Já antes falamos sobre este tema, mas voltamos ao assunto por nos termos
cruzado com um elemento novo que consideramos ser significativo.
Há 35 anos, em setembro de 1990 quando se realizava junto ao castelo
escavações para a instalação de uma estação de tratamento de esgotos, as
máquinas puseram a descoberto duas pedras de mó partidas ao meio e um paredão
semienterrado com a parte superior de dois arcos ogivais. O achado causou alguma
e natural agitação e curiosidade e falou-se (e ainda hoje se fala) que aí teria
existido um moinho de marés ligado ao porto medieval de Alfeizerão. O “Jornal
de Leiria” (n.º 324, p. 9, do dia 27 desse mês) num artigo assinado por C. M. e
com o generoso título “Ruínas romanas
encontradas em Alfeizerão”, sintetizava no final do artigo: «Até ao momento encontraram-se duas mós de
moinho e uma parede, construída em tijolos de barro, com arcos redondos e
alguns pedaços de cerâmica árabe».
Numa folha guardada na sede da Junta de Freguesia de Alfeizerão (pasta de arquivo com "Coisas de História de Alfeizerão" escrito na lombada) que reproduz por fotocópia
um “Planta de Alfazeirão” de um artigo
de José Carvalhais relativo às escavações arqueológicas no Pedrógão
(Carvalhaes, 1903: 93) existe, sem assinatura, algumas adições a esse mapa e um
esboço dessas ruínas com a anotação: «Em
10/9/90… Quando das escavações para os esgotos, foram achados elementos que eu
considero de muito interesse arqueológico. Fotografias (…) Mós partidas (2)».
Reproduzo uma imagem desse esboço e esse mesmo desenho com as linhas
sublinhadas na sua variante digital:
Entre as mencionadas fotografias tiradas no local, encontravam-se as que se
seguem:
Na época estabeleceu-se contatos com a Universidade Nova de Lisboa e ao
local acorreram alguns arqueólogos como o Professor Doutor Pedro Gomes Barbosa,
ainda que não tivessem conseguido realizar qualquer escavação arqueológica
devido às condições aí encontradas, como evoca este arqueólogo numa publicação
de 2021 (Barbosa, 2021: 105-106): «Junto
a este castelo [de Alfeizerão] apareceram
restos de um muro com arcos ogivais, duas moventes de mó e cerâmica medieval,
que registamos em fotografia e
desenho, mas infelizmente não pudemos realizar a escavação devido ao nível
freático muito alto (possivelmente de ribeiros subterrâneos) e o enchimento ser
de areão de fundo de lagoa».
As mós partidas foram guardadas e depois colocadas à flor do solo no jardim
da Junta de Freguesia de Alfeizerão, enquanto os vestígios restantes foram recobertos
de terra, fazendo-se em seguida num ponto mais afastado as escavações para a
construção da projetada estação de tratamento de esgotos.
Em finais de 2022 e com a concordância e colaboração do executivo
autárquico, as pedras de mós foram retiradas do relvado onde se encontravam
parcialmente enterradas e expostas num outro ponto do mesmo jardim com a
legenda possível.
A legenda criada traduzia uma convicção, mais do que uma certeza, as duas
moventes de mó e a estrutura com os dois arcos aproximava-os da arquitetura de
um moinho de rodízio ou moinho de água de roda horizontal, em regra composto de
dois pisos com a movente de mó a funcionar no piso superior, conectada através de um eixo ou veio com a
roda horizontal movida pela água sobre os rodízios no cabouco ou piso inferior
e que era escoada pelos arcos de saída dessa água.
Esquema simplificado de um moinho de rodízio
Em cima, os caboucos de dois moinhos de rodízio em ruínas com as suas saídas de água em arco: moinho
de Corte Real à esquerda e o moinho de Água da Courela.
Em baixo, representação gráfica de um moinho de rodízio ou de roda horizontal.
A tipologia das moventes de mó também tem o seu interesse, mesmo para, de
uma forma condicional, estimar uma cronologia relativa. Se a segunda mó na
imagem acima pode ser identificada como uma mó “alveira” ou “trigueira”, de
grão mais suave, para o nobre e alvo trigo; a primeira carateriza-se pelo seu
calcário fossilífero áspero destinado a despedaçar de forma eficaz o grão
dúctil do cereal a moer, com grande probabilidade, o maís, milho grosso ou
milho americano (a mó “segundeira”, para triturar o cereal “de segunda”). Uma
vez que este cereal só nos chegou no século XVI, conhecendo uma ampla e intensiva adopção no decurso do século seguinte com a conversão de uma parte substancial da
produção de cereais (tirando-se proveito com ela dos terrenos apaulados da orla das
lagoas), a cronologia desta azenha pode seguir de perto a da implantação do
cultivo e moagem do milho americano.
A estrutura posta a descoberto e novamente sepultada e as duas moventes de
mó expostas na sede da Junta de Freguesia, reportam-se a uma azenha ou moinho
de água que outrora existiu na chamada vala do castelo, que contorna a bainha
do outeiro calcário onde se “ergue” essa fortificação. Um oportuno acaso
permitiu-nos encontrar essa azenha assinalada num mapa do século XVIII.
Numa Dissertação de Mestrado da Faculdade de Arquitetura da Universidade do
Porto sobre a Alfândega e o Porto de Salir, Maria Cordeiro S. C. Gomes (Gomes,
2021: 45) reproduz (já com alguma adaptação à finalidade da tese) um mapa de
Guilherme Elsden sobre os campos de Alfeizerão e S. Martinho do Porto com a
data estimada de 1775 [PMP, C-M&A, Pasta 24(36)]; e do qual
extraímos a imagem infra, que isola uma fração do centro desse mapa.

Na orla desta imagem podemos distinguir o Pedrógão e o vasto pinhal junto a
ele e mais a norte a Quinta de Manuel Pedro (da Silva da Fonseca), o casario da
vila encontra-se bem representado, com a ponte sobre o rio e a estrada real,
omitindo-se aqui o Casal da Ponte ou a estrada que na outra extremidade da vila seguia para a Macarca e Famalicão. Mais acima e à esquerda do eixo da vila e quase
confinante com vastas áreas pantanosas (como a Serrada ou Cerrada do Fidalgo), desenha-se o monte com o Castelo, a
vala junto a ele e, mais abaixo, representada por um quadrilátero que cruza a
vala, a azenha, devidamente legendada: “Azenha do Castello”. Esta azenha
parece-nos coincidir com o ponto onde foram descobertas a estrutura e as pedras
de mó; no mapa, a azenha encontra-se muito próxima da antiga estrada que
partindo da vila e da sua isolada igreja de S. João Batista, seguia como hoje
para S. Martinho do Porto, com um traçado aproximado.
Quase em nota de rodapé, subsiste uma dúvida legítima: a movente de mó de
superfície mais áspera e com os gumes e pontas dos fósseis de conchas nela
existentes destinar-se-ia à moagem do milho grosso ou milho americano ou
serviria para moer outra espécie de cereal de grão mais rijo do que o
trigo? O milho americano parece o candidato mais provável à luz do que
conhecemos documentalmente sobre o cultivo dos cereais no território da Ordem
cisterciense de Alcobaça (cf. Maduro, 2018; Maduro,
2019), mas podemos agregar aqui uma outra fonte, muito eloquente.
A primeira vez em que o imposto da Décima foi coletado em Alfeizerão foi em
1763 (AHTC, DP 463.3 - Cota “antiga” ou provisória deste documento, que está a ser transferido para o Arquivo Nacional da Torre do Tombo com todo o fundo documental do imposto da Décima), em data muito próxima ao
do mapa de Guilherme Elsden. Dentro deste, a Décima dos prédios rústicos da
vila e seu termo (f. 58r-62r) permite-nos ter uma noção da sua produção
cerealífera. A Décima não incidia sobre as grandes propriedades fundiárias
(como a Quinta de Manuel Pedro, que só se menciona na demarcação de terras),
mas apenas sobre a pequena e média propriedade (descritas como “uma courela”, “uma chousa” ou “um pedaço de
terra” pertencentes a fulano de tal). São coletadas 57 propriedades
diferentes e indicado o volume das suas produções de cereais, assim como as
espécies de cereais cultivados. Fazendo a síntese estatística desses dados,
chegamos à evidência de o milho grosso ser o que mais predominava na atividade
agrária com 80% da produção, ao qual se seguia expressamente a cevada, com 4,8%
da produção (também destinada à forragem dos animais), distribuindo-se os restantes 15,2% por terras de trigo, terras de pão meado ou produção conjunta de trigo e milho, em
provável situação de rotação de culturas. Só pela curiosidade dessa
informação, a produção mais significativa dessas pequenas e médias propriedades,
foi a de 30 alqueires de milho grosso obtida nuns terrenos junto ao Arrecavalo, este topónimo, a Fonte do
Arrecavalo, ocorre em outros documentos escritos para designar uma fonte
situada num caminho de inclinação acentuada a nascente de Alfeizerão, na margem
direita do rio e próxima à povoação do Casal do Pardo.
FONTES:
BARBOSA, Pedro Gomes - “O território de Alcobaça antes dos cistercienses”,
in Um Mosteiro entre os rios: O território alcobacense, p. 95-112, (coord.)
António Valério Maduro e Rui Rasquilho, Alcobaça, Hora de Ler, 2021
CARVALHAES,
José (1903) - "Antiguidades romanas de Alfeizerão", in «O Archeologo
Portugues», p. 90-93, Lisboa, Museu Ethnologico Português.
GOMES, Maria Cordeiro de Sousa Cruz (2021). Uma Lagoa Perdida no Tempo. A
Água e a Ruína no Porto de Salir. Dissertação de Mestrado. Faculdade de
Arquitectura da Universidade do Porto.
MADURO, António Valério. "La difusión del maíz y las transformaciones en el sistema agropecuario del dominio cisterciense de Alcobaça, siglos XVIII y XIX". Ohm : Obradoiro de Historia Moderna 27 (2018): 81-111
MADURO, António Valério – “A inovação do agro sistema cisterciense de
Alcobaça nos séculos XVII – XIX”, in Cister- Tomo III: Espiritualidade,
Agricultura e Indústria, Hora de Ler, Leiria, 2019.
ILUSTRAÇÕES DOS MOINHOS DE RODÍZIO:
a) Moinho de Corte Real: Projecto “Os
Moinhos do Rio Degebe: Contributos para salvaguarda da sua memória”,
coordenação de Mestre Francisca Mendes. Endereço: http://www.moinhosdegebe.uevora.pt/index.php#top
b) Moinho de Água da Courela (Brotas,
Mora): Ficha no SIPA - Sistema de Informação do Património Arquitetónico,
N.º IPA.00024854. Endereço: http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=24854
c) Desenho sem indicação de autor,
recolhido de: Marques, Rui (coord.), Sesimbra - Memória e Identidade |
Engenhos de Moagem de Cereais, Câmara Municipal de Sesimbra, 2012