terça-feira, 14 de outubro de 2025

A chegada a Lisboa dos livros manuscritos da Biblioteca do Mosteiro de Alcobaça (1834)

 Já tendo dado conta aqui do Trilho dos Manuscritos do Mosteiro, até à sua partida para Lisboa a partir do porto de São Martinho - antes, os caixotes tinham sido abertos em Alfeizerão por um carpinteiro de nome António Rocha, conferido o seu conteúdo e novamente pregados - menciono aqui um ofício de Joaquim Larcher sobre a sua chegada a Lisboa, e cujo teor é o seguinte:


Ilustríssimo Snr.

Tendo chegado a este porto a canhoneira n.º 8, que de S. Martinho conduziu vinte e sete caixotes de manuscriptos, pertencentes a extincto Mosteiro d'Alcobaça, que o Corregedor d'aquela commarca remete á Bibliotheca P. [Pública] da Côrte, conforme lhe foi determinado por Sua M. I.; requeiro a V. S.ª se sirva dar as ordens necessarias, para que os ditos caixotes possão desembarcar no Arsenal Real da Marinha, onde se acha anchorada a dita canhoneira, a fim de serem conduzidos ao seu destino.

Lx.ª 29 de Março de 1834

Deus Guarde a V. S.ª muitos anos

J. Larcher


[Ofício de Joaquim Larcher sobre o desembarque, no porto de Lisboa, das caixas de manuscritos provenientes da Livraria do Mosteiro de Alcobaça]

(AHBN/DGA/03/03/Cx.07-09)




domingo, 27 de julho de 2025

«As Invasões Francesas na região a oeste da Serra dos Candeeiros e os seus vestígios nos registos paroquiais» (hiperligação)



Trabalho de pesquisa sobre os vestígios da guerra peninsular no texto dos assentos paroquiais de várias freguesias dos atuais concelhos de Alcobaça,Nazaré, Caldas e Peniche.

Entre as fontes citadas no apontamento, encontram-se entradas de diário redigidas pelo oficial inglês de cavalaria William Tomkinson, já publicadas nesta página, das quais citamos as duas passagens seguintes:

«A 11 de Janeiro de 1811, nós enviámos uma patrulha diária para a estrada de Alcobaça. Eu fui neste dia com outros oito homens, e ao chegar à aldeia da Cela, a três léguas das Caldas, eu encontrei os franceses na aldeia, com o pequeno piquete de vigilância de um sargento um pouco retirado para o nosso lado. Comuniquei-o ao brigadeiro-general Blunt, que se encontrava em Alfeizerão e, em consequência, ele retirou-se para Óbidos. O objetivo do inimigo era apenas saquear; seguiram-me até eu passar a ponte de Charnais e, deixando uma pequena unidade de cavalaria a vigiar a estrada, eles pilharam as aldeias perto da Cela. Permaneci na ponte até escurecer, altura em que o inimigo se retirou. Coloquei um sargento de piquete na ponte e voltei para as Caldas.

«No dia 17 de janeiro patrulhei para Este da ponte de Charnais, enviando dois homens para a passagem da ponte para permanecer aí até eu regressar. Mal havia atravessado o rio quando ouvi dois tiros de aviso disparados por eles, em resposta aos quais eu regressei, e descobri que duas companhias de infantaria francesa tinham cruzado a ponte e estavam a pilhar a aldeia do Valado [de Santa Quitéria]. Ficaram cerca de uma hora na aldeia e então retiraram-se para o lugar de onde haviam partido pela manhã».


sábado, 19 de julho de 2025

A "Azenha do Castelo" em Alfeizerão

 

Já antes falamos sobre este tema, mas voltamos ao assunto por nos termos cruzado com um elemento novo que consideramos ser significativo.

Há 35 anos, em setembro de 1990 quando se realizava junto ao castelo escavações para a instalação de uma estação de tratamento de esgotos, as máquinas puseram a descoberto duas pedras de mó partidas ao meio e um paredão semienterrado com a parte superior de dois arcos ogivais. O achado causou alguma e natural agitação e curiosidade e falou-se (e ainda hoje se fala) que aí teria existido um moinho de marés ligado ao porto medieval de Alfeizerão. O “Jornal de Leiria” (n.º 324, p. 9, do dia 27 desse mês) num artigo assinado por C. M. e com o generoso título “Ruínas romanas encontradas em Alfeizerão”, sintetizava no final do artigo: «Até ao momento encontraram-se duas mós de moinho e uma parede, construída em tijolos de barro, com arcos redondos e alguns pedaços de cerâmica árabe».

Numa folha guardada na sede da Junta de Freguesia de Alfeizerão (pasta de arquivo com "Coisas de História de Alfeizerão" escrito na lombada) que reproduz por fotocópia um “Planta de Alfazeirão” de um artigo de José Carvalhais relativo às escavações arqueológicas no Pedrógão (Carvalhaes, 1903: 93) existe, sem assinatura, algumas adições a esse mapa e um esboço dessas ruínas com a anotação: «Em 10/9/90… Quando das escavações para os esgotos, foram achados elementos que eu considero de muito interesse arqueológico. Fotografias (…) Mós partidas (2)». Reproduzo uma imagem desse esboço e esse mesmo desenho com as linhas sublinhadas na sua variante digital:

 



Entre as mencionadas fotografias tiradas no local, encontravam-se as que se seguem:





Na época estabeleceu-se contatos com a Universidade Nova de Lisboa e ao local acorreram alguns arqueólogos como o Professor Doutor Pedro Gomes Barbosa, ainda que não tivessem conseguido realizar qualquer escavação arqueológica devido às condições aí encontradas, como evoca este arqueólogo numa publicação de 2021 (Barbosa, 2021: 105-106): «Junto a este castelo [de Alfeizerão] apareceram restos de um muro com arcos ogivais, duas moventes de mó e cerâmica medieval, que registamos em fotografia e desenho, mas infelizmente não pudemos realizar a escavação devido ao nível freático muito alto (possivelmente de ribeiros subterrâneos) e o enchimento ser de areão de fundo de lagoa».

As mós partidas foram guardadas e depois colocadas à flor do solo no jardim da Junta de Freguesia de Alfeizerão, enquanto os vestígios restantes foram recobertos de terra, fazendo-se em seguida num ponto mais afastado as escavações para a construção da projetada estação de tratamento de esgotos.

Em finais de 2022 e com a concordância e colaboração do executivo autárquico, as pedras de mós foram retiradas do relvado onde se encontravam parcialmente enterradas e expostas num outro ponto do mesmo jardim com a legenda possível.



 

A legenda criada traduzia uma convicção, mais do que uma certeza, as duas moventes de mó e a estrutura com os dois arcos aproximava-os da arquitetura de um moinho de rodízio ou moinho de água de roda horizontal, em regra composto de dois pisos com a movente de mó a funcionar no piso superior, conectada através de um eixo ou veio com a roda horizontal movida pela água sobre os rodízios no cabouco ou piso inferior e que era escoada pelos arcos de saída dessa água.

 

Esquema simplificado de um moinho de rodízio



Em cima, os caboucos de dois moinhos de rodízio em ruínas com as suas saídas de água em arco: moinho de Corte Real à esquerda e o moinho de Água da Courela.

Em baixo, representação gráfica de um moinho de rodízio ou de roda horizontal.


A tipologia das moventes de mó também tem o seu interesse, mesmo para, de uma forma condicional, estimar uma cronologia relativa. Se a segunda mó na imagem acima pode ser identificada como uma mó “alveira” ou “trigueira”, de grão mais suave, para o nobre e alvo trigo; a primeira carateriza-se pelo seu calcário fossilífero áspero destinado a despedaçar de forma eficaz o grão dúctil do cereal a moer, com grande probabilidade, o maís, milho grosso ou milho americano (a mó “segundeira”, para triturar o cereal “de segunda”). Uma vez que este cereal só nos chegou no século XVI, conhecendo uma ampla e intensiva adopção no decurso do século seguinte com a conversão de uma parte substancial da produção de cereais (tirando-se proveito com ela dos terrenos apaulados da orla das lagoas), a cronologia desta azenha pode seguir de perto a da implantação do cultivo e moagem do milho americano.

A estrutura posta a descoberto e novamente sepultada e as duas moventes de mó expostas na sede da Junta de Freguesia, reportam-se a uma azenha ou moinho de água que outrora existiu na chamada vala do castelo, que contorna a bainha do outeiro calcário onde se “ergue” essa fortificação. Um oportuno acaso permitiu-nos encontrar essa azenha assinalada num mapa do século XVIII.

Numa Dissertação de Mestrado da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto sobre a Alfândega e o Porto de Salir, Maria Cordeiro S. C. Gomes (Gomes, 2021: 45) reproduz (já com alguma adaptação à finalidade da tese) um mapa de Guilherme Elsden sobre os campos de Alfeizerão e S. Martinho do Porto com a data estimada de 1775 [PMP, C-M&A, Pasta 24(36)]; e do qual extraímos a imagem infra, que isola uma fração do centro desse mapa.




Na orla desta imagem podemos distinguir o Pedrógão e o vasto pinhal junto a ele e mais a norte a Quinta de Manuel Pedro (da Silva da Fonseca), o casario da vila encontra-se bem representado, com a ponte sobre o rio e a estrada real, omitindo-se aqui o Casal da Ponte ou a estrada que na outra extremidade da vila seguia para a Macarca e Famalicão. Mais acima e à esquerda do eixo da vila e quase confinante com vastas áreas pantanosas (como a Serrada ou Cerrada do Fidalgo), desenha-se o monte com o Castelo, a vala junto a ele e, mais abaixo, representada por um quadrilátero que cruza a vala, a azenha, devidamente legendada: “Azenha do Castello”. Esta azenha parece-nos coincidir com o ponto onde foram descobertas a estrutura e as pedras de mó; no mapa, a azenha encontra-se muito próxima da antiga estrada que partindo da vila e da sua isolada igreja de S. João Batista, seguia como hoje para S. Martinho do Porto, com um traçado aproximado.

Quase em nota de rodapé, subsiste uma dúvida legítima: a movente de mó de superfície mais áspera e com os gumes e pontas dos fósseis de conchas nela existentes destinar-se-ia à moagem do milho grosso ou milho americano ou serviria para moer outra espécie de cereal de grão mais rijo do que o trigo? O milho americano parece o candidato mais provável à luz do que conhecemos documentalmente sobre o cultivo dos cereais no território da Ordem cisterciense de Alcobaça (cf. Maduro, 2018; Maduro, 2019), mas podemos agregar aqui uma outra fonte, muito eloquente.

A primeira vez em que o imposto da Décima foi coletado em Alfeizerão foi em 1763 (AHTC, DP 463.3  - Cota “antiga” ou provisória deste documento, que está a ser transferido para o Arquivo Nacional da Torre do Tombo com todo o fundo documental do imposto da Décima), em data muito próxima ao do mapa de Guilherme Elsden. Dentro deste, a Décima dos prédios rústicos da vila e seu termo (f. 58r-62r) permite-nos ter uma noção da sua produção cerealífera. A Décima não incidia sobre as grandes propriedades fundiárias (como a Quinta de Manuel Pedro, que só se menciona na demarcação de terras), mas apenas sobre a pequena e média propriedade (descritas como “uma courela”, “uma chousa” ou “um pedaço de terra” pertencentes a fulano de tal). São coletadas 57 propriedades diferentes e indicado o volume das suas produções de cereais, assim como as espécies de cereais cultivados. Fazendo a síntese estatística desses dados, chegamos à evidência de o milho grosso ser o que mais predominava na atividade agrária com 80% da produção, ao qual se seguia expressamente a cevada, com 4,8% da produção (também destinada à forragem dos animais), distribuindo-se os restantes 15,2% por terras de trigo, terras de pão meado ou produção conjunta de trigo e milho, em provável situação de rotação de culturas. Só pela curiosidade dessa informação, a produção mais significativa dessas pequenas e médias propriedades, foi a de 30 alqueires de milho grosso obtida nuns terrenos junto ao Arrecavalo, este topónimo, a Fonte do Arrecavalo, ocorre em outros documentos escritos para designar uma fonte situada num caminho de inclinação acentuada a nascente de Alfeizerão, na margem direita do rio e próxima à povoação do Casal do Pardo.

 


FONTES:

BARBOSA, Pedro Gomes - “O território de Alcobaça antes dos cistercienses”, in Um Mosteiro entre os rios: O território alcobacense, p. 95-112, (coord.) António Valério Maduro e Rui Rasquilho, Alcobaça, Hora de Ler, 2021

CARVALHAES, José (1903) - "Antiguidades romanas de Alfeizerão", in «O Archeologo Portugues», p. 90-93, Lisboa, Museu Ethnologico Português.

GOMES, Maria Cordeiro de Sousa Cruz (2021). Uma Lagoa Perdida no Tempo. A Água e a Ruína no Porto de Salir. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto.

MADURO, António Valério. "La difusión del maíz y las transformaciones en el sistema agropecuario del dominio cisterciense de Alcobaça, siglos XVIII y XIX". Ohm : Obradoiro de Historia Moderna 27 (2018): 81-111

MADURO, António Valério – “A inovação do agro sistema cisterciense de Alcobaça nos séculos XVII – XIX”, in Cister- Tomo III: Espiritualidade, Agricultura e Indústria, Hora de Ler, Leiria, 2019.

 

ILUSTRAÇÕES DOS MOINHOS DE RODÍZIO:

a) Moinho de Corte Real: Projecto “Os Moinhos do Rio Degebe: Contributos para salvaguarda da sua memória”, coordenação de Mestre Francisca Mendes. Endereço: http://www.moinhosdegebe.uevora.pt/index.php#top

b) Moinho de Água da Courela (Brotas, Mora): Ficha no SIPA - Sistema de Informação do Património Arquitetónico, N.º IPA.00024854. Endereço: http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=24854

c) Desenho sem indicação de autor, recolhido de: Marques, Rui (coord.), Sesimbra - Memória e Identidade | Engenhos de Moagem de Cereais, Câmara Municipal de Sesimbra, 2012



domingo, 5 de janeiro de 2025

Carta de Vitorino Froes ao presidente do governo sobre a festa de Santo Amaro (1917)


Em 1917, num período histórico marcado pela questão religiosa e pela atmosfera de positivismo e anticlericalismo que se respirava na Primeira República, Vitorino Froes dirige um telegrama e uma carta a António José de Almeida, que preside ao governo do 13.º governo republicano, a fim de conseguir autorização para que se pudesse realizar a procissão do Santo Amaro. António José de Almeida seria eleito Presidente da República dois anos mais tarde.

Transcrição da: “Carta de Vitorino Froes para o Presidente do Ministério e Ministro das Colónias, António José de Almeida, solicitando autorização para a organização de festa popular” (Museu da Presidência da República, APAJA/Cx192/056)

 

 

[Resp. em 15-1-17]

 

Ex.mo Il.mo Snr.

e Meu amigo –

 

Tomei hontem a liberdade de telegrafar e V. E.Cia a pedir o especial favor de solicitar do Exmo Ministro do Interior a autorização para sahir a procissão que todos os annos se costuma fazer na minha terra, no dia 15 do corrente, dia da tradicional festa que todos os filhos d’esta freguesia d’Alfeizerão festejam com alegria.

O regedor ultimamente nomeado é um dramático pedreiro, que parece [?] impossível que huma terra que tem quatro mil habitantes esteja debaixo dos caprichos d’um figurão d’esta natureza, o unico que se julga ofendido com este acto religioso que há seculos se faz com toda a pompa e que a ninguém prejudica.

 

                                            De V. E.cia com toda a consideração e muita estima

                                            Alfeizirão, 13-1-17

 

                                            Victorino Froes