domingo, 7 de fevereiro de 2016

O recenseamento de 1537 nos concelhos de Alfeizerão, São Martinho e Salir do Porto

A Rua Nova dos Mercadores em Lisboa, pintura holandesa de finais do século XVI 
(preservada na Sociedade dos Antiquários de Londres)

Um novo recenseamento quinhentista

     Após o Numeramento de 1527-1532, o primeiro cadastro geral do reino, realizaram-se, ainda no reinado de D. João III, novos censos parcelares nos anos de 1537 e 1538 nas comarcas de Leiria, Santarém, Porto e Estremoz. Mais elaborados e minuciosos do que o censo inicial quanto à composição e valores demográficos, apresentam, no entanto, menos dados geográficos e toponímicos.

     O recenseamento circunscrito à comarca de Leiria foi transcrito e estudado pela Doutora Iria GONÇALVES (Notas de demografia regional - a comarca de Leiria em 1537, Separata da Revista da Faculdade de Letras de Lisboa, Lisboa, 1977). Reproduzimos desta publicação os dados relativos aos três concelhos que marginavam a Concha, e exporemos no final dessa cópia uma pequena exposição do contexto regional desses números.


Os três concelhos

Alfeiziram
ha nesta villa dalfeiziram setenta e dous moradores…….......................................  lxx ij
dos quaes sam molheres treze…................................................................................. xiij
e destas huma foy molher de caualeiro…....................................................................... j
e duas viuem per esmollas …........................................................................................ ij
e assy ficão dez molheres sem priujlegio……............................................................... x
+
sam assy os homens moradores nesta villa dalfeiziram cjnquoenta e noue…............ l ix
dos quaes sam cleriguos dous….................................................................................... ij
e hum memposteiro dos catjuos….................................................................................. j
e outro da mjsericordja…................................................................................................ j
e hum amo de desembargador…..................................................................................... j
e assy sam estes homes priujligiados cjnque….............................................................. b
e ficão assy cjnquoenta e quatro moradores homens nesta villa
pera seruirem nos encarregos do concelho…....................................................... l ta   iiijº

No termo desta villa dalfeiziram /
ha de moradores vinte e quatro …........................................................................... xxiiij”
dos quaes sam molheres cjnque ….................................................................................. b
e destas sam molheres proues tres …............................................................................. iij
e assy ficão duas molheres sem priujlegio ….................................................................. Ij
+
Sam assy os moradores homens neste termo dalfeiziram dezanoue …........................ xix
e nenhum delles he escuso dos encarreguos do concelho  /



Sam martjnho
ha nesta villa de sam martinho seis moradores dos quaes huma soo 
he molher e todos seis nam sam scusos dos encarreguos do Concelho  ….................... bj

No termo desta villa
ha homze moradores dos quaes tambem huma soo he molher 
e todos onze nam sam escusos de seruir nos encarreguos do Concelho  ………........... xj
Aqui acabam as vilas dos coutos dalcobaça que sam catorze  ….............................. xiiij”
e seguessem as villas das terras da Rainha  /



Selir do porto
ha nesta villa de selir do porto vinte e cjnque moradores  …...................................... xx b
dos quaes sam molheres quatro e nenhuma he priujligiada  …..................................... iiij”

e assy ficão homens moradores nesta villa vinte e hum  ….......................................... xxj
dos quaes hum he clerigo  …............................................................................................ j
e outro he memposteiro dos catjvos …............................................................................. j
e assy ficão homens moradores nesta villa de selir do porto 
pera seruirem nos encarreguos do Concelho dezanoue  ….........................................   xix

e esta villa de selir nam teem termo e por isso nam ha moradores nelle  /


Comparação entre a demografia dos dois censos

     A análise que a Doutora Iria Gonçalves faz deste último censo poderia ser estendida aos dados do prévio Numeramento de 1527. Concluindo que estamos perante uma população rural dispersa pela comarca, recorda que, tirando Leiria, com os seus escassos 588 fogos, todas as demais povoações se encontravam a uma enorme distância e Óbidos, aquela que mais se lhe aproximava, não atingia sequer as duas centenas de moradores. A par desta, uma série de pequenas vilas que mais não eram que grandes aldeias, iam-se progressiva e paulatinamente afastando dela, pela redução dos seus efetivos populacionais. E chegava-se assim aos pequenos concelhos com catorze, dez e até seis moradores. como é o caso de Paredes, Salir de Matos, S. Martinho do Porto - que não deixavam, por isso, de ser pomposamente apelidados de vilas (op. cit., p. 415).

     Confrontando os dados de ambos os censos (imagem infra), podemos notar um sensível crescimento populacional em todos os Coutos de Alcobaça e na vizinha Salir do Porto, mesmo nos pequenos concelhos apontados por Iria Gonçalves; esse aumento é mais expressivo em Alcobaça e Santa Catarina. Salir do Porto perde o único termo que possuía dez anos antes, os Moinhos de Águas Salgadas, e Paredes da Vitória apresenta-nos um quadro de decadência e despovoamento. Assolada antes de 1500, segundo os cronistas de Alcobaça, por uma violenta tempestade de areia que consumou o assoreamento do seu porto, a vila foi sendo abandonada pelos seus habitantes. Passou de 27 moradores em 1527 a 14 em 1537. Em 1570, o rei D. Sebastião ordenou a transferência para Paredes do marco do couto de Alfeizerão com o intuito de atrair novos moradores (homiziados), mas a iniciativa de nada deve ter servido, porque a vila despovoou-se por completo no espaço de décadas. Em 1628, o cronista e administrador da Real Confraria de Nossa Senhora da Nazaré, Manuel de Brito Alão (Antiguidade da sagrada imagem de Nossa S. de Nazareth : grandezas de seu sitio, casa, & jurisdiçaõ real, sita junto à villa da Pederneira, capítulo 36, impresso por Pedro Crasbeek, Lisboa), descreve-a como deserta*, e fala de um moleiro que trabalhava num moinho próximo e que tinha o encargo de alimpar a ermida local de Nossa Senhora da Vitória das areias que a invadiam.
* Naquele areal grande que se descobre no mais alto da outra banda houve uma povoação grande a que chamavam as Paredes, e ainda agora aparecem algumas, despovoou-se pelas areias movediças e soltas a cobrirem (Antiguidade da Sagrada Imagem..., c. XXXVI).
     Uma questão pertinente sobre estes censos, é saber qual o número efetivo de habitantes por família ou fogo. O coeficiente apurado por João Alves Dias (DIAS, J.J. Alves, Gentes e Espaços (em torno da população portuguesa na primeira metade do século XVI), Fundação Calouste Gulbenkian - Junta Nacional de Investigação Científica, Lisboa, 1996) é um número entre 4 e 5 habitantes por fogo, mais especificamente, um número estatístico entre 4,3 e 4,8. José Vicente Serrão (SERRÃO, José Vicente, População e rede urbana em Portugal nos séculos XVI-XVIII, in História dos municípios e do poder local (dos finais da Idade Média à União Europeia), direção de César OLIVEIRA, Círculo dos Leitores, Lisboa, 1996) concorda com um coeficiente de 4,3 habitantes por fogo. Se aceitarmos este número como consensual, é por ele que deveremos multiplicar os números do quadro abaixo para estimarmos a população de cada vila ou concelho.

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