quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

INAUGURAÇÃO DA LUZ ELÉTRICA EM ALFEIZERÃO - pelo Marquês de Rio Maior

     A 12 do corrente mês de Janeiro [de 1947] foi inaugurada a luz elétrica na populosa vila de Alfeizerão. A tão auspiciosa inauguração referiram-se, oportuna e minuciosamente, os órgãos da imprensa. Não vamos, pois, relatá-la; seria reproduzir o que os nossos leitores já conhecem.
     Queremos, porém, pôr em devido relevo a assistência do senhor Dr. Gagliardini Graça como presidente da Junta de Turismo de S. Martinho do Porto, à mesma inauguração. A sua presença em Alfeizerão, nessa qualidade, para se associar ao justificado júbilo da gente da terra, que via, por fim, realizado o grande melhoramento, desejado havia tantos anos, prova serem amigáveis as relações de vizinhança entre as duas mencionadas vilas; o que, não obstante ser sabido de todos, nos apraz relembrar e registar aqui.
     Era justificado o júbilo dos de Alfeizerão; porque a boa iluminação pública e particular é fator importante de progresso em qualquer povoação.
     Felicitamo-los, portanto, e desejamos que a inauguração festiva do passado dia 12 seja o início de era próspera e progressiva para o seu querido torrão natal.
     Mas este grande melhoramento de luz tem importância mais do que local. Até no que toca ao turismo nacional é apreciável.
     As Pousadas, que o Estado Novo mandou espalhar pelas nossas províncias, são como que portos de escala do turismo. Nelas, o turista descansa a meio da jornada, e lança maravilhado os olhos para o panorama belo, que ante cada uma delas se lhe patenteia,
     Entre essas Pousadas, atalaias da beleza na terra de Portugal, uma das mais aprazíveis é a de S. Martinho, o que afirmamos sem desprimor para qualquer das outras.
     Sob a discreta mas vigilante direção do seu ativo e acolhedor gerente, senhor Augusto Paramos, a quem muito prezamos e a cuja modelar gerência prestamos aqui a devida justiça, a Pousada de S. Martinho oferece, a quem nela se abriga, o maior conforto. E é tão agradável permanecer ali que is que de lá partem, sempre se afastam saudosos.
     Mas, se a Pousada de S. Martinho é, por dentro, encantadora, a vista que das suas janelas e varandas se goza, bem pode dizer-se única; porque, compreendendo, na sua variedade campo, serra e mar; contém, como safira do maior preço engastada em jóia preciosa, a baía de S. Martinho do Porto; «o recorte mais pitoresco da costa peninsular».
     De dia, essa formosa vista encanta. E de noite?
     De noite, até agora, quando as trevas ocultavam a face da terra e a vastidão do mar, e brilhavam ao longe as luzes de iluminação pública em S. Martinho do Porto, dir-se-ia que do céu caíra alguma constelação no lugar em que assenta esta vila. E aquele pedaço do globo terreno parecia retalho da esfera celeste.
     Agora, com Alfeizerão também iluminado eletricamente, serão dois os pedaços de céu caídos no chão nas noites de trevas; e o panorama noturno será duplamente deslumbrador, e mais que nunca apreciado dos turistas... e de todos.
     Não assistimos à inauguração da luz elétrica em Alfeizerão e, por isso, não nos foi dado unir a nossa voz ao coro uníssono dos aplausos que a celebraram. Desejávamos contudo atestar a nossa plena concordância com esses aplausos; o que nos levou a escrever este artigo.
     Introduzem frequentemente os compositores modernos dissonâncias nas suas obras; e nem sempre tais dissonâncias desagradam, mormente aos que apreciam novidades.
     Também nós introduziremos, neste artigo relativo a facto recentíssimo, a dissonância de algumas notas antigas.
     São elas a descrição, feita há 56 anos pela boa velha alfeizerense, senhora Maria Rocha, viúva, do vestuário usado, em tempos anteriores, pelas senhoras e senhores da sua terra, isto é, Alfeizerão.
     Essas notas, colhemo-las nos artigos que o seu autor anónimo escreveu há 56 anos e publicou no jornal A Época, de 1890, sob o título «Pelos Campos».
     Se elas conseguirem entreter por uns momentos os nossos prezados leitores, daremos por bem empregue o pouco tempo gasto em transcrevê-las.
     Contou ao referido autor anónimo a senhora Maria Rocha Viúva:
     «As senhoras antigamente traziam roupões abotoados adiante, desde o pescoço até à roda, abaixo. Quando iam à missa, levavam umas toucas com penachos verdes, amarelos, e encarnados, e usavam toucados de fitas. Punham uma mantinha pelos ombros.
     «Antigamente, os senhores usavam de casacas, de casaquinhas, com umas abinhas atrás, tudo da cor da calça e do colete. Usavam chapéus altos de pêlo».
     E a informadora acrescentou:
     «Os chapéus-de-sol, e guarda-chuvas, antigamente eram quase todos brancos ou encarnados».
     Não disse mais nada sobre o caso a senhora Maria Rocha Viúva.
     Nós também, por hoje, deporemos a pena que desta vez empunhamos em honra de Alfeizerão, vila vizinha e irmã de S. Martinho do Porto.

Marquês de Rio Maior


(jornal O Alcoa, de 23 de Janeiro de 1947)

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