quinta-feira, 2 de março de 2023

O desaparecido Pelourinho de São Martinho do Porto - algumas variáveis num tema com muitas certezas


 Não pode haver conhecimentos esconsos, nem intenções dúbias. 

A cultura e o património cultural são tesouros 
a zelar e a acrescentar por todos; 
e isso é o mínimo que o futuro espera de nós.
(Michel Parent, antigo especialista da Unesco)

1 – O que nos contam os textos
     O pelourinho de São Martinho do Porto, erguido como símbolo de autonomia concelhia reconhecida pelo Foral Novo do rei D. Manuel I, foi mantido como tal durante quatrocentos anos, como um marco de pedra que mostrava orgulhosamente que a vila possuía Câmara própria e alguma autonomia jurídica e administrativa.
     Com o fim da Guerra Civil e a derrota dos absolutistas no século XIX, as instituições do antigo regime tornaram-se suspeitas e ominosas, sobretudo os seus símbolos mais tangíveis, os castelos, conventos e pelourinhos – todos reduzidos à expressão mínima e negra de lugares de opressão e dor. A reação começou logo em 1834, no ano do triunfo dos liberais, quando, nas palavras do visconde de Juromenha, para imitar a revolução de França, se arrancaram os braços de ferro a alguns Pelourinhos com o fim de apagar a memória do seu antigo destino (apud BRAGA, 1985) [1].
     Em Alcobaça, estes ventos de mudança fustigam a herança cultural da comunidade na secularização dos espaços interiores do Mosteiro abandonado pelos monges, e nas deliberações e iniciativas das vereações liberais da Câmara de Alcobaça. É arrematada a demolição de muros do castelo de Alcobaça para a obtenção de pedra para a construção de casas (com o pretexto do seu estado de ruína ser um perigo para quem caminhava junto aos seus panos de muralha), e alguns pelourinhos do concelho são visados também como um mero recurso para a obtenção de pedra, como foi o caso dos pelourinhos de Alcobaça, Évora, Alfeizerão e São Martinho do Porto.
      Em acta de 26 de Novembro de 1866 da reunião da Câmara de Alcobaça, pode ler-se: Foi outrossim determinado sob proposta do senhor vereador Couto que a deliberação tomada a respeito do Pelourinho de Alcobaça [que decidia a sua demolição] compreendesse também o da antiga vila de S. Martinho do Porto, e que no caso de não haver concorrentes em praça que arrematassem a sua demolição, seja a mesma feita por conta da respetiva Junta de Paróquia, a qual poderá aproveitar-se da pedra que do mesmo Pelourinho se extrair para a empregar como lhe convier em benefício público [2].
     Mas o pelourinho de São Martinho não cumpriu liminarmente o funesto destino que este documento deixava antever. O que fizeram dele foi contado, com a mesma subtil e quase diáfana mordacidade que nos transmite a leitura dos seus contos, por Fernando Perfeito de Magalhães Vilas-Boas.
     Como já aqui deixamos registado, num artigo sobre Fernando Perfeito de Magalhães e o seu irmão Francisco, o primeiro foi um arquiteto de obra prolífica, escritor e aguarelista. Testemunhou sobre ele, neste particular, o seu amigo João Saldanha de Oliveira e Sousa: O nosso prezado amigo, artista de raça e investigador incansável, Sr. Fernando Perfeito de Magalhães Vilas Boas, andou por Portugal durante seis anos a fixar em aguarelas os pelourinhos ainda existentes. Estas suas 190 aguarelas lá estiveram expostas em Lisboa e constituem preciosa coleção que bem merece ser adquirida pelo Estado [3].

Figura 1:
Pelourinho de Aljubarrota
Imagem da aguarela de Fernando Perfeito de Magalhães

     Essas aguarelas (num total de 225) foram finalmente reunidas num (belíssimo) livro publicado pelas Edições Inapa em 1991, com texto complementar de Vasco da Costa Salema [4]. Sobre o pelourinho de São Martinho do Porto, a obra reproduz, não a aguarela, que não existia, mas o comentário escrito em 1955 que lhe dedicou Fernando Perfeito de Magalhães (o destaque a negrito é nosso):
Este pelourinho de S. Martinho do Porto tem uma história pitoresca. Estava ereto no largo da vila, fronteiro à igreja, onde se fazia o mercado. Como porém fizeram obras de canalização de água para um chafariz público e o Pelourinho estorvava as obras, apearam-no, e eis que o seu fuste veio parar a outro Largo que existe na parte baixa da vila, intitulado Largo de Victorino Froes, e ali permaneceu, deitado no chão, arrumado a um canto, até que tendo este lavrador e ganadeiro, necessidade de construir um esteio para fazer uma sebe divisória no seu campo, chamado Campo do Sul, na várzea onde criava o seu gado bravo, o utilizou para esse fim, levando-o para lá. Ali permaneceu, não sei quanto tempo, não se livrando talvez de apanhar fartas marradas e até teria feito algumas pegas de cara! Passado tempo, tornou a voltar à sua antiga cama, no largo Victorino Froes. Um empreiteiro que levantava um andar sobre uma casa térrea, junto a esse largo, topando com aquele esteio ou coluna ali abandonado, lançou mão dele e utilizou-o como sólido sustentáculo do vigamento superior do pavimento. Como o andar da casa térrea era e é uma farmácia, nada mais lógico local para aquele infeliz fuste de Pelourinho, depois de ter sofrido tanto dinamismo cruel para quem tinha sido criado para viver estático por séculos sem fim. Será pois muito difícil tirá-lo da farmácia, pois é bem fornecida de drogas, tão necessárias àquele infeliz que creio que será ele a não querer abandonar aquele curativo refúgio, pois com tantos dinamismos tenha perdido a cabeça, o desgraçado.

 

2 – Questões levantadas pelos textos

     A casa do Largo Vitorino Fróis onde o fuste ou coluna foi usado como viga de sustentação do primeiro andar, ainda existe, faz esquina entre a Calçada da Glória e a Rua Dr. Rafael Gagliardini Graça. Foi, nesse tempo, Farmácia, depois Drogaria, e mantém-se na posse de privados como casa de habitação, ao que parece, sazonal.
     Nessa casa, segundo a tradição oral e fonte documental que me foi facultada (Relatório de José da Conceição Vaz, Agente Técnico de Engenharia de 3.ª Classe com a data de 18 de Agosto de 1956, ficheiro ref.ª TXT. 00372144 do SIPA - Sistema de Informação para o Património Arquitetónico), existe um pilar no pátio dessa casa, que se vê da rua, e que sustenta o telheiro, por todos apontado como o fuste do pelourinho desaparecido. O referido pilar (Figura 2) não é desprovido de graça, sendo de pedra trabalhada e com aquela respeitável pátina alaranjada da pedra vetusta, mas não é, cremos, o fuste do pelourinho (suposição nossa, frisemos). Este pilar semelha uma coluna intacta e inteira, pouco adequada, diz-nos o bom-senso, para ter sido aproveitada numa cerca para gado na quinta do Fróis, além dos ecos residuais da presença do pelourinho na quinta concordarem numa alusão plural: "fragmentos do pelourinho".
Figura 2:
O pilar no pátio da casa do Largo Vitorino Fróis
- um (pobre) esboço nosso -
     
    Inicialmente, o pelourinho situava-se na parte alta da vila, a sua zona antiga, no modesto largo em forma de lágrima em que desemboca a rua José Bento da Silva, próximo aos Paços do Concelho e à capela de Nossa Senhora do Livramento. O chafariz público em nome do qual o apearam para fazer uma conduta de água, é a Fonte da Praça [5], virada para a Calçada de D. Pedro V, que foi remodelado pela Junta da Paróquia no ano de 1888, data coerente com o período em que surgem as disposições da Câmara Municipal de Alcobaça (de 1866) para se alienar o monumento e vender ou utilizar a pedra que dele se obtivesse.
     O fuste do pelourinho apeado foi deixado por algum tempo no Largo Vitorino Fróis, depois levado para a quinta do ganadeiro e finalmente empregue na dita casa após o regresso. O relato do arquiteto e aguarelista só nos dá conta do fuste, não sabemos se como uma peça monolítica, se segmentado em duas metades quando o desmontaram (o que é sugerido pelo seu uso numa sebe ou cerca). Era o seu elemento mais alienável, como se comprovou (cerca, coluna de casa), e a sua presença no Largo cá em baixo pode corresponder a uma tentativa da Junta de Paróquia de o vender.
     A parte superior do pelourinho, com o remate e o capitel, que era muitas vezes o seu elemento mais decorativo e artístico, terá ficado para trás. É tradição local, ouvida a várias pessoas, que essa parte do pelourinho teria estado durante algum tempo no espaço que ainda recordamos como o antigo "Jardim dos Macacos", onde se situava o Posto de Turismo da vila e existia um parque infantil sombreado por vigorosos plátanos, uma zona plana no sopé da encosta onde se ergue o Chalé das Palmeiras, indissociável da vida do ganadeiro de Alfeizerão. Depois, se esse rumor for fundamentado, a pedra desapareceu da vista e da memória de muitas pessoas.
     Quando João Saldanha de Oliveira e Sousa escreveu em 1949 [6] sobre o pelourinho de Alfeizerão, informou que constava aí que havia fragmentos do pelourinho (que se supunha ser do de Alfeizerão) numa quinta próxima, sabendo nós que a quase totalidade dos fragmentos do pelourinho de Alfeizerão sempre andaram por perto da sua igreja matriz, no adro e na entrada do cemitério. E isto é escrito numa altura em que o fuste do pelourinho de S. Martinho já “entrara ao serviço” na antiga farmácia da vila. 

3 – O desenho de João Santos
     Numa obra sobre São Martinho publicada no ano de 2000 [8], o autor, João Nunes dos Santos, fazia uma descrição do antigo pelourinho de São Martinho, baseada decerto naquilo que a tradição recordava dele:
     O Pelourinho consistia numa forte coluna de pedra com formato oitavado assente numa plataforma com três degraus, sendo rematado por uma figura de frade defronte de uma cruz, decerto a Cruz de Cristo, muito usada nas velas dos barcos portugueses daquele tempo.
     Na mesma obra, apresenta-se, com estes elementos, uma reconstituição gráfica do Pelourinho, no qual se procura representar o formato oitavado do fuste ou coluna, distinta do fuste com caneluras de secção cilíndrica que podemos admirar na casa da antiga farmácia (Fig. 2):


     A plataforma de três degraus (quadrados neste caso) é comum nos pelourinhos manuelinos, pelo que envidaremos considerações mais desenvolvidas a outros detalhes deste desenho do pelourinho.

3.1. O fuste oitavado
     Existem diversos pelourinhos manuelinos com a coluna de fuste oitavado ou de fuste prismático octogonal. Alguns, são mais alongados, como no pelourinho de Almendra, outros mais baixos e entroncados, como são os casos dos pelourinhos de Idanha-a-Velha e Trofa. O pelourinho de São Martinho do Porto parece aproximar-se destes últimos, a julgar pelo desenho, e pela descrição de João Santos, que fala de uma forte coluna de pedra.
Figura 4
Os pelourinhos manuelinos e de fuste oitavado de Almendra (1), Idanha-a-Velha (2) e Trofa (3)

3.2. A figura do frade (ou abade)
     O motivo de um frade ou abade no capitel do pelourinho é plausível e coerente. Nas vilas dos coutos de Alcobaça, seria de esperar que a simbologia dos pelourinhos manuelinos geminasse os símbolos óbvios do rei, como a esfera armilar ou o escudo das quinas, com símbolos da vila que fora agraciada com o foral, ou do mosteiro que a administrava soberanamente. No pelourinho de Turquel, onde já se quis ver a representação do abade na figura humana do seu topo que enverga um hábito, essa figura humana que será, provavelmente, a Nossa Senhora da Conceição, retrata o orago da terra, a sua dedicação religiosa. No pelourinho da Cela Nova, o remate apresenta as armas do Abade Geral de Alcobaça e a esfera armilar de D. Manuel [9]. No pelourinho de Aljubarrota, a duplicidade dos signos é mais óbvia: no capitel do pelourinho, podemos admirar a esfera armilar e as armas de Portugal cobertas pelo chapéu abacial.
     Se o pelourinho de São Martinho exibia a figura do abade que detinha a jurisdição sobre a vila, esta não deveria divergir muito, no estilo, da controversa figura humana do pelourinho de Turquel.

3.3. A Cruz de Cristo
     A Cruz de Cristo era um dos símbolos privilegiados do rei D. Manuel I. Por dois motivos principais: porque ficara associada à nossa expansão marítima e porque o próprio D. Manuel foi Grão-Mestre e governador da Ordem de Cristo, título que levou muito a sério, empreendendo profundas modificações e obras no Convento de Cristo em Tomar.
     A Cruz de Cristo, enquanto símbolo manuelino, pode ser admirada, na região, na igreja matriz de Évora de Alcobaça, onde coroa uma representação da esfera armilar, e no convento cisterciense feminino de Cós, esculpida na porta de acesso ao coro (MARQUES, 2006).
     Como motivo heráldico do capitel existem vários exemplos por esse país fora; como é o caso dos pelourinhos de Salvaterra do Extremo, Folgosinho, Vila Velha de Ródão, Proença-a-Velha, ou Redinha (Pombal); alguns deles, erguidos em territórios pertencentes a essa Ordem. A Cruz de Cristo no pelourinho que tratamos adequa-se à qualidade D. Manuel como Grão Mestre da Ordem e, cumulativamente, à natureza portuária e de construção naval da vila de S. Martinho - o mesmo símbolo cruciforme ornava as velas das caravelas e outras naves que arrostavam as vagas do oceano.

3.4. A forma do remate e do capitel. A incógnita.
     A principal lacuna da descrição e do desenho de João Santos, que dificultam uma futura recriação do pelourinho em pedra (de preferência, com algum elemento arquitetónico original), é não sabermos como ele terminava no alto. João Santos escreve que a Cruz de Cristo e a figura do abade rematavam o pelourinho, mas isso não parece suficiente. Os dois motivos requerem a existência de um remate e um capitel (em formato de pinha? Tronco-cónico piramidal?) em cujas faces estivessem esculpidos esses símbolos. Precisar qual seria a sua forma, é um desafio de difícil superação. Um dos pelourinhos de fuste oitavado que existem, e que ostenta também a Cruz de Cristo, o pelourinho de Salvaterra do Extremo, é assim descrito por Eurico B. de Ataíde Malafaia, na obra mais completa que existe sobre o tema [10]:
Sobre soco moderno, de três degraus quadangulares de aresta, assenta o conjunto da base, coluna, capitel e remate, de clara tipologia manuelina. A base da coluna é oitavada, de faces ligeiramente côncavas, e decoradas com pequena rosetas. Nela encaixa o fuste, liso e de secção octogonal, encimado por capitel oitavado, molduras salientes na zona inferior e no topo. As faces do capitel são decoradas com rosetas e botões lisos. O remate é constituído por um prisma oitavado de boas dimensões, cujas faces alternadas apresentam relevos heráldicos, nomeadamente um escudo nacional coroado, uma esfera armilar, uma cruz da Ordem de Cristo, e possivelmente uma cruz da Ordem de Avis. O pelourinho é finalmente coroado por pirâmide oitavada de topo truncado, com faces ornadas de séries verticais de três botões, de tamanhos decrescentes.




Notas:
[1] BRAGA, Teófilo, O Povo Português nos seus Costumes, Crenças e Tradições, volume I, reedição das Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1985

[2] VILLA NOVA, Bernardo de, Alcobaça através do Arquivo da sua Câmara Municipal (1836-1902), página 31, edição da Câmara Municipal de Alcobaça, Alcobaça, 1940.

[3] SOUSA, João Saldanha Oliveira e, Pelourinhos do distrito de Leiria: tese apresentada ao 2º Congresso das Atividades do Distrito de Leiria / João Saldanha Oliveira e Sousa. Separata de: Segundo Congresso das Atividades  do Distrito de Leiria. Reedição da Fundação António Vieira Rodrigues/Mosteiro de Alcobaça, 2007.

No distrito de Leiria, Fernando Perfeito de Magalhães aguarelou treze pelourinhos, observando João Saldanha Oliveira e Sousa que não seria difícil aumentar esse número: porque é fácil erguer de novo pelo modelo antigo, os pelourinhos de Alcobaça, Caldas da Rainha e São Martinho do Porto, sendo talvez também possível restaurar o de Alfeizerão e o da Pederneira.

[4] MAGALHÃES, Fernando Perfeito de, e SALEMA, Vasco da Costa, Pelourinhos Portugueses, Edições Inapa, Lisboa, 1991.

[5] Lê-se na placa do chafariz:
LEGADO, COMMENDADOR JOSÉ BENTO
SUBSIDIO MUNICIPAL E
SUBSCRIPÇÃO PUBLICA
EXECUTADA PELA JUNTA DE PAROCHIA
1888

[6] No jornal O Alcoa de 20 de Outubro de 1949. Citamos esta adição do Marquês ao tema na nossa publicação sobre o pelourinho de Alfeizerão.

[7] Ainda hoje persiste esse (infeliz) hábito retintamente português de ornamentar os jardins com pedras lavradas que se foi “achar” em algum edifício em ruínas ou ao abandono, de função religiosa ou secular.

[8] SANTOS, João Nunes dos, São Martinho do Porto. Apontamentos para a sua História, Edição Samartinho, São Martinho do Porto, 2000.

[9] MARQUES, Maria Zulmira Albuquerque Furtado, O Manuelino no Mosteiro e nos Coutos de Alcobaça, Tipografia Alcobacense, Alcobaça, 2006,    

[10] PELOURINHOS PORTUGUESES – Tentâmen de Inventário Geral, Imprensa Nacional Casa da Moeda, Lisboa, 1997.




José Lopes Coutinho
(e-mail: joseduardol@gmail.com)

Nota: O texto original deste apontamento foi publicado nesta página no ano de 2013, texto que agora revimos e voltamos a publicar por tal se justificar, dado ser um motivo atual e de renovado interesse para os espíritos sensibilizados por esta temática.




domingo, 26 de fevereiro de 2023

Um caminho andado por inteiro: o correio em Alfeizerão em 1927

 


A cópia de uma carta endereçada pelo presidente da Junta ao Diretor dos Correios e Telégrafos de Leiria no ano de 1927 e por nós consultada no arquivo da Junta, recorda-nos como o correio chegava a Alfeizerão nessa época. A correspondência chegava de comboio a S. Martinho e na estação postal dessa localidade era levantada a mala postal para Alfeizerão que era trazida a pé por um estafeta para este lugar para aqui ser distribuído, fazendo-se o percurso inverso duas horas depois, 40 minutos era o tempo regular indicado na carta para esse percurso entre as duas localidades. 

Reproduzimos o teor curioso dessa carta, na transcrição, atualizamos a grafia e desenvolvemos as abreviaturas, perfeitamente naturais por se tratar da cópia manuscrita de uma carta expedida pela autarquia:

 

Ao Exmo. Sr. Diretor dos C. T. do Distrito de Leiria

A Comissão Administrativa da Junta de Freguesia de Alfeizerão, na qualidade de representante e defensora dos interesses dos seus habitantes, confiada no alto critério e espírito justiceiro de V. Exa., sabendo ainda mais quanto se interessa pela comodidade dos povos do nosso Distrito, proporcionando-lhes sempre todas as facilidades dentro das boas normas de justiça, vem esta Junta solicitar a V. Exa. o alto serviço para que sejam trocadas as malas postais desta freguesia, com a ambulância em vez de ser com a estação postal de S. Martinho do Porto, o que lhes traz bastante prejuízo. Não ignora V. Exa. da importância comercial, agrícola e vinícola de Alfeizerão, tendo já hoje uma troca razoável de correspondência, como o prova a estatística de venda de franquias.

De ordinário, a mala postal chega a Alfeizerão das 14.45 às 15 horas; a saída para S. Martinho é às 17 horas, como V. Exa. tem ocasião de apreciar, há apenas 2 horas de intervalo, ficando por esse motivo prejudicada alguma correspondência de resposta imediata, sucedendo por vezes mandar-se um portador á estação levar correspondência que pela sua urgência tem necessidade de seguir nesse dia. O comboio 201 (correio de Lisboa) chega a S. Martinho ás 12.20: o 206 (correio do Norte) chega ás 20.34; o condutor da mala, andando normalmente, gasta 40 minutos a percorrer a distância entre Alfeizerão e S. Martinho. Portanto, dignando-se V. Exa. atendera esta justa pretensão, podiam os habitantes de Alfeizerão receber a correspondência às 13 horas e enviá-la para o correio ás 19, sendo o intervalo de 6 horas, o que é importante para a facilidade de responder a correspondência urgente. Independentemente das inconveniências apontadas, temos outra não menos importante, que é: a detenção da correspondência em S. Martinho, tanto a vinda como a ida para o Norte. A correspondência para o Norte, que sai na mala às 17 horas, só no dia seguinte segue no 201. A vinda do Norte, que vem no 206, só no dia seguinte vem para Alfeizerão. Disso tem resultado alguns prejuízos e mui especialmente com a correspondência com a sede do concelho. Casos há em que são chamados interessados a Alcobaça, crentes os signatários de que a correspondência é recebida no mesmo dia. Com esta falta tem resultado alguns prejuízos. Uma vez a mala trocada com a ambulância, a correspondência vinda do Norte é distribuída aqui às 21 horas, a exemplo do que já houve, e o destinatário poderá responder no dia seguinte ou ir, em caso de chamamento. A correspondência trocada entre estas duas povoações (Alfeizerão e S. Martinho) poderá ser feita [com] a permuta das malas entre os estafetas respectivos.

Julgamos não haver nisto aumento de despesa na condução das malas, visto que o número de viagens são as mesmas, mas sim, apenas, mudança de horário e, para o empregado postal, apenas um pouco de trabalho em fazer duas malas em vez de uma.

Por esta pequenina exposição poderá V. Exa. apreciar as vantagens para esta freguesia, se esta Comissão Administrativa merecer o apoio de V. Exa. nesta tão justa aspiração.

Esperando que esta nossa pretensão tenha a honra de ser atendida, somos a desejar-lhe.

[Saúde e Fraternidade]

 

A. F. [João Augusto Ferreira]

Alfeizerão, 1-8-1927

 

terça-feira, 14 de junho de 2022

Com a esperança no horizonte - recordando dois episódios antigos de emigração

 Os Livros de Registos de Passaportes (1861-1999), conservados no Arquivo Distrital de Leiria, são uma fonte inestimável de informação para estudos sociológicos e genealógicos, um outro aspeto curioso dos passaportes é a descrição física do requerente com os seus sinais identificadores, recurso que precede o advento das fotografias de perfil. Do primeiro livro que aí encontramos, respeitantes aos anos de 1863 a 1870, transcrevemos dois registos relativos à freguesia de Alfeizerão, mais propriamente, a Vale de Maceira, e a dois irmãos - um deles com 15 anos - que emigram para destinos diferentes, Pará e Buenos Aires. 

A obra em causa é o Livro de Registo de Passaportes N.º 1, ADLRA, -1/III/65/C/9, f. 12v e 34r (Código de Referência PT/ADLRA/AC/GCLRA/H-D/001/0001).


<n.º 10, novembro, 9 [1868]>

«Passaporte a Francisco José Velho, solteiro, filho de Marcelino José Velho, de Maceira (sic), freguesia d’Alfeizerão, Concelho d’Alcobaça d’este Districto, para o Pará, no Império do Brazil. Abonado por Bento Mendez, solteiro, proprietário, do referido logar, como fica constando do respectivo termo lavrado na Administração d’aquele Concelho. Signaes do portador. Idade, 15 anos – altura, 1,54 – rosto comprido – cabelo castanho escuro – sobr’olhos pretos – olhos castanhos – nariz e boca regulares – côr trigueira. Assignado, José Fonseca da Cunha e Souza, Governador Civil».


<n.º 55>

«Termo de fiança que presta João António d’Oliveira d’esta cidade por Maria Marcelina, solteira, d’Alfeizerão, Concelho d’Alcobaça.

«Aos desaseis dias do mez de Julho de mil oito cento e setenta, n’esta Cidade de Leiria e Governo Civil do Districto, compareceu perante o Excellentissimo Governador Civil, Luiz Teixeira de Sampaio, Maria Marcelina, solteira, filha de Marcelino José Velho e de Maria Pereira, já fallecida, do logar de Valle de Maceira, freguezia de Alfeizerão, Concelho d’Alcobaça, a qual declarou que na data de hoje havia requerido ao dito Excellentissimo Governador Civil passaporte para Buenos Ayres, na República Argentina, mostrando por documentos authenticos que ficam junto ao seu requerimento, que nenhum impedimento se offerecia à concessão do passaporte, e que oferecia por seu abonador a João António d’Oliveira, estabelecido com hospedaria n’esta Cidade, o qual estando presente, disse que reconhecia a identidade de pessoa e a afiançava e por ella se responsabilizava nos termos dos regulamentos de policia em vigor. O que sendo ouvido pelo Excellentissimo Governador Civil e testemunhas abaixo mencionadas – José Miguel Pereira Maceirão e Claudino Joaquim Meirel, empregados d’este Governo Civil, e julgando o Excellentissimo Governador Civil idonea a fiança, que por isso aceitou, mandou, para constar e mais effeitos, lavrar este termo, que assigna com o fiador e ditas testemunhas, depois de todo o haver lido eu, Manuel Nicolau d’Abreu Castello Branco, Secretário Geral, o rubrico».

sexta-feira, 11 de março de 2022

Revisitar uma imagem gótica: a Virgem com o Menino (século XIV)

Em palavras:

                Em 1966, no decurso das obras na igreja de Alfeizerão apareceram enterradas duas imagens de calcáreo no solo da igreja, a do Arcanjo S. Miguel  e uma Virgem com o Menino. Avisado pelo padre Borges, aí acorreu o incansável Borges Garcia que as estudou detidamente, divulgando depois a sua análise num trabalho publicado em 1970: "Descoberta e estudo de imagens religiosas em S. Gião, Famalicão da Nazaré e Alfeizerão (Estremadura)" (in "Actas das I Jornadas Arqueológicas", Lisboa, 1969, Vol. II).

                Nesta breve anotação, vamos regressar a essa publicação de Eduíno Borges Garcia, mais particularmente, ao que escreveu sobre a imagem da Virgem com o Menino (op. cit., p. 9-11). Atendendo às caraterísticas da imagem, Borges Garcia atribuiu-a - com toda razão, cremos nós - à escola escultórica de Coimbra, mais propriamente à oficina de Mestre Pêro de Coimbra (século XIV). O que propomos aqui é apenas cotejar esta imagem da Virgem com pormenores de outras imagens atribuídas à mesma escola para enfatizar algumas afinidades.

                Mestre Pêro de Coimbra é uma figura de grande importância na evolução da escultura medieval no nosso país, supõe-se que tenha nascido em Aragão ou na Catalunha, e também de Aragão era a Rainha Santa Isabel que patrocinou o trabalho do escultor e a quem incumbiu de esculpir o seu túmulo, hoje estante no Mosteiro de Santa Clara a Nova. Outra das suas obras marcantes, foi o túmulo com jacente de Dom Gonçalo Pereira, Arcebispo da diocese de Braga, na Sé da mesma cidade; os anjos esculpidos nesse túmulo, cabeceira e pés da imagem do Arcebispo, são como um cânone no imaginário de Mestre Pêro.

                Sobre a imagem da Virgem com o Menino da igreja de Alfeizerão, podemos ensaiar um esquisso de descrição:

                A Virgem de pé e frontal olha em frente e segura no colo, sobre o braço esquerdo o Menino, que fixa atentamente a mãe. A Virgem apresenta um rosto de perfil ovalar de feições suaves e olhos amendoados e a boca com os lábios unidos, o rosto é emoldurado por cabelos cingidos por um véu seguro por uma pequena coroa no alto, enverga uma túnica abotoada e presa no ventre por um cinto de couro com a ponta pendente, a túnica desce sobre as pernas em pregas oblíquas em U aberto, e sobre ela tem um manto comprido lançado sobre os ombros e fechado sobre o peito por um firmal ou alfinete quadrilobado liso, o manto, agrupado sobre o antebraço direito estrutura-se em pregas escalonadas e bem definidas; a mão direita da Virgem segura flores azuis e amarelas com os seus dedos cilindricos e alongados, a mão esquerda, curvada em sentido oposto à que mal-segura as flores, abre ligeiramente os dedos alongados para segurar com firmeza os joelhos do Menino. O Menino, de tronco desnudado, tem a parte inferior do corpo enrolado num pequeno lençol e segura com ambas as mãos a pomba do Espírito Santo, possui os cabelos em linhas sinuosas e o rosto arredondado, as maçãs do rosto cheias, os lábios de comissuras encurvadas para baixo, quase em ricto de choro quando visto de frente, olhos e sobrancelhas descaídos. Estamos perante um conjunto escultórico tenuamente dinãmico com ligeiro torsão do corpo para a esquerda e o pé calçado desse lado a assomar sob as vestes, efeito acentuado pelo drapejamento das roupas e pela suave inclinação da cabeça da Virgem para o lado oposto. A policromia original anda é nítida, sobretudo no manto (azul), na túnica (vermelha) e nos pormenores em preto do cinto e do sapato.

                Sobre a arte da Escola de Mestre Pêro e a Virgem com o Menino encontrada em Alfeizerão, a filiação parece clara, os traços-chave encontram-se lá, outros pormenores mais heterodoxos, como o rosto mais arredondado da Virgem ou o cabelo do Menino por exemplo, podem dever-se à particular execução de um dado escultor ou conjunto de escultores da sua oficina e subscrevemos a conclusão de Borges Garcia: «se este bela imagem não é da autoria de Mestre Pêro, será indubitavelmente da sua Escola».

 

Em imagens:

- A Virgem com o Menino, de Alfeizerão



- As flores  na mão direita: em Alfeizerão (em cima) e, em baixo, duas imagens da Virgem com o Menino: da Igreja Matriz de Oliveira do Hospital e do Museu Machado de Castro em Coimbra




- A cabeça do Menino nesta imagem e a cabeça de dois dos anjos do túmulo de Dom Gonçalo Pereira na Sé de Braga




- A pomba do Espírito Santo nas mãos do Menino: a segunda imagem é de uma Virgem com o Menino do Museu Nacional de Arte Antiga.


- O firmal quadrilobado que prende o manto: a primeira imagem inferior é da mesma imagem do Museu Nacional de Arte Antiga e a segunda é uma imagem da Anunciação que se atribui a Mestre Pêro e que se encontra na Catedral de Santiago de Compostela



quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Sem (mais) palavras

 


<António Madeira>

Matou Bernardo Joam á sua porta a Antonio Madeira [entrelinhado: "conforme o que disem"] em 24 dias do mes de Novembro de 619 ás nove horas da noute, pouco mais ou menos, esteve vivo sem falar nem subir ao pée nem nada [sic] desasete horas pouco mais ou menos, porque faleceo aos 25, duas horas depois do meio dia, foi somente ungido e sem a confisão porque não falou mais, nem deu sinal algum todo este tempo de homem vivo, foi enterrado na igreja em os 26 do dito mes, depois que as justiças de Alfeiserão e o ouvidor o mandarão enterrar e por verdade, hoje, 26 de Novembro de 1619.

[O padre-cura] Henrique Baptista

 

[ADLRA, IV/36/C/30, Registos de batismo, casamento e óbito da freguesia de Famalicão: 1615-1621, sem n.º de fólio. Código de referência PT/ADLRA/PRQ/PNZR01/003/0001]


domingo, 13 de fevereiro de 2022

O foral manuelino da Cela Nova (01/10/1515) e o trabalho nas obras dos castelos e muros


Os Coutos de Alcobaça possuíam duas fortalezas de primeira ordem, os castelos de Alcobaça e Alfeizerão e manter essas fortalezas reparadas e prontas para o conflito era uma responsabilidade do Abade e Mosteiro de Alcobaça que para tal, contava com o trabalho prestado pelos moradores dos Coutos através da obrigação da adua ou anáduva. A contestação a essa obrigação estará na origem da sua fixação, a título de exemplo, na letra do foral novo de D. Manuel I à Cela Nova, cujo teor se declara extensivo aos restantes concelhos dos Coutos.

Desse documento, conservado na Câmara Municipal de Alcobaça, apresentamos aqui o trecho sobre as "Obras dos Muros" (fl. 14r-14v). Na transcrição operamos algumas ligeiras adaptações ao texto, nomeadamente o desenvolvimento das abreviaturas, a separação de palavras indevidamente unidas e a conversão na grafia do u com o valor de v.

 

[Fl. 14r] Outrossy foy ora movida demãda pollos ditos comçelhos comtra o dito dom abade y seu moesteiro por serem comstrangidos y apremados por sua parte pera servjrem nas obras y muros do dito moesteiro sobre a qual cousa foram per nos vistas as scripturas do moesteiro per que se prova y achamos seer dado o dito poder ao dito moesteiro per ElRey dom fernamdo por sua carta patente. E per bem della foy sempre em posse da dita servjntia o dito moesteiro. A qual nos decraramos per este nosso foral aversse de fazer desta maneira j que os vezinhos y moradores dos ditos coutos servam per mandado do abade do dito moesteiro ou de seus ofiçiaães daqui adiante nas obras y muros // [fl. 14v] das ditas suas fortellezas como atee qui fizeram. E isto soomente sera quando nos ouvermos por nosso servjço y bem de nossos regnos de se fazerem ou refazerem os ditos castellos y muros y obras delles as quaaes nos curtam [sic] per nosso espeçial mandado ao dito abade mandarmos fazer y doutra maneira nam servjram os moradores dos ditos comçelhos nas ditas obras sem embargo da dita carta. Item da posse em que disso o dito moesteiro estava. Salvo quando nos os ditos castellos mandarmos correger como dito he.


sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Na sombra dos dias: sete pequenas narrativas

 


        A leitura dos assentos paroquiais de diferentes freguesias, seja com o intuito de pesquisa histórica ou genealógica ou por mera curiosidade, acaba sempre por cruzar registos que relevam pelo seu conteúdo invulgar ou pelas informações inéditas que nos fazem chegar. Neste parco rascunho transcrevemos seis assentos paroquiais de S. Martinho do Porto em que a fatalidade e a tragédia, ontem como hoje, denotam a pérfida capacidade de supreender qualquer existência, por mais amena ou desassombrada que ela pudesse ou possa ser. Esses textos suscitam por vezes interrogações, veladas pelo tempo e pelo olvido, de forma análoga à dos episódios e eventos inconclusos dos nossos dias que parecerão misteriosos aos que nos sucederem.

                Nos dois primeiros assentos, os falecidos partilham o mesmo apelido, origem e uma condição social semelhante; por sua vez, os dois ultimos assentos reportam-se à mesma fatalidade, mas indicados pelo padre-cura de S. Martinho do Porto e pelo vigário da igreja de Nossa Senhora da Vitória de Famalicão, este indica com mais precisão o lugar onde foi encontrado, e cujo topónimo ainda hoje nos é familiar.

 

<M.el mad.a. Fis lhe hum officio de caridade>

Aos onze dias do mes de Agosto de mil setecentos e sesenta e nove faleseo com todos os sacramentos Manuel Madeira, natural e morador que foi em Alfizirão, pobre, esta sepultado no adro da igreja desta villa de S. Martinho, feci dicto die ut supra.

Antonio Dinis Coresma

[ADLRA (Arquivo Distrital de Leiria), IV/26/A/33, Registos de óbito da freguesia de São Martinho do Porto: 1666-1733, n.º de fólio ilegível]

 

<Izabel madeira, mosa solteira natural de Alfeiserão>

Aos vinte e seis dias do mes de Março anno de [mil] seis sentos e setenta e outo anos, faleseo nesta villa huma mossa por nome Izabel Madeira, a qual faleseo em casa de André Fernandes seu cunhado, hera natural da villa de Alfeizerão, não fes testamento por ser muito pobre, está enterrada no adro da Igreja desta villa para a parte do norte, feci dicto die ut supra.

Bento de Mendanha

[ADLRA, IV/26/A/33, Registos de óbito da freguesia de São Martinho do Porto: 1666-1733, n.º de fólio ilegível]

 

Em os nove dias do mes de fevereiro de mil e seis sentos e outenta e hum annos acharão morto hum menino por nome Manuel, hera de idade de seis anos e meo, filho de Antonio Rodrigues Montero e de Catherina gomes sua mulher [moradores] na varzea de Alfeizerão, ficando na dita varzia huma noute tempestuoza; seu corpo foi sepultado no adro da Igreija Matriz desta Villa de Sam Martinho para a parte do norte. Feci dicto dia ut suora.

Manuel Pinto de Abreu

[ADLRA, IV/26/A/33, Registos de óbito da freguesia de São Martinho do Porto: 1666-1733, n.º de fólio ilegível]

 

Em os vinte e outo dias do mes de Outubro de mil e seis sentos e outenta e dous annos acharam morta Izabel de Almeida, molher de Antonio Teixeira, com muntas facadas, moradores na Villa de Sam martinho, seu corpo está sepultado no adro da Igreja Matriz da parte do norte. Feci dicto dia ut supra.

Manuel Pinto de Abreu

[ADLRA, IV/26/A/33, Registos de óbito da freguesia de São Martinho do Porto: 1666-1733, n.º de fólio ilegível]

 

Em os quinze dias do mes de Maio do anno de mil e seis sentos e noventa e nove faleseo Theresa, filha de Amaro Fernandes e de Theresa do Couto, ja defuntos, moradores que forão em a Villa de Alfiziram, e esta defunta dizem teria de idade vinte annos pouco mais ou menos, não reçebeo os sacramentos porque a acharam morta, e para que conste o sobredito fis este asento, e está sepultada no adro desta Igreija.

O Prior Antonio Cerveira e Sotto

[ADLRA, IV/26/A/33, Registos de óbito da freguesia de São Martinho do Porto: 1666-1733, fl. 43r]

 

<Antonio madeira dos Raposos, Satisfes se com o bem da alma [rubrica do padre]>

Em os nove dias do mes de Julho de mil seis centos e setenta annos achou morto o meu compadre ___ [?] garcia, andando a cassa [à caça] no pe [?] de vale da serra, a Antonio madeira morador que foi nos cazais dos Rapozos, thermo de Alfezirão e freguez de Famalicão, o qual avia faltado de sua caza seis semanas, estava lansado de costas sobre huã pedra ja coruto [corrupto], de maneira que achouse, não podia sofrer; veio Antonio Fernandes seu genro e sua filha a asistir lhe ao enterro, mostrava morer [ter morrido] de acidente, foi trazido a esta villa por authoridade de justiça e está sepultado no Adro da Igreija desta dita vila, peguado ao caminho, feci dicto die ut supra.

Antonio Dinis Coresma

[ADLRA, IV/26/A/33, Registos de óbito da freguesia de São Martinho do Porto: 1666-1733, n.º de fólio ilegível]


Em o mes de Julho de 1670 se achou morto Antonio Madeira dos Casais dos Raposos no arife [arrife, recife] das quebradas aonde chamão o bico da gralha, junto ao mar, freguesia de Sam Martinho, aonde jas enterrado no adro da dita igreja por não estar em estado; ja corrupto, para o trazerem a esta sua igreja e freguesia, fiserãoçe os tres ofiçios nesta igreja pelos beneses costumados della e eu e o Reverendo padre Cura Antonio Dinis Coresma repartimos ambos de permeio o que importarão os custos delles conforme manda a constituissão, igualmente a cada hum o que lhe coube; mes asima declarado. O Vigr.o Antonio de Moura ferrão

(ADLRA, IV/36/D/36, Registos de óbito da freguesia de Famalicão: 1649-1684, fl. 47r, assento n.º 185)