quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Dia de Santo Amaro de 2026 - 319 anos depois do início da sua feira/festa anual

 


FEIRA E FESTA DE SANTO AMARO

 

Padre Luís Cardoso (c. 1747):

«Está no arrabalde da Vila a Ermida de Santo Amaro, com a Imagem do mesmo Santo, que tem feito muitos milagres, e no seu dia tem bastante concurso de devotos; estão no mesmo Altar as Imagens de S. Brás, e Santa Catarina.

«(…) Tem feira em dia de Santo Amaro, para o que se alcançou Provisão no ano de mil setecentos e sete, com a mercê de ser o terrado para aumento, e obras da Casa do Santo, de cuja Provisão pediu vista o Donatário, e cobra-se o terrado para o Mosteiro; dura três dias e não é franca».

CARDOSO, Pe. Luís - Diccionario geografico, ou noticia historica de todas as cidades, villas, lugares, e aldeas, rios, r... / que escreve, e offerece ao muito alto... Rey D. João V nosso senhor o P. Luiz Cardoso, da Congregaçaõ do Oratorio de Lisboa... - Lisboa : na Regia Officina Sylviana, e da Academia Real, 1747 – Tomo I, p. 278

 

O pároco, vigário Doutor Manuel Romão, em 1758:

«Tem a Ermida de Santo Amaro, que está próxima á Vila tão antiga como a mesma (…) Em o dia do Santo quinze de Janeiro é visitada de muita gente das terras vizinhas e também das remotas, que públicos milagres, e prodígios que Deus lhe tem feito por intercessão do Santo, com agradecimento lhe trazem braços, mãos, pés, dedos de cera que penduram nas paredes da casa do Santo, e suposto muitos milagres moralmente sejam certos, não me consta seja algum autêntico, nos mais dias do ano poucas vezes vem á dita Igreja gente de Romaria».

(Memórias paroquiais, vol. 2, nº 53, p. 470)

Anotação: O padre Manuel Romão era  prior de Alfeizerão desde 7 de junho de 1734, data em que tomou posse da paróquia, e responderá em 1758 ao inquérito alargado a todas as paróquias do reino realizado na sequência do sismo de 1755. O seu juízo sobre os milagres do Santo, de serem moralmente certos, mas não – indubitavelmente - autênticos, traduz a sua formação académica. Cursou na Faculdade de Teologia da Universidade de Coimbra de 1716 a 1727, alcançando o grau de Doutor a 12 de Outubro de 1727 (Código referência PT/AUC/ELU/UC-AUC/B/001-001/R/004604). A sua assinatura nos assentos paroquiais indica-nos isso e, em alguns casos, a origem albicastrense da sua família: Prior e Vigário Doutor Manuel Romão <de Castelo Branco>. 

 

A CASA DO SANTO

«Arquitetura religiosa, quinhentista. Capela de nave única e que possui galilé, opção muito utilizada nas ermidas dos séculos 16 e 17. Planta retangular, de volumes articulados em justaposição e por adossamento, dispostos com horizontalidade. Apresenta coberturas diferenciadas em telhados de duas e três águas, com beiral. A fachada principal orientada a O. ostenta galilé com quatro colunas, empena triangular, sobrepujada por cruz latina e sineira; apresenta portal recto, de ombreiras e lintel pétreo, e porta no anexo lateral direito».

(Sónia Vazão, 2004, verbete “Capela de Santo Amaro” no SIPA – Sistema de Informação para o Património Arquitetónico, IPA.00023310)

 

A imagem do santo, de pedra policromada e de pequenas dimensões, poderia datar do século XVI, segundo a apreciação de Gustavo de Matos Sequeira.

Inventário Artístico de Portugal, Distrito de Leiria», volume V, Lisboa, Academia Nacional de Belas-Artes, 1955).



[1] Provisão: acto de prover, carta pela qual se confere alguma mercê (SILVA, António de Morais, Dicionário da Língua Portuguesa, Tomo 2, p. 522, Lisboa, Tipografia Lacerdina, 1813)

domingo, 5 de janeiro de 2025

Carta de Vitorino Froes ao presidente do governo sobre a festa de Santo Amaro (1917)


Em 1917, num período histórico marcado pela questão religiosa e pela atmosfera de positivismo e anticlericalismo que se respirava na Primeira República, Vitorino Froes dirige um telegrama e uma carta a António José de Almeida, que preside ao governo do 13.º governo republicano, a fim de conseguir autorização para que se pudesse realizar a procissão do Santo Amaro. António José de Almeida seria eleito Presidente da República dois anos mais tarde.

Transcrição da: “Carta de Vitorino Froes para o Presidente do Ministério e Ministro das Colónias, António José de Almeida, solicitando autorização para a organização de festa popular” (Museu da Presidência da República, APAJA/Cx192/056)

 

 

[Resp. em 15-1-17]

 

Ex.mo Il.mo Snr.

e Meu amigo –

 

Tomei hontem a liberdade de telegrafar e V. E.Cia a pedir o especial favor de solicitar do Exmo Ministro do Interior a autorização para sahir a procissão que todos os annos se costuma fazer na minha terra, no dia 15 do corrente, dia da tradicional festa que todos os filhos d’esta freguesia d’Alfeizerão festejam com alegria.

O regedor ultimamente nomeado é um dramático pedreiro, que parece [?] impossível que huma terra que tem quatro mil habitantes esteja debaixo dos caprichos d’um figurão d’esta natureza, o unico que se julga ofendido com este acto religioso que há seculos se faz com toda a pompa e que a ninguém prejudica.

 

                                            De V. E.cia com toda a consideração e muita estima

                                            Alfeizirão, 13-1-17

 

                                            Victorino Froes

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Apontamentos vários sobre a génese da (hoje antiga) Escola Primária de Alfeizerão


A Educação exige os maiores cuidados, porque influi sobre toda a vida”.

(Séneca)


REGISTADO EM ACTA UM OFÍCIO À C. M. A. SOBRE O PROPÓSITO DE CONSTRUIR UMA ESCOLA NA SEDE DA FREGUESIA

«Foi resolvido enviar à Câmara o seguinte ofício. Uma das maiores aspirações da Junta desta freguesia é a realização da construção da Escola para exercícios escolares, visto que aquelas que aqui existem não terem condições pedagógicas, a não ser para o atrofiamento das criancinhas. Conta esta junta para a sua realização, com a venda de baldios paroquiais, de uso comum dos povos, para o que o Código Administrativo lhes dá essa atribuição e ainda com o auxílio e boa vontade da Exma. Câmara Municipal».

(Livro de Actas n.º 11, fólio 3v, Acta da sessão ordinária de 8 de Março de 1926, Arquivo da J. F. A., Alfeizerão)

 

ASSINALADA A POSSIBILIDADE DE ENCERRAMENTO DA ESCOLA OFICIAL EM ALFEIZERÃO, POR FUNCIONAR EM CASA ARRENDADA E ESTAR PREVISTO UM AUMENTO DA SUA RENDA

«Foi presente um ofício n.º 148 de vinte de Março [1926] dirigido ao presidente da Junta desta Freguesia em que lhe comunicava e lhe pedia o favor de transmitir aos mais vogais desta Junta de Freguesia, que a comissão executiva desta freguesia acaba de ser notificada pelo cidadão J. A. F., por intermédio do advogado, Exmo. Senhor Doutor Mário de Pina Cabral, no sentido de passar a ser feito, na importância de 25$91 centavos mensais o pagamento da renda da casa da escola oficial desta localidade, pela qual actualmente é paga a importância de 6$25 centavos, também mensalmente, diz ainda mais, não desejando a Câmara executiva da sua presidência ficar com o mínimo sequer de responsabilidade quanto ao facto bem possível de dar-se num futuro próximo, de Alfeizerão ficar sem a sua escola oficial, por motivo de falta de casa».

(Livro de Actas n.º 11, fólio 4r, Acta da sessão ordinária de 9 de Março de 1926, Arquivo da J. F. A., Alfeizerão)

 

MENÇÃO DE UM SUBSÍDIO INICIAL DA CÂMARA PARA A CONSTRUÇÃO DA ESCOLA PRIMÁRIA

«Foi presente o ofício n.º 654 de 26 de Outubro da Comissão Administrativa da Câmara deste Concelho, em resposta ao nosso ofício n.º 25 de 24 de Outubro, informando-nos que a Comissão Administrativa da Câmara resolveu, em sessão de vinte e cinco, incluir a verba de seis mil escudos ao pedido de subsídios que vão dirigir ao Exmo. Ministro da Instrução, para o efeito de auxiliar a construção de um edifício escolar na sede desta freguesia».

(Livro de Actas n.º 11, fólio 10v, Acta da sessão ordinária de 10 de Novembro de 1926, Arquivo da J. F. A., Alfeizerão)

 

INICIATIVA DA JUNTA DE SOLICITAR UMA AJUDA PARA A OBRA A TODOS OS FILHOS E AMIGOS DE ALFEIZERÃO

«Também resolveu esta Comissão escrever uma Carta a todos os filhos e amigos de Alfeizerão, mesmo que estejam residindo nas nossas possessões ultramarinas e no estrangeiro, pedindo-lhes o seu auxílio a favor da nossa terra para a construção de uma casa de escola de que tanta necessidade temos para a educação de tantas crianças de idade escolar; destas cartas se fará uma cópia de que se mandarão imprimir 500 exemplares para serem distribuídos».

(Livro de Actas n.º 11, fólio 12v, Acta da sessão ordinária de 8 de Dezembro de 1926, Arquivo da J. F. A., Alfeizerão)

 

MINUTA DA CARTA AO ARQUITECTO CHEFE DAS CONSTRUÇÕES ESCOLARES, A PEDIR UMA PLANTA PARA A FUTURA ESCOLA

«Ex.mo Senhor Arquitecto Chefe da Repartição das Construções Escolares – Ministério da Instrução

Lisboa


«Tendo a Comissão Administrativa da Junta de Freguesia a que tenho a honra de presidir, deliberado dar começo a um edifício escolar na sede desta freguesia, venho solicitar a V. Ex. a cedência de uma planta para dois lugares de professor, o exemplo mais simples oficialmente aprovado, comprometendo-me a devolvê-la logo que não seja precisa ou no prazo que seja por V. Ex.cia designado.

Saúde e Fraternidade

O Presidente da Comissão Administrativa

Alfeizerão, 9 de Maio de 1927

[Arquivo da J. F. A., Caixa 2]

 

APRECIAÇÃO FAVORÁVEL PELA JUNTA DO PROJECTO E MEMÓRIA DESCRITIVA CEDIDOS PELA REPARTIÇÃO DAS CONSTRUÇÕES ESCOLARES

«Foi pelo presidente apresentada em sessão a planta, projecto oficial, memória descritiva e detalhes para a construção de uma escola para dois lugares de professores, na sede desta freguesia, que em sessão de vinte e sete de Abril último foi resolvido pedir ao Exmo. Senhor Arquitecto Chefe das Construções Escolares. Foi resolvido agradecer a Sua Excelência o envio da mesma planta, projecto, etc. Apreciada devidamente por esta Comissão Administrativa a planta/projecto oficial/memória descritiva e seus detalhes, foi aprovada por unanimidade, por representar a obra que ambicionamos, modéstia e elegância (sic)».

(Livro de Actas n.º 11, fólio 18v, Acta da sessão ordinária de 25 de Maio de 1927, Arquivo da J. F. A., Alfeizerão)

Comissão Administrativa da

Junta de Freguesia de Alfeizerão

 

 

 

 

Condições para as empreitadas da

Escola Primária de Alfeizerão

 

1.º O empreiteiro ou empreiteiros tomam a responsabilidade de cumprir integralmente a planta, memória descritiva e condições gerais expostas no orçamento e caderno de encargos assinado pelo construtor civil, Sr. Alberto Rodrigues Aurélio, do que se lavrará um auto assinado pela Junta, empreiteiro e duas testemunhas abonatórias.

2.º As arrematações são em três lotes abaixo designados.

3.º Secção de Carpinteiros.

         Soalhar, dividir em tabiques as divisões existentes no projecto, fasquiando de um e outro lado; e ainda aumentar um tabique devidamente fasquiado a fazer a divisão do gabinete indicado no projecto, pois que, sendo a escola para dois lugares de professor, dois têem de ser os gabinetes.

         Enfim, respeitar todas as condições gerais dos trabalhos e orçamento.

4.º Secção de Pedreiros

         Acabamentos em limpos do Edifício Escolar, alpendre, aperfeiçoamento dos vãos, colunas e enfeites em cimento armado, e construção do telheiro do recreio. Respeitar todas as condições dos trabalhos e orçamento.

5.º Secção de Pinturas

         Estuques, pinturas, vidros e sua colocação em conformidade com a memória descritiva e orçamento.

6.º Empreitadas

         No caso que apareçam duas ou mais propostas iguais, haverá licitação pública após a abertura das propostas.

7.º Reserva-se a esta Comissão Administrativa a faculdade de não aceitar as propostas, no caso que convenham aos seus interesses

8.º Pagamentos

         Os pagamentos das empreitadas são divididos em três prestações assim designadas.

                   1.ª A quarta parte da importância quando as obras estiverem a meio (metade).

                   2.ª Prestação igual quando as obras estiverem em três quartas partes.

                   3.ª (Última) Quando as obras das respectivas empreitadas estiverem concluídas e após a vistoria feita por técnicos ou técnico.

9.º Reserva-se o direito a esta Comissão Administrativa, quando o julgar conveniente, mandar examinar os serviços por técnico competente.

10.º Prazos para conclusão de empreitadas.

         Secção de Pedreiros e Carpinteiros. As suas empreitadas devem ficar concluídas em 31 de Maio de 1930, o máximo, podendo começar desde a confirmação da sua adjudicação. Secção de Estuques e Pinturas, até 30 de Junho de 1930.

         Terminados os prazos acima indicados e as obras não estejam concluídas, perdem os respectivos empreiteiros ou empreiteiro da secção em falta, a quantia [üde dez escudos (10$00) diários a favor do cofre da Junta até á conclusão das respectivas obras].

Sala das Sessões da Junta de Freguesia

Alfeizerão, 31 de Outubro de 1929

O Presidente

João Augusto Ferreira

Os Vogais

António de Matos

João da Silva Santos

 

[Arquivo da J. F. A., Caixa 2]

 

 

Nota: As empreitadas foram atribuídas da seguinte forma na sessão extraordinária da Junta de 1 de Dezembro de 1929:

- Secção de pedreiros a António Prudêncio Luís.

- Secção de estuques e pinturas ao mesmo António Prudêncio Luís.

- Secção de carpinteiros, a Joaquim dos Santos Bernardes e Joaquim Duarte Grilo.

(Livro de Actas n.º 11, f. 51r, Arquivo da J. F. A , Alfeizerão)

 

 

CÓPIA DE UMA CARTA DIRIGIDA AO DIRECTOR GERAL DE INSTRUÇÃO PÚBLICA SOBRE UM SUBSÍDIO PARA A CONCLUSÃO DA OBRA

S . R. [Serviço da República]

Ilustr. e Exmo. Sr.

Director Geral de Instrução Publica

                                               Lisboa

Exmo. Sr.

         No ofício de V. Ex.ca de 5 de Julho de 1928 dirigido a esta C. A. [Comissão Administrativa] da Junta de Freguesia, em resposta ao pedido de um subsídio para a conclusão da nossa escola primária em construção, começada com o produto de uma subscrição pública e com o auxílio da Câmara Municipal d’Alcobaça e notadas as disponibilidades desta Junta para esse fim, dizia-me o seguinte:

“Sob proposta da Repartição das Construções Escolares, que obteve despacho favorável, vai a pedido dessa Junta ser registado [o] seu respectivo mapa para ser atendido logo que haja qualquer distribuição de subsídios para construções escolares”.

Temos conhecimento de que tem sido distribuído ultimamente alguns subsídios para o referido fim e [temos] ansiosos tempos esperado a realização do nosso prometimento.

Como não pode haver pedido mais justo que o nosso, visto termos apurado no último recenseamento escolar 435 crianças com idade escolar nesta freguesia e as escolas que existem, nem este nome se lhe pode dar, pois o merecem [o nome] de pardieiros, não comportam mais da quarta parte das criancinhas.

         Venho novamente solicitar de V.a Ex.ca o grande favor de nos ser concedido o subsídio para a sua conclusão, pelo que pratica um alto benefício a favor das criancinhas, e para o que o nosso reconhecimento não tem limites.

Desejando a V.a Ex.ca

Saúde e Fraternidade

O Presidente da C. A. da Junta de Freguesia

João Augusto Ferreira

Alfeizerão, 28 de Março de 1929

[Arquivo da J. F. A., Caixa 2]

ACTA DA JUNTA DE FREGUESIA QUE FIXA O HISTÓRICO MOMENTO:

 

«Aos onze dias do mês de Maio do ano de mil, novecentos e trinta e dois, pelas catorze horas, reuniu-se em sua sessão ordinária a Comissão Administrativa da Junta de Freguesia de Alfeizerão, concelho de Alcobaça. Em conformidade com o que foi resolvido entre a Comissão Administrativa da Câmara Municipal e a Comissão Administrativa da Junta de Freguesia, no dia oito de Abril, como consta da acta de 10 do referido mês, realizou-se no dia 8 de Maio a inauguração solene do chafariz e marco fontanário para abastecimento de águas, digo, águas potáveis, na sede da freguesia, e ainda do edifício Escolar. A inauguração destes importantes melhoramentos que tantos benefícios traz á freguesia, correram com o melhor brilhantismo e entusiasmo, não só manifestado pela Comissão Administrativa da Junta de Freguesia, que viu neste dia a realização da sua iniciativa, como por todas as pessoas que nos honraram com a sua vinda aqui para este fim!

«Neste número fez parte o Exmo. Sr. Governador Civil de Leiria e de Beja, o Inspector Chefe da Região Escolar, o Presidente da Junta Geral do Distrito, representantes da Câmara de Leiria, administradores dos concelhos de Leiria e Marinha Grande, representantes da liga do 28 de Maio de Leiria, o Delegado Marítimo, Comissão de Iniciativa, Junta de Freguesia, Comando dos Bombeiros, etc., etc., de São Martinho do Porto, Comissão de Iniciativa de Alcobaça, o Exmo. Sr. Engenheiro Alves Costa, professores oficiais, etc., etc., assim como a Exma. Câmara Municipal do nosso concelho composta de todos os seus membros, que bem manifestaram o carinho e atenção que dispensaram a estes melhoramentos, e por isso a satisfação íntima da sua inauguração!

«Além das pessoas citadas, muitas pessoas em representação social de São Martinho, Alcobaça, Nazaré, Caldas da Rainha, Marinha Grande e Lisboa, nos honraram com a sua vinda aqui para este fim. Também todas as pessoas de maior representação social desta freguesia, assim como os povos da sede da freguesia e lugares, compareceram em grande número para abrilhantar a festa da inauguração, uma das mais importantes que aqui se tem realizado. Também o dilecto filho desta freguesia, Capitão-aviador Sérgio da Silva, veio no seu avião fazer diversas evoluções sobre esta terra, associando-se assim aos mesmos festejos e na retirada deixou cair uma carta de saudações e felicitações para a Junta de Freguesia e Câmara Municipal! Para a inauguração da Escola constituiu-se uma sessão solene a que presidiu o Exmo. Sr. Governador Civil do Distrito, secretariado pelos senhores Governador Civil de Beja e Inspector Chefe da Região Escolar. Sendo-lhe dada as boas vindas e agradecimento de assistirem ao acto pelo Presidente da Junta. Falaram diversos oradores, entre os quais, um brilhante discurso do Exmo. Sr. Governador Civil, foi ouvido com grande prazer, terminando por o senhor Inspector Chefe, em nome do senhor Ministro da Instrução, declarou inauguradas as escolas.

«Terminado este acto, seguiu-se a inauguração do marco fontanário e chafariz, sendo convidados para cortar as fitas que envolviam as torneiras, pelo presidente da Junta, o Exmo. Sr. Governador Civil do Distrito, o Presidente da Comissão Administrativa da Câmara, e dando este senhor o seu lugar ao Exmo. Sr. Governador Civil de Beja. No final destas cerimónias, numa das salas da escola, realizou-se uma festa íntima com o Porto de Honra que correu com um grande brilhantismo, pelo que a Comissão Administrativa da Junta de Freguesia se orgulha em ser bem sucedidas todas as suas iniciativas. Abrilhantou estas festas sem a menor remuneração a magnífica Banda de Alcobaça, acedendo assim a um convite feito pela Exma. Câmara Municipal. Foram recebidos neste dia pelo Presidente da Junta diversas cartas e telegramas de filhos e amigos desta terra, felicitando a Junta por esta forma visto o não poderem fazer pessoalmente; de entre estas destaca-se o telegrama do Exmo. Sr. Capitão Matias, ilustre filho desta terra, que diz o seguinte: “Agradeço convite assistir hoje inauguração melhoramentos locais. Não podendo comparecer, felicito por este meio Comissão e povo nossa freguesia pelo bom êxito, trabalhos realizados honram Comissão vossa presidência”. Foi presente o ofício n.º 368 do senhor Presidente da Câmara com data de 10 do corrente em que nos dá conhecimento de que por meio do ofício do Exmo. Sr. Governador Civil o acabava de encarregar de transmitir á Comissão Administrativa da Junta os melhores agradecimentos pela forma que sua Exa. tinha sido recebido em Alfeizerão em dia 8 do corrente, como o quanto lhe foi grato constatar a acção da Junta de Freguesia, pela qual o Inspector Chefe do Distrito testemunha o devido e público louvor!! (...). E não havendo mais nada a tratar, pelo presidente foi encerrada a sessão, a qual vai ser assinada por ele e vogais presentes.

O Presidente

João Augusto Ferreira

Os Vogais

João da Silva Santos

António de Matos

O secretário

Joaquim da Silva Rodrigues


quinta-feira, 17 de agosto de 2023

De ontem para hoje: o assassinato de Sidónio Pais em 1918

 


Acta da sessão Extraordinária

Aos dezoito dias do mez de Dezembro de mil e nove centos e dezoito, pelas doze oras e doze reuniu a Comissão Administrativa Paroquial desta freguezia, pelo presidente foi aberta a sessão. Foi lida e aprovada a acta da sessão anterior____Pelo presidente foi dito que pelas noticias oficiaes e relato dos jornaes só sabião ter sido morto por um atentado ignobil e vergonhoso o nosso Chefe de Estado, o Ilustre Prezidente da Republica Portugueza, Exmo. Senhor Doutor Sidonio Paes, no dia quatorze do corrente, pelas vinte e tres e meia oras, quando entrava na gare da estação do Rocio para seguir para o Porto, aonde era esperado com grandes festas em sua honra!. Como Portuguez e seu admirador, não podia deixar de lastimar tal infamia, que nos roubou o Chefe de Estado prestigioso e com isso a esperança do Ressurgimento da Patria, e pelas suas qualidades naturaes e intelectuaes a protestar contra tal brutal atentado, improprio de povos civilisados. Todos os vogaes se manifestaram pela mesma forma e lançaram um voto de profundo sentimento, incerrando o presidente a sessão em signal de profundo sentimento de que estavam possuidos. Mandou o presidente, // para que conste, lavrar esta acta que vai ser assinada pela Comissão Paroquial de Alfeizerão.

O Presidente – João Augusto Ferreira

O Tezoureiro – José Salvador

O Secretario – José Hilario Junior

 

(“Livro das Actas da Junta de Paróquia civil d’Alfeizerão, N.º 10”, 1915-1926, f. 10v-11r

- obra disponível para consulta no depósito documental do “Baú das Memórias” de Alfeizerão)


Bilhete postal de 1919 que ilustra o atentado


segunda-feira, 10 de julho de 2023

O diplomata Adelino António Ferreira

       Adelino António Ferreira, proprietário da Quinta dos Casais em Alfeizerão e empresário de visão, foi um diplomata ao serviço de Portugal, de cuja carreira encontramos algumas referências esparsas em publicações, como o seu trabalho como embaixador de Portugal na Tailândia, ou a sua viagem a Brighton, na costa sul de Inglaterra, no âmbito de uma representação diplomática do Estado português.

       A nossa nota de hoje é sobre mais uma menção ao trabalho do diplomata, desta feita como Cônsul de Portugal em Belém do Pará, no Brasil, no ano de 1907.

 


(Fonte: "Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro e Indicador para 1907”, p. 468, 1907, Companhia Typographica do Brazil, Rio de Janeiro)

domingo, 26 de fevereiro de 2023

Um caminho andado por inteiro: o correio em Alfeizerão em 1927

 


A cópia de uma carta endereçada pelo presidente da Junta ao Diretor dos Correios e Telégrafos de Leiria no ano de 1927 e por nós consultada no arquivo da Junta, recorda-nos como o correio chegava a Alfeizerão nessa época. A correspondência chegava de comboio a S. Martinho e na estação postal dessa localidade era levantada a mala postal para Alfeizerão que era trazida a pé por um estafeta para este lugar para aqui ser distribuído, fazendo-se o percurso inverso duas horas depois, 40 minutos era o tempo regular indicado na carta para esse percurso entre as duas localidades. 

Reproduzimos o teor curioso dessa carta, na transcrição, atualizamos a grafia e desenvolvemos as abreviaturas, perfeitamente naturais por se tratar da cópia manuscrita de uma carta expedida pela autarquia:

 

Ao Exmo. Sr. Diretor dos C. T. do Distrito de Leiria

A Comissão Administrativa da Junta de Freguesia de Alfeizerão, na qualidade de representante e defensora dos interesses dos seus habitantes, confiada no alto critério e espírito justiceiro de V. Exa., sabendo ainda mais quanto se interessa pela comodidade dos povos do nosso Distrito, proporcionando-lhes sempre todas as facilidades dentro das boas normas de justiça, vem esta Junta solicitar a V. Exa. o alto serviço para que sejam trocadas as malas postais desta freguesia, com a ambulância em vez de ser com a estação postal de S. Martinho do Porto, o que lhes traz bastante prejuízo. Não ignora V. Exa. da importância comercial, agrícola e vinícola de Alfeizerão, tendo já hoje uma troca razoável de correspondência, como o prova a estatística de venda de franquias.

De ordinário, a mala postal chega a Alfeizerão das 14.45 às 15 horas; a saída para S. Martinho é às 17 horas, como V. Exa. tem ocasião de apreciar, há apenas 2 horas de intervalo, ficando por esse motivo prejudicada alguma correspondência de resposta imediata, sucedendo por vezes mandar-se um portador á estação levar correspondência que pela sua urgência tem necessidade de seguir nesse dia. O comboio 201 (correio de Lisboa) chega a S. Martinho ás 12.20: o 206 (correio do Norte) chega ás 20.34; o condutor da mala, andando normalmente, gasta 40 minutos a percorrer a distância entre Alfeizerão e S. Martinho. Portanto, dignando-se V. Exa. atendera esta justa pretensão, podiam os habitantes de Alfeizerão receber a correspondência às 13 horas e enviá-la para o correio ás 19, sendo o intervalo de 6 horas, o que é importante para a facilidade de responder a correspondência urgente. Independentemente das inconveniências apontadas, temos outra não menos importante, que é: a detenção da correspondência em S. Martinho, tanto a vinda como a ida para o Norte. A correspondência para o Norte, que sai na mala às 17 horas, só no dia seguinte segue no 201. A vinda do Norte, que vem no 206, só no dia seguinte vem para Alfeizerão. Disso tem resultado alguns prejuízos e mui especialmente com a correspondência com a sede do concelho. Casos há em que são chamados interessados a Alcobaça, crentes os signatários de que a correspondência é recebida no mesmo dia. Com esta falta tem resultado alguns prejuízos. Uma vez a mala trocada com a ambulância, a correspondência vinda do Norte é distribuída aqui às 21 horas, a exemplo do que já houve, e o destinatário poderá responder no dia seguinte ou ir, em caso de chamamento. A correspondência trocada entre estas duas povoações (Alfeizerão e S. Martinho) poderá ser feita [com] a permuta das malas entre os estafetas respectivos.

Julgamos não haver nisto aumento de despesa na condução das malas, visto que o número de viagens são as mesmas, mas sim, apenas, mudança de horário e, para o empregado postal, apenas um pouco de trabalho em fazer duas malas em vez de uma.

Por esta pequenina exposição poderá V. Exa. apreciar as vantagens para esta freguesia, se esta Comissão Administrativa merecer o apoio de V. Exa. nesta tão justa aspiração.

Esperando que esta nossa pretensão tenha a honra de ser atendida, somos a desejar-lhe.

[Saúde e Fraternidade]

 

A. F. [João Augusto Ferreira]

Alfeizerão, 1-8-1927

 

terça-feira, 14 de junho de 2022

Com a esperança no horizonte - recordando dois episódios antigos de emigração

 Os Livros de Registos de Passaportes (1861-1999), conservados no Arquivo Distrital de Leiria, são uma fonte inestimável de informação para estudos sociológicos e genealógicos, um outro aspeto curioso dos passaportes é a descrição física do requerente com os seus sinais identificadores, recurso que precede o advento das fotografias de perfil. Do primeiro livro que aí encontramos, respeitantes aos anos de 1863 a 1870, transcrevemos dois registos relativos à freguesia de Alfeizerão, mais propriamente, a Vale de Maceira, e a dois irmãos - um deles com 15 anos - que emigram para destinos diferentes, Pará e Buenos Aires. 

A obra em causa é o Livro de Registo de Passaportes N.º 1, ADLRA, -1/III/65/C/9, f. 12v e 34r (Código de Referência PT/ADLRA/AC/GCLRA/H-D/001/0001).


<n.º 10, novembro, 9 [1868]>

«Passaporte a Francisco José Velho, solteiro, filho de Marcelino José Velho, de Maceira (sic), freguesia d’Alfeizerão, Concelho d’Alcobaça d’este Districto, para o Pará, no Império do Brazil. Abonado por Bento Mendez, solteiro, proprietário, do referido logar, como fica constando do respectivo termo lavrado na Administração d’aquele Concelho. Signaes do portador. Idade, 15 anos – altura, 1,54 – rosto comprido – cabelo castanho escuro – sobr’olhos pretos – olhos castanhos – nariz e boca regulares – côr trigueira. Assignado, José Fonseca da Cunha e Souza, Governador Civil».


<n.º 55>

«Termo de fiança que presta João António d’Oliveira d’esta cidade por Maria Marcelina, solteira, d’Alfeizerão, Concelho d’Alcobaça.

«Aos desaseis dias do mez de Julho de mil oito cento e setenta, n’esta Cidade de Leiria e Governo Civil do Districto, compareceu perante o Excellentissimo Governador Civil, Luiz Teixeira de Sampaio, Maria Marcelina, solteira, filha de Marcelino José Velho e de Maria Pereira, já fallecida, do logar de Valle de Maceira, freguezia de Alfeizerão, Concelho d’Alcobaça, a qual declarou que na data de hoje havia requerido ao dito Excellentissimo Governador Civil passaporte para Buenos Ayres, na República Argentina, mostrando por documentos authenticos que ficam junto ao seu requerimento, que nenhum impedimento se offerecia à concessão do passaporte, e que oferecia por seu abonador a João António d’Oliveira, estabelecido com hospedaria n’esta Cidade, o qual estando presente, disse que reconhecia a identidade de pessoa e a afiançava e por ella se responsabilizava nos termos dos regulamentos de policia em vigor. O que sendo ouvido pelo Excellentissimo Governador Civil e testemunhas abaixo mencionadas – José Miguel Pereira Maceirão e Claudino Joaquim Meirel, empregados d’este Governo Civil, e julgando o Excellentissimo Governador Civil idonea a fiança, que por isso aceitou, mandou, para constar e mais effeitos, lavrar este termo, que assigna com o fiador e ditas testemunhas, depois de todo o haver lido eu, Manuel Nicolau d’Abreu Castello Branco, Secretário Geral, o rubrico».

sexta-feira, 11 de março de 2022

Revisitar uma imagem gótica: a Virgem com o Menino (século XIV)

Em palavras:

                Em 1966, no decurso das obras na igreja de Alfeizerão apareceram enterradas duas imagens de calcáreo no solo da igreja, a do Arcanjo S. Miguel  e uma Virgem com o Menino. Avisado pelo padre Borges, aí acorreu o incansável Borges Garcia que as estudou detidamente, divulgando depois a sua análise num trabalho publicado em 1970: "Descoberta e estudo de imagens religiosas em S. Gião, Famalicão da Nazaré e Alfeizerão (Estremadura)" (in "Actas das I Jornadas Arqueológicas", Lisboa, 1969, Vol. II).

                Nesta breve anotação, vamos regressar a essa publicação de Eduíno Borges Garcia, mais particularmente, ao que escreveu sobre a imagem da Virgem com o Menino (op. cit., p. 9-11). Atendendo às caraterísticas da imagem, Borges Garcia atribuiu-a - com toda razão, cremos nós - à escola escultórica de Coimbra, mais propriamente à oficina de Mestre Pêro de Coimbra (século XIV). O que propomos aqui é apenas cotejar esta imagem da Virgem com pormenores de outras imagens atribuídas à mesma escola para enfatizar algumas afinidades.

                Mestre Pêro de Coimbra é uma figura de grande importância na evolução da escultura medieval no nosso país, supõe-se que tenha nascido em Aragão ou na Catalunha, e também de Aragão era a Rainha Santa Isabel que patrocinou o trabalho do escultor e a quem incumbiu de esculpir o seu túmulo, hoje estante no Mosteiro de Santa Clara a Nova. Outra das suas obras marcantes, foi o túmulo com jacente de Dom Gonçalo Pereira, Arcebispo da diocese de Braga, na Sé da mesma cidade; os anjos esculpidos nesse túmulo, cabeceira e pés da imagem do Arcebispo, são como um cânone no imaginário de Mestre Pêro.

                Sobre a imagem da Virgem com o Menino da igreja de Alfeizerão, podemos ensaiar um esquisso de descrição:

                A Virgem de pé e frontal olha em frente e segura no colo, sobre o braço esquerdo o Menino, que fixa atentamente a mãe. A Virgem apresenta um rosto de perfil ovalar de feições suaves e olhos amendoados e a boca com os lábios unidos, o rosto é emoldurado por cabelos cingidos por um véu seguro por uma pequena coroa no alto, enverga uma túnica abotoada e presa no ventre por um cinto de couro com a ponta pendente, a túnica desce sobre as pernas em pregas oblíquas em U aberto, e sobre ela tem um manto comprido lançado sobre os ombros e fechado sobre o peito por um firmal ou alfinete quadrilobado liso, o manto, agrupado sobre o antebraço direito estrutura-se em pregas escalonadas e bem definidas; a mão direita da Virgem segura flores azuis e amarelas com os seus dedos cilindricos e alongados, a mão esquerda, curvada em sentido oposto à que mal-segura as flores, abre ligeiramente os dedos alongados para segurar com firmeza os joelhos do Menino. O Menino, de tronco desnudado, tem a parte inferior do corpo enrolado num pequeno lençol e segura com ambas as mãos a pomba do Espírito Santo, possui os cabelos em linhas sinuosas e o rosto arredondado, as maçãs do rosto cheias, os lábios de comissuras encurvadas para baixo, quase em ricto de choro quando visto de frente, olhos e sobrancelhas descaídos. Estamos perante um conjunto escultórico tenuamente dinãmico com ligeiro torsão do corpo para a esquerda e o pé calçado desse lado a assomar sob as vestes, efeito acentuado pelo drapejamento das roupas e pela suave inclinação da cabeça da Virgem para o lado oposto. A policromia original anda é nítida, sobretudo no manto (azul), na túnica (vermelha) e nos pormenores em preto do cinto e do sapato.

                Sobre a arte da Escola de Mestre Pêro e a Virgem com o Menino encontrada em Alfeizerão, a filiação parece clara, os traços-chave encontram-se lá, outros pormenores mais heterodoxos, como o rosto mais arredondado da Virgem ou o cabelo do Menino por exemplo, podem dever-se à particular execução de um dado escultor ou conjunto de escultores da sua oficina e subscrevemos a conclusão de Borges Garcia: «se este bela imagem não é da autoria de Mestre Pêro, será indubitavelmente da sua Escola».

 

Em imagens:

- A Virgem com o Menino, de Alfeizerão



- As flores  na mão direita: em Alfeizerão (em cima) e, em baixo, duas imagens da Virgem com o Menino: da Igreja Matriz de Oliveira do Hospital e do Museu Machado de Castro em Coimbra




- A cabeça do Menino nesta imagem e a cabeça de dois dos anjos do túmulo de Dom Gonçalo Pereira na Sé de Braga




- A pomba do Espírito Santo nas mãos do Menino: a segunda imagem é de uma Virgem com o Menino do Museu Nacional de Arte Antiga.


- O firmal quadrilobado que prende o manto: a primeira imagem inferior é da mesma imagem do Museu Nacional de Arte Antiga e a segunda é uma imagem da Anunciação que se atribui a Mestre Pêro e que se encontra na Catedral de Santiago de Compostela



quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Sem (mais) palavras

 


<António Madeira>

Matou Bernardo Joam á sua porta a Antonio Madeira [entrelinhado: "conforme o que disem"] em 24 dias do mes de Novembro de 619 ás nove horas da noute, pouco mais ou menos, esteve vivo sem falar nem subir ao pée nem nada [sic] desasete horas pouco mais ou menos, porque faleceo aos 25, duas horas depois do meio dia, foi somente ungido e sem a confisão porque não falou mais, nem deu sinal algum todo este tempo de homem vivo, foi enterrado na igreja em os 26 do dito mes, depois que as justiças de Alfeiserão e o ouvidor o mandarão enterrar e por verdade, hoje, 26 de Novembro de 1619.

[O padre-cura] Henrique Baptista

 

[ADLRA, IV/36/C/30, Registos de batismo, casamento e óbito da freguesia de Famalicão: 1615-1621, sem n.º de fólio. Código de referência PT/ADLRA/PRQ/PNZR01/003/0001]


domingo, 13 de fevereiro de 2022

O foral manuelino da Cela Nova (01/10/1515) e o trabalho nas obras dos castelos e muros


Os Coutos de Alcobaça possuíam duas fortalezas de primeira ordem, os castelos de Alcobaça e Alfeizerão e manter essas fortalezas reparadas e prontas para o conflito era uma responsabilidade do Abade e Mosteiro de Alcobaça que para tal, contava com o trabalho prestado pelos moradores dos Coutos através da obrigação da adua ou anáduva. A contestação a essa obrigação estará na origem da sua fixação, a título de exemplo, na letra do foral novo de D. Manuel I à Cela Nova, cujo teor se declara extensivo aos restantes concelhos dos Coutos.

Desse documento, conservado na Câmara Municipal de Alcobaça, apresentamos aqui o trecho sobre as "Obras dos Muros" (fl. 14r-14v). Na transcrição operamos algumas ligeiras adaptações ao texto, nomeadamente o desenvolvimento das abreviaturas, a separação de palavras indevidamente unidas e a conversão na grafia do u com o valor de v.

 

[Fl. 14r] Outrossy foy ora movida demãda pollos ditos comçelhos comtra o dito dom abade y seu moesteiro por serem comstrangidos y apremados por sua parte pera servjrem nas obras y muros do dito moesteiro sobre a qual cousa foram per nos vistas as scripturas do moesteiro per que se prova y achamos seer dado o dito poder ao dito moesteiro per ElRey dom fernamdo por sua carta patente. E per bem della foy sempre em posse da dita servjntia o dito moesteiro. A qual nos decraramos per este nosso foral aversse de fazer desta maneira j que os vezinhos y moradores dos ditos coutos servam per mandado do abade do dito moesteiro ou de seus ofiçiaães daqui adiante nas obras y muros // [fl. 14v] das ditas suas fortellezas como atee qui fizeram. E isto soomente sera quando nos ouvermos por nosso servjço y bem de nossos regnos de se fazerem ou refazerem os ditos castellos y muros y obras delles as quaaes nos curtam [sic] per nosso espeçial mandado ao dito abade mandarmos fazer y doutra maneira nam servjram os moradores dos ditos comçelhos nas ditas obras sem embargo da dita carta. Item da posse em que disso o dito moesteiro estava. Salvo quando nos os ditos castellos mandarmos correger como dito he.


sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Na sombra dos dias: sete pequenas narrativas

 


        A leitura dos assentos paroquiais de diferentes freguesias, seja com o intuito de pesquisa histórica ou genealógica ou por mera curiosidade, acaba sempre por cruzar registos que relevam pelo seu conteúdo invulgar ou pelas informações inéditas que nos fazem chegar. Neste parco rascunho transcrevemos seis assentos paroquiais de S. Martinho do Porto em que a fatalidade e a tragédia, ontem como hoje, denotam a pérfida capacidade de supreender qualquer existência, por mais amena ou desassombrada que ela pudesse ou possa ser. Esses textos suscitam por vezes interrogações, veladas pelo tempo e pelo olvido, de forma análoga à dos episódios e eventos inconclusos dos nossos dias que parecerão misteriosos aos que nos sucederem.

                Nos dois primeiros assentos, os falecidos partilham o mesmo apelido, origem e uma condição social semelhante; por sua vez, os dois ultimos assentos reportam-se à mesma fatalidade, mas indicados pelo padre-cura de S. Martinho do Porto e pelo vigário da igreja de Nossa Senhora da Vitória de Famalicão, este indica com mais precisão o lugar onde foi encontrado, e cujo topónimo ainda hoje nos é familiar.

 

<M.el mad.a. Fis lhe hum officio de caridade>

Aos onze dias do mes de Agosto de mil setecentos e sesenta e nove faleseo com todos os sacramentos Manuel Madeira, natural e morador que foi em Alfizirão, pobre, esta sepultado no adro da igreja desta villa de S. Martinho, feci dicto die ut supra.

Antonio Dinis Coresma

[ADLRA (Arquivo Distrital de Leiria), IV/26/A/33, Registos de óbito da freguesia de São Martinho do Porto: 1666-1733, n.º de fólio ilegível]

 

<Izabel madeira, mosa solteira natural de Alfeiserão>

Aos vinte e seis dias do mes de Março anno de [mil] seis sentos e setenta e outo anos, faleseo nesta villa huma mossa por nome Izabel Madeira, a qual faleseo em casa de André Fernandes seu cunhado, hera natural da villa de Alfeizerão, não fes testamento por ser muito pobre, está enterrada no adro da Igreja desta villa para a parte do norte, feci dicto die ut supra.

Bento de Mendanha

[ADLRA, IV/26/A/33, Registos de óbito da freguesia de São Martinho do Porto: 1666-1733, n.º de fólio ilegível]

 

Em os nove dias do mes de fevereiro de mil e seis sentos e outenta e hum annos acharão morto hum menino por nome Manuel, hera de idade de seis anos e meo, filho de Antonio Rodrigues Montero e de Catherina gomes sua mulher [moradores] na varzea de Alfeizerão, ficando na dita varzia huma noute tempestuoza; seu corpo foi sepultado no adro da Igreija Matriz desta Villa de Sam Martinho para a parte do norte. Feci dicto dia ut suora.

Manuel Pinto de Abreu

[ADLRA, IV/26/A/33, Registos de óbito da freguesia de São Martinho do Porto: 1666-1733, n.º de fólio ilegível]

 

Em os vinte e outo dias do mes de Outubro de mil e seis sentos e outenta e dous annos acharam morta Izabel de Almeida, molher de Antonio Teixeira, com muntas facadas, moradores na Villa de Sam martinho, seu corpo está sepultado no adro da Igreja Matriz da parte do norte. Feci dicto dia ut supra.

Manuel Pinto de Abreu

[ADLRA, IV/26/A/33, Registos de óbito da freguesia de São Martinho do Porto: 1666-1733, n.º de fólio ilegível]

 

Em os quinze dias do mes de Maio do anno de mil e seis sentos e noventa e nove faleseo Theresa, filha de Amaro Fernandes e de Theresa do Couto, ja defuntos, moradores que forão em a Villa de Alfiziram, e esta defunta dizem teria de idade vinte annos pouco mais ou menos, não reçebeo os sacramentos porque a acharam morta, e para que conste o sobredito fis este asento, e está sepultada no adro desta Igreija.

O Prior Antonio Cerveira e Sotto

[ADLRA, IV/26/A/33, Registos de óbito da freguesia de São Martinho do Porto: 1666-1733, fl. 43r]

 

<Antonio madeira dos Raposos, Satisfes se com o bem da alma [rubrica do padre]>

Em os nove dias do mes de Julho de mil seis centos e setenta annos achou morto o meu compadre ___ [?] garcia, andando a cassa [à caça] no pe [?] de vale da serra, a Antonio madeira morador que foi nos cazais dos Rapozos, thermo de Alfezirão e freguez de Famalicão, o qual avia faltado de sua caza seis semanas, estava lansado de costas sobre huã pedra ja coruto [corrupto], de maneira que achouse, não podia sofrer; veio Antonio Fernandes seu genro e sua filha a asistir lhe ao enterro, mostrava morer [ter morrido] de acidente, foi trazido a esta villa por authoridade de justiça e está sepultado no Adro da Igreija desta dita vila, peguado ao caminho, feci dicto die ut supra.

Antonio Dinis Coresma

[ADLRA, IV/26/A/33, Registos de óbito da freguesia de São Martinho do Porto: 1666-1733, n.º de fólio ilegível]


Em o mes de Julho de 1670 se achou morto Antonio Madeira dos Casais dos Raposos no arife [arrife, recife] das quebradas aonde chamão o bico da gralha, junto ao mar, freguesia de Sam Martinho, aonde jas enterrado no adro da dita igreja por não estar em estado; ja corrupto, para o trazerem a esta sua igreja e freguesia, fiserãoçe os tres ofiçios nesta igreja pelos beneses costumados della e eu e o Reverendo padre Cura Antonio Dinis Coresma repartimos ambos de permeio o que importarão os custos delles conforme manda a constituissão, igualmente a cada hum o que lhe coube; mes asima declarado. O Vigr.o Antonio de Moura ferrão

(ADLRA, IV/36/D/36, Registos de óbito da freguesia de Famalicão: 1649-1684, fl. 47r, assento n.º 185)

 

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

O caminho das madeiras do Pinhal Real e as Vigias da costa: anotações periféricas

 

Figura 1: Facho desenhado na costa portuguesa entre Salir do Porto e o Cabo Mondego
(de um mapa do holandês Nicolas Jansz Vooght no Atlas 
La Nueva, y Grande Relumbrante Antorcha de la Mar...”, Amesterdão, Johannes van Keulen, 1700)


            No ano de 1766, uma exposição elaborada pelo sargento-mor das ordenanças dos Coutos de Alcobaça, António Manuel Brazão das Neves, equaciona o estado em que se encontravam as estradas dos Coutos, nomeadamente, a que permitia o transporte de madeiras do Pinhal Real até à enseada de S. Martinho do Porto para serem embarcadas para o Arsenal Real em Lisboa; segundo ele, os trabalhos de construção e manutenção dessas estradas/Calçadas poderia beneficiar com a supressão do sistema de vigia da costa nos antigos moldes por já não se justificar nessa data, e assim se libertar para os ditos trabalhos as ordenanças cativas dessa tarefa.

        Transcrevemos essa carta do sargento-mor (Doc. 2), sobre a qual alinharemos algumas observações. Em alguns artigos por nós consultados o nome do sargento-mor figura como António Maria Brazão das Neves, lapso natural devido ao desenho fluido e equívoco das abreviaturas, mas o seu nome aparece escrito integralmente, por exemplo, no alvará de 1748 em que é nomeado como sargento-mor dos Coutos (Doc. 1).

            Na transcrição desenvolvemos as abreviaturas menos claras, marcando a mudança de folha com a sua indicação entre traços oblíquos; por opção própria, no transporte de uma folha para a seguinte apresentamos como palavras inteiras as que se encontravam divididas.

 

As Calçadas

            As estradas da comarca de Alcobaça foram objecto de repetidas críticas à sua fragilidade e insuficiência – ou não existiam ou, quando isso sucedia, não eram beneficiadas com os trabalhos de manutenção exigidos, degradando-se com rapidez. Para o período cronológico em apenso, o século XVIII, será suficiente mencionarmos dois documentos transcritos por Pedro Penteado (Penteado, 2008). No mais antigo, de 14 de Dezembro de 1756, por decreto do D. José I, ordenava-se a construção de uma calçada entre a Barquinha (hoje ”Ponte da Barca”) e Famalicão; e em sintonia era exigido às Câmaras das vilas da Pederneira, Cela, Alfeizerão e S. Martinho que obrigassem as pessoas que possuíam fazendas nesses distritos para que «logo e sem demora alguma abram vallas, ou aquedutos, pelos quaes devem ter sahída as ágoas». O outro documento, datado de 5 de Junho de 1765, traduz uma representação da Câmara da Pederneira ao rei na qual se assinala que, apesar da Provisão anterior para que as Câmaras das vilas da Pederneira, Cela, Alfeizerão e S. Martinho participassem da factura e conservação da calçada entre a Barquinha e Famalicão para «o necessário e precizo transporte de madeiras dos Pinhaes de V. Magestade para o porto de S. Martinho», a realidade era que a obra não fora concluída e que a maior parte dela se arruinara por completo; solicitando a Câmara da Pederneira que se tomassem medidas para que as obras inadiáveis se realizassem.

            O sargento-mor Brazão das Neves, na carta que aqui transcrevemos, retorna ao tema em datas coincidentes e apresenta as suas propostas para solucionar o problema. Recorda o estado lastimável das estradas e da ponte na Barquinha, em madeira e pouco segura, defendendo que para a construção de uma nova ponte e da calçada entre as vilas da Pederneira e S. Martinho do Porto deveriam concorrer estas vilas e as de Alfeizerão e (lugar do) Carvalhal Benfeito, enquanto as restantes vilas dos Coutos, mais interiores, deveriam participar na construção da calçada entre Évora de Alcobaça e a Maiorga. Para que isso fosse conseguido, o sargento-mor, além das ordenanças libertas dos seus deveres na vigilância da costa, sugeria que se estipulassem dois dias de trabalho por cada morador dos concelhos e que a superintendência do trabalho fosse confiada a pessoa de honra e desinteresse; os concelhos, entre eles, realizariam vistorias semestrais ao estado das estradas, para que fosse operada a sua manutenção e necessários reparos.

            As obras de “factura” e manutenção da estrada entre a Pederneira e S. Martinho do Porto (¹), foram efectivadas, mas longe do que pareceria desejável. Em 1787, nas suas respostas ao Inquérito sobre a agricultura da Academia Real das Ciências, Frei Manuel de Figueiredo indica que na comarca poucos caminhos são calcetados e que no termo de Alfeizerão as estradas planas ou baixas «no Inverno estão cheias de atoleiros invadiáveis», acrescentando que «presentemente, não há quem impulse os povos para os consertos das estradas» (Maduro; 2013:340). Ainda antes do final do século, em 1794, William Beckford testemunha a insegura experiência de travessia da ponte das barcas, sem parapeitos laterais, semelhante às pontes arruinadas das vizinhanças de Alcobaça (Penteado, 2008; Beckford, 1835:166-167).

            O transporte de madeira do Pinhal do Rei para S. Martinho do Porto, para a construção aí de embarcações e para ser embarcada para o Arsenal Real da Marinha em Lisboa continuaria a ser feito em condições algo precárias em carroças de tracção animal por estradas nem sempre nas melhores condições e só na segunda metade do século XIX a situação evoluiria com o chamado Caminho-de-ferro americano entre Pedreanes e S. Martinho, com vagões puxados por animais que rolavam sobre carris, inicialmente de madeira, levando para este porto as madeiras do Pinhal do Rei, e transportando no sentido inverso areia e calcário para a produção de vidro na Marinha Grande (in “O comboio americano”, artigo de J. M. Gonçalves).

            Se as propostas do sargento-mor Brazão das Neves não tiveram o impacto que este decerto esperaria, num ponto é nítido o seu contributo. Frei Manuel de Figueiredo, nas mesmas respostas sobre a agricultura da comarca, na sua nota 5.ª, explica que o rei D. José, atendendo às súplicas que lhe haviam sido dirigidas, consagra por dez anos o dito real d’água à construção de estradas e liberta os povos de concorrerem às três vigias dos fachos da Marinha (sugestão do sargento-mor, o seu mais fiel vassalo), colocando sob a alçada do Corregedor da comarca a coordenação dos trabalhos e a gestão dos dinheiros envolvidos (Maduro, 2013:352).

Figura 2: O Forte e o Facho, imagens fraccionais de um mapa da Baía
("Planta do Porto de S. Martinho e Plano de Restauração do mesmo: por L. G. de Carvalho, Tenente 
Coronel do E. C. de Engenheiros, 1815" (A.H.M.O.P., D-41-B - Folha XVIII)

Os três Fachos

            A exposição do sargento-mor Brazão das Neves, na sua parte introdutória, contém algumas informações preciosas sobre o sistema de vigilância da costa à aproximação de invasores ou corsários, alicerçado em três fachos ou pontos de vigia: S. Martinho do Porto, Cela e Vestiaria. Qualquer coisa de suspeito que fosse avistado na costa era comunicado por sinais de luzes ou fumo a partir de S. Martinho, repetidos nas vigias da Cela e da Vestiaria para que a companhia das ordenanças de Alcobaça se pusesse em campo para se opor ao perigo; a vigilância era feita por dois homens em cada um desses Fachos, de 1 de Maio a 31 de Outubro e durante 24 horas seguidas. As ordenanças de Alcobaça não eram o único meio de defesa, ao sinal dos Fachos, as populações vizinhas, com os sinos das suas igrejas a tocar a rebate, ordenariam a sua própria defesa com os combatentes que conseguissem reunir – é o que se depreende de informação do padre Luís Cardoso sobre Alfeizerão no primeiro tomo do Dicionário Geográfico: «Não se fazem Soldados nesta terra, por ser vissinha de S. Martinho, porto de mar, com Forte, aonde acodem quando há rebate; e por essa razão se não obrigarão os Auxiliares a continuar o presídio das Praças do Alentejo nas guerras passadas» (Cardoso, 1747:278). Esta isenção dos habitantes da freguesia de Alfeizerão não teria mais do que quarenta anos – nos anos de 1691, 1702 e 1706 ainda figura nos assentos de óbito da freguesia a morte de naturais da terra como soldados nas praças do Alentejo, nomeadamente em Évora, Estremoz e Campo Maior (²).

            O Facho de S. Martinho, escreve o sargento-mor, situava-se numa serra próxima ao mar, e ainda hoje persiste na toponímia o promontório do Facho, já muito delapidado pela erosão. O traço do edifício aí onde se postavam os dois vigias aparece desenhado em alguns mapas. Marino Miguel Franzini escreve em 1812: «o cabeço septentrional aonde apparecem as ruinas de huma casa, he denominado o Faxo; com cujo nome ficou pelo costume que havia de accender alli fogos, que servião de signal para o reconhecimento do porto» (Franzini, 1812:42).           O forte de S. Martinho, também descrito por Brazão das Neves, com casas no seu perímetro, deveria situar-se nas proximidades do actual farol. Em 1721, nas respostas ao inquérito da Acacemia Real de História Portuguesa, escrevia o prior António Cerveira e Souto: «E tem esta dita Villa hum forte que fica na ponta da Barra para defeza della, mas muito mal fabricado ou guarnecido por  falta de artilharia com que se podem defender a dita Barra e as embarcasoins que se recolhem a esta Bahia, muitas vezes acosados dos inimigose o dito forte está pella parte do mar quazi arruinado» (Cf. Coutinho, 2021:5).

       Num roteiro publicado em Madrid em 1789, Vicente Tofino de San Miguel descreve nesse promontório uma “torre velha” que, por ser fronteira a uma ermida (a capela de Santa Ana) não se confunde com a casa em que se erguia o Facho; lendo-se aí: «na entrada da barra se vê na ponta da Banda de bombordo uma torre velha, e da banda do Sueste está uma ermida, entrai ao longo da terra da banda do Norte e não vades muito dentro, porque de baixa-mar não há mais de 2 braças» (Tofiño de San Miguel, 1789). Ironicamente, o forte de S. Martinho foi reconstruído por inimigos da Coroa já que os invasores franceses ocuparam-no, pelo menos, desde 19 de Dezembro de 1807 e sob as ordens de famigerado general Thomiéres fez-se obras nesse forte e no forte da Nazaré (fortaleza de S. Miguel), assim como se construiu de raiz um forte de madeira em S. Gião, guarnecido com peças de artilharia (Neves, 1810:327); os três fortes comunicavam entre si por sinais telegráficos e a guarnição deste forte e a do forte de S. Martinho era idêntica: vinte e poucos homens e «duas peças de grande calibre»; em Julho de 1808, cercado o forte da Nazaré por populares, a guarnição dos fortes de S. Gião e S. Martinho abandona-os e junta-se ao exército de Thomiéres (Neves, 1811:23-25).

            A localização dos Fachos da Cela e da Vestiaria, permanece ainda (julgamos) por determinar, sendo no entanto de assinalar que Facho ocorre na toponímia na esfera dessas localidades, caso do lugar do Facho, dois quilómetros e meio a sudoeste da Cela e, dentro da Vestiaria, a rua Facho dos Poços. Sobre o primeiro, o topónimo coaduna-se com a informação do cronista Frei Manuel de Figueiredo que, falando do caminho do Vimeiro para a Cela, narra que «nada há memorável neste caminho mais que os vestígios da casa do facho, aonde assistiam vigias contínuas para acenderem o farol no caso de serem atacadas as Costas pelos inimigos da Coroa ou da Religião» (Leroux, 2020:157). A existência desses dois fachos parece ser bastante antiga, visto que Manuel Vieira Natividade escreve que já no foral da Cela se impunha aos seus moradores que mantivessem os fachos da Cela e Vestiaria (Natividade, 1960:66).

            Na sua exposição, assevera o sargento-mor Brazão das Neves que o regimento que instituíra as três vigias ou fachos remontava a 245 anos atrás, o que, se tomarmos como charneira o ano de 1766, data da missiva de Francisco Nuno Leitão que anexa a exposição do sargento-mor, temos como resultado o ano de 1521, o último ano do reinado de D. Manuel.

            Brazão das Neves defende a supressão das três vigias ou, pelo menos a transposição do facho de S. Martinho para dentro do seu forte, com as conveniências que aponta e por uma questão de precaução. Não vê utilidade na manutenção deste sistema de vigia e elabora: 245 anos antes os portos da Pederneira, Pataias e S. Martinho encontravam-se aptos para o desembarque, mas no momento em que escreve, fazê-lo era dificultoso até para os pescadores (recorde-se as recomendações de Tofiño de San Miguel), sendo improvável que o tentassem inimigos ou piratas, e argumenta que nesses 245 anos só havia memória de um desembarque de mouros na praia da Pederneira, sem grandes danos a lamentar.

            Sobre o assoreamento e ruína desses portos e ancoradouros na costa (a começar pelo porto de Alfeizerão, um dos primeiros a “cair por terra”) e o natural expediente dos corsários em atacar as suas presas em mar aberto, podemos incorporar uma narrativa concordante do cronista Manuel de Brito Alão: «uma embarcação sua [de corsários] que após umas caravelas nossas, entrou naquele porto de São Martinho que está defronte de nós, e se embaraçou, em forma que não pôde sair, e acudindo logo a gente das vilas circunvizinhas, a tomaram e, entre algumas coisas que lhe acharam do que tinham roubado, foi um cálice de prata e ornamentos de uma Igreja, que Deus parece não permitiu os profanassem os inimigos da nossa Santa Fé Católica» (Alão, 1628:f. 83v).

            Os Fachos e torres deste trecho da costa é um tema de tal forma amplo que se pode considerar sem grande exagero que é quase nada o que sabemos de certo, apesar dos válidos contributos de diferentes investigadores (Manuel Vieira Natividade, Eduíno Borges Garcia, Carlos Fidalgo e outros). A somar aos muitos sítios apontados na orla da antiga lagoa da Pederneira, a enseada mais a sul também constitui um tema em aberto com estruturas militares ou defensivas como o castelo de Alfeizerão, o forte de S. Martinho e a torre de Salir do Porto. Os três Fachos ou Vigias podem ser apenas uma parcela historiada e “activa” de um conjunto de estruturas que, para não termos uma visão deficitária do seu papel, seria porventura necessário abordar de uma forma integrada e multidisciplinar com o recurso à toponímia (/etnografia), à História e à arqueologia.


Fontes:

ALÃO, Manuel de Brito - Antiguidade da sagrada imagem de Nossa S. de Nazareth: grandezas de seu sitio, casa, & jurisdiçaõ real, sita junto à villa da Pederneira..., Lisboa, Pedro Crasbeeck Impressor del Rey, 1628.

BECKFORD, William - Recollections of an excursion to the monasteries of Alcobaça and Batalha / by the author of "Vathek". - London : Richard Bentley... publisher, : printed by Samuel Bentley, 1835.

CARDOSO, Luís - Diccionario geografico, ou noticia historica de todas as cidades, villas, lugares, e aldeas, rios, ribeiras, e serras dos Reynos de Portugal, e Algarve, com todas as cousas raras, que nelles se encontraõ, assim antigas, como modernas, Lisboa : na Regia Officina Sylviana, e da Academia Real, Tomo I, 1747.

COUTINHO, J. L.- O Inquérito de 1721 da Academia Real de História Portuguesa no bispado de Leiria, Maio de 2021, texto eletrónico acessível em: https://www.academia.edu/48936341/O_Inqu%C3%A9rito_de_1721_da_Academia_Real_de_Hist%C3%B3ria_Portuguesa_no_bispado_de_Leiria

FRANZINI, Marino Miguel – Roteiro das Costas de Portugal ou Instruções náuticas para intelligencia e uso da carta reduzida da mesma costa, e dos planos particulares dos seus principaes portos, Lisboa, Impressão Regia, 1813

GONÇALVES, J. M. – “O comboio americano”, artigo de 11 de Fevereiro de 2014, acedido em http://opinhaldorei.blogspot.com/2014/02/o-comboio-americano.html. Consulta mais recente a 25 de Janeiro de 2022

LEROUX, Gérard - Frei Manuel de Figueiredo – Memórias de várias vilas e terras dos Coutos de Alcobaça (1780-1781), Alcobaça, edição do jornal “O Alcoa”, 2020.

MADURO, António Valério - O Inquérito Agrícola da Academia Real de Ciências de 1787. O caso da comarca de Alcobaça, in Mosteiros Cistercienses. História, Arte, Espiritualidade e Património, 3, 2013, p. 319-354

NATIVIDADE, Manuel Vieira – Mosteiro e Coutos de Alcobaça. Alguns Capítulos Extraídos dos Manuscritos Inéditos do Autor e Publicados no Centenário do seu Nascimento, Alcobaça, Tipografia Alcobacense, 1960

NEVES, José Acúrcio das - História Geral da Invasão dos Francezes em Portugal e da Restauração deste Reino, Tomo I, capítulo 25, impresso na Oficina de Simão Tadeu Ferreira, Lisboa, 1810

NEVES, José Acúrcio das – História Geral da Invasão dos Francezes em Portugal e da Restauração deste Reino, Tomo IV, Capítulos 29 e 33, impresso na Oficina de Simão Tadeu Ferreira, Lisboa, 1811

PENTEADO, Pedro - Novos documentos para a História do Caminho Real entre a Pederneira e S. Martinho do Porto no Século XVIII, 2008, versão electrónica em https://www.slideshare.net/ppenteado/novos-documentos-para-a-histria-do-caminho-real-presentation?fbclid=IwAR2_iwLnOnuUIg1QN8d6v7xpXfrGuEiqFS1KnT2uc4U2fBCzunMtCMPh3k8. Consulta mais recente a 25 de Janeiro de 2022

TOFIÑO DE SAN MIGUEL, Vicente - Derrotero de las costas de España en el Océano Atlántico, y de las Islas Azores ó Terceras, para inteligencia y uso de las cartas esféricas presentadas al Rey ..., Madrid, por la viuda de Ibarra, Hijos y Compañía, 1789

 

APÊNDICE DOCUMENTAL

 

Doc. 1

1748, Agosto, 28, Lisboa – Alvará de nomeação de António Manuel Brazão das Neves como Sargento mor das ordenanças dos Coutos de Alcobaça, com o soldo de 80 mil réis

Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT), Registo Geral de Mercês, Mercês de D. João V, liv. 39, f.46v

 

António Manuel Brazão das Neves

Houve S. Magestade por bem, tendo Respeito a haver feito ao dito Antonio Manuel Brazão das Neves do posto de Sargento Mor da ordenança dos Coutos de Alcobaça por Patente de 22 de Julho de 1748, Há por bem que elle tenha e haja o soldo de Outenta mil rs assentados e pagos no Almoxarifado de Leiria assim como o havia de acontecer [?] nos que principiara a vencer do dia sucessivo ao que desistira do posto que antes ocupava. E mediante de que lhe foi passado Alvara a 28 de Agosto de 1748

 

Doc. 2

1766, Maio, 18, Alcobaça - Ofício de Francisco Nuno Leitão para Miguel de Arriaga Brum da Silveira, remetendo a exposição do sargento-mor das Ordenanças dos coutos de Alcobaça, António Manuel Brazão das Neves.

Arquivo Histórico Militar (AHM), Código de referência: PT/AHM/DIV/1/08/03/18

 

[Folha 1]

 

Sr. Miguel de Arriaga

            Meu Amigo e Senhor muito da minha veneração. Em hum dos correios passados recebi huma carta de V. S.a  [Vossa Senhoria], em resposta de huma que lhe escrevi; e com ella inviava a V. S.a huma conta do Sargento-Mor destes coutos. Agora remetto outra do mesmo, aberta, para que V. S.a tenha a bondade de a ver, e dar com brevidade ao Ilustríssimo e Excelentíssimo Sr. Conde de Oeiras. O que o dito Sargento Mór expõem hé pura verdade, e tãobem hé certo que o mesmo procede o mais zelozo do Real Serviço, e o mais independente.

            Ficarei a V. S.a obrigado pela resposta de huma e outra, para socego do mesmo Sargento-Mór, que não descança na duvida de ser, ou não, bem aceita a sua reprezentação. Logre V. S.a saude perfeita, e todas as felicidades, que lhe deseja quem he.

De V. S.a

Amigo e vassalo ____

Francisco Nunes Leitão

                                                                                              Alcobaça, i8 de Mayo de 1766

[Folha 2]

                                                           Senhor

                        Reprezenta a Vossa Magestade o Sargento Mor das Ordenanças dos Coutos de Alcobaça o grave detrimento que padecendo as mesmas em todo o tempo do Verão a Vigia dos fachos das Villas de S. Martinho, Cella, e lugar da Vestearia.

                        Entrão as Vigias em o primeiro de Mayo, e finalizão no ultimo de Outubro, e Vigião em cada hum dos fachos dous homens 24 horas irremissivelmente.

                        Distão dos fachos da Vila da Cella e lugar da Vestearia, duas e trez legoas para o interior da terra do de S. Martinho, que se acha situado em huã Serra, próxima ao Mar, e deste hade receber o da Cella os signais que fizer, repetindo-os para se comunicarem ao da Vestearia, e por elles se fazer avizo ás Companhias da Ordenança, tocando-se a rebate para se opporem a qualquer invazão do inimigo, ou pirata.

                        Tem /[Folha 3]/ o Regimento que ordena estes fachos 245 anos, e se no seu principio parecerão precizos para a guarda dos povos, por se acharem os portos de S. Martinho, Pederneyra e Patayas praticáveis para o dezembarque, hoje [a]té para os pescadores nacionais se experimenta dificultozo, e para o inimigo ou pirata, bem ponderado o receyo de darem á Costa por ser desconhecida e brava, e o respeito que a todos faz a terra aldeã para se invadir sem segurança, tendo [a]demais a objecção de dous fortes, hum na Serra de S. Martinho e outro no Sítio de N. Sra. de Nazaré, artilhado e guarnecido de soldados, que ainda que se considerem pello inimigo ou pirata incapazes para a sua offença, sempre os deve, reputar suficientes para a nossa defeza, se figura huã total impossibilidade; pella qual ou se suspende o valor ou se não rezolve o mais ardente e bárbaro atrevimento.

                        Este juízo comprova a larga experiência de 245 anos em que /[folha 4]/ só consta por tradição vir huã lancha de Mouros á praya da Pederneyra, e não se atrevendo a escallar a villa, se retirarão apressados, levando alguãs redes e couzas de pouco vallor que se acharão nas barracas da praya.

                        Para se acautellar segundo dezembarque, justo parece se conserve a Vigia de S. Martinho, mas no forte, não só pello respeito que faz ao inimigo vello guarnecido, mas para conservação das Cazas do mesmo [forte] que, fechadas, é irreparável a sua ruína, destacando todos os mezes dous soldados e hum Cabo no tempo do Verão do forte de N. Sra. de Nazareth, que sem algum préstimo ou exercício militar, vencem fardas, pão e soldo, impondo a estes e aos que se achão de guarnição no dito forte de Nazaré o preceyto de vigiarem e do que virem suspeytoso fazerem prompto /[folha 5]/ avizo ás Companhias da Ordenança mais próximas para se porem em defeza, abolindo-se os ditos fachos ou pello prejuízo dos povos, ou porque delles não rezulta, segundo parece, a mais leve conveniência, com o ónus porém de dar cada hum, que he obrigado á sobredita vigia, dous dias de trabalho, para o que todos se offerecem sendo perguntados por mim, na erecção de huã Calçada da vila de Evora té a da Mayorga, por ser invadiável no tempo do Inverno, e pouco capaz no Verão, sem embargo de ter concorrido a incomparável grandeza de Vossa Magestade com o subsídio do Real d’ágoa da vila de Alcobaça por tempo de des annos, que são findos sem que do referido producto se seguise a utilidade das Calçadas, por se exhaurir huã boa parte em extorções, culpável omissão dos Provedores, nem o zello, nem a obrigação comovêo para o exame das calçadas, e sua  /[folha6]/ despeza, ficando as mesmas com pouca diferença no primeiro estado, como experimentou a Rainha, minha Senhora, na digressão de Nazaré e Alcobaça, sendo preciza huã considerável despeza para romper estradas por diversas fazendas, cortando olivais e vinhas, que se pagarão da Real fazenda por preços excessivos, de cujos caminhos apenas se conservão hoje os primeiros vestígios e o nome de Calçadas da Sra. Rainha, ficando sempre existindo a mesma dificuldade no giro dos Nacionaes e passageyros, de tal sorte que distando a vila de Evora huã pequena legoa da de Alcobaça, em tempo de Inverno ou ficão incomunicáveis, ou para o serem se fazem caminhos pellos pomares, vinhas e terras de pam, com grave prejuízo de seos donos, e os que ignorão este Meyo, ainda que odiozo, por ser nocivo, ou não passão, ou se precipitão com evidente risco, /[folha 7]/de sorte que muitos o tem não só experimentado nos géneros que conduzem por negocio para diversas feyras, mas na vida vendo-se no ultimo extremo metidos em atoleyros.

                        E outra da vila da Pederneyra té a vila de S. Martinho, nas partes em que for preciza para com facilidade se conduzirem as madeiras do pinhal Real de Leiria para o Arzenal, concorrendo para esta as vilas da Pederneyra, S. Martinho, Alfeizerão e Carvalhal benfeito, e para a de Evora té a Maiorga as outras vilas destes Coutos, e findas as sobreditas Calçadas, concorrerem todas as Vilas para a erecção de huã ponte no rio da Barquinha próximo á Pederneira, por ser a que existe de madeira com pouca segurança, além do prejuízo que experimenta a Real fazenda de Vossa Magestade de poucos em poucos annos nas Madeyras do referido pinhal, conduções e fábrica da mesma /[folha 8]/ ponte.

                        Quando seja do Real agrado de Vossa Magestade a prezente representação, a que me condúz o zello do bem comum, e não algum prezente ou futuro interesse, seria justo concorrerem todos os moradores sem excessão por ser comum o beneficio das Calçadas e ponte, com os dous dias de trabalho para a sua erecção ou operando ou satisfazendo a dinheyro pello estado da terra, cometendo-se a administração das ditas Calçadas a pessoa que dezempenhe com honra, dezinteresse, e cuydado o seu ministério e fundos; impor ás Camaras das Vilas de Evora, Alcobaça e Maiorga a vigoroza obrigação cada huã no seu destricto da conservação da mesma Calçada, fazendo cada huã vestoria todos os seis mezes em acto de Camara /[folha 9]/ na Calçada pertencente a diversa Villa, como por exemplo, a Camara da Villa de Evora na pertencente ao destricto da Villa de Alcobaça, esta no destricto da de Evora, a Camara da Villa de Cós na da Maiorga, e a Villa de S. Martinho, por ser a mais interessada, na Calçada da Villa té a Pederneira, de que se passarão certidões, asignadas por todos os Officiais da Camara, descrevendo nellas o estado das dita Calçada, sem algum emolumento, assim das Vestorias, como das referidas certidões, que se aprezentarão pello Procurador do Conselho ao Provedor da Camara para por ellas examinar o estado das ditas Calçadas, que achando nellas alguã ruína por omissão das ditas Camaras, a mande logo reparar á custa dos Officiais das mesmas, cobrando de cada hum executivamente /[folha 10]/ por um rateio, o que na verdade lhe pertencer, perguntando-se na rezidencia do dito Provedor se satisfez ou não á referida obrigação, ou ser o mesmo obrigado a mostrar na referida rezidencia certidões das ditas Camaras de que não faltou a ellas.

                        Bem visto que no descuido cessará o bem comum da dita Calçada, e se fará mais sensível o discomodo [descómodo] no desperdício do tempo e do trabalho.

                        Mercê Guarde a V. Magestade, Senhor

                                               O mais fiel vassallo

                                               O Sargento mor

                                   António Manuel Brazão das Neves

 


) Um pequeno troço do antigo Caminho Real entre a Pederneira e S. Martinho subsiste ainda a norte da Ponte da Barca com uma extensão comprovada de 245 metros, classificado como Sítio de Interesse Municipal. O lugar em si e a sua componente paisagística e de observação da natureza, reiteram os seus motivos de interesse.

(²) Arquivo Distrital de Leiria, IV/24/C/11, Registos de óbito da freguesia de Alfeizerão: 1666-1747 (numeração dos fólios ilegível)