sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

O «Numeramento» de 1527-1532

O primeiro grande recenseamento da população portuguesa foi ordenado por D. João III e teve início em 1527, sendo realizado sistematicamente comarca a comarca. O historiador António Borges Coelho (Coelho, 2013: 113), sintetiza assim a sua elaboração: «Um escrivão percorria pessoalmente as cidades, vilas e concelhos e ouvia, sob juramento, dois homens-bons de cada lugar principal, que numeravam os chefes de família. Deveriam socorrer-se também dos livros das sisas. Lavravam por fim um auto. O Numeramento é o traslado geral dos diferentes autos».

     Este Numeramento na comarca da Estremadura começa com o enunciado do escrivão Jorge Fernandes: Registro das çidades vilas e logares que ha em esta comarqua da Estremadura e dos moradores que ha em cada hum delles.O qual se fez por mandado del Rey noso senhor. Feito por Jorge Fernandez escrivão da chancelaria da dita comarqua. Foy começado aos 15 dagosto em a çidade de Coinbra do anno de noso Senhor Jhesu Christo de 1527 annos.

     O Numeramento da comarca da Estremadura foi transcrito e publicado por Anselmo Braamcamp Freire (FREIRE, 1908). Dessa transcrição reproduzimos os informes relativos às terras dos Coutos de Alcobaça e às vilas de Salir do Porto, Caldas e Óbidos, vizinhas dos Coutos e que contavam com terras que foram alvo da cobiça do mosteiro e andaram em litígio jurídico, caso da Serra do Bouro ou Tornada. Copiamos a transcrição de Braamcamp Freire de forma quase integral, com raras alterações, como sejam as palavras escrivão e escrevy no lugar de esprivão e esprevy.

     Importa precisar, a partir do estudo de Virgínia Rau sobre a história da população portuguesa nos séculos XV e XVI (in Rau, 1985: 96-127) que a leitura dos dados do Numeramento deve ter em conta que estamos perante a contagem, não de indivíduos, mas das famílias existentes em cada terra, famílias que podem ser designadas diversamente por vizinhos, fogos, ou moradores. Daí se mencionar o número de privilegiados e clérigos regulares, que eram transcendentes à finalidade do Numeramento, ou esclarecer quando a família tinha à cabeça uma viúva, ou o número de vezes em que isso acontecia numa dada localidade, porque essa família deixava de contar para as necessidades militares do reino ou ser invocada para os encargos do concelho.

     Expomos na tabela infra os dados do recenseamento de 1527. Numa interpretação superficial podemos constatar que grande parte dos Coutos de Alcobaça tinham uma população modesta e dispersa pelo território. Apenas 4 concelhos possuem uma população próxima ou superior a 200 fogos, enquanto outros quatro abaixo deles rondam os 100 fogos. No que toca à sua distribuição, é de realçar que em cinco concelhos (São Martinho, Alcobaça, Santa Catarina, Alvorninha e Salir de Matos), viviam menos pessoas na vila do que no seu termo, em aldeias, casais e quintas: com particular destaque para a Alvorninha, onde apenas 14 das 108 famílias do concelho viviam dentro da vila.

 

Fontes:

COELHO, António Borges (2013) – “Na Esfera do Mundo” – in História de Portugal, IV, p. 113, Editorial Caminho, 2013

FREIRE, Anselmo Braamcamp (1908) - Archivo Historico Portuguez, vol. VI – Anno de 1908, pp. 248-251, Oficina Tipográfica Calçada do Cabra, 7, Lisboa

RAU, Virgínia (1985) – Estudos de História Medieval, pp. 96-127, Lisboa, Presença, 1985

 

 

No corpo da vila

No seu termo

Total

Alcobaça

127

159

286

Aljubarrota

163

45

208

Pederneira

176

21

197

Évora de Alcobaça

146

29

175

Cela

104

8

112

Alvorninha

14

94

108

Santa Catarina

31

69

100

Maiorga

87

13

100

Alfeizerão

60

23

83

Cós

38

29

67

Turquel

36

21

57

Paredes

27

--

27

Salir de Matos

5

11

16

São Martinho

4

9

13

 

Óbidos

160

916

1076

Caldas

70

16

86

Salir do Porto

15

1

16

 



A diversidade social na Lisboa de 1570. O designado Quadro do Chafariz d'el Rei, de autor desconhecido 
(Colecção Berardo)

A vyla de Coz
     It. A vila de Coz, que he do mosteiro dAlcobaça, tem 38 vizinhos no corpo da vila.      Títolo do seu termo. – It. Aldea da Castanheira tem 22 vizinhos. – Aldea da Povoa, 7.     Esta vila tem de termo pera a parte dAlcobaça hum quarto de mea legoa, e pera a parte dAlcobaça [sic] outro tanto.     Parte cõ as vilas dAlpedriz e Porto de Mos e Aljubarrota; e isto me enformei cõ Bastiã Machado, juiz na dita vila de Coz, a 9 de Setembro de 1527 – Jorge Fernandez o escrevy.     Soma ao todo, 67 vizinhos. 

A vyla dAljubarrota
     It. A vila dAljubarrota, que he do mosteiro dAlcobaça, tem 163 vizinhos no corpo da vila.     E tem de termo as aldeas segintes: – It. Aldea dos Chãos e Cumeira tem 15 vizinhos. – Aldea da Tayja de Cima, 10. – Aldea do Carvalhal, 13, – Aldea da Chaqeda, 7.     Esta vila dAljubarrota tem de termo pera parte de Porto de Mos hum quarto de mea legoa.     Parte com Coz e Porto de Mos e Maiorga e Alcobaça.     Soma ao todo, 208 vizinhos. 

A vyla da Pederneyra
     Aos 9 dias do mes de setembro do ano de nosso senhor Jhesu Christo de 1527 annos fuy a vila da Pederneira, que he dos coutos dAlcobaça, e ahi me enformei do contheudo na carta de Sua Alteza, sendo presente os juizes da dita vila e outras muitas pessoas, e achei o segimte: Jorge Fernandez o escrevy. – It. A vila da Pederneira tem 176 vizinhos no corpo da vila, dos quaes sã 7 clerigos.     Tem de termo: – It. A aldea da Serra e casaes em que ha 21 vizinhos.     E tem de termo pera a parte d’Alfeizerãom huma legoa, e pera a parte dAlcobaça tem de termo mea legoa.     Parte cõ as vilas dAlfeizerãom e Alcobaça e as Paredes.     Soma ao todo, 197 vizinhos. 

A vyla de Sã Martinho
     No dito dia atras me informey dos moradores da vila de Sã Martinho, que he dos coutos dAlcobaça, cõ Domingos Martinz, escrivão, e achei aver o segimte: – Jorge Fernandez o escrevy. – A vila de Sam Martinho tem 4 vizinhos no corpo da vila.     Tem este termo: It. O casal dos Gagos em que há 6 vizinhos. – No casal de Fernandeanes, 2. – O casal de João de Sã Martinho, 1.     Esta vila de Sam Martinho tem de termo ao redor de si mea legoa.     Parte cõ as vilas dAlfeyzerãom e cõ a Pederneira e cõ o maar.     Soma ao todo 13 vizinhos. 

A vyla dAlfeizerãom
Coutos dAlcobaça
     Em o dito dia 9 de setembro me informei dos moradores e termo da vila Alfeizerão cõ Dominguez Martinz e achey aver o segimte - Jorge Fernandez o escrevy. – It. A vila dAlfeizerãom, que he dos coutos dAlcobaça, tem 60 vizinhos no corpo da vila.     Tem o termo seginte: – Aldea de Familicãom e casaes do Raposo e quintã da Maqarqua tem 23 vizinhos.     E tem de termo pera a parte de Sãta Caterina huma legoa, e pera a parte da Pederneira outra legoa, e pera o mar e Salir do Porto mea legoa.     Parte cõ as vilas das Caldas e Salir do Porto e cõ a Pederneira e Sãta Caterina.     Soma ao todo, 83 vizinhos. 

A vila da Mayorga
     Aos dez dias do mes de setembro do anno de Nosso Senhor Jhesu Christo de 1527 annos fui a vila da Mayorga, que he dos coutos dAlcobaça, e cõ Joam Anes, juiz, e outras muitas pessoas me informei, e achei o seginte: Jorge Fernandez o escrevy. – It. A vila da Maiorga tem 87 vizinhos no corpo da vila.     Titolo do termo da dita vila: It. Aldea da Bemposta tem 8 vizinhos. – O casal da Figeira, 4. – A qintã do Licenciado Alvaro Martinz, ouvidor dAlcobaça, 1.     Tem de termo pera a parte da vila de Coz hum quarto de mea legoa, e pera Alcobaça tem outro tamto, e pera o casal da Figeira tem mea legoa de termo.     E parte cõ as vilas de Coz e Aljubarrota e Alcobaça e Pederneira.     Soma ao todo 100 vizinhos. 

A vila dAlcobaça
que se chama o julgado
     Aos 11 de setembro do dito ano fuy a vila dAllcobaça e cõ Joham Pirez, e Affonso Pirez, tabellião, e outros tomei enformação do cõtheudo na carta de Sua Alteza, e achei o seginte: – It. A vila de Alcobaça tem no corpo da vila 127 vizinhos.     Tem o termo segimte: It. Aldea de Pataias tem 11 vizinhos. – Casaes da Ribeira de Pinheiro e Fanhaes, 18. – Aldea do Valado, 24. – Aldea da Vestearia e casaes, 39. – Os casaes da Mata e Mõte de Bois e Valbom, 67.    Esta vila tem de termo pera a parte da vila de Leiria duas legoas, e pera a parte de Samta Caterina tem duas legoas de termo, e pera Evora dAlcobaça hum meo quarto de mea legoa.     Parte esta vila cõ as vilas dAljubarrota e Maiorga e a vila da Cela e Sãta Catarina e Pederneira e Alfeyzerãom. Jorge Fernandez o escrevy.     Soma ao todo, 286 vizinhos. 
 A vyla das Paredes
     A vila das Paredes, que he dos coutos dAlcobaça, tem 27 vizinhos dos quaes sã 8 viuvas.     Esta vila nõ tem nhum termo nem aldeas.     Parte cõ a vila de Leiria e cõ a Pederneira e cõ ho mar onde esta pegada.     Soma, 27 vizinhos.
A vila dEvora d Alcobaça
     It. A vila dEvora dAlcobaça tem 146 vizinhos no corpo da vila, dos quaes sam 31 viuvas.     Tem o termo seginte: – It. Aldea dos Cadavaes tem 8 vizinhos e mais huma viuva. – Aldea do Arrieiro, 16. – Aldea dos Marroos, 6. – Casal do Beqoro, 2.     Esta vila tem de termo pera a parte de Turuqel hum quarto de mea legoa, e outro tamto pera a parte dAljubarrota e outro tanto pera Alcobaça.     Parte cõ Turuqel e cõ Alcobaça e cõ Aljubarrota. – Jorge Fernandez o escrevy.     Soma ao todo, 175 vizinhos. 
A vila de Turuqell
     It. A vila de Turuqel, que he dos coutos dAlcobaça, tem 36 vizinhos de que sam 9 viuvas.     Tem o termo segimte: – It. Aldea dos Camdieiros e casaes, 21 vizinhos.     Esta vila tem de termo pera a parte dEvora dAlcobaça mea legoa, e pera Sãta Caterina hum terço de mea legoa, e pera o termo de Samtarem tem mea legoa, e pera a parte da vila dAlcanede tem huma legoa.     Parte com as vilas dEvora dAlcobaça e Sãta Caterina e cõ ho termo de Samtarem. – Jorge Fernandez o escrevy.     Soma ao todo, 57 vizinhos.
A vila de Samta Caterina
     It. A vila de Samta Caterina, que he dos coutos dAlcobaça, tem no corpo da villa 31 vizinhos.     Titolo do termo desta vila: – It. Aldea da Granja a Nova tem 8 vizinhos. – Aldea do Bairro da Figeira, 10. – Aldea do Pego, 7. – Aldea da Ramalhosa, 8. – Aldea do Azãbujall, 8. – Aldea das Antas, 6. – Aldea do Carvalhal, 10. – Aldea das Mostas, 6. – A quintã de Lopo Diaz, 1. – O casal da Ribeira Fria, 2. – O casal da Fonteqente, 1. – O casal de Joham Diaz, 2.     Esta vila de Samta Caterina tem de termo pera a parte de Sãta Caterina mea legoa de termo, e outro tanto pera a parte de Santarem e Turuqel.     Parte cõ ho termo de Samtarem e cõ o julgado dAlcobaça, e cõ a vila de Alfeyzerãom e cõ a vila de Salir do Mato. – Jorge Fernandez o escrevy.     Soma ao todo, 100 vizinhos.
A vila da Cela
     A 12 de setembro do ano de Noso Senhor Jhesu Christo de 1527 anos fui a vila da Cela e cõ João Braz, juiz, e Alvaro Martinz, escrivão da camara, me enformei do comtheudo na carta de Sua Alteza, e achei o seginte: – It. A vila da Cela, que he dos coutos dAlcobaça, tem 104 vizinhos no corpo da vila, dos quais sã 20 viuvas.     It. O casal do Barrio e Valbom e o casal da Galega e o da Biqa, 6 vizinhos. – O casal da Morteira e o da Cela Velha, 2.     Esta vila da Cela tem de termo pera a parte dAlcobaça mea legoa, e pera a parte da vila dAlfeizerãom mea legoa.     Parte cõ as vilas dAlfeizerãom e Pederneira e Alcobaça. – Jorge Fernandez o escrevy.     Soma ao todo, 112 vizinhos.
A vila dAlvorninha
     It. A vila dAlvorninha, que he dos coutos dAlcobaça, tem no corpo da vila 14 vizinhos cõ quatro viuvas.     E tem de termo: – It. Aldea dos Vidaes em que ha 14 vizinhos. – Aldea dos Mosteiros, 6. – Aldea da Trabalhia cõ casal de Gibaltar, 12. – Aldea da Mouta, 9. – Aldea dAlmofala, 16. – Aldea dAlvorninha Pequena, 8. – Aldea da Suaria cõ a Malazia, 6. – O casal do Outeiro e casaes ahy juntos, 21. – As quintãas do Paço e Val Fermoso, 2.     Esta vila dAlvorninha tem de termo pera a parte de Santarem e Obidos huma legoa em lomgo e mea legoa ao traves.     Parte cõ as vilas dObydos e Samtarem e cõ Salir do Mato. – Jorge Fernandez o escrevy – Segundo mais compridamente fica asinado no próprio.     Soma ao todo 108 vizinhos.
A vila de Salir do Mato
     It. A vila de Sallir do Mato, que he dos coutos dAlcobaça, tem no corpo da vila 5 vyzinhos.     E tem o termo seginte: – It. Aldea das Trabalhias, 4 vizinhos. – Em Barãtes, 2 – Em o casal do Gisado e do Infante e na Feteyra, 5.     Esta vila tem de termo huma legoa em largo e em redondo.     Parte cõ as vilas dAlvorninha e Sãta Caterina e Alfeizerão. – Jorge Fernandez o escrevy. – Segundo mais conpridamente fiqa asinado por as pessoas cõ que tomey esta enformação no proprio.     Soma ao todo, 16 vizinhos.
A vyla de Salyr do Porto

Da Rainha Nossa Senhora
     It. A vila de Salyr do Porto tem no corpo da vila 15 vizinhos. – He del Rey Nosso Senhor.     E tem o termo segimte: – It. Os moinhos dAugoa Salgada, 1 vizinho.     Esta vila nõ tem nhuma aldea de termo e tem mea legoa de termo por a charneqa.     Parte cõ a vila dObidos e com ho maar, segundo mais conpridamente fiqa asinado por o tabelliam da dita vila no próprio – Jorge Fernandez o escrevy.     Soma ao todo, 16 vizinhos.
A vila das Caldas 

Da Rainha Nossa Senhora
     A vila das Caldas, que he delRei Nosso Senhor, tem no corpo da vila 70 vizinhos, dos quaes sam 6 clerigos e 10 viuvas e o mais he povo.     E tem o termo segimte: – It. Aldea do Casal Novo tem 8 vizinhos. – O casal do Campo, 2. – O casal do Avenal, 1. – Tres moendas do Cubo e Acenha Nova e Acenha dos Matos, 3 vizinhos.     Esta vila das Caldas tem de termo mea legoa ao redor da vila pera todas as partes.     Parte cõ o termo da vila dObidos. O qual termo çerqua toda esta vila de maneira que as Caldas fiqã de dentro do lemite do dito termo dObidos, e por assi ser assinarão no próprio o juiz e escrivão das Caldas a 12 de setembro de 1527 – Jorge fernandez o escrevy.     Soma ao todo, 86 vizinhos.
A vila dObidos

Da Rainha Nossa Senhora
     It. Aos 12 dias de setembro do ano de nosso Senhor Jhesu Christo de 1527 anos fui a vila dObidos e na camara da dita vila, sendo presentes o juiz e vereadores, lhes mostrei a provisam delRei noso Senhor e cõ eles soube o segimte: It. A vila dObydos tem 160 vizinhos no corpo da vila, dos quaes sam 6 cavaleiros e 16 escudeiros e 23 clerigos e 41 viuvas, e o mais he povo.     Titolo do termo desta vila: It. Aldea do Arelho tem 37 vizinhos, – Aldea da Useira 15. – Aldea da Gorda, 25. – Aldea do Soveral da Lagoa, 15. – Aldea dAmoreira, 40, cõ os moinhos jumtos dele, de que sã 5 escudeiros. – Aldeia do Vaao, 6. – Aldea dOlho Marinho, 17. – Aldea dos Baraçaes, 18. – Aldea da Rouriça, 24, cõ Diogo de Melo de Castelbrãco, que esta na sua quintã de Tiritana. – Aldea da Coroubeira, 24. – Aldea dAzanbujeira, que também ficou por escrever, 5. –Aldea do Regengo Grãde, 28. – Aldea do Regengo Peqeno, 16. – Aldea do Moledo e Sã Lourenço, em que estam huns paços antigos delrei noso senhor de mõtaria e os moradores deste logar sã priviligiados, 26 vizinhos. – A quimtã do Bispo de Tamjere, de Sã Lourenço, 1. – Lameyra e Paço, 6. – Aldea da Mouta, 25. – Aldea do Bonbarral, 61 vizinhos (na verdade sam 85 os vizinhos em que entram 15 cavalleiros e escudeiros). – Aldea do Sanginhal, 14. – Aldea de Famães, 7. – Aldea dos Ruivos, 25. – Aldea do Carvalhal, 53, é que sam 7 escudeiros e 2 clerigos. – Aldea do Soveral do Perelhã, 7. – Aldea da Delgada, 10. – Aldea do Borrocalvo, 16. – Aldea dos Negros, 20. – Aldea da Samcheira, 18, é que sã 2 escudeiros. – Aldea do Framqo, 30, cõ hum clerigo. – Aldea do Lamdal, que he da hordem de Sam Joham, 31. – Aldea de Sam Gregorio, 32. – Aldea da Fanadia, 9. – Aldea da Rabaceira, 12, cõ Alonso Anriquez que vive na sua quintã de Casevel. – Aldea de Cotem, 16. – Aldea da Motoeira, 12. – As aldeas do Coto e Valle, 23. – Aldea de Cornaga, 16, cõ hum clerigo. – Aldea do Chão da Parada, 18. – Aldea da Serra do Bouro, 26, cõ huma quintã do doutor Luis da Veyga, desembargador, que tem hos direitos desta aldea. – A quintã da Fooz de dona Giomar, molher que foi de dõ sancho, 2. – Aldea do Carregal e casaes, 12. – Aldea de Tras o Outeiro cõ aldea do Bairro, 20. – O casal da Figeira, 3. – Aldea das Gaeiras, 16.     Esta vila dObidos tem de termo pera a parte de Lixboa duas legoas e mea, e pera a parte da vila de Samtarem outras duas legoas e mea, e pera a parte da vila dAtougia tem huma legoa e mea de termo, e pera a parte de Salir do Porto tem duas legoas e mea do termo, e pera a parte de Torres Vedras tem de termo duas legoas e mea.     Parte esta vila dObydos cõ as vilas dAtougia da Balea, e cõ a vila da Lourinham e cõ a vila de Torres Vedras e do Cadaval, que já foi termo desta vila dObidos, e cõ a vila de Santarem e cõ a vila dAlvorninha, que já foi termo da dita vila e agora he dos coutos dAlcobaça, e cõ a vila de Salir do Porto, que já tambem foi seu termo a qual se danifiqa muito ora; e a vila das Caldas jaz de demtro do termo dObidos e fiqa toda cerqada ao redor, e foi já termo dObidos. E por asi ser verdade escrevi e eles o asynarão no próprio que em meu poder fiqa –Jorge Fernandez o escrevy.Soma os moradores dObidos e seu termo 1023 vizinhos. E mais 3 aldeas, que faleciam, em que há 25 vizinhos. E no Bombarrall sam mais 24 vizinhos. E mais aldea dAzãbujeira, que ficava, que tem 5 vizinhos. Sã ao todo, 1076 vizinhos.




quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

A terra de infindo sal: a «Lamentação da Mula» de Henrique da Mota


Henrique (ou Anrique) da Mota

     Quando Garcia de Resende publica em 1516 o seu Cancioneiro Geral, uma antologia poética dos reinados de D. Afonso V, D. João II e D. Manuel I, preservou nessa obra a quase totalidade da produção literária conhecida de Henrique de Mota.

     Henrique da Mota terá nascido no Bombarral numa data estimada entre 1470 e 1480 no seio de uma família possuidora de vinhas, pomares e pinhais. Na sua juventude, forma-se em Direito e exerce o cargo de Juiz de Órfãos em Óbidos. Foi escudeiro na corte de D. Manuel e em 1527 era escrivão da corte no reinado de D. João III e participa no recenseamento populacional do reino (o Numeramento de 1527-1532), mais propriamente em Lisboa e Coimbra; e é da cidade dos estudantes que dirige em 1528 uma carta ao monarca onde aborda o tema de D. Pedro e Inês de Castro, e que incluía um pequeno diálogo entre os dois amantes com algumas caraterísticas teatrais. Ainda era vivo em 1545, data da última referência documental que se lhe conhece.

     Das suas criações no Cancioneiro Geral, as mais importantes são cinco pequenas farsas, cujos títulos hodiernos parecem ter sido fixados por Leite de Vasconcelos: o Pranto do Clérigo, a Farsa do Alfaiate, a Farsa do Hortelão, a Lamentação da Mula, e o Processo de Vasco Abul.  A Farsa do Alfaiate (enunciada no Cancioneiro como Outras [trovas] suas a hum alfayate), foi considerada por Leite de Vasconcelos (Revista Lusitana, 1924) como «uma das mais antigas peças do teatro português». O teatro de Henrique da Mota releva a sua familiaridade com a vida, as personagens e os tipos desta região estremenha.

As criações de Henrique da Mota no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende

     Depois de algum menosprezo para com a obra de Henrique da Mota, os estudos de Leite de Vasconcelos, Neil T. Miller ou Andrée Crabée Rocha parecem situar o autor como um pioneiro na génese do teatro português. Qualquer um destes cinco poemas são para serem representados - são entremezes - e, apesar de algumas incertezas cronológicas, existe uma identidade cada vez mais nítida entre este conjunto modesto (mas essencial) de diálogos dramáticos de Henrique da Mota e a maturidade e a proficiência do copioso teatro de Gil Vicente. Andrée Crabée Rocha assinala na obra de Henrique da Mota a transição do género poético ao género dramático, escrevendo que ela nos dá a impressão de uma criança que balbucia primeiro e articula depois.


A Lamentação da Mula - enredo e significado

     Trovas d’Anrique da Mota a ũa Mula muito magra e velha que viu estar no Bombarral à porta de dom Diogo filho do Marquês e era de dom Anrique seu irmão, que ia em romaria a Nossa Senhora de Nazarete e levava nela um seu Amo.

     Assim se inicia a Lamentação da Mula ou Outras [trovas] a uma Mula, como é intitulado no Cancioneiro. A farsa desenrola-se em dois passos. Num primeiro, à porta de Dom Diogo, o diálogo estabelece-se entre Henrique da Mota e a esquálida mula, e no qual intervém também Gomes Henriques e o Amo da mula - conversa que termina com a partida destes dois para o santuário da Nazaré. Num segundo passo, indo Henrique da Mota uns dias depois a Alcoentre para se encontrar com Henrique, filho do Marquês, aí encontra de novo a Mula, que lhe conta detidamente as desventuras da peregrinação.

     Maria José Palla (Medir o tempo, medir as estações - a farsa vicentina e o Carnaval, p. 257, Lisboa, 2001) recorda que na Lamentação da Mula, o protagonista é um animal, símbolo do povo famélico, topoi que encontramos noutros textos dramáticos do século XVI (cf. Quem Tem Farelos). Num outro sentido, a mesma investigadora sugere que a Lamentação da Mula seria uma farsa para ser representada no período do Carnaval - a mula magra e esfomeada seria um símbolo da Quaresma.

     A primeira destas asserções parece-nos pertinente, porque são muitas as expressões no texto que a parecem confirmar, retratando uma mula que, à semelhança do povo, suporta trabalhos e passa fome e privações.

     A magreza e a fome da mula são evocadas em linhas satíricas: pela sua grã magreira não deveria ter dores de baço (v. 10-11); tinha feição de lamprea na longura da barriga pouco chea (v. 41-43); tende-los ossos mui altos e a carne mui somida (v. 91-92); a mula parece longa varanda / de taverna, trave longa muito panda / zambuco que se não manda / nem governa (v. 158-162).

     A identificação entre a mula magra e velha da farsa e o povo ganha consistência nalgumas passagens: quando foi d'Alfarroubeira, qu'andáveis [diz Henrique da Mota] na dianteira cos del rei; e conta a mula que havia nascido no tempo de D. Duarte e já quatro reis havia servido. E ela, a mula magra e ossuda a quem o Amo tomava a cevada, na despedida antes de partir para o santuário diz aos senhores do Bombarral: E a cousa principal / que a Deos peçais / qu'esta fome tam geral / que anda em Portugal / nam dure mais (v. 195-198). E como se falasse dos que trabalham, famintos, sob as ordens dos seus amos, lastima-se a Dom Diogo no regresso ao Bombarral: O senhor qu'esquecerá / logo se diga / ante que daqui se vá / que depois nam lembrará minha fadiga / todos teveram folgança / senhor meu neste caminho / cevada pão carne vinho / tudo foi em abastança / Todos andam em bonança / sem tromenta / senam eu sem esperança / qu'esta fome por herança / m'atormenta (v. 428-442).

Os lugares da viagem: Arelho, Salir, Alfeizerão, Famalicão, Pederneira, Alcobaça, Caldas

     Transcrevo um trecho da viagem da mula (v. 226-342) e do seu amo à Nazaré (no qual destacarei os topónimos), ao qual adicionei três notas miúdas. Esta, como as outras quatro farsas de Henrique da Mota, podem ser lidas no portal do Teatro de Autores Portugueses do século XVI. Em alternativa poderá ser consultada a versão eletrónica do Cancioneiro Geral no sítio da Biblioteca Nacional (já com alguns sinistros, ou "sinistristes", traços de censura).


e fomos ter no Arelho
onde lá esses senhores
e todos seus servidores
todos eram dum conselho:
linguado perdiz coelho
e em fim
muito branco e vermelho
e eu em um palheiro velho
por roim 


pois lá em Selir do Porto
que terra de fi de puta
de cevada mui enxuta
carecida de conforto.
Suei sangue ali no horto
com paixão
meu esforço ali foi morto
porém foi o grande torto
sem razão 


que vos juro de verdade
que como fomos chegados
todos foram apousentados
senam eu que grã maldade.
Nam haverem piadade
de meu mal
e de minha etiguidade
senam só Lopo d’Andrade
que me val 


o qual me deu por pousada
ũa casa muito fria
de vianda mui vazia
mui varrida e mui aguada.
E selada e enfreada
me deixarame a porta bem fechada
sem me dar de comer nada
se tornaram 


fiquei assi passeando
chorando minhas fadigas
em minhas obras antigas
como já case sonhando.
Muitas vezes sospirando
por comer
os galos todos cantando
e eu triste arrenegando
sem prazer 


senam quando ei-lo vem
c’ũa quarta dũa quarta
de farelos que mal farta
quem tam grande fome tem.
Mas eu disse: nam combém
d’enjeitar
este tam pequeno bem
por que nam fique aquém
de cear


fomo-nos Alfeizirão [Alfeyziram]
onde há infindo sal (1)
nam levei eu dali al
senam dor de coração.
Dali a Famalicão [Famalycam]
nam tardámos
que nome de maldição (2)
que nem cevada nem pão
nam achámos 


e dali a Pederneira
levei um bom suadoiro
mas eu nam levava coiro
no lombo nem na cilheira.
Levava mui grã peteira
na barriga
muita fome grã lazeira
e cheguei desta maneira
com fadiga 


bem disse o sabedor:
hoje mal e pior crás (3).
Se eu mal passei atrás
ali foi muito pior.
D’area lá meu senhor
fartar me manda
ela tem mui gentil cor
mas dai ò demo o saborda vianda 


tomámos outra jornada
lá caminho d’Alcobaça
eu lavava pouca graça
porqu’ia mui esfaimada.
Ali fui atormentada
nesta via
e na cruz mui marteirada
com a sela bem lograda
que corria 


fiquei muito descansada
quando me vi no moesteiro
em poder do estribeiro
de poder deste tirada.
E fiquei mui espantada
quando vi
cevada já debulhada
ante mim apresentada
que comi 


tive muitas alegrias
os dias qu’ali passei
nam sei quando tais três dias
em meus dias passarei.
Grã saudade tomei
na partida
e partindo comecei:
oh quam pouco que logrei
esta vida 


assi triste lamentando
me parti e sem prazer
outros mil males passando
que nam são pera dizer.
Às Caldas viemos ter
sem tardar
perguntei por mais saber:
estas águas tem poderde m’engordar?



(1) A Alfeizerão de infindo sal fixa em verso as prósperas salinas da vila, e de imediato a Mula diz que não levou dali outra coisa senão dor de coração, sugerindo a identidade semântica entre a dor e o sal das lágrimas.

(2) O nome de maldição de Famalicão pode ter uma explicação simples, que resulta ser a sua semelhança fonética com famélico. Na terra com esse nome aziago, a Mula não descobriu cevada nem pão.

(3) Provérbio que usa o advérbio latino cras, amanhã; o que será como dizer: Hoje mal e pior amanhã.
Outra forma literária do provérbio é: hoje mal e cras empiora.





Fontes utilizadas

ESTEVES, Elisa, O Vinho na Poesia Menor de Anrique da Mota, Colóquio Internacional NVNC EST BIBENDVM. Vinho. Identidades e Arte de Viver, Universidade Nova de Lisboa, 13-15 de Dezembro 2012

MILLER, Neil T. (Apresentação e estudo), Obras de Henrique da Mota - As origens do teatro ibérico, Livraria Sá da Costa, Lisboa, 1982.

PALLA, Maria José, Medir o tempo, medir as estações - a farsa vicentina e o Carnaval, Revista da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, n." 14, p. 257, Edições Colibri, Lisboa, 2001.

REBELLO, Luíz Francisco, O Primitivo Teatro Português, Biblioteca Breve, volume 5, Instituto de Cultura Portuguesa, 1997.

RESENDE, Garcia de, Cancioneiro geral : cum preuilegio / [Foy ordenado e eme[n]dado por Garcia de Reesende fidalguo da casa del Rey nosso senhor e escriuam da fazenda do principe]. - Almeyrym e acabouse na muyto nobre e sempre leall cidade de Lixboa : per Hermã de Cãmpos, 28 Sete[m]bro 1516