domingo, 11 de outubro de 2026

Em 1922, a visita à prisão de Alcobaça e um crime atroz cometido em Alfeizerão

   O jornal "A Região" (Ano 1, n.º 5, p. 3, Leiria, 19 de março de 1922), regista uma visita efetuada à prisão de Alcobaça, com os nomes dos presos e os seus crimes e penas; casos bem reais que, por vezes, parecem evocar algumas situações mordazes das páginas d'As Farpas.

   Copiamos o texto desse artigo. 

   Na primeira frase, quando se menciona a "obra piedosa de visitar os encarcerados", a referência em epígrafe são as 14 Obras da Misericórdia, 7 corporais e 7 espirituais; sendo a 6.ª Obra Corporal, precisamente, "Visitar os presos". Por curiosidade, no Compromisso da Misericórdia de Lisboa (1516, fl. 2v), esta Obra Corporal figurava como sendo a primeira: «A primeira he. Remijr catiuos e visitar os presos».

   Na introdução, também se diz que se encontravam detidas 19 pessoas, entre homens e mulheres, mas no artigo apenas se entrevista 13 delas, todas do género masculino.

 


  Visita a presos

   Porque afazeres da nossa vida nos levassem a Alcobaça, quizemos realizar esta obra piedosa de visitar os encarcerados. É uma visita pouco agradavel, o meio não é convidativo e quem a realisa já sabe previamente que se vai pôr em contacto ou com criaturas inocentes que, sem culpas, estão sendo vítimas duma injustiça, o que é doloroso, ou com criaturas que ali estão pagando as culpas de seus crimes, criaturas cuja convivência nos não traz qualquer espécie de prazer. Realisamos porém essa visita, entramos na cadeia que é, no género, uma casa como as outras, com corredores, compartimentos, chaves e grades de ferro. Inquirimos do número de presos — eram 19, entre homens e mulheres.

   Com alguns nos avistámos, averiguamos dos motivos da sua atual situação e ouvimos o que eles nos disseram, uns aparentemente satisfeitos da sua vida, outros esprimindo no vincado das faces as dores morais provenientes dum remorso ou duma injustiça.

   O primeiro que ouvimos foi Francisco Rodrigues Franco, de 23 anos, do lugar da Castanheira, freguesia de Cós, que aguarda julgamento porque sobre ele pesa a acusação de têr disparado uma espingarda sobre um automóvel que passava. Tem como advogado o sr. Dr. Alberto Henriques Vila Nova e nega que tal tivesse feito.

   A seguir, José Feliciano Ferreira, de 20 anos, da freguesia de Pataias, que está cumprindo a pena de 4 ou 6 anos por ter ajudado a matar um indivíduo á paulada. Está preso há 11 meses e aguarda com rezignação o tempo que lhe falta cumprir.

   Joaquim da Cruz Mota, 22 anos, também de Pataias, condenado em 6 ou 10 anos pelo mesmo motivo.

   Frederico dos Santos Remédios, 24 anos, da Nazaré, que foi condenado em 2 ou 3 anos porque com uma facada matou um indivíduo. Não reputa justa a sua condenação porque, segundo diz, foi uma briga em que ele levou 10 facadas e deu apenas uma. Por isso apelou para o Tribunal de Coimbra e aguarda o fim da questão.

   António Alberto, 27 anos, dos Casaes de Santa Teresa, condenado em 20 ou 25 anos também por ter morto com uma facada um indivíduo que nele deu outra. Reputa a sua condenação injusta e sofre-a com resignação.

   Miguel Dias, 23 anos, de Alcobaça, diz-nos que está preso há 5 meses e que não sabe se é por motivo duma queixa que foi feita por um seu patrão de Lisboa ou por um atropelamento que fez quando guiava um automóvel.

   João Castanheira Cruz, 18 anos, de Alpedriz, que chorando, receia a sua punição. É acusado de ter dado uma paulada em José dos Santos, aquele cabreiro que, segundo noticiámos, morreu por virtude das agressões que lhe foram feitas por este e por – Francisco Rodrigues Gil, de 32 anos, também de Alpedriz. Dizem eles que a vítima foi quem primeiro tentou agredir o João Castanheira com uma fouce que lhe tiraram, tendo-se defendido a pau onde ficaram assinaladas algumas fouçadas. Aguardam julgamento e o seu aspeto é de tristeza.

   António do Couto Júnior, 21 anos, de Famalicão, condenado em 6 meses de prisão correcional por ter dado uma tesourada num padre que estivera 263 dias de cama. Alegou em sua defesa motivos políticos, foi seu advogado o Dr. Ernesto Botelho Moniz, e conta-nos a história sorridente e mangador.

   Manuel Rebelo, 38 anos, do Pinheiro, freguesia da Benedita, foi condenado em 3 anos ou 4 ½ por numa desordem ter morto um homem á paulada.

   José Ferreira de Almeida, 66 anos, do Casal da Cruz, freguesia de Maiorga. Foi condenado em 4 ou 6 anos por ter morto um homem com uma enxadada. Não achou justa a condenação porque, diz ele, foi em sua defeza, pelo que apelou, tendo-lhe resultado da apelação ser alterada a pena para 6 ou 9 anos.

   Francisco Serra Rendeiro, 30 anos, da Nazaré, condenado em 1 ano de prisão por ter roubado umas galinhas ao padre de Alfeizerão. Está preso há 10 meses e ainda está coxo por virtude dum salto que deu quando fugia.

   Ri-se, contando-nos a história.

   João de Jesus Ganhão, 34 anos, da Amoreira, comarca de Moura, condenado em 6 anos ou 9 e 6 meses de multa a 1$00 diário. A acusação era ter roubado uma caldeira de cobre em Montemor-o-Novo, o que confessa, e uns estabelecimentos em Alcobaça que diz não ter roubado.

   E assim terminou esta via sacra que se percorreu numa hora vaga de afazeres.


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