quinta-feira, 20 de agosto de 2026

No dia de S. Bernardo (20-08-26), uma evocação da história lendária da implantação dos primeiros monges cistercienses



«Mais coisas encontrareis nos bosques do que nos livros; as árvores e as pedras podem fazer-vos ver o que os mestres nunca saberão ensinar-nos. Pensais por acaso que não podereis sugar mel das pedras e azeite da rocha mais dura? Será que as montanhas não destilam doçura?»
(Bernardo de Claraval, Epístola 106)


Conta Frei Bernardo de Brito que, depois de conquistada Santarém e Lisboa e todas as terras para norte que até então tinham estado nas mãos dos sarracenos, D. Afonso Henriques acompanhou os monges cistercienses que São Bernardo enviara para dar princípio ao Mosteiro.

«Partiu El-Rei D. Afonso e seu irmão D. Pedro pelo caminho de Leiria e daí para Alcobaça onde então não havia sinal nenhum de povoação nem memória de moradores, senão matas bravíssimas e quase impenetráveis pela grande abundância de arvoredo silvestre e discorrendo os religiosos por uma parte e por outra com desejo de acharem o lugar que Nosso Padre São Bernardo lhes indicara e o sítio cercado de dois rios, depois de muito trabalho vieram ter a um vale que agora chamam de Chaqueda e vendo ali algumas confrontações que buscavam, assentaram que ali se desse princípio ao Mosteiro. Desocupou-se um pedaço de terra capaz e limpo de matas e se estenderam nele as cordas e medidas que os monges traziam. No dia seguinte, quando quiseram abrir os fundamentos [fundações] nos lugares das medidas, não se as acharam e todos se entristeceram, mas considerando que seria outro o lugar onde o Senhor fosse servido que se fundasse o Mosteiro, mandaram muitas pessoas por aqueles vales para procurar as medidas e as cordas. El-Rei com os monges se foram ao longo do rio contra a parte do Ocidente e sendo achado quase a meia légua, onde aquele rio se juntava a outro, em uma relva chã coberta de mato raso, acharam as medidas armadas com tão boa ordem e concerto como se as pusera algum oficial primeiro. Tocou El-Rei uma corneta de monte que sempre trazia consigo, para que acudissem todos aqueles que mandara revolver aqueles vales, e quando vieram, acharam o novo modo de maravilha, julgada pela traça e bem acomodada composição qual poderia ser o Mosteiro nascido daquela obra.

«Naquele lugar, depois se limpar o sítio de todo o género de mato, abriu-se os fundamentos de uma igreja no segundo dia de Fevereiro de 1153, a que todos chamaram depois Santa Maria a Velha [hoje a Igreja de Nossa Senhora da Conceição» (Brito, 1720, 325-326)..

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BRITO, Bernardo de - Chronica de Cister : onde se contam as cousas principaes desta ordem, & muytas antiguidades do reyno de Portugal : primeyra parte, 1720, Lisboa Ocidental. Oficina de Pascoal da Silva.

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