domingo, 27 de julho de 2025

«As Invasões Francesas na região a oeste da Serra dos Candeeiros e os seus vestígios nos registos paroquiais» (hiperligação)



Trabalho de pesquisa sobre os vestígios da guerra peninsular no texto dos assentos paroquiais de várias freguesias dos atuais concelhos de Alcobaça,Nazaré, Caldas e Peniche.

Entre as fontes citadas no apontamento, encontram-se entradas de diário redigidas pelo oficial inglês de cavalaria William Tomkinson, já publicadas nesta página, das quais citamos as duas passagens seguintes:

«A 11 de Janeiro de 1811, nós enviámos uma patrulha diária para a estrada de Alcobaça. Eu fui neste dia com outros oito homens, e ao chegar à aldeia da Cela, a três léguas das Caldas, eu encontrei os franceses na aldeia, com o pequeno piquete de vigilância de um sargento um pouco retirado para o nosso lado. Comuniquei-o ao brigadeiro-general Blunt, que se encontrava em Alfeizerão e, em consequência, ele retirou-se para Óbidos. O objetivo do inimigo era apenas saquear; seguiram-me até eu passar a ponte de Charnais e, deixando uma pequena unidade de cavalaria a vigiar a estrada, eles pilharam as aldeias perto da Cela. Permaneci na ponte até escurecer, altura em que o inimigo se retirou. Coloquei um sargento de piquete na ponte e voltei para as Caldas.

«No dia 17 de janeiro patrulhei para Este da ponte de Charnais, enviando dois homens para a passagem da ponte para permanecer aí até eu regressar. Mal havia atravessado o rio quando ouvi dois tiros de aviso disparados por eles, em resposta aos quais eu regressei, e descobri que duas companhias de infantaria francesa tinham cruzado a ponte e estavam a pilhar a aldeia do Valado [de Santa Quitéria]. Ficaram cerca de uma hora na aldeia e então retiraram-se para o lugar de onde haviam partido pela manhã».


sábado, 19 de julho de 2025

A "Azenha do Castelo" em Alfeizerão

 

Já antes falamos sobre este tema, mas voltamos ao assunto por nos termos cruzado com um elemento novo que consideramos ser significativo.

Há 35 anos, em setembro de 1990 quando se realizava junto ao castelo escavações para a instalação de uma estação de tratamento de esgotos, as máquinas puseram a descoberto duas pedras de mó partidas ao meio e um paredão semienterrado com a parte superior de dois arcos ogivais. O achado causou alguma e natural agitação e curiosidade e falou-se (e ainda hoje se fala) que aí teria existido um moinho de marés ligado ao porto medieval de Alfeizerão. O “Jornal de Leiria” (n.º 324, p. 9, do dia 27 desse mês) num artigo assinado por C. M. e com o generoso título “Ruínas romanas encontradas em Alfeizerão”, sintetizava no final do artigo: «Até ao momento encontraram-se duas mós de moinho e uma parede, construída em tijolos de barro, com arcos redondos e alguns pedaços de cerâmica árabe».

Numa folha guardada na sede da Junta de Freguesia de Alfeizerão (pasta de arquivo com "Coisas de História de Alfeizerão" escrito na lombada) que reproduz por fotocópia um “Planta de Alfazeirão” de um artigo de José Carvalhais relativo às escavações arqueológicas no Pedrógão (Carvalhaes, 1903: 93) existe, sem assinatura, algumas adições a esse mapa e um esboço dessas ruínas com a anotação: «Em 10/9/90… Quando das escavações para os esgotos, foram achados elementos que eu considero de muito interesse arqueológico. Fotografias (…) Mós partidas (2)». Reproduzo uma imagem desse esboço e esse mesmo desenho com as linhas sublinhadas na sua variante digital:

 



Entre as mencionadas fotografias tiradas no local, encontravam-se as que se seguem:





Na época estabeleceu-se contatos com a Universidade Nova de Lisboa e ao local acorreram alguns arqueólogos como o Professor Doutor Pedro Gomes Barbosa, ainda que não tivessem conseguido realizar qualquer escavação arqueológica devido às condições aí encontradas, como evoca este arqueólogo numa publicação de 2021 (Barbosa, 2021: 105-106): «Junto a este castelo [de Alfeizerão] apareceram restos de um muro com arcos ogivais, duas moventes de mó e cerâmica medieval, que registamos em fotografia e desenho, mas infelizmente não pudemos realizar a escavação devido ao nível freático muito alto (possivelmente de ribeiros subterrâneos) e o enchimento ser de areão de fundo de lagoa».

As mós partidas foram guardadas e depois colocadas à flor do solo no jardim da Junta de Freguesia de Alfeizerão, enquanto os vestígios restantes foram recobertos de terra, fazendo-se em seguida num ponto mais afastado as escavações para a construção da projetada estação de tratamento de esgotos.

Em finais de 2022 e com a concordância e colaboração do executivo autárquico, as pedras de mós foram retiradas do relvado onde se encontravam parcialmente enterradas e expostas num outro ponto do mesmo jardim com a legenda possível.



 

A legenda criada traduzia uma convicção, mais do que uma certeza, as duas moventes de mó e a estrutura com os dois arcos aproximava-os da arquitetura de um moinho de rodízio ou moinho de água de roda horizontal, em regra composto de dois pisos com a movente de mó a funcionar no piso superior, conectada através de um eixo ou veio com a roda horizontal movida pela água sobre os rodízios no cabouco ou piso inferior e que era escoada pelos arcos de saída dessa água.

 

Esquema simplificado de um moinho de rodízio



Em cima, os caboucos de dois moinhos de rodízio em ruínas com as suas saídas de água em arco: moinho de Corte Real à esquerda e o moinho de Água da Courela.

Em baixo, representação gráfica de um moinho de rodízio ou de roda horizontal.


A tipologia das moventes de mó também tem o seu interesse, mesmo para, de uma forma condicional, estimar uma cronologia relativa. Se a segunda mó na imagem acima pode ser identificada como uma mó “alveira” ou “trigueira”, de grão mais suave, para o nobre e alvo trigo; a primeira carateriza-se pelo seu calcário fossilífero áspero destinado a despedaçar de forma eficaz o grão dúctil do cereal a moer, com grande probabilidade, o maís, milho grosso ou milho americano (a mó “segundeira”, para triturar o cereal “de segunda”). Uma vez que este cereal só nos chegou no século XVI, conhecendo uma ampla e intensiva adopção no decurso do século seguinte com a conversão de uma parte substancial da produção de cereais (tirando-se proveito com ela dos terrenos apaulados da orla das lagoas), a cronologia desta azenha pode seguir de perto a da implantação do cultivo e moagem do milho americano.

A estrutura posta a descoberto e novamente sepultada e as duas moventes de mó expostas na sede da Junta de Freguesia, reportam-se a uma azenha ou moinho de água que outrora existiu na chamada vala do castelo, que contorna a bainha do outeiro calcário onde se “ergue” essa fortificação. Um oportuno acaso permitiu-nos encontrar essa azenha assinalada num mapa do século XVIII.

Numa Dissertação de Mestrado da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto sobre a Alfândega e o Porto de Salir, Maria Cordeiro S. C. Gomes (Gomes, 2021: 45) reproduz (já com alguma adaptação à finalidade da tese) um mapa de Guilherme Elsden sobre os campos de Alfeizerão e S. Martinho do Porto com a data estimada de 1775 [PMP, C-M&A, Pasta 24(36)]; e do qual extraímos a imagem infra, que isola uma fração do centro desse mapa.




Na orla desta imagem podemos distinguir o Pedrógão e o vasto pinhal junto a ele e mais a norte a Quinta de Manuel Pedro (da Silva da Fonseca), o casario da vila encontra-se bem representado, com a ponte sobre o rio e a estrada real, omitindo-se aqui o Casal da Ponte ou a estrada que na outra extremidade da vila seguia para a Macarca e Famalicão. Mais acima e à esquerda do eixo da vila e quase confinante com vastas áreas pantanosas (como a Serrada ou Cerrada do Fidalgo), desenha-se o monte com o Castelo, a vala junto a ele e, mais abaixo, representada por um quadrilátero que cruza a vala, a azenha, devidamente legendada: “Azenha do Castello”. Esta azenha parece-nos coincidir com o ponto onde foram descobertas a estrutura e as pedras de mó; no mapa, a azenha encontra-se muito próxima da antiga estrada que partindo da vila e da sua isolada igreja de S. João Batista, seguia como hoje para S. Martinho do Porto, com um traçado aproximado.

Quase em nota de rodapé, subsiste uma dúvida legítima: a movente de mó de superfície mais áspera e com os gumes e pontas dos fósseis de conchas nela existentes destinar-se-ia à moagem do milho grosso ou milho americano ou serviria para moer outra espécie de cereal de grão mais rijo do que o trigo? O milho americano parece o candidato mais provável à luz do que conhecemos documentalmente sobre o cultivo dos cereais no território da Ordem cisterciense de Alcobaça (cf. Maduro, 2018; Maduro, 2019), mas podemos agregar aqui uma outra fonte, muito eloquente.

A primeira vez em que o imposto da Décima foi coletado em Alfeizerão foi em 1763 (AHTC, DP 463.3  - Cota “antiga” ou provisória deste documento, que está a ser transferido para o Arquivo Nacional da Torre do Tombo com todo o fundo documental do imposto da Décima), em data muito próxima ao do mapa de Guilherme Elsden. Dentro deste, a Décima dos prédios rústicos da vila e seu termo (f. 58r-62r) permite-nos ter uma noção da sua produção cerealífera. A Décima não incidia sobre as grandes propriedades fundiárias (como a Quinta de Manuel Pedro, que só se menciona na demarcação de terras), mas apenas sobre a pequena e média propriedade (descritas como “uma courela”, “uma chousa” ou “um pedaço de terra” pertencentes a fulano de tal). São coletadas 57 propriedades diferentes e indicado o volume das suas produções de cereais, assim como as espécies de cereais cultivados. Fazendo a síntese estatística desses dados, chegamos à evidência de o milho grosso ser o que mais predominava na atividade agrária com 80% da produção, ao qual se seguia expressamente a cevada, com 4,8% da produção (também destinada à forragem dos animais), distribuindo-se os restantes 15,2% por terras de trigo, terras de pão meado ou produção conjunta de trigo e milho, em provável situação de rotação de culturas. Só pela curiosidade dessa informação, a produção mais significativa dessas pequenas e médias propriedades, foi a de 30 alqueires de milho grosso obtida nuns terrenos junto ao Arrecavalo, este topónimo, a Fonte do Arrecavalo, ocorre em outros documentos escritos para designar uma fonte situada num caminho de inclinação acentuada a nascente de Alfeizerão, na margem direita do rio e próxima à povoação do Casal do Pardo.

 


FONTES:

BARBOSA, Pedro Gomes - “O território de Alcobaça antes dos cistercienses”, in Um Mosteiro entre os rios: O território alcobacense, p. 95-112, (coord.) António Valério Maduro e Rui Rasquilho, Alcobaça, Hora de Ler, 2021

CARVALHAES, José (1903) - "Antiguidades romanas de Alfeizerão", in «O Archeologo Portugues», p. 90-93, Lisboa, Museu Ethnologico Português.

GOMES, Maria Cordeiro de Sousa Cruz (2021). Uma Lagoa Perdida no Tempo. A Água e a Ruína no Porto de Salir. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto.

MADURO, António Valério. "La difusión del maíz y las transformaciones en el sistema agropecuario del dominio cisterciense de Alcobaça, siglos XVIII y XIX". Ohm : Obradoiro de Historia Moderna 27 (2018): 81-111

MADURO, António Valério – “A inovação do agro sistema cisterciense de Alcobaça nos séculos XVII – XIX”, in Cister- Tomo III: Espiritualidade, Agricultura e Indústria, Hora de Ler, Leiria, 2019.

 

ILUSTRAÇÕES DOS MOINHOS DE RODÍZIO:

a) Moinho de Corte Real: Projecto “Os Moinhos do Rio Degebe: Contributos para salvaguarda da sua memória”, coordenação de Mestre Francisca Mendes. Endereço: http://www.moinhosdegebe.uevora.pt/index.php#top

b) Moinho de Água da Courela (Brotas, Mora): Ficha no SIPA - Sistema de Informação do Património Arquitetónico, N.º IPA.00024854. Endereço: http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=24854

c) Desenho sem indicação de autor, recolhido de: Marques, Rui (coord.), Sesimbra - Memória e Identidade | Engenhos de Moagem de Cereais, Câmara Municipal de Sesimbra, 2012



domingo, 5 de janeiro de 2025

Carta de Vitorino Froes ao presidente do governo sobre a festa de Santo Amaro (1917)


Em 1917, num período histórico marcado pela questão religiosa e pela atmosfera de positivismo e anticlericalismo que se respirava na Primeira República, Vitorino Froes dirige um telegrama e uma carta a António José de Almeida, que preside ao governo do 13.º governo republicano, a fim de conseguir autorização para que se pudesse realizar a procissão do Santo Amaro. António José de Almeida seria eleito Presidente da República dois anos mais tarde.

Transcrição da: “Carta de Vitorino Froes para o Presidente do Ministério e Ministro das Colónias, António José de Almeida, solicitando autorização para a organização de festa popular” (Museu da Presidência da República, APAJA/Cx192/056)

 

 

[Resp. em 15-1-17]

 

Ex.mo Il.mo Snr.

e Meu amigo –

 

Tomei hontem a liberdade de telegrafar e V. E.Cia a pedir o especial favor de solicitar do Exmo Ministro do Interior a autorização para sahir a procissão que todos os annos se costuma fazer na minha terra, no dia 15 do corrente, dia da tradicional festa que todos os filhos d’esta freguesia d’Alfeizerão festejam com alegria.

O regedor ultimamente nomeado é um dramático pedreiro, que parece [?] impossível que huma terra que tem quatro mil habitantes esteja debaixo dos caprichos d’um figurão d’esta natureza, o unico que se julga ofendido com este acto religioso que há seculos se faz com toda a pompa e que a ninguém prejudica.

 

                                            De V. E.cia com toda a consideração e muita estima

                                            Alfeizirão, 13-1-17

 

                                            Victorino Froes

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Apontamentos vários sobre a génese da (hoje antiga) Escola Primária de Alfeizerão


A Educação exige os maiores cuidados, porque influi sobre toda a vida”.

(Séneca)


REGISTADO EM ACTA UM OFÍCIO À C. M. A. SOBRE O PROPÓSITO DE CONSTRUIR UMA ESCOLA NA SEDE DA FREGUESIA

«Foi resolvido enviar à Câmara o seguinte ofício. Uma das maiores aspirações da Junta desta freguesia é a realização da construção da Escola para exercícios escolares, visto que aquelas que aqui existem não terem condições pedagógicas, a não ser para o atrofiamento das criancinhas. Conta esta junta para a sua realização, com a venda de baldios paroquiais, de uso comum dos povos, para o que o Código Administrativo lhes dá essa atribuição e ainda com o auxílio e boa vontade da Exma. Câmara Municipal».

(Livro de Actas n.º 11, fólio 3v, Acta da sessão ordinária de 8 de Março de 1926, Arquivo da J. F. A., Alfeizerão)

 

ASSINALADA A POSSIBILIDADE DE ENCERRAMENTO DA ESCOLA OFICIAL EM ALFEIZERÃO, POR FUNCIONAR EM CASA ARRENDADA E ESTAR PREVISTO UM AUMENTO DA SUA RENDA

«Foi presente um ofício n.º 148 de vinte de Março [1926] dirigido ao presidente da Junta desta Freguesia em que lhe comunicava e lhe pedia o favor de transmitir aos mais vogais desta Junta de Freguesia, que a comissão executiva desta freguesia acaba de ser notificada pelo cidadão J. A. F., por intermédio do advogado, Exmo. Senhor Doutor Mário de Pina Cabral, no sentido de passar a ser feito, na importância de 25$91 centavos mensais o pagamento da renda da casa da escola oficial desta localidade, pela qual actualmente é paga a importância de 6$25 centavos, também mensalmente, diz ainda mais, não desejando a Câmara executiva da sua presidência ficar com o mínimo sequer de responsabilidade quanto ao facto bem possível de dar-se num futuro próximo, de Alfeizerão ficar sem a sua escola oficial, por motivo de falta de casa».

(Livro de Actas n.º 11, fólio 4r, Acta da sessão ordinária de 9 de Março de 1926, Arquivo da J. F. A., Alfeizerão)

 

MENÇÃO DE UM SUBSÍDIO INICIAL DA CÂMARA PARA A CONSTRUÇÃO DA ESCOLA PRIMÁRIA

«Foi presente o ofício n.º 654 de 26 de Outubro da Comissão Administrativa da Câmara deste Concelho, em resposta ao nosso ofício n.º 25 de 24 de Outubro, informando-nos que a Comissão Administrativa da Câmara resolveu, em sessão de vinte e cinco, incluir a verba de seis mil escudos ao pedido de subsídios que vão dirigir ao Exmo. Ministro da Instrução, para o efeito de auxiliar a construção de um edifício escolar na sede desta freguesia».

(Livro de Actas n.º 11, fólio 10v, Acta da sessão ordinária de 10 de Novembro de 1926, Arquivo da J. F. A., Alfeizerão)

 

INICIATIVA DA JUNTA DE SOLICITAR UMA AJUDA PARA A OBRA A TODOS OS FILHOS E AMIGOS DE ALFEIZERÃO

«Também resolveu esta Comissão escrever uma Carta a todos os filhos e amigos de Alfeizerão, mesmo que estejam residindo nas nossas possessões ultramarinas e no estrangeiro, pedindo-lhes o seu auxílio a favor da nossa terra para a construção de uma casa de escola de que tanta necessidade temos para a educação de tantas crianças de idade escolar; destas cartas se fará uma cópia de que se mandarão imprimir 500 exemplares para serem distribuídos».

(Livro de Actas n.º 11, fólio 12v, Acta da sessão ordinária de 8 de Dezembro de 1926, Arquivo da J. F. A., Alfeizerão)

 

MINUTA DA CARTA AO ARQUITECTO CHEFE DAS CONSTRUÇÕES ESCOLARES, A PEDIR UMA PLANTA PARA A FUTURA ESCOLA

«Ex.mo Senhor Arquitecto Chefe da Repartição das Construções Escolares – Ministério da Instrução

Lisboa


«Tendo a Comissão Administrativa da Junta de Freguesia a que tenho a honra de presidir, deliberado dar começo a um edifício escolar na sede desta freguesia, venho solicitar a V. Ex. a cedência de uma planta para dois lugares de professor, o exemplo mais simples oficialmente aprovado, comprometendo-me a devolvê-la logo que não seja precisa ou no prazo que seja por V. Ex.cia designado.

Saúde e Fraternidade

O Presidente da Comissão Administrativa

Alfeizerão, 9 de Maio de 1927

[Arquivo da J. F. A., Caixa 2]

 

APRECIAÇÃO FAVORÁVEL PELA JUNTA DO PROJECTO E MEMÓRIA DESCRITIVA CEDIDOS PELA REPARTIÇÃO DAS CONSTRUÇÕES ESCOLARES

«Foi pelo presidente apresentada em sessão a planta, projecto oficial, memória descritiva e detalhes para a construção de uma escola para dois lugares de professores, na sede desta freguesia, que em sessão de vinte e sete de Abril último foi resolvido pedir ao Exmo. Senhor Arquitecto Chefe das Construções Escolares. Foi resolvido agradecer a Sua Excelência o envio da mesma planta, projecto, etc. Apreciada devidamente por esta Comissão Administrativa a planta/projecto oficial/memória descritiva e seus detalhes, foi aprovada por unanimidade, por representar a obra que ambicionamos, modéstia e elegância (sic)».

(Livro de Actas n.º 11, fólio 18v, Acta da sessão ordinária de 25 de Maio de 1927, Arquivo da J. F. A., Alfeizerão)

Comissão Administrativa da

Junta de Freguesia de Alfeizerão

 

 

 

 

Condições para as empreitadas da

Escola Primária de Alfeizerão

 

1.º O empreiteiro ou empreiteiros tomam a responsabilidade de cumprir integralmente a planta, memória descritiva e condições gerais expostas no orçamento e caderno de encargos assinado pelo construtor civil, Sr. Alberto Rodrigues Aurélio, do que se lavrará um auto assinado pela Junta, empreiteiro e duas testemunhas abonatórias.

2.º As arrematações são em três lotes abaixo designados.

3.º Secção de Carpinteiros.

         Soalhar, dividir em tabiques as divisões existentes no projecto, fasquiando de um e outro lado; e ainda aumentar um tabique devidamente fasquiado a fazer a divisão do gabinete indicado no projecto, pois que, sendo a escola para dois lugares de professor, dois têem de ser os gabinetes.

         Enfim, respeitar todas as condições gerais dos trabalhos e orçamento.

4.º Secção de Pedreiros

         Acabamentos em limpos do Edifício Escolar, alpendre, aperfeiçoamento dos vãos, colunas e enfeites em cimento armado, e construção do telheiro do recreio. Respeitar todas as condições dos trabalhos e orçamento.

5.º Secção de Pinturas

         Estuques, pinturas, vidros e sua colocação em conformidade com a memória descritiva e orçamento.

6.º Empreitadas

         No caso que apareçam duas ou mais propostas iguais, haverá licitação pública após a abertura das propostas.

7.º Reserva-se a esta Comissão Administrativa a faculdade de não aceitar as propostas, no caso que convenham aos seus interesses

8.º Pagamentos

         Os pagamentos das empreitadas são divididos em três prestações assim designadas.

                   1.ª A quarta parte da importância quando as obras estiverem a meio (metade).

                   2.ª Prestação igual quando as obras estiverem em três quartas partes.

                   3.ª (Última) Quando as obras das respectivas empreitadas estiverem concluídas e após a vistoria feita por técnicos ou técnico.

9.º Reserva-se o direito a esta Comissão Administrativa, quando o julgar conveniente, mandar examinar os serviços por técnico competente.

10.º Prazos para conclusão de empreitadas.

         Secção de Pedreiros e Carpinteiros. As suas empreitadas devem ficar concluídas em 31 de Maio de 1930, o máximo, podendo começar desde a confirmação da sua adjudicação. Secção de Estuques e Pinturas, até 30 de Junho de 1930.

         Terminados os prazos acima indicados e as obras não estejam concluídas, perdem os respectivos empreiteiros ou empreiteiro da secção em falta, a quantia [üde dez escudos (10$00) diários a favor do cofre da Junta até á conclusão das respectivas obras].

Sala das Sessões da Junta de Freguesia

Alfeizerão, 31 de Outubro de 1929

O Presidente

João Augusto Ferreira

Os Vogais

António de Matos

João da Silva Santos

 

[Arquivo da J. F. A., Caixa 2]

 

 

Nota: As empreitadas foram atribuídas da seguinte forma na sessão extraordinária da Junta de 1 de Dezembro de 1929:

- Secção de pedreiros a António Prudêncio Luís.

- Secção de estuques e pinturas ao mesmo António Prudêncio Luís.

- Secção de carpinteiros, a Joaquim dos Santos Bernardes e Joaquim Duarte Grilo.

(Livro de Actas n.º 11, f. 51r, Arquivo da J. F. A , Alfeizerão)

 

 

CÓPIA DE UMA CARTA DIRIGIDA AO DIRECTOR GERAL DE INSTRUÇÃO PÚBLICA SOBRE UM SUBSÍDIO PARA A CONCLUSÃO DA OBRA

S . R. [Serviço da República]

Ilustr. e Exmo. Sr.

Director Geral de Instrução Publica

                                               Lisboa

Exmo. Sr.

         No ofício de V. Ex.ca de 5 de Julho de 1928 dirigido a esta C. A. [Comissão Administrativa] da Junta de Freguesia, em resposta ao pedido de um subsídio para a conclusão da nossa escola primária em construção, começada com o produto de uma subscrição pública e com o auxílio da Câmara Municipal d’Alcobaça e notadas as disponibilidades desta Junta para esse fim, dizia-me o seguinte:

“Sob proposta da Repartição das Construções Escolares, que obteve despacho favorável, vai a pedido dessa Junta ser registado [o] seu respectivo mapa para ser atendido logo que haja qualquer distribuição de subsídios para construções escolares”.

Temos conhecimento de que tem sido distribuído ultimamente alguns subsídios para o referido fim e [temos] ansiosos tempos esperado a realização do nosso prometimento.

Como não pode haver pedido mais justo que o nosso, visto termos apurado no último recenseamento escolar 435 crianças com idade escolar nesta freguesia e as escolas que existem, nem este nome se lhe pode dar, pois o merecem [o nome] de pardieiros, não comportam mais da quarta parte das criancinhas.

         Venho novamente solicitar de V.a Ex.ca o grande favor de nos ser concedido o subsídio para a sua conclusão, pelo que pratica um alto benefício a favor das criancinhas, e para o que o nosso reconhecimento não tem limites.

Desejando a V.a Ex.ca

Saúde e Fraternidade

O Presidente da C. A. da Junta de Freguesia

João Augusto Ferreira

Alfeizerão, 28 de Março de 1929

[Arquivo da J. F. A., Caixa 2]

ACTA DA JUNTA DE FREGUESIA QUE FIXA O HISTÓRICO MOMENTO:

 

«Aos onze dias do mês de Maio do ano de mil, novecentos e trinta e dois, pelas catorze horas, reuniu-se em sua sessão ordinária a Comissão Administrativa da Junta de Freguesia de Alfeizerão, concelho de Alcobaça. Em conformidade com o que foi resolvido entre a Comissão Administrativa da Câmara Municipal e a Comissão Administrativa da Junta de Freguesia, no dia oito de Abril, como consta da acta de 10 do referido mês, realizou-se no dia 8 de Maio a inauguração solene do chafariz e marco fontanário para abastecimento de águas, digo, águas potáveis, na sede da freguesia, e ainda do edifício Escolar. A inauguração destes importantes melhoramentos que tantos benefícios traz á freguesia, correram com o melhor brilhantismo e entusiasmo, não só manifestado pela Comissão Administrativa da Junta de Freguesia, que viu neste dia a realização da sua iniciativa, como por todas as pessoas que nos honraram com a sua vinda aqui para este fim!

«Neste número fez parte o Exmo. Sr. Governador Civil de Leiria e de Beja, o Inspector Chefe da Região Escolar, o Presidente da Junta Geral do Distrito, representantes da Câmara de Leiria, administradores dos concelhos de Leiria e Marinha Grande, representantes da liga do 28 de Maio de Leiria, o Delegado Marítimo, Comissão de Iniciativa, Junta de Freguesia, Comando dos Bombeiros, etc., etc., de São Martinho do Porto, Comissão de Iniciativa de Alcobaça, o Exmo. Sr. Engenheiro Alves Costa, professores oficiais, etc., etc., assim como a Exma. Câmara Municipal do nosso concelho composta de todos os seus membros, que bem manifestaram o carinho e atenção que dispensaram a estes melhoramentos, e por isso a satisfação íntima da sua inauguração!

«Além das pessoas citadas, muitas pessoas em representação social de São Martinho, Alcobaça, Nazaré, Caldas da Rainha, Marinha Grande e Lisboa, nos honraram com a sua vinda aqui para este fim. Também todas as pessoas de maior representação social desta freguesia, assim como os povos da sede da freguesia e lugares, compareceram em grande número para abrilhantar a festa da inauguração, uma das mais importantes que aqui se tem realizado. Também o dilecto filho desta freguesia, Capitão-aviador Sérgio da Silva, veio no seu avião fazer diversas evoluções sobre esta terra, associando-se assim aos mesmos festejos e na retirada deixou cair uma carta de saudações e felicitações para a Junta de Freguesia e Câmara Municipal! Para a inauguração da Escola constituiu-se uma sessão solene a que presidiu o Exmo. Sr. Governador Civil do Distrito, secretariado pelos senhores Governador Civil de Beja e Inspector Chefe da Região Escolar. Sendo-lhe dada as boas vindas e agradecimento de assistirem ao acto pelo Presidente da Junta. Falaram diversos oradores, entre os quais, um brilhante discurso do Exmo. Sr. Governador Civil, foi ouvido com grande prazer, terminando por o senhor Inspector Chefe, em nome do senhor Ministro da Instrução, declarou inauguradas as escolas.

«Terminado este acto, seguiu-se a inauguração do marco fontanário e chafariz, sendo convidados para cortar as fitas que envolviam as torneiras, pelo presidente da Junta, o Exmo. Sr. Governador Civil do Distrito, o Presidente da Comissão Administrativa da Câmara, e dando este senhor o seu lugar ao Exmo. Sr. Governador Civil de Beja. No final destas cerimónias, numa das salas da escola, realizou-se uma festa íntima com o Porto de Honra que correu com um grande brilhantismo, pelo que a Comissão Administrativa da Junta de Freguesia se orgulha em ser bem sucedidas todas as suas iniciativas. Abrilhantou estas festas sem a menor remuneração a magnífica Banda de Alcobaça, acedendo assim a um convite feito pela Exma. Câmara Municipal. Foram recebidos neste dia pelo Presidente da Junta diversas cartas e telegramas de filhos e amigos desta terra, felicitando a Junta por esta forma visto o não poderem fazer pessoalmente; de entre estas destaca-se o telegrama do Exmo. Sr. Capitão Matias, ilustre filho desta terra, que diz o seguinte: “Agradeço convite assistir hoje inauguração melhoramentos locais. Não podendo comparecer, felicito por este meio Comissão e povo nossa freguesia pelo bom êxito, trabalhos realizados honram Comissão vossa presidência”. Foi presente o ofício n.º 368 do senhor Presidente da Câmara com data de 10 do corrente em que nos dá conhecimento de que por meio do ofício do Exmo. Sr. Governador Civil o acabava de encarregar de transmitir á Comissão Administrativa da Junta os melhores agradecimentos pela forma que sua Exa. tinha sido recebido em Alfeizerão em dia 8 do corrente, como o quanto lhe foi grato constatar a acção da Junta de Freguesia, pela qual o Inspector Chefe do Distrito testemunha o devido e público louvor!! (...). E não havendo mais nada a tratar, pelo presidente foi encerrada a sessão, a qual vai ser assinada por ele e vogais presentes.

O Presidente

João Augusto Ferreira

Os Vogais

João da Silva Santos

António de Matos

O secretário

Joaquim da Silva Rodrigues


terça-feira, 17 de outubro de 2023

Lembrar Maria Domingas: o filme "Maria Papoila"

Uma anotação

O bem conhecido filme "Maria Papoila" de Leitão de Barros, teve a sua estreia em Agosto de 1937, contando nos papéis principais com Mirita Casimiro, António Silva e Eduardo Fernandes e retrata a história de uma moça do campo (Mirita Casimiro) que tenta a sua sorte na capital, onde trabalha como criada de servir. Assente numa dicotomia entre a vida no campo e na cidade, urde um discreto panegírico sobre as realizações e valores do regime - a arquitetura do Estado Novo, os transportes modernos, a vida militar - mas o talento de Leitão de Barros faz deste filme uma história bem contada onde os personagens e as situações se encadeiam de uma forma fluida e ardilosa onde mesmo os símbolos não são menosprezados: o relógio-despertador surripiado por Mr. Scott (António Silva) é depositado nas mãos de Maria Papoila, lembrando-a que tem de regressar a casa dos patrões antes que eles dêem pela sua ausência.

Neste filme regista-se o primeiro papel de Maria Domingas no cinema, como figurante, três anos antes do seu "salto" para o papel principal de "João Ratão", de Jorge Brum do Canto, ao lado de Óscar de Lemos. Recorde-se que Maria Domingas, nascida em 1921, tem apenas 16 anos quando entra em "Maria Papoila" e  se a idade poderia surpreender, o mesmo sucede ao constatar nesta sua modesta participação o mesmo talento, fotogenia e graça que eram um atributo muito seu, desdobrado nas suas prestações no cinema e nos palcos ao longo da sua carreira artística.

O filme estrutura-se em duas partes distintas, com uma primeira onde se narra a fuga para a cidade de Maria Papoila e da sua vida como criada de servir e uma subsequente que tem o seu eixo na vida austera dos militares em contraponto com a vida elegante das classes mais abonadas, com as suas festas e diversões, onde se arquiteta a situação que levará à prisão por roubo do apaixonado de Maria Papoila, Eduardo da Silveira (Eduardo Fernandes) e ao desenlace final do filme.

Maria Domingas surge apenas na primeira parte da acção, ela é a menina Rosa, criada de servir no mesmo prédio onde trabalha a Maria Papoila, e esta primeira parte do filme apoia-se muito na dinâmica das duas sopeiras e da cozinheira (Virgínia Soler), com a saída noturna para o arraial de Santo António, o namoro com os magalas ou o passeio pelo parque. 

Ainda que encarne uma personagem secundária e acessória, este primeiro papel de Maria Domingas no grande ecrã não pode ser negligenciado quando rememoramos a sua carreira como atriz.


Imagens do filme (ou relativas a ele)

A lista de atores do filme (fonte: Cinept - Cinema português)






Maria Domingas, entre Mirita Casimiro e Virgínia Soler







quinta-feira, 17 de agosto de 2023

De ontem para hoje: o assassinato de Sidónio Pais em 1918

 


Acta da sessão Extraordinária

Aos dezoito dias do mez de Dezembro de mil e nove centos e dezoito, pelas doze oras e doze reuniu a Comissão Administrativa Paroquial desta freguezia, pelo presidente foi aberta a sessão. Foi lida e aprovada a acta da sessão anterior____Pelo presidente foi dito que pelas noticias oficiaes e relato dos jornaes só sabião ter sido morto por um atentado ignobil e vergonhoso o nosso Chefe de Estado, o Ilustre Prezidente da Republica Portugueza, Exmo. Senhor Doutor Sidonio Paes, no dia quatorze do corrente, pelas vinte e tres e meia oras, quando entrava na gare da estação do Rocio para seguir para o Porto, aonde era esperado com grandes festas em sua honra!. Como Portuguez e seu admirador, não podia deixar de lastimar tal infamia, que nos roubou o Chefe de Estado prestigioso e com isso a esperança do Ressurgimento da Patria, e pelas suas qualidades naturaes e intelectuaes a protestar contra tal brutal atentado, improprio de povos civilisados. Todos os vogaes se manifestaram pela mesma forma e lançaram um voto de profundo sentimento, incerrando o presidente a sessão em signal de profundo sentimento de que estavam possuidos. Mandou o presidente, // para que conste, lavrar esta acta que vai ser assinada pela Comissão Paroquial de Alfeizerão.

O Presidente – João Augusto Ferreira

O Tezoureiro – José Salvador

O Secretario – José Hilario Junior

 

(“Livro das Actas da Junta de Paróquia civil d’Alfeizerão, N.º 10”, 1915-1926, f. 10v-11r

- obra disponível para consulta no depósito documental do “Baú das Memórias” de Alfeizerão)


Bilhete postal de 1919 que ilustra o atentado


quinta-feira, 10 de agosto de 2023

Domingas Maria

 


A presença dos soldados napoleónicos na região de Alcobaça no último mês de 1810 e ao longo do primeiro trimestre de 1811 traduziu-se por uma verdadeira mortandade originada pela fome, pela doença e por mortes causadas diretamente pelo invasor. O facto de muitos párocos terem procurado abrigo em Lisboa e em outros redutos protegidos, como lhes fora superiormente ordenado, obsta a que tenhamos um conhecimento rigoroso dessa tragédia, ressalvando-se parcialmente para tal os minuciosos registos paroquiais de óbito das freguesias de Alfeizerão e, sobretudo, de Pataias.

Nas outras paróquias da região, há casos em que os registos paroquiais sofrem um interregno ao tempo da presença do invasor ou são lavrados na ocasião ou posteriormente e em retrospetiva, com alguns assentos pontuais a assinalar as tragédias desse período. Como exemplo, transcrevemos o único assento paroquial explícito na freguesia de São Sebastião do Vimeiro:

 

<Gaio, Domingas Maria>

Aos doze dias do Mez de Março de mil e oito centos e onze se deu a sepultura a Domingas Maria, Solteira, do Gaio, dentro do Alpendre desta Igreja de S. Sebastião do Vimeiro, foi morta pellos Francezes; sem Sacramentos. E para constar fiz este Assento. Mez, e Era ut supra.

O Vigário Francisco da Silva Rebello

 

(ADLRA, IV/26/C/58 – Registos de óbito da freguesia do Vimeiro: 1760-1860, f. 125r)