segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Os últimos Alcaides de Alfeizerão





Siglas utilizadas:
                                      AMP: Arquivo Municipal de Penafiel
                                      LPJSIRMSMA: Livros de Privilégios, Jurisdições, Sentenças,                                                Igrejas deste Real Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça.
                                      GL: Gazeta de Lisboa.


O castelo
Os coutos de Alcobaça possuíam duas alcaidarias-mores, em Alcobaça e em Alfeizerão, nascidas da existência e manutenção das duas fortalezas principais do território, lugares estratégicos importantes de defesa militar e refúgio em caso de ataque. A evolução das técnicas bélicas, sobretudo a evolução das armas de fogo, foi desvalorizando a importância das fortalezas, que se tornaram obsoletas, e na transição para o século XVIII, os dois castelos possuíam já, decerto, um papel marginal, dado que os indícios documentais de reparo dos dois castelos ou das suas muralhas são quase inexistentes. À sua função militar inicial sobrepõe-se a sua função “civil”, de lugares de Justiça, e para o castelo de Alcobaça temos mesmo uma referência aos «reparos do castelo que serve de cadeia» (LPJSIRMSMA, f. 5v).

O Alcaide
Já nos séculos XV e XVI e no contexto dos Coutos, Iria Gonçalves nota que era o Alcaide quem multava e aplicava as penas de prisão correspondentes aos diversos delitos e que «eram inclusive os Alcaides que conservavam, por vezes até em suas casas, os instrumentos prisionais – cadeias, cadeados, colares, argolas – que recebiam quando eram empossados do cargo e que representavam os símbolos de execução de justiça» (GONÇALVES, 1989, p. 84). Para o mesmo período temporal, o Alcaide de Alfeizerão tinha também como atribuição própria a cobrança da dízima do pescado que era desembarcado e surge igualmente em actos de recepção de produtos chegados por mar, como o minério de ferro (GONÇALVES, id.).
Nomear e empossar o alcaide-mor tornou-se, numa e noutra vila, uma ciosa prerrogativa da abadia de Alcobaça, depois de ter havido algumas iniciativas da Coroa nesse sentido; ainda que, como é evidente, essa escolha não fosse isenta de interesses ou conluios políticos que explicam que a alcaidaria-mor de Alfeizerão tenha sido atribuída mais de uma vez a uma mesma família por duas e três gerações sucessivas como se fosse um cargo hereditário. A extinção das alcaidarias-mores e o fim das Ordens religiosas masculinas em 1834, com a integração na Fazenda Pública dos castelos de Alfeizerão e Alcobaça, colocou um ponto final neste cargo administrativo e na fortaleza que lhe havia dado origem.

Os últimos Alcaides
O penúltimo Alcaide-mor de Alfeizerão foi José Teixeira Coelho Vieira de Queirós, nomeado numa data que não pudemos precisar. Por desistência do cargo, foi nomeado o seu filho, António Teixeira Coelho Vieira de Queirós, o último Alcaide, cujo Preito de Homenagem se realizou a 16 de Abril de 1825 (LPJSIRMSMA, f. 7v). Esta família era possuidora da Quinta da Gandra ou Casa da Gandra, propriedade extensa situada no lugar do mesmo nome, na freguesia de Guilhufe, Penafiel, à cabeça da qual José Teixeira Coelho sucedera ao seu pai, o capitão Joaquim José Vieira de Queirós, falecido em 1813 (AMP, pp. 34 e 447). Nos tempos conturbados que então se viviam, de guerra civil e absolutismo miguelista, estes dois Alcaides defenderam D. Miguel no confronto das armas. No ano de 1829, a 23 de Julho desse ano, António Teixeira de Queirós é mencionado no periódico oficial entre os Realistas como Tenente da 6ª Companhia do Regimento de Milícias de Penafiel (Gazeta de Lisboa, nº 172, p. 710, 23 de Julho de 1829, Lisboa, Imp. Régia), enquanto o pai, também militar, comandaria os Realistas da cidade.
Na Gazeta de Lisboa de 20 de Agosto do ano de 1829 (GL, nº 196, p. 809, Lisboa, Imp. Régia), descreve-se como José Teixeira Coelho compareceu ao “beija-mão” perante o monarca: «(Lisboa, 19 de Agosto) José Teixeira Coelho Vieira de Queiroz, Professo na Ordem de Christo, e o Bacharel Gaspar Joaquim Telles da Silva e Menezes, Official da Secretaria de Estado dos Negocios Ecclesiasticos e de Justiça, tiverão no dia 5 de Agosto a honra de ser admittidos á Real Presença de Sua Magestade, no Palácio de Queluz, em Deputação das Camaras da Villa de Canavezes e dos Concelhos de Thuios e de Soalhães, felicitando o mesmo Augusto Senhor pela Sua exaltação ao Throno Portuguez e pelo completo restabelecimento da Sua preciosa saúde em hum respeitoso discurso que o segundo commissionado proferio depois de beijarem a Real Mão: Sua Magestade Se dignou receber estas felicitações com a affabilidade que caracteriza Seu magnânimo Coração, e houve por bem conceder a Medalha de ouro com a Sua Real Effígie aos membros das sobreditas Camaras actuaes, e aos das próximas passadas com a fitta da Casa de Bragança. A mesma Deputação se dirigio depois a felicitar Sua Magestade a Imperatriz Rainha Nossa Senhora, que lhe mandou agradecer por não poder dar-lhe a beijar a Sua Real Mão».
                Um outro periódico, O Ecco – Jornal Critico, Litterario, e Politico (n.º 197, de 20 de Junho de 1837, Lisboa, Imp. na Typografia de A. I. S. de Bulhões), elucida-nos sobre o que lhes sucedeu após a queda de D. Miguel, arrolando-os na «Lista dos Realistas perseguidos em Penafiel, moradores na terra ou vizinhos»: «50 - Joze Teixeira Coelho Vieira de Queiroz, Cavaleiro de Christo, Alcaide Mór d’Alfeizarão e Governador Militar de Penafiel em 1828, preso em Penafiel, aonde deu dinheiro para ser solto, e lhe comerão o dinheiro sem o soltar, até que remettido para o Porto, lá foi solto. – 51 - Antonio Teixeira Coelho, Cav. de Ch., Alcaide Mór d’Alfeizarão e Capitão Mór de Bemviver [sic], culpado e perseguido desde 1834 até 1837 sem que elle offendesse um só liberal no tempo de D. Miguel».
                Dissipados os ventos de guerra, os documentos atestam a presença de ambos na Casa da Gandra, a propriedade da família, já na segunda metade do século XIX (AMP, pp. 637 e 1029).




Fontes impressas:

ARQUIVO MUNICIPAL DE PENAFIEL, Inventário do Acervo Documental do Morgado da Aveleda, Câmara Municipal de Penafiel, Penafiel, 2011. PDF disponível em https://www.cm-penafiel.pt/wp-content/uploads/2016/10/Inventario_Morgado_Aveleda1.pdf.

GONÇALVES, Iria, O Património do Mosteiro de Alcobaça nos Séculos XIV e XV, Lisboa: Universidade Nova de Lisboa, 1989.

Gazeta de Lisboa, nº 172, de 23 de Julho de 1829, Lisboa, Impressão Régia.
Gazeta de Lisboa, nº 196, de 20 de Agosto de 1829, Lisboa, Impressão Régia,
 O Ecco – Jornal Critico, Litterario, e Politico, n.º 197, de 20 de Junho de 1837, Lisboa, Typografia de A. I. S. de Bulhões


Fonte Manuscrita:
LIVRO DE PRIVILEGIOS, JURISDIÇÕES, SENTENÇAS, IGREJAS DESTE REAL MOSTEIRO DE SANTA MARIA DE ALCOBAÇA (DGA/TT, Ordem de Cister, Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, liv. 92)


José Eduardo Lopes Coutinho

Novembro de 2018

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

O assento de baptismo de Vitorino Fróis




Na margem do assento:
<Quinta de São Joze, N.º12, 12 de Abril de 1862>
<Victorino, filho de Joze Victorino da Fonseca Froes>
<Foi-lhe passada a cédula Pessoal com o Nº23616, 10-7-1924, P.e [João de Matos] Vieira>
<Registou-se n/conservatória Lisboa, 11-11-33, Livro 418, Fl: 353, nº 553. Óbito: 22-7-34, Caldas da Rainha, P. Vieira>

O assento:

«Aos doze dias do mez de Abril do Anno de mil oito centos e secenta e dois, pelo meio dia, na Igreja Parochial de São João Baptista d’Alfeizarão, Concelho de Alcobaça, Districto Eclesiastico d’Óbidos, Diocese de Lisboa, Eu, o Presbitero Antonio da Conceição Pires, Prior Encommendado da mesma freguezia, baptizei  solemnemente e pus os Santos Olleos a huma criança do sexo masculino a que dei o nome de Victorino, que nasceo ás quatro horas do dia dois do ditto mez e anno, filho legitimo primeiro do nome de Joze Victorino da Fonceca Frois, de profissão lavrador, e de Dona Maria Joanna d’Avelar Froes, recebidos na Freguezia de São Martinho do Porto e parochianos della, moradores na Quinta de São Joze, nepto paterno de Victorino Joze Frois e Dona Maria Joze da Fonceca Fróis, e materno de Antonio d’Avelar e Dona Anna Joaquina Garcia Avelar. Padrinho, Francisco Gomes d’Avelar, tio materno, cazado, proprietário e morador na villa de São Martinho, e a madrinha Dona Maria Joze da Fonceca Fróis, avó paterna, viúva, e moradora na villa d’Alcobaça. E para constar lavrei em duplicado o presente assento de baptismo, que depois de ser lido e conferido perante os padrinhos, com todos o assignei. Era ut supra».
[assinaturas do prior e dos padrinhos: O Presbítero Prior António da Conceição Pires; Francisco Gomes d'Avellar; Maria José d'Afonçeca Froes]

Fonte: Registos de baptismo da freguesia de Alfeizerão, 1858-1864 (ADLRA, IV/24/B/37, fls. 47r-47v)


sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Recurso: as «Antiguidades romanas de Alfeizerão», o artigo de José Carvalhaes (1903)

Os achados romanos no Pedrógão, cômoro cheio de mato que ainda lá se encontra na margem esquerda do rio, junto ao Casal da Ponte, e uma prospeção arqueológica realizada pelo arqueólogo nas Ramalheiras. Vestígios arqueológicos e epigráficos romanos em Alfeizerão e freguesia foram assinalados em diversas épocas e por diferentes autores, mas tirando o que se conservou em museus ou na posse de particulares, muitos desses vestígios estão confiados à terra à espera que os escavem e estudem, enquanto muitos outros terão desaparecido já diante de depredação movida por interesses económicos e imobiliários.

CARVALHAES, José, "Antiguidades romanas de Alfazeirão", in O Archeologo Português, Vol. VIII, n.º 4, pp. 90-93, Janeiro de 1903, edição do Museu Ethnologico Português, Lisboa, Imprensa Nacional, 1903







terça-feira, 3 de outubro de 2017

O delíquio do rei, a quinta de Silvério da Silva e uma oferta abadesca



              As Caldas da Rainha, a sua história e o seu património cultural, está fortemente vinculada à figura do rei D. João V, que a ela acorreu em busca de cura ou paliativo para as sequelas de um ataque de paralisia:
                «Quinta-Feira, 10, do corrente [mês de Maio], pelas 4 horas da tarde sobreveyo a ElRey nosso Senhor hum delíquio, que brevemente se deu a conhecer por ataque de Paralysia, porque lhe debilitou a parte esquerda do corpo, porém sem febre alguma, e deixando-lhe sempre o entendimento e a fala livres, de sorte que logo se confessou. Com os remedios que se deram a Sua Mag. se achou na manhan seguinte mais aliviado da cabeça. E nam só pedio o Viatico, que na mesma manhan se lhe administrou; mas também, sem outro impulso que o da sua piedade, quiz receber as absolvições in articulo mortis do Nuncio de Sua Santidade e dos Comissários das Ordens Terceiras de S. Francisco e do Carmo» (“Gazeta de Lisboa”, Num. 20, Terça feira 15 de Maio de 1742)
                O mesmo periódico, a 6 de Junho, informa que «Sua Magestade continua com grande melhora na sua queixa e para se lhe limpar qualquer residuo da sua molestia, se lhe tem receitado os banhos das Caldas chamadas da Rainha, para o que se tem mandado fazer todas as disposições convenientes» (“Gazeta de Lisboa”, Num. 26, Terça feira 26 de Junho de 1742).
                As disposições incluíam ordens para a reparação das estradas por onde o rei iria viajar e a construção de palácios de madeira na vila termal para alojamento da corte (GUIMARÃES, 1875, p. 235).
                D. João V iniciou a sua viagem para as Caldas a 9 de Julho, primeiro de bergantim até ao porto de Vila Nova de Rainha, e daí, num coche preparado para a ocasião, fez o resto da viagem até às Caldas, passando por Alenquer. Chegado á igreja do Senhor da Pedra, em Óbidos, apeou-se, mandou sair os fiéis que estavam na igreja, e nela entrou para orar. Nas Caldas, onde chegou a 10 de Julho, parou também diante do hospital para rezar à imagem da Senhora do Pópulo (PIMENTEL, 1892, p. 239). O rei hospedou-se em casa de António de Lima, contígua à do desembargador João de Proença, onde a rainha, que viajou depois dele, se aposentou, criando-se um passadiço entre os dois prédios. O infante D. Francisco ficou acomodado na quinta de Bernardo Freire (depois conhecida por Quinta das Janelas), enquanto os filhos naturais de D. João V ficaram hospedados na Quinta de Silvério da Silva em Alfeizerão (PIMENTEL, id.; GUIMARÃES, id.), ou seja, Silvério da Silva da Fonseca Salvado (1699-1788), senhor da casa de Alcobaça, pai de Manuel Pedro da Silva da Fonseca, e avô de outro Silvério da Silva da Fonseca, nascido no ano do terramoto. Os ditos “filhos naturais” de D. João V são os seus filhos ilegítimos, nascidos de mães diferentes, que o rei reconhecerá por um decreto emitido nas Caldas a 6 de Agosto (o "Decreto porque S. Majestade houve por bem declarar três filhos ilegítimos”), mas que só se tornará oficial dez anos depois.
                Conta Ribeiro Guimarães: «Os frades de Alcobaça, apenas a corte chegou às Caldas, enviaram-lhe um presente que constava do que se segue – 69 vitelas, 194 presuntos, 182 queijos, 210 perus, 692 galinhas, 12 cargas de fruta, 36 paios, 333 caixas com doces – dividindo pelas pessoas reais e indivíduos da corte aquelas comedorias». O rei também destinou parte da oferenda aos frades das Gaeiras, e prodigalizou em todas as direções generosas donativos e presentes, a enfermeiros, médicos, anfitriões, dignitários e religiosos das Caldas, à igreja matriz das Caldas e á igreja do Senhor da Pedra.
                Sentindo algumas melhoras nas Caldas (onde voltará mais doze vezes), o rei D. João V regressa a Lisboa no dia 16 de Agosto. Durante esse período de tempo, sucede um acontecimento funesto, a morte do infante D. Luís, comunicada nestes termos pela Gazeta de Lisboa (nº 30, de 24 de Julho de 1742): «O Sereníssimo Senhor Infante D. Francisco, estando de cama por haver molestado uma perna ao apear-se do coche, lhe sobreveyo na terça feira huma colica, acompanhada de dores tam violentas que poz em cuidado aos Medicos. Na quarta feira se lhe aplicou o remedio da sangria, e se moderou a sua queixa até quinta feira, em que o mal se aumentou, reforçado com huma grande febre, a que nam aproveitou a aplicaçam das sarjas [incisões para sangria]; e depois de fazer todas as disposiçoens de Príncipe mais pio, resignado na vontade do Senhor, lhe entregou o espírito pelas oito horas e hum quarto da noite de Sábado, 21 do corrente».


Obras referidas:
GUIMARÃES. J. Ribeiro, Summario de Varia História, v. 5º, Lisboa 1875.

PIMENTEL, Alberto, As amantes de Dom João V - estudo histórico, Lisboa, Tipografia da

                      Academia Real das Ciências, 1892