou não fizerdes as ditas saynhas ou nom pagardes a nos sobreditos os nosos direitos e foros ou nom cumprirem todallas clausulas e condições que ditas são, que nos por ello vos possamos constranger como for achado que é direito. E nós, sobreditos povoadores e lavradores, por nós e por todos nossos successores, louvamos e outorgamos a cumprir e manter e guardar todallas clausulas e condições e cada uma d’ellas como em esta carta som conteúdas nos obrigamos. A qual carta recebemos em nós, e promettemos a ser bons vasallos e leaes á Ordem. Em testemunho das quaes cousas nós, sobreditos abbade e convento, mandámos fazer duas cartas, ambas de um teor, uma que fica registada em o livro da nossa notaria, e esta que mandamos dar a vós sobreditos, sellada de nossos sellos pendentes. Dada em o dito nosso mosteiro de Alcobaça, primeiro dia do mez de junho. João Rodrigues a fez. era de mil quatrocentos e sessenta annos.
         «A qual carta assim apresentada per o dito procurador, presente os ditos homens bons, João Affonso, creado do dito senhor dom abade e alcaide do castello, que hi de presente estava, disse ao dito ouvidor que porquanto se o sobredito senhor dom Estevam d’Aguiar e seu mosteiro d’ella entendiam de ajudar, que desse a mim sobredito tabelião, sua auctoridade, que lhe desse um instrumento com o teor da dita carta sob meu signal, e o dito ouvidor fez pergunta ao dito Fernão Vasques, procurador do dito concelho, e aos ditos homens bons que hi estavam, se haviam algum embargo a lhe não mandar dar o trallado da dita carta em publica forma, e eles disseram que não, e o dito ouvidor, vista a dita carta como era boa e sã, não rota, nem cancellada, nem antrelinhada, nem respançada, nem viciada, nem em nenhuma parte suspeita, mas que era boa e verdadeira, deu a mim, tabelião, sua autoridade ordinaria que lhe desse o instrumento ao dito João Affonso com o teor da dita carta, e o dito João Affonso o pediu. Testemunhas. Estevam de coz, e Martim Anes Alcaide, e João Affonso das Calças, e João Matheus, e Alvaro Vasques, moradores no dito lugar d’Alfeizerão, e outros. E eu, Pedro Alvares, sobredito tabelião que este instrumento escrevi, e em elle meu signal fiz que tal. Não seja duvida no respançado hu diz e di avante cinco soldos do dia e da noute, que eu, tabellião, a fiz por verdade e por correger em meu officio. Signal de tabelião. Pagou nichil. Concertado com o ouvidor».






José Eduardo Lopes


domingo, 28 de setembro de 2014

Instantâneo 1: a capela de Santo Amaro




A capela de Santo Amaro, em Alfeizerão. 

Há uns (talvez) quinze anos atrás, ao picar-se as paredes para se pintar a capela, apareceu este arco embutido na parede nordeste.

O altar da capela ergue-se na face interior dessa parede, o que não acontecia, como é evidente, na altura em que este arco não estava emparedado. A capela deveria prolongar-se um pouco mais nesse eixo com uma divisão ou alpendre que poderia ter servido - e isto é apenas uma suposição ex nihilo - como depósito dos ex-votos da veneração ao Santo Amaro, esses "braços, mãos, pés, dedos de cera" trazidos nos dias de romaria pelos devotos como sinal de agradecimento e pendurados nas paredes "da casa do santo", segundo as Memórias Paroquiais de 1758 (ANTT, Memórias Paroquiais, volume 2).

Sobre a capela, em geral, é oportuno considerar que os anexos laterais da capela, adossados ao edifício, podem ser recentes, talvez da primeira metade do século XX, já que o testemunho de António Faustino Júnior, reproduzido neste blogue, nos conta que "a capelazita de Santo Amaro era de outra forma, tinha mais coisas lá dentro, e era mais pequena; agora está muito modificada". 


José Eduardo Lopes

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

O FIO DA MEMÓRIA: Uma entrevista de 1987, recuperada e editada.

No ano de 1987, o meu pai, António Justino Coutinho, entrevistou um nonagenário do lugar da Macalhona, freguesia de Alfeizerão, que se chamava António Faustino Júnior. Esse ancião, com uma lucidez admirável e um grande senso de humor, evocou os seus tempos de juventude, o trabalho na Quinta do Fróis, a tropa em Lisboa, a morte do Sidónio Pais - delineando um conjunto de quadros evocativos que merecem ser resgatados do esquecimento dos arquivos e colocados á disposição de todos.

A entrevista foi publicada no jornal O Alcoa, de Alcobaça. Era (e continua a ser) um texto extenso que o jornal foi publicando como podia, em frações, do número 1654 do jornal (de 9 de Abril desse ano) ao número 1662 (de 30 de Junho). No final, creio que poucas pessoas tenham lido a entrevista na íntegra, o que a desvalorizava bastante.

Na altura, auxiliei o meu pai na entrevista, gravando a entrevista e transcrevendo o material, que datilografei numa (saudosa) máquina Olivetti. Foi a partir desse texto datilografado que compus a entrevista que a seguir se apresenta. Fiz algum trabalho de edição, mínimo, mudando a ordem de algumas perguntas para conseguir um texto mais uniforme, mas mantive-me fiel ao teor das perguntas e respostas. Também adicionei algumas notas, as estritamente necessárias.




ENTREVISTA A UM NONAGENÁRIO DA MACALHONA
- Por A. Coutinho


António Coutinho: Qual é o seu nome completo e em que ano nasceu?

A.F.J.: António Faustino Júnior, e nasci no ano de 1896.

A.C.: E o mês? Lembra-se?

A.F.J.: Lembro, Abril, 23 de Abril.

A.C.: Nasceu aqui na Macalhona?

A.F.J.: Nasci sim.

A.C.: Até o senhor ir para a tropa. Como é que foi a sua vida?

A.F.J.: A minha vida era de trabalhador nos campos. E naquele tempo era assim um bocado duro; para se ganhar um diazito tinha de ir para Alfeizerão, para um Vitorino que lá havia.

A.C.; O Vitorino Fróis?

A.F.J.: Sim, esse mesmo. O senhor lembra-se dele? Conheceu-o?

A:C.: Não, conheço-o só de nome…

A.F.J.: Esse homem tinha uma Quinta valente, ali em Alfeizerão, mas agora aquilo já não é o que era, acho que os filhos até já venderam aquilo. Então, eu fui por ali criado, por Alfeizerão, por aquelas Quintas; assim como eu, naquele tempo, ia para a Quinta do Vitorino ganhar um tostão…um tostão, dez réis, cinco réis…Aquilo era uma vida…

A.C.: E davam alimentação?

A.F.J.: Não, senhor, não davam nada!

A.C.: Tinham de ir aviados…

A.F.J.: A primeira vez que eu fui, tinha doze ou treze anos, fui daqui de casa com uma broazita de milho, toda bolorenta. O meu falecido pai, que foi embarcadiço muito ano e nunca se aguentou cá nisto da lavoura, não dava para isto, então, quando eu era pequeno, tinha os meus dez ou onze anos, e ele começou a dizer-me: “Tu vai-me é lá para as Quintas!”. E eu respondia: “Não vou nada, eu tenho medo!”. E ele ia levar-me até ali onde era o cruzamento para Alfeizerão, e quando começava assim a querer amanhecer, começavam a vir mais homens e eu ia para a Quinta mais eles; e á noite voltava para trás, vinha para casa, e tinha ganho um tostão.
«No Sábado aquilo juntava noventa, cem pessoas, havia três capatazes, mais um feitor, que era de S. Martinho, que era um chamado Baptista; e juntavam-se ali todos para se pagar; e aquilo com uns mil réis pagava-se quase aquilo tudo. Punham num sítio um montinho de dinheiro, por exemplo, para seis pessoas ou sete, e ia uma moeda para um, três moedas para outro, tudo divididinho que era uma beleza. Eu vi aquilo tão pouco…o Vitorino Fróis estava lá, sentado numa cadeira, um pouco desviado. E depois, o Baptista disse-me: “Toma lá, rapaz!”. E eu vi cinco tostões, e com um tostão mesmo ao lado, que eram seis tostões, bem, eu vi aquilo tão pouco e agarrei o montinho com os cinco tostões, vai assim o Baptista e dá-me uma palmadita nas mãos – “Larga isso, rapaz, que isso não é para ti”. E o Vitorino começou-se a rir, e eu fiquei assim muito envergonhado, e disse ao Baptista: “Eu julgava que aquele dinheiro era para mim…”. E ele: “Não, rapaz, isso não é para ti!”.
«E depois, fomos todos assim criados, mas era uma vida muito…esquisita. Aquele que não tivesse trabalho ao nascer-do-Sol, o capataz descontava um quartel, e mandava sentar a gente até ao almoço. Bem, certa vez, fui mais tarde, cheguei lá e o capataz começou-se a rir, era o José da Conceição, um tipo muito forte que vivia ali no sítio da Caldeira, ali quando se vai para S. Martinho, vivia ali e ainda há uns poucos de anos o encontrei em Óbidos. E diz ele assim para mim, ainda a rir: “agora vais descansar um bocadinho até ao almoço!”. E eu ia todo molhado de andar por essas matas abaixo da Macalhona até Alfeizerão, molhado e com frio. E por ali andei até ao almoço. Passou-se isto a um Sábado, e eu não tinha comido nada, nem tinha nada para comer e, quando acabasse a hora de almoço, tinha de me levantar para ir trabalhar, e não ganhava senão três quartéis. Ora, eu ganhava um tostão, diga-me então o senhor, quanto é que eu levava dali? Mas, naquele dia, quando eram umas onze horas, os capatazes juntaram o pessoal todo com ordem de pagar o dia a todos, porque morrera a mãe do Fróis. E foi assim que ganhei o dia. Se a mãe não lhe morre, lá se ia o meu quartel…

A.C.: E, na Quinta do Fróis, criava-se muito gado bravo, não é?

A.F.J.: Criava-se sim. Eu tive um tio, que era meu tio e meu padrinho, que era moço de forcados, e esse meu tio ensinou um boi bravo a ir comer á mesa do Vitorino Fróis.

A.C.: E como é que se chamava esse seu tio?

A.F.J.: António Vinagre, e morava no Casal da Ponte. Ele foi moiral do Vitorino durante uns trinta anos. Eu ia lá muita vez ter com ele. Um dia em que eu estava numa cabana com esse meu tio, os bois, quando me viram chegar, largaram-se todos de volta da cabana, e eu já estava enrascado de estar lá dentro. E dizia-lhe: “Ó tio, que eles matam a gente!”, e o meu tio respondeu: “Não matam nada!”. Ele chegou lá fora, falou com os bois, e os bois recuaram mas, quando ele se calava, os bois iam outra vez para perto. Como eu tinha medo, o meu tio ensinou-me a sair dali. Eu ia mais o meu tio com um braçado de maçarocas, e ia dando maçarocas aos bois de cada vez que eles estavam perto; e lá fui andando até estar longe. E também foi assim que o meu tio António ensinou um boi bravo, um touro dos grandes, a tirar maçarocas de milho da mão dele, e foi indo, foi indo, que conseguiu levar esse touro até á mesa do Vitorino. A mesa era uma mesa grande, o senhor Vitorino estava a comer de um lado da mesa, e na outra ponta da mesa estava uma gamelazita com favas. O touro foi até lá, entrou na sala, comeu as favas, recuou e foi-se embora sem fazer mal a ninguém. Depois, quando eram quatro horas da manhã, mais coisa, menos coisa, esse touro ia raspar á porta da casa do Vitorino. Abriam-lhe a porta, ele entrava, comia as favas, que tinham a jeito, e ia-se embora outra vez.

A.C.: As pessoas falam muito das ferras de gado que havia na Quinta do Vitorino. Como é que eram essas ferras?

A.F.J.: Eles tinham lá um curro e, quando era aos Domingos, levava-se para lá um boi, dois, três, e quem queria, ia ver, e quem quisesse, podia ir lá para dentro para tentar agarrar o boi. Eram tourozitos de dois, três anos, não eram touros grandes mas, mesmo assim, marravam bem. E as pessoas ficavam ali a ver, e riam-se muito.
«Uma vez, pediram ao senhor Vitorino uma tourada para Espanha, e ele levou para lá o gado. E, naquele tempo, as pessoas da realeza iam todas assistir às touradas. Nessa tourada em Espanha, mandaram sair o primeiro boi, um dos bois do senhor Vitorino, mas o boi não marrava, raspava no chão com o casco mas não marrava. E depois, o povo começou a gritar: “Levem os bois para o campo, os bois são bons é para semear milho, não marram nada!”. O Vitorino estava cá fora, aquilo era um tipo que só quem conheceu aquele homem é que sabe o génio que ele tinha. O Vitorino salta para a arena e desafia o touro, e o touro investe nele, e o Vitorino, que era um homenzarrão, agarra-se bem ao touro, brigaram ali os dois, sem o Vitorino largar a sua cabeça, até que o touro ficou parado no meio da arena, com o Vitorino abraçado ao pescoço. Aquilo foram palmas e palmas, e aqueles espanhóis gritavam de pé. Só então os moços de forcados acudiram e agarraram o boi, de jeito que o senhor Vitorino o pôde largar. Os espanhóis continuam a bater palmas, e o Vitorino manda meter o boi no curro, meteram lá o boi, e ele pega em duas lancetas e manda atar uma na ponta de cada corno do boi. O boi é solto na arena e, quando viram o boi naqueles preparos, não ficou ninguém na arena e estava tudo calado, não se ouvia ninguém. O senhor Vitorino entra na arena e chama o boi, e quando o boi investe e está quase a chegar a ele, vira as costas ao boi de modo que as duas lancetas lhe passam ao lados das costas, e ele ficou no meio delas, agarrado á cabeça do touro. Aquilo foram palmas e palmas, e os espanhóis não sabiam o que fazer ao senhor Vitorino. O boi foi recolhido lá para dentro e o Vitorino ficou no meio da arena. D. Manuel, que era o rei de Portugal naquele tempo, desceu lá de cima e foi para a arena com outra pessoa real; e o rei cruzou os braços sobre o senhor Vitorino. E as pessoas reais disseram-lhe para ir jantar com eles, porque D. Manuel, nesse tempo, ainda não tinha conhecimento algum com o senhor Vitorino.
«Quando chegou a hora desse jantar, os espanhóis envenenaram os pratos, talheres e copos do senhor Vitorino. Mas houve um espanhol, lá por alguma intervenção, que avisou o Vitorino quando ele se sentou á mesa, participou-lhe para que ele não comesse nem bebesse nada daquilo que estava diante dele, e o Vitorino pediu licença às pessoas reais, disse que não se sentia bem, e saiu. Tinham envenenado a comida do Vitorino porque nunca nenhum espanhol tinha conseguido fazer o que ele fez, e aquilo era uma vergonha para eles. O Vitorino safou-se, e esse espanhol que o salvou, foi ali para a Quinta do Vitorino, e viveu ali até morrer, comia e bebia, passeava e divertia-se como ele queria. É que o senhor Vitorino nunca esqueceu que, se não é ele a falar, tinha morrido em Espanha.
«O senhor Vitorino tinha dois filhos, um era o Vitorino e, o outro, José Vitorino. Um estava casado com uma espanhola, era o José, e o Vitorino estava casado com a filha de um cônsul. Foi a Casa do Povo de Alfeizerão feita onde ela está hoje, e os dois filhos do Vitorino assistiram a uma grande reunião que houve quando foi feito o pavilhão, e o padre João Vieira disse ali que a Casa do Povo era um grande benefício para Alfeizerão, e esse José Vitorino, quando calhou a vez dele falar, disse que a Casa do Povo não lhe valia para nada, só valia para lhe levar dez contos de réis por mês para ajudar a Casa do Povo. Que aquele povo todo ficou calado, que não sabia o que dizer.
«O rei D. Manuel foi padrinho dos dois filhos do Fróis; é que o rei, depois de ficar a conhecer o Vitorino, ia ali muitas vezes à Quinta, mais a rainha. E esse meu tio que eu lá tinha, o António Vinagre, estava sempre a par de tudo por ali, e contou-me uma coisa que por ali se passou. O Vitorino, certa vez, fez uma espécie de petisco para o rei com comidas e bebidas. Estavam todos assim num pinhal, e havia lá um pinheiro derreado, todo inclinado. E o senhor Vitorino tinha lá uma cadelita de que ele gostava muito e que tinha as patas viradas para fora, e o rei D. Manuel achava muita graça áquilo e ria-se muito da cadela, e o Vitorino disse-lhe: “Esta minha cadela é aleijada, mas é capaz de subir por esse tronco até ao cimo do pinheiro”. Mas o rei não acreditou e respondeu: “Só se for alguém a levá-la!”. E o Vitorino pegou na cadela, levou-a até ao pinheiro e mandou-a subir. A cadela foi subindo, muito devagar, muito devagar, e quando chegou mais ou menos a meio do pinheiro, parou e olhou cá para baixo. E D. Manuel teve pena dela, e disse assim para o Vitorino: “A cadela, se cai dali, morre na certa…”. Mas o Vitorino disse para a cadela: “Vá, segue para cima!”. E a cadela voltou a subir, e foi andando que chegou á pontinha do pinheiro; e diz o rei para o Vitorino: “Compadre, o que você foi fazer? A cadela agora cai cá em baixo e morre de certeza”. Mas o Vitorino respondeu-lhe: “Não morre nada!”, e chamou a cadela, e ela virou-se lá em cima e vem a descer pelo pinheiro até que chegou ao pé deles. E o rei bateu muitas palmas e os dois deram muitas risadas.
«No fim de contas conheci muito bem o senhor Vitorino, e conheci a Quinta dele. E o senhor Vitorino era um tipo muito bom, nunca castigava ninguém. Ele tinha guardas, tinha feitores e capatazes, e chegavam às vezes ao pé dele e diziam: “Ó senhor Vitorino, andou em tal parte, quatro vacas nos seus campos”, e logo ele dizia: “Deixem lá, amanhã já cresce mais pasto”. Outra vez, vinham ter com ele a queixar-se: “Ó senhor Vitorino, andou um rol de mulheres a cortar lenha no seu pinhal”, e o Vitorino perguntava-lhes: “Elas cortaram os pinheiros todos?” –  e logo eles: “Não, senhor Vitorino, mas aquilo é um estrago”. E o Vitorino dizia então: “Deixem estar, temos tantos pinheiros, e eu também não os gasto a todos!”.
«Era mesmo um bom homem. Uma criatura que pedisse um favor àquele homem, ele fazia-o logo. Ao meu pai, foi tirá-lo da tropa. Foi daqui para Leiria a cavalo, chegou lá á noitinha e a sentinela que estava lá no posto, não o queria deixar entrar; e ele diz á sentinela, com aquela voz que ele tinha: “Abre lá o portãozito, ó rapaz!”. A sentinela teve-lhe respeito e abriu  o portão. E lá dentro, o Vitorino falou com os oficiais, que já o conheciam, e o Vitorino disse-lhes que ia lá buscar um rapaz do Casal Pardo - o rapaz era o meu pai – e conta-lhes que o pai desse rapaz tinha morrido há pouco tempo, e ele só tinha a mãe e o avô, e que o avô tinha quinze vacas de alfeiría [i],quatro bois de trabalho e cento e tal ovelhas, e que o avô desse rapaz era já de idade e não podia guardar todo aquele gado, nem tinha quem o guardasse. Por isso, a mãe do rapaz tinha-lhe pedido para tirar o filho da tropa. E os oficiais fizeram a vontade ao Vitorino, e deixaram o meu pai vir embora. Diz-lhe assim o Vitorino: “Monta-te nesse cavalo e leva-o para a Quinta, e depois vai ter á casa da tua mãe, que ela precisa de ti. E se alguém te perguntar para onde vais com um cavalo desses ou com ordem de quem, eles que leiam o que está escrito nessa manta!”. A manta que o Vitorino falava era aquela que ia por cima dos arreios do cavalo, e que tinha lá escrito o nome do meu pai, o nome do Vitorino, e o destino que o Vitorino dera àquele cavalo. O Vitorino era mesmo bom homem.

A.C.: E, sem ser com o Vitorino, nunca lá teve chatices na Quinta?

A.F.J.: Tive sim, apanha-se de tudo em todo o lado. Numa ocasião, estavam uns doze homens de Vale de Maceira a trabalhar na Quinta do senhor Vitorino, trabalhavam com máquinas de pulverizar. E havia lá no meio deles, um tipo de Vale de Maceira que aquilo, aquilo era um malandrão. Chamava-se José. Quando eu ia a botar água na máquina dele – nós andávamos, um cachopo por cada máquina, a acartar água – ele, punha a máquina no chão, e eu tirava a tampa e vazava a água lá para dentro. Se caísse um só pingo para fora, um pingo mais pequeno que a metade da minha unha, ele não me dizia nada mas tirava-me o barrete e limpava a máquina toda com ele. E eu, claro, não dizia nada, mas aquilo fazia-me uns nervos…O tempo foi passando e, um dia, era eu já um homem, e vinha das Caldas a pé com uns vizinhos meus, e paramos numa taberna em Vale Maceira, e quando eu entrei na taberna, lá estava ele, e eu pensei para comigo: “Hoje é que tens que apanhar!”. Cheguei ao pé dele e perguntei-lhe se ele estava bem. “Eu não o conheço!”, diz-me ele, mas eu respondi: “Mas olhe que eu conheço-o bem a si, senhor José. O senhor lembra-se de quando me tirava o barrete para limpar a máquina de pulverizar, lá na Quinta do senhor Vitorino? Hoje é que o senhor haveria de me tirar o barrete para limpar a máquina!”. E cheguei-me para perto dele, estava mesmo com vontade de lhe arrear naquele dia, mas ele agachou-se, muito agachadinho, e só dizia: “Ah, eu não me lembro! Não me lembro!”. Então, eu disse-lhe: “Vá-se embora, que homens como você acabam sempre por pagá-las todas!”.

A.C.: E lembra-se de mais alguma coisa sobre a Quinta do Vitorino, que gostasse de contar?

A.F.J.: O aeroplano, o primeiro aeroplano que veio para o nosso sítio foi um que pousou na Quinta do senhor Vitorino. Pousou no campo dele, lá em baixo. Aquilo era uma admiração, aquela coisa no ar, e todo o povo desta região, de Alfeizerão, dos Casais Norte, de Vale Maceira, Macarca…este povo foi todo para lá e aquele campo estava cheio de gente. E, quem queria, podia andar no aeroplano, ia uma pessoa de cada vez, pagava quinze tostões e ia dar uma volta no aeroplano, que aquilo também não ia muito longe. Eu não fui lá, não fui e não tenho pena nenhuma disso, porque aquilo, no ar, não era coisa para mim.
«Afinal, estávamos lá todos, e chegou o senhor Vitorino, chegou numa charrete com cocheiro. Vai-se a ver, estavam lá dois guardas que eram de S. Martinho, e atravessaram-se à frente dos cavalos e disseram ao cocheiro que voltasse para trás e tomasse outro caminho. E o Vitorino disse ao cocheiro: “Não segues, porquê? Anda-me com esses cavalos para a frente!”. Mas os guardas não saíam da frente da charrete, e o Vitorino gritou: “Siga com esses cavalos para a frente!”. O cocheiro tocou os cavalos, e estes galgaram para a frente, e os dois guardas tiveram de saltar para o lado para não ficar debaixo deles. Depois, o Vitorino, ao fim de estar um pouco mais adiante, mandou o cocheiro parar a charrete, e disse para os guardas: “Então vocês é que me queriam impedir de passar por aquilo que é meu, e pelo caminho que eu quero?! Eu é que vos ponho para fora daquilo que é meu!”. E disse-o com todo aquele povo a ouvir. Os guardas taparam-se como dois pardalinhos bem tapados, e o Vitorino não disse mais nada.

A.C.: E o senhor Faustino teve instrução? Foi á escola?

A.F.J.: Eu andei na escola, mas tinha já uns dezoito anos, ou vinte. Eram rapazes e raparigas, e elas vadiavam-se muito bem. Depois íamos namorar e andávamos ali agarrados às raparigas. Mas ainda aprendi alguma coisa na escola, ainda lá apanhei qualquer coisita.

A.C.: E por essas idades, também assentou praça, não foi?

A.F.J.: Sim, assentei praça entre os dezanove e os vinte anos, na Artilharia 1 em Abrantes. E, depois de lá estar um ano na Artilharia 1, passei para o regimento da Cavalaria 4, para Belém, e acabei o meu tempo na Cavalaria. Eu fui impedido de um tipo que, se eu fizesse o que ele me dizia, hoje tinha uma vida melhor. Ele era capitão, e pediu-me para ir para África mais ele, e eu a dar para trás: “Não, não vou, eu faço muita falta aos meus pais, não posso ir”. E ele voltava: “Você vai mais eu, está lá um ano mais eu e, depois de um ano, nós vimos e eu arranjo-lhe um posto onde você quiser, ou para a polícia ou para a guarda, ou para guarda da floresta lá para a terra onde você fica” – havia uma mata aqui perto, uma mata grande, do Estado, que tinha guarda e tudo.
«Ele era muito meu amigo, tirou-me do quartel e fui viver para a casa dele, era lá que eu comia e dormia, quer dizer, eu até me esquecia que andava na tropa. E depois, um dia, ele disse-me: “Ó Faustino, se tu quiseres uma licença para ires á tua terra ver os teus pais e fazeres o que quiseres, diz-me, que eu dou-ta!”. E passou-se uns tempos, e eu namorava lá uma rapariga que se chamava Júlia e era daqui. A casa onde nós vivíamos era na Gomes Pereira, e eu estava do lado dessa rapariga, do lado de cima mas no mesmo prédio, e eu andava a namoriscá-la. E eu pedi a licença ao capitão e vim para a terra de licença, e o meu capitão, eu só mais tarde soube, falou assim para a Júlia, para a rapariga que eu namoriscava, falou de uma varanda para outra: “Ó Júlia, não queres saber? Olha que o teu Faustino foi agora de licença para se casar!”, e ela respondeu-lhe: “Não me diga, está a brincar comigo?” e ele voltou: “Não estou a brincar, menina Júlia, ele até me convidou para o casório, mas não pude ir”. Essa conversa foi a um Sábado. Ela despediu-se na casa onde servia e no outro dia estava na Macalhona, em casa dos meus pais, a perguntar por mim, ela e mais uma vizinha. Eu estava lá dentro, mas a minha mãe, que se chamava Gertrudes, não gostou dos modos da rapariga e disse que eu não estava, mas elas não saíram dali, elas tinham-me visto a ir para casa, eu vinha de Alfeizerão a pé, e elas vieram na minha cola, mas perderam-me de vista porque vim para casa por atalhos que elas não conheciam. E nessa casa dos meus falecidos pais, havia assim uma janelinha para as traseiras, e foi por ali que eu fugi.
«Aquilo foi um sarilho. Eu andei furtado aos gatos, de um lado para outro, mas daí a poucochinhos dias ela encontra-me e pergunta-me: “Então? Ias-te casar e não dizias nada?”. “Não ia nada – disse-lhe – nunca pensei nisso”, e ela a fazer mais perguntas e a querer zangar-se. Então, eu virei-lhe a barriga das pernas e, pronto, nunca mais a vi! Histórias como esta, aconteceram-me muitas…

A.C.: Não foi quando o senhor estava na tropa, que mataram o Sidónio Pais?

A.F.J.: Foi sim. E não estava longe quando o mataram, para aí a uns cinquenta metros de distante. Mataram-no na Rua da Prata, ele ia do Rossio para cima com um grande acompanhamento de carros, e ele ia no meio, bem, não ia bem no meio, ia um pouco mais à frente. E depois, estavam lá treze homens preparados para o matar. Um era um rapazinho, e foi quem o matou, tinha uns quinze ou dezasseis anos, acho que ainda não tinha os dezasseis feitos, era um rapazinho do Algarve [ii], estive muitas vezes á conversa mais ele. E depois, eu ia do trabalho, e vinha aquele grande acompanhamento de carros para cima, vinham devagar, e deviam ser umas onze horas da noite.

A.C.: O senhor ia à civil? Não estava fardado?

A.F.J.: Não, estava tudo á civil, e ele também. O Sidónio ia visitar umas tropas ao Porto, que tinha um irmão que era alferes e que estava a comandar as tropas no Porto. E depois, eram treze homens que andavam ali para o apanhar. Eram treze, se o primeiro não o matasse, tentava o segundo, se este não conseguisse, ia o terceiro…até ao número treze. Algum deles havia de o conseguir, e tinha que ser mesmo. O primeiro não o matou, teve tanto medo, mandou-lhe dois tiros mas não o matou, o carro andou para a frente um bocadinho, e o número dois, que era esse rapazito do Algarve, pôs o pé no estribo do carro, encosta-lhe uma pistola e manda-lhe um tiro. O Sidónio morreu logo.

A.C.: E prenderam o homem?

A.F.J.: Ao primeiro, mataram-no logo, as tropas meteram-lhe dois sabres, um de frente e outro da retaguarda, e ficou espetado que parecia um sapo. O segundo, não o conseguiram matar, foi o alferes que não o deixou matar, cruzou os braços por cima desse rapazinho, e ainda levou umas espadeiradas em cima dos braços, mas não o deixou matar. Penso eu, cá no meu entender, que esse homem queria descobrir aquela coisa toda, mas a verdade é que não se descobriu nada.

A.C.: Aquilo causou muito burburinho naquela altura?

A.F.J.: Não senhor, aquilo não deu quase mais nada, só houve a morte do Sidónio e desse primeiro que o tentou matar. O número dois escapou como lhe disse. Depois, aquilo passou, e levaram os corpos, não sei para onde, talvez para alguma morgue. E assim é que foi, tinham que o matar. E o rapazito algarvio ficou preso, ali diante do Terreiro do Paço, numa ruazita, ali é que o meteram, numa prisão baixa, e a gente ia a passar, e quem quisesse falar com ele, os guardas deixavam. Eu, um dia, fui lá, porque já o conhecia, e perguntei-lhe: “Olha lá, você, porque é que você pensou numa coisa dessas?”. E ele respondeu-me: “Foi uma ideia, foi uma ideia que eu tinha…”. E, naquela altura, não soube mais o destino que aquele rapaz levou, se lhe deram a liberdade, se lhe deram outro destino…[iii]

A.C.: E o senhor, enquanto foi militar em Lisboa, não assistiu a mais nada de especial?

A.F.J.: Sim, houve uma reviravolta muito grande. Estava lá no meu quartel, eram umas dez horas da noite e estava tudo deitado, quando entram por ali uns oficiais a gritar: “Levantem-se! Levantem-se!”. Estávamos quase todos despidos, eu visto-me e, quando chego á porta da caserna, encontro um cabo que me mandou lá para fora, e avisou que andava uma revolução muito grande na serra de Monsanto. E andava mesmo. Havia uma grande falsidade naquilo. A tropa, uns queriam um partido, outros queriam outro, e uma tropa, que era a Artilharia 1, estava formada lá em cima, no alto de um cabeço, perto de Campolide. Estavam lá formados e mostraram uma bandeira branca para a tropa que vinha de baixo, quer dizer, que era de paz. E a tropa de baixo, que era onde eu estava, começa a subir o cabeço, e os oficiais da Artilharia 1 mandam abrir fogo sobre nós. Aquilo é que foi matar homens como quem mata coelhos. Eu ia a cavalo, e esse capitão que eu falei há pouco e que era meu patrão, esse fulano era veterinário, e nós dois íamos á retaguarda da companhia, e se acontecia alguma coisa a algum animal, ele é que via e dizia se tinha cura ou não, e se não tivesse cura, tinha de ser abatido. Nós íamos á retaguarda, e ia connosco também um rapaz que era de Alfeizerão e que eu conhecia e ainda era meu primo. Bem, nós subíamos o monte, e aqui caía um homem, acolá outro, não se viam senão cavalos sem cavaleiro a fugir por aquela serra abaixo; e aí eu disse para esse meu capitão: “Olhe, meu capitão, eu fujo!”, e ele diz-me assim: “Tu foges, e eu fujo também!”. Fugimos ambos. Ao virarmos os cavalos para trás, eu vejo cair esse rapaz que era de Alfeizerão – esse rapaz era da família dos Baianos, que dessa família de Alfeizerão parece-me que se extinguiu quase tudo. A esse rapaz, passou-lhe um tiro pelo pescoço e ele caiu do cavalo, morto. E no dia seguinte, depois daquilo acabar, iam aqueles carros cheios de gente, uns mortos, outros feridos, com pernas partidas ou feridos das balas; quer dizer, baldeavam-nos para dentro daqueles carros, e era só gritos, tantos gritos, que até metia aflição [iv].

A.C.: Quantos anos tinha quando foi isso na serra de Monsanto?

A.F.J.: Eu assentei praça de dezanove para vinte anos, estive um ano em Abrantes, depois, em Belém, estive dois anos, por isso era para ter os meus vinte e três anos.

A.C.: Deixemos o tempo da tropa, que há coisas que até custa lembrar. Diga-me uma coisa, nos seus tempos de rapaz, como é que se divertiam aqui na zona? Havia bailes?

A.F.J.: Havia, sim senhor. Naquele tempo, havia bailes em todo o lado, às vezes, três e quatro na mesma noite. Em S. Martinho, os bailes eram naquele sítio cá em baixo, onde estão os baloiços das crianças, e a gente ia até lá, e as nossas máquinas para irmos até lá, eram os nossos pés.
«As raparigas, naquele tempo, eram muito diferentes. Se os antigos como eu cá voltassem, morriam logo outra vez, porque isto está tudo virado. Nós íamos para a igreja de Alfeizerão, porque éramos aqui da freguesia, e levávamos todos uns bordões, uns grandes, outros mais pequenos, e íamos para a missa e, que o Senhor me perdoe, a gente ia, ajoelhávamos, e púnhamos aqueles grandes paus no meio das nossas pernas, por malandrice. Depois, acabada a missa, as cachopas juntavam-se ao pé da igreja, e a gente começava a meter-se com elas pelo caminho. Elas usavam umas saias que eram de lã pura de ovelha, não era uma lã falsificada; elas usavam aquelas saias de uma forma que elas vinham de rojo, vinha sempre com um palmo ou mais de rojo. E aqueles que vinham mais perto delas , elas começavam a ficar para trás e a gente começava a pisar a saia, e pisávamos uma vez e outra vez a saia e, pronto, aí estava a conversa pegada. E depois, formavam-se aqueles pares no fim da missa, que era para, á noite, se ir ao baile.
«Depois, voltávamos a casa, para a janta e para descansar um bocado, e íamos ter com elas. Aqueles que namoravam há mais tempo, às vezes, até ceavam por lá, em casa dos pais delas. Íamos todos para o baile, bailávamos, tocavam uns, outros cantavam. Havia um gajo lá, que era um espanto a tocar concertina, lugar onde ele tocasse era sempre um arraial de povo á volta. Aquele era o nosso divertimento. Havia aqueles bailes, uns aqui, outros além. E o fardamento então delas, era digno de se ver, eram saias de lã - todas as casas tinham ovelhas, umas tinham vinte, outras trinta ovelhas, e aquela lã era tosquiada, e havia uns cardadores, o homem vinha aí cardar e tinham umas coisas que chamavam eles as cardas, que eram mais ou menos como os meus dedos virados para cima, como se fossem gradas; e tinham uma passadeira, que enfiavam aquilo nas mãos, e aquilo tinha muita carda, e depois o cardador passava aquela lã pelas gradas, e depois passava uma carda pela outra em cruz, que aquela lã ficava toda lisinha, toda fiadinha, que era um luxo. Acabava de fiar uma e punha numa pardazita e ia cardar outra, até que fiava uma parda grande de lã. E depois, havia umas mulheres, não eram todas, que sabiam fiar aquilo, cosiam aquela lã, e depois daí é que elas faziam as camisolas, coletes, saias, enfim, o que elas queriam.

A.C.: E também chegou a ir aos bailes à minha terra, a Famalicão?

A.F.J.: Então não ia!? Famalicão, S. Martinho, Rebolo, Raposos, corria isso tudo. Em S. Martinho, havia assim uns rapazes ricos que davam um charuto àqueles que bailassem melhor, e eu era sempre dos que bailavam melhor. Era eu, era um rapaz de Alfeizerão que morreu há pouco tempo nas Caldas, que era o António Rocha, e era um outro, que era meu primo, e que era filho de uma Rosária que morava em Alfeizerão. Em S. Martinho, nós éramos os campeões naquilo e, quando acabava o baile, eles davam um charuto a cada um de nós, e nós ficávamos todos vaidosos, todos inchados.
«Andávamos ali em S. Martinho, depois o baile acabava lá pela uma hora da manhã, e íamos para a Macarca, na Macarca ouvíamos falar de um outro baile, por exemplo, nos Raposos, e lá íamos nós para os Raposos, quilómetros e quilómetros, sempre a pé. Entretanto, começavam os galos a cantar, começava aquilo a ser dia, e voltávamos para casa; e eu chegava a casa com a roupa já enxuta, que ela enxugava-se no corpo; tirava aquela roupa e vestia a roupa da semana para ir trabalhar para a Quinta. Numa ocasião, deitei-me em cima da cama, já vestido com a roupa de trabalho, e adormeci. A minha mãe chamou-me, mas eu não acordava, e então, ela agarrou-me pelas pernas e puxou-me até eu cair no chão aos pés da cama. E lá fui eu a correr com os olhos meio abertos, meio fechados, por aqueles atalhos até á Quinta, para trabalhar.

A.C. E o seu casamento? Quer falar-me dele? Havia, com certeza, muita diferença para os casamentos de agora…

A.F.J.: Muita diferença mesmo. Naquele tempo, era uma vida desgraçada, até na boda. No meu casamento meti quarenta pessoas e, até á noite, apareceram muitos rapazes amigos. Naquele tempo, havia um uso, a gente acabava de cear e depois fazia um bailarico, por aqui e por ali. E vinha muita gente ao baile, a gente dava um petisco, e eles davam doze vinténs. Casava-se sempre ao Sábado, e as pessoas ficavam até Domingo. E depois, a gente ia casar, e naquele tempo havia sempre uma mulher que fazia a comida. Havia umas tigelas grandes com umas asas, umas tigelas muito grandes, e depois as mulheres enchiam aquelas tigelas com sopa até ao meio, e do meio para cima, acabavam de encher com repolhos. A tigela ficava uma aguadela de cebola e repolhos. Juntávamo-nos cinco ou seis pessoas á volta de cada sopeira daquelas e comíamos, comia quem queria, mas não aparecia mais nada a não ser aquilo. A carne era racionada, e havia lá um tipo que estava de cozinheiro nesses meus noivos, e enquanto a gente comia a sopa, ele chegava á porta e dizia: “Vamos, rapazes, vocês comam e bebam, que está aqui carne que ainda se não comeu” – e mostrava os dedos das mãos dele.

A.C.: E, nesse tempo, matava-se algum gado para os casamentos?

A.F.J.: Ás vezes, nalguns casamentos, matavam-se uns carneiritos, um ou dois; porque ninguém matava uma vaca naquele tempo. Daí para cá é que a coisa começou a melhorar.

A.C.: E doces? Havia doces nesses casamentos?

A.F.J.: Não senhor, não havia doces nenhuns!

A.C.: Quantos anos tinha quando se casou?

A.F.J.: Vinte e sete.
A.C.: E filhos, quantos teve?

A.F.J.: Filhos, só tenho um, mas tenho quatro netos, um rapaz e três raparigas, todos casados.

A.C.: O senhor ainda vai á feira em Alfeizerão.

A.F.J.: Vou, e gosto de ir.

A.C.: Diga-me uma coisa, como é que era a vida aqui em Alfeizerão nesses tempos? Havia festas?

A.F.J.: Festas em Alfeizerão, simplesmente, havia só o Santo Amaro, não havia mais nada, fazia-se lá uma festazita ás vezes, mas era uma coisa muito provisória…

A.C.: E no S. João não se fazia nada?

A.F.J.: Fazia-se só uma fogueirita ao pé do coreto; e não havia ainda lá o coreto, era naquele sítio ao pé da capela.

A.C.: E o senhor recorda-se de como era a capela de Santo Amaro antigamente? Era igual á de hoje ou havia diferenças?

A.F.J.: A capelazita de Santo Amaro era de outra forma, tinha mais coisas lá dentro, e era mais pequena; agora está muito modificada.

A.C.: Tem memória se a capela de Santo Amaro tinha algum gradeamento á volta?

A.F.J.: Não senhor, não tinha. No meu tempo, nem havia aquelas casas por ali, não havia a casa do Bernardo, nem a Casa do Povo, não havia nos arredores nenhuma casa gerada. Direito aos Casais Norte também não havia nada. Lembro-me de um moinho de vento que havia no meio da vila e que depois foi escangalhado. Ali onde está o Centro Social de Alfeizerão, aquilo era um baldiozito que o padre João de Matos Vieira comprou para fazer uma vacaria. E depois, é que aquilo se começou a povoar de casas. Alfeizerão era muito mais pequena, nem se compara nada.

A.C.:  E os casais, Casal Pardo, Casal Velho, Macalhona? Eram muito menos famílias, não?

A.F.J.: Sim, poucochinhas. Aqui a área da Macalhona tem mais casas que o Casal Pardo, o que acontece é que o Casal Pardo está mais num monte, e aqui está tudo muito mais espalhado, começa ali á beira da estrada, e vai por aí abaixo até ao rio.

A.C.: E aqui na Macalhona dão algum nome diferente ao rio?

A.F.J.: Damos, sim senhor. Nós aqui deste lado, como havia naqueles tempos uns Invernos muito grandes, estavam noites e semanas a chover a quase toda a hora, e aquilo fazia umas enchentes muito grandes que cobriam aquelas várzeas todas que nós tínhamos ao lado do rio; não se via nada, parecia um mar d’água. E por causa dessas várzeas que levavam a água às terras, nós, já naquele tempo, chamávamos-lhes o “rio das várzeas”. Passa-se mais para baixo, e chamam-lhe o “rio de Sapeiros”, depois, “rio do Casal Velho”, e vai assim até Alfeizerão.

A.C.: E as pessoas destas terras – Macalhona, Alfeizerão, Casal Pardo, S. Martinho do Porto… - as pessoas davam-se bem?

A.F.J.: Não, não se davam sempre bem, e nesse assunto fui até um bocadinho castigado. Havia grandes zaragatas naquele tempo, quer dizer, aquilo era uma selvageria. Nós dávamos tiros uns nos outros, batíamos uns aos outros, mandávamos pedras. E eu, não é ser gabarola, mas nesta área aqui por cima, eu era um galozito, e todos me tinham um bocado de respeito. Andavam então por aí uns moços do Gaio – os tipos do Gaio tinham a fama de desordeiros e chamavam-lhes Gaios arrulhudos – e vieram a uma baile que houve aqui perto da Macalhona, e foi aí que nos desavimos com eles. Houve uns murros lá no meio do baile, andávamos a bater uns nos outros, e um desses do Gaio puxa de uma pistola e começa aos tiros a nós. Ainda tenho uma costura num ombro de uma das balas. Mas aquilo não ficou por ali, nós estávamos mais ou menos escondidos, alguns feridos, e fomos indo, fomos indo, e a zaragata continuou e ficamos todos marcados. E esses homens do Gaio, quando foi no outro dia, foram incriminar a gente a Alcobaça. E havia ali no Casal Pardo um José Pedro que era da família desses do Gaio, e o José Pedro falou comigo e disse-me que, se eu quisesse, ele arranjava um acordo entre nós e os do Gaio e nós pagávamos uma quantia para não irmos á justiça, que então iríamos pagar muito mais. Eu concordei, e os do Gaio exigiram á gente nove libras cada um. Mas eu não tinha nove libras. O meu pai tinha-me deixado criar dois bezerros, que tanto que eu gostava daqueles dois bezerros, e eu tive de os vender para pagar as nove libras, isso foi para mim um desgosto, um grande desgosto.
«Havia muitas zaragatas, foi nesse baile, depois, foi noutro, logo a seguir, na Bica. Havia rixas em quase todos os bailes, que aquilo quase parecia promessa. No Casal Velho houve outra zaragata muito grande, fizeram lá um baile, e estava lá uma rapariga do Vimeiro que estava a dançar com um vizinho meu. Havia nesse tempo um costume, não sei bem se há agora, que é quando um par está a dançar, vem outro rapaz, bate as palmas, e a rapariga tem de mudar de par. Ora, quando esse meu vizinho estava a dançar com a moça do Vimeiro, vem um rapaz da terra, bate as palmas, mas o meu vizinho não lhe quis entregar o par. Os dois começaram a discutir, e esse rapaz do Vimeiro, mais outros, deram porrada nesse meu vizinho. Então, eu, mais um rapaz ali da Cadarroeira que era da família dos Negros Maus – o Augusto Negro Mau era pai dele – virámo-nos a esses tipos e brigamos, brigamos, quer dizer, fomos de longe, da taberna, a dar porrada neles. Esse Negro Mau era todo ruindade, aquilo era só nervos, porque, homem que ele agarrasse, nunca mais o largava. Foi indo, foi indo, e o Negro Mau apanhou alguns desses tipos na cova de um barranco e, donde eu estava, só lhe via a cabeça, porque ele estava em cima desses rapazes a descascá-los. E eles, quando viram que aquilo ia para um fim, começaram a chorar e a pedir: “Ó rapazes, não matem a gente! Não matem a gente!”. Nós paramos, e fomos todos para a taberna, e fomos curá-los com aguardente. Aquelas feridas, era só sangue a escorrer pela cara abaixo. Nós deitávamos aguardente nas feridas e, quando nós víamos que o sangue corria mais devagar, dávamos-lhes um copo de aguardente para as dores.
«Doutra vez, em Alfeizerão, houve tão grande porrada que nós – eu não, porque tinha muita família em Alfeizerão para me acoitar – mas vizinhos meus, que andavam a fugir dos de Alfeizerão, galgaram o muro da Quinta do senhor José Augusto para dentro, e correram por aqueles campos fora. Se eles não saltam lá para dentro, os de Alfeizerão tinham-nos morto a todos.
«Naquela vida, a gente divertia-se mas passava muitos tormentos. E o trabalho nas Quintas…sofria-se coisas…que eu sei lá!

A.C.: O senhor, se pensar na sua vida, do que foi até agora, se pudesse voltar atrás, fazia a mesma coisa que fez, ou modificava alguma coisa?

A.F.J.: Não modificava muito…

A.C.: Fazia a mesma coisa que fez?

A.F.J.: Não senhor, acho que não, se pudesse, deixava a outra vida que comecei, a daquele tempo, e virava-me para esta, que é melhor.

A.C.: Obrigado por partilhar connosco essas memórias, senhor Faustino, e que Deus lhe dê saúde para continuar com a sua família e contar-lhes as suas histórias.

A.F.J.: Obrigado!







[i] Vaca de alfeiría: vaca que não pariu nem esteve prenha (António de Moraes Silva, “Diccionario de Lingua Portugueza”, tomo I, Typographia Lacerdina, Lisboa, 1813).

[ii] O único incriminado pela morte de Sidónio Pais, o que lhe deu o tiro fatídico, foi José Júlio da Costa. António Faustino Júnior não o refere pelo nome, mas estivera muitas vezes à conversa com ele, e chama-o de “algarvio”, ainda que José Júlio da Costa tenha nascido em Garvão, Ourique, no Baixo Alentejo. José Júlio da Costa tinha vinte e cinco anos quando alvejou Sidónio Pais, encontrando-se este na Estação do Rossio, prestes a embarcar para o Porto.

[iii] José Júlio da Costa morreu em 1946 no Hospital Miguel Bombarda. Esteve preso desde 1918, sem nunca ter sido julgado.

[iv] Os combates que Faustino refere, aludem à tentativa de restauração monárquica de 1919, com sangrentos combates em Monsanto e Ourique. Os monárquicos, chefiados pelo capitão Júlio da Costa Pinto, refugiam-se no Forte de Monsanto, onde hasteiam a bandeira da monarquia na manhã de 23 de Janeiro. A tomada de Monsanto pelos republicanos, na qual Faustino participou, ocorreu no dia seguinte, 24 de Janeiro, com militares e populares armados sob o comando do tenente-coronel Ernesto Maria Vieira da Rocha. A reconquista republicana do sítio, a “Escalada de Monsanto” saldou-se em 39 mortos e 330 feridos (Coimbra, Artur Ferreira, “Paiva Couceiro e a Contra-Revolução Monárquica (1910-1919)”, tese de mestrado, Universidade do Minho, Braga, 2000). As forças monárquicas em Monsanto contavam com “frações da Cavalaria 4 e 7”, com os regimento da Artilharia 1 e 30, entre outros grupos militares e civis (Coimbra, op.cit.)